INTRODUÇÃO
A cultura do abacateiro constitui uma das principais alternativas do sector frutícola algarvio, contribuindo para a diversificação da produção da região, pois para além de possuir uma boa relação custo/benefício, apresenta um escoamento fácil das produções e um mercado nacional e externo em crescimento.
Numa perspectiva de carácter econômico, ecológico e também toxicológico, reveste-se de grande importância a adoção de medidas preconizadas pelas regras da produção integrada, não só na racionalização dos custos dos diferentes factores de produção, mas também na diminuição da contaminação do ambiente e na obtenção de frutos de maior qualidade, atendendo à menor quantidade de agroquímicos utilizados.
A obtenção de produtos de alta qualidade, contaminando o menos possível tanto o ambiente como os alimentos obtidos, isto é, com o mínimo possível de resíduos, tem sido uma preocupação constante na agricultura. Deste modo, a implementação da produção integrada na cultura do abacateiro, pressupõe a elaboração de normas.
A produção de abacate exige um conjunto de ações que têm início com a instalação da cultura e se sucedem ordenadamente no tempo, até à colheita e seu transporte para as instalações onde se procede ao seu armazenamento.
Assim, o presente documento apresenta aspectos relativos aos conceitos e princípios da produção integrada, à localização e escolha do terreno, operações de instalação da cultura, escolha de porta-enxertos e variedades, podas e condução, rega, fertilização, proteção fitossanitária e colheita.
No capítulo relativo à fertilização, descrevem-se os procedimentos a observar antes e após a instalação da cultura, a metodologia de colheita de amostras e as determinações laboratoriais a requerer.
No âmbito da legislação em vigor todos os aspectos relacionados com a nutrição e fertilização são da responsabilidade da Unidade de Ambiente e Recursos Naturais (ex-Laboratório Químico
Agrícola Rebelo da Silva) do L-INIA, do Instituto Nacional de Recursos Biológicos, I.P. .
No que se refere à proteção fitossanitária, este documento integra os procedimentos que podem n servir de orientação a técnicos e agricultores na monitorização de pragas, auxiliares e doenças, as metodologias de estimativa do risco e níveis econômicos de ataque a adotar na protecção integrada da cultura do abacateiro.
Relativamente à proteção integrada, referem-se quais os meios de proteção disponíveis. No caso particular da luta química, indicam-se os produtos fitofarmacêuticos permitidos, sendo abordados diversos aspectos relevantes que lhes são inerentes e, também, os critérios adotados na sua seleção, tendo por base a revisão recentemente efetuada.
Apresenta-se, ainda, a caracterização dos grupos de auxiliares mais importantes na cultura, os = efeitos secundários dos produtos fitofarmacêuticos permitidos em proteção integrada e um guia de proteção integrada no qual se consideram os inimigos e aspectos básicos de epidemiologia e sintomatologia, assim como as medidas de luta a adotar nesta cultura.
Faz-se referência à obrigatoriedade da existência de um caderno de campo e apresenta-se um modelo a utilizar em produção integrada da cultura do abacateiro. Referem-se, ainda, alguns, aspectos relativos à colheita.
Em anexo ao documento, são apresentadas as fichas informativas que devem acompanhar as amostras a analisar e, ainda, outros elementos complementares.
As normas desenvolvidas e apresentadas no presente documento incluem procedimentos obrigatórios, proibidos e aconselhados e permitem a sua atualização ou adaptação periódica.
Por último, é de salientar que este documento foi elaborado com a colaboração do INRB, I.P., da Direção Regional de Agricultura e Pescas do Algarve (DRAPAlgarve) e da ABACASUL e foi aprovado em reunião do Conselho Nacional de Proteção da Produção Vegetal.
1 - CONCEITOS E PRINCÍPIOS DE PRODUÇÃO INTEGRADA
Em produção integrada, a proteção integrada é a orientação obrigatoriamente adotada em proteção das plantas. No presente capítulo apresentam-se os conceitos e princípios de proteção e produção integradas.
1.1- Produção integrada
De acordo com a definição adoptada pela OILB/SROP (1993, 2004), “a produção integrada é um sistema agrícola de produção de alimentos de alta qualidade e de outros produtos utilizando os
recursos naturais e os mecanismos de regulação natural, em substituição de factores de produção prejudiciais aos ambiente e de modo a assegurar, a longo prazo, uma agricultura viável”.
As características da produção integrada e as suas estreitas afinidades com o conceito de agricultura sustentável são evidenciados pelo conjunto de 11 princípios, também aprovados pela OILB/SROP (2004): - a produção integrada é aplicada apenas “holisticamente”, isto é, visa a regulação do ecossistema, o bem-estar dos animais e a preservação dos recursos naturais, não se limitando a mera combinação da proteção integrada com elementos adicionais, como a fertilização ou outras práticas agronômicas; - efeitos secundários inconvenientes de atividades agrícolas, como a contaminação azotada de águas subterrâneas e a erosão, devem ser minimizados;
- a exploração agrícola no seu conjunto é a unidade de implementação da produção integrada;
- a reciclagem regular dos conhecimentos do empresário agrícola sobre produção integrada;
- assegurar a estabilidade dos ecossistemas, evitando impactes ecológicos das atividades agrícolas que possam afetar negativamente os recursos naturais e os componentes da regulação natural;
- assegurar o equilíbrio do ciclo dos elementos nutritivos, reduzindo ao mínimo as perdas de nutrientes e compensando prudentemente a sua substituição, através de fertilizações fundamentadas, e privilegiando a reciclagem da matéria orgânica produzida na exploração agrícola;
- a fertilidade do solo, isto é, a capacidade do solo assegurar a produção agrícola sem intervenções exteriores é função do equilíbrio das características físicas, químicas e biológicas do solo, bem evidenciado pela fauna do solo, de que as minhocas são um típico indicador;
- em produção integrada, a proteção integrada é a orientação obrigatoriamente adotada em proteção das plantas;
- a biodiversidade, a nível genético, das espécies e do ecossistema é considerada a espinha dorsal da estabilidade do ecossistema, dos factores de regulação natural e da qualidade da paisagem;
- a qualidade dos produtos obtidos em produção integrada abrange não só factores externos e internos mas também a natureza do sistema de produção;
- considerar o bem-estar dos animais, produzidos na exploração agrícola.
Os princípios anteriormente referidos, aplicados à cultura do abacateiro (Persea americana Miller), visam a obtenção de frutos sãos, de boas características organolépticas e de conservação, de modo a respeitar as exigências das normas nacionais e internacionais relativas à qualidade do produto, segurança alimentar e rastreabilidade, assegurando, simultaneamente, o desenvolvimento fisiológico equilibrado das plantas e a preservação da qualidade do ambiente.
A concretização de tais objetivos passa obrigatoriamente pela gestão equilibrada dos recursos naturais, com a utilização de tecnologias que considerem a reciclagem dos elementos nutritivos e reduzam, deste modo, a utilização de produtos fitofarmacêuticos e fertilizantes, conduzindo, assim, a uma redução dos custos de produção.
1.2 - Proteção integrada
A proteção integrada procura combater os inimigos das culturas de forma econômica, eficaz e com menores inconvenientes para o Homem e o ambiente. Deste modo, recorre-se à utilização racional, equilibrada e integrada de todos os meios de luta disponíveis (genéticos, culturais, físicos, biológicos, biotécnicos e químicos) com o objectivo de manter as populações dos inimigos das culturas a níveis que não causem prejuízos. Torna-se necessário efetuar a estimativa do risco, isto é, a monitorização contínua da cultura, de modo a detectar os seus potenciais inimigos e a avaliar, através da intensidade do seu ataque, os possíveis estragos ou prejuízos que possam causar.
Segundo a Diretiva 2009/128/CE, de 21 de Outubro, que estabelece um quadro de ação a nível
comunitário para uma utilização sustentável dos produtos fitofarmacêuticos, a proteção integrada consiste na ”avaliação ponderada de todos os métodos de proteção das culturas disponíveis e a subsequente integração de medidas adequadas para diminuir o desenvolvimento de populações de organismos nocivos e manter a utilização dos produtos fitofarmacêuticos e outras formas de intervenção a níveis econômica e ecologicamente justificáveis, reduzindo ou minimizando os riscos para a saúde humana e o ambiente. A proteção integrada privilegia o desenvolvimento de culturas saudáveis com a menor perturbação possível dos ecossistemas agrícolas e agroflorestais e incentiva mecanismos naturais de luta contra os inimigos das culturas”.
Como princípios básicos desta estratégia ou modalidade de proteção das plantas destacam-se os seguintes (Félix & Cavaco, 2004):
- prevenir ou evitar o desenvolvimento dos inimigos das culturas através de medidas visando a sua limitação natural;
- reduzir ao mínimo as intervenções fitossanitárias nos ecossistemas agrícolas;
- utilizar todos os meios de luta disponíveis, integrando-os de forma harmoniosa e privilegiando, sempre que possível, as medidas indiretas;
- recorrer aos meios de luta diretos, nomeadamente uso de produtos fitofarmacêuticos, quando não houver alternativa;
- selecionar os produtos fitofarmacêuticos em função da sua eficácia, persistência, custo e efeitos secundários em relação ao Homem, aos auxiliares e ao ambiente.

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