sábado, 9 de dezembro de 2017

Como substituir a copa do cajueiro


A substituição de copa é uma prática utilizada em algumas espécies perenes, geralmente frutíferas. Ela consiste na remoção de quase toda a parte aérea da planta por meio de um corte na base do tronco. Devido a esse corte, novas brotações surgem no tronco, onde é realizada a enxertia de propágulos (borbulhas) provenientes de outra planta, geralmente plantas matrizes com características genéticas superiores.
A substituição de copas na cultura do cajueiro tem como objetivos principais o rejuvenescimento do pomar e a substituição de um genótipo (clone, principalmente). O exemplo mais característico dessa prática na cultura é transformar um pomar antigo de cajueiro-comum em um novo pomar de cajueiro-anão (também denominado cajueiro-anão-precoce). Também se consegue a substituição de plantas jovens com má formação de copa e/ou com produção abaixo do esperado por uma nova copa produtiva.
Os exemplos práticos mostram que, quando bem planejada, a prática pode permitir ganhos mais rápidos e a menor custo do que com a implantação de um novo pomar. Porém, é importante avaliar cuidadosamente o estado geral do pomar a ser trabalhado, com simulações dos rendimentos esperados e a relação custo/benefício, antes da decisão de realizar a substituição de copas de um pomar.
No geral, a prática de substituição de copa possibilita obter uniformidade e aumento da produtividade do pomar em relação à situação anterior, devido aos seguintes fatores: a) substituição das plantas improdutivas por plantas clonais de alta produção; b) redução do porte das plantas, principalmente na troca do cajueiro-comum pelo cajueiro-anão; c) menor custo em relação à implantação de um novo pomar, dispensando várias práticas como abertura e preparo de covas, obtenção de mudas e necessidade de irrigação; d) rejuvenescimento das plantas; e) possibilidade, nos primeiros anos, de consorciar o pomar com culturas anuais e bienais de porte baixo.

Quando realizar a substituição de copa?

A prática é recomendada quando o pomar não está correspondendo ao esperado (Figura 1), principalmente em termos de produção. Em pomares cujas plantas são oriundas de sementes (pé-franco), observa-se alta desuniformidade entre elas, principalmente quanto ao porte e produção. Assim, a prática da substituição de copa permitirá um acréscimo substancial na uniformidade do pomar. Além disso, quando o produtor decide trabalhar com outro clone de cajueiro, a substituição de copas se torna uma opção interessante em curto prazo.

Quais são os cuidados para a realização da substituição de copa?

Para o sucesso da substituição de copas no cajueiro, algumas premissas devem ser consideradas:
1.  Idade das plantas. Quanto mais jovens as plantas, maior o percentual de sucesso da operação, sendo observados maiores êxitos em pomares com até 15 anos de implantação e em plantas com até 1,10 metros de perímetro de tronco (Figura 1). A partir dos 16 anos e até os 25 anos de idade, verifica-se redução gradual no percentual de sucesso (Tabela 1). Em plantas com mais de 25 anos, a perda dos enxertos começa a ser mais significativa, e os custos operacionais aumentam, sendo recomendada uma análise criteriosa de custo/benefício de todo o processo como base para a tomada de decisão.
Fotos: Levi de Moura Barros
Figura 1. Pomar novo apto à prática da substituição de copas, uma vez que as plantas apresentam copa não ideal (tipo eucalipto ou castanheira) para produção de frutos (à esquerda). Planta recém-brotada após a prática da substituição de copas em um pequeno pomar (à direita).
Tabela 1. Taxa de sobrevivência das plantas cortadas em função da idade. Pacajus, CE, 2010.
Idade (anos)Plantas sobreviventes (%)(1)
5100,0
1599,2
2587,8
3570,4
4567,9
(1)Plantas que emitiram pelo menos uma brotação após o corte.
Fonte: Rossetti e Montenegro, 2012.
2.  Sanidade das plantas. Quanto menos problemas fitossanitários (pragas e doenças) na área, maior o percentual de sucesso da operação. A prática não deve ser feita em pomares com resinose ou completamente atacados pela bronca-do-tronco. Nesses casos, é mais seguro proceder à erradicação completa das plantas e formação de um novo pomar utilizando um clone resistente.
3.  Vigor das plantas. Caso as plantas não sejam bem conformadas e bem desenvolvidas, deve ser feita avaliação antes da decisão sobre adotar a prática de substituição de copa ou a renovação completa do pomar. Pomares com plantas muito fora do padrão de desenvolvimento para a idade podem não levar ao sucesso esperado com a técnica. Também nesse caso, é mais indicada a renovação completa do pomar.

Quais as formas de fazer a substituição de copas do cajueiro?

A prática pode ser feita em função da dimensão da área do pomar, da capacidade de investimento e da decisão do produtor. Seguem abaixo os principais passos para a prática:
a)   Substituição seletiva das plantas. Identificadas as plantas com características indesejáveis, realiza-se a operação de substituição, deixando-se as demais plantas no pomar (Figura 2).
Fotos: Levi de Moura Barros
Figura 2. Substituição de copas de forma seletiva das plantas.
b)   Substituição em fileiras alternadas. Estratégia adotada para manter uma parte da área em produção quando da substituição total (Figura 3). No ano seguinte, é feita a substituição das outras filas.
Foto: Levi de Moura Barros
Figura 3. Substituição de copa em fileiras alternadas.
c)  Substituição total das plantas. Todas as plantas do pomar são substituídas.
Foto: Afrânio Arley Teles Montenegro
Figura 4. Substituição de copa em toda a área.
Cada alternativa tem vantagens e desvantagens que devem ser analisadas antes da execução, para que a escolha atenda às conveniências de quem vai realizar a operação.

Como fazer a substituição de copas em cajueiro?

A substituição de copas é feita de acordo com os seguintes passos:
1.  Planejamento da enxertia: Deve ser feito um planejamento em função da quantidade de plantas a serem trabalhadas, para que haja sincronia entre a disponibilidade de borbulhas (provenientes de ramos com flores) com as brotações em estado de aptidão para a enxertia. O corte das plantas adultas deve ser iniciado de 3 a 4 meses antes do início da floração das plantas matrizes (fornecedoras de borbulhas), para garantir que as novas brotações estejam no ponto de enxertia na época da disponibilidade de propágulos (julho a outubro).
2.  Corte do tronco. Realizado com motosserra, a cerca de 40 cm da superfície do solo. O corte é feito em bisel (inclinado) para evitar acúmulo de água, que pode acelerar o apodrecimento do tronco e favorecer a proliferação de fungos e/ou insetos (Figura 5).
3.  Seleção de brotações para a enxertia. É feita bem antes da enxertia, e tem o objetivo de reduzir a competição entre as novas emissões. Devem ser mantidas as brotações mais vigorosas e, se possível, distribuídas simetricamente ao redor do tronco (Figura 5).
Foto: Afrânio Arley Teles Montenegro
Figura 5. Corte do tronco a 40 cm do solo e em forma de bisel. Após alguns dias, surgem as novas brotações.
4.  Número de brotações para a enxertia. Recomenda-se a manutenção de até seis brotações nas plantas mais velhas e até quatro nas mais jovens (Figura 6).
Foto: Afrânio Arley Teles Montenegro
Figura 6. Brotações selecionadas para a enxertia.
A quantidade, a velocidade de brotação e o vigor dos brotos em plantas jovens são maiores que em plantas mais velhas. Como exemplo, plantas com 20 a 30 anos emitem brotações 30 dias após o decepamento, enquanto as plantas com 3 anos brotam intensamente já aos 10 dias após o corte.
5.  Enxertia. É realizada a enxertia por borbulhia em placa, por ser a que apresenta o maior rendimento em condições de campo (a pleno sol). Semelhantemente à enxertia realizada em mudas, abre-se uma “janela” no caule do broto e fixa-se, justapondo, a borbulha nessa janela. Logo em seguida, passa-se uma fita plástica sobre a região da enxertia para pressionar o contato da placa com a janela. Não há necessidade de cobertura do enxerto.
Aos 15 dias da operação, deve-se retirar com cuidado a fita de enxertia, para que não ocorra estrangulamento dos rebentos (Figura 7). Evitar ferimentos nessa operação para não favorecer o desenvolvimento de fungos.
Foto: Afrânio Arley Teles Montenegro
Figura 7. Fita de enxertia que deve ser retirada 30 dias após a enxertia.
6.  Época da enxertia. Deve ser feita no período do florescimento das plantas doadoras (matrizes) de borbulhas, que naturalmente ocorre a partir de junho para os cajueiros do tipo anão.
7.  Quantos enxertos devem permanecer. Todos os enxertos devem permanecer para a formação da nova copa (Figura 8). Porém, se apenas um sobreviver, será o suficiente.
Fotos: Afrânio Arley Teles Montenegro
Figura 8. Plantas com diferentes números de enxertos após a substituição de copa.
8.  O que fazer se não houver sucesso na enxertia. Havendo disponibilidade de propágulos, repetir a operação nos mesmos ramos quantas vezes for necessário, desde que as condições dos ramos permitam. Em plantas mais velhas, a enxertia nem sempre é bem sucedida na primeira vez.
9.  Quais são os cuidados necessários para a prática de substituição de copas?
Os cuidados a serem tomados na substituição de copas são, no geral, os mesmos dedicados ao pomar, como:
  • Manutenção da área das plantas matrizes (fornecedoras de borbulhas) o mais livre possível de doenças e pragas.
  • No caso de os propágulos serem adquiridos de outro local, verificar o estado fitossanitário das matrizes de onde o material será retirado e acondicionar corretamente o material propagativo a ser transportado. Os propágulos (ramos) devem ser agrupados em pequenos feixes de 5 a 6 unidades para que não forme, dentro das embalagens, microclima que provoque danos às gemas intumescidas.
  • Fazer assepsia nos instrumentos utilizados no corte, enxertia, pós-enxertia e retirada da fita ao redor do enxerto.
  • Após o corte, o tronco da planta deverá ser pincelado com fungicida à base de oxicloreto de cobre (3,0 g do produto comercial/litro de água).
  • Retirar a madeira após o corte das plantas adultas o mais rápido possível do local.
  • Os ramos que contêm as borbulhas devem ser embalados, preferencialmente em papel-alumínio e estratificados em vermiculita umedecida na proporção de 9:1 (v:v), com água destilada.
  • Quanto mais rápido for o tempo entre a retirada dos ramos fornecedores de borbulhas e a prática da enxertia,serão as chances de sucesso da prática.
Após obter o número ideal dos enxertos que devem permanecer para a formação da copa, deve ser feita a desbrota dos ramos cujos enxertos não pegaram. A partir daí, convém fazer uma vistoria sistemática para retirar os novos ramos (ramos não enxertados) que normalmente continuam surgindo ao redor do tronco decepado, para evitar o desenvolvimento de ramos não enxertados.


terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Irrigação da Cultura do cajueiro


A irrigação do cajueiro-anão (também denominado cajueiro-anão-precoce) promove o desenvolvimento e o aumento da produção, em virtude, principalmente, do aumento do número de frutos colhidos e da melhoria da qualidade dos frutos. Além disso, no cultivo irrigado, o período de colheita do cajueiro pode ser ampliado em até cinco meses em relação ao cultivo de sequeiro. Para que a irrigação do cajueiro-anão seja economicamente viável, deve-se explorar comercialmente tanto a castanha quanto o pedúnculo, seja para a industrialização, seja para a comercialização de frutos de mesa para o consumo in natura.
Em regiões semiáridas (com pluviosidade abaixo de 800 mm por ano) a produtividade do cajueiro-anão irrigado (clone ‘CCP 09’) pode superar 4 t/ha de castanha e 40 t/ha de pedúnculo, utilizando-se boas práticas de manejo de irrigação, adubação e controle fitossanitário. Em regiões com maior precipitação pluviométrica, como a região litorânea do Nordeste, a produtividade do cajueiro-anão irrigado varia de 1,5 t/ha a 3,0 t/ha de castanha e de 15 t/ha a 30 t/ha de pedúnculo.
A resposta do cajueiro à irrigação varia dependendo do genótipo. Entre os clones de cajueiro-anão recomendados pela Embrapa e que foram testados sob condições irrigadas (‘CCP 09’, ‘CCP 76’ e ‘CCP 1001’), o clone ‘CCP 09’ é o que apresenta maior produtividade. No entanto, esse clone apresenta alta susceptibilidade à antracnose, exigindo o controle químico em regiões com condições favoráveis para essa enfermidade. O clone ‘CCP 76’, embora menos produtivo que o ‘CCP 09’, apresenta melhor distribuição da produção ao longo do ano. Outros genótipos com bom potencial para o cultivo irrigado são os clones ‘BRS 189’ e ‘BRS 226’, cuja produtividade sob irrigação ainda está sendo avaliada (Figuras 1 a 4).
Foto: Fábio Rodrigues de Miranda
Figura 1. Planta de cajueiro-anão, clone ‘CCP 09’, com 5 anos de idade, em plantio irrigado por gotejamento.
Fotos: Fábio R. Miranda
Figura 2. Planta de cajueiro-anão, clone ‘CCP 76’, com 2 anos de idade, em plantio de sequeiro (à esquerda) e irrigado por microaspersão (à direita).
Fotos: Fábio Rodrigues de Miranda
Figura 3. Planta de cajueiro-anão, clone ‘BRS 226’, com 2 anos de idade, em plantio de sequeiro (à esquerda) e irrigado por microaspersão (à direita).
Foto: Fábio Rodrigues de Miranda
Figura 4. Planta de cajueiro-anão, clone ‘BRS 189’, com 2 anos de idade, em plantio irrigado por microaspersão.

Métodos de irrigação

A irrigação localizada (microaspersão ou gotejamento) é o método mais adaptado no cultivo do cajueiro-anão, tendo em vista a economia de água, energia e mão de obra, a possibilidade de aplicação dos fertilizantes via água de irrigação (fertirrigação) e a redução da incidência de doenças e de plantas daninhas.
Em solos arenosos, os sistemas de irrigação por microaspersão são os mais recomendados na irrigação do cajueiro, por permitirem umedecer um maior volume de solo em relação ao gotejamento, favorecendo uma melhor distribuição do sistema radicular. Por outro lado, o gotejamento tem a vantagem de não molhar os frutos que caem no solo, permitindo colheitas menos frequentes caso o principal produto explorado seja a castanha.

Manejo da Irrigação

Na fase jovem, o cajueiro deve ser irrigado durante todo o período de seca, favorecendo o estabelecimento e o desenvolvimento vegetativo da cultura. Na fase adulta, o cajueiro pode ser irrigado apenas no período entre o início do florescimento e a colheita, sem causar redução na produção e com significativa economia de água, em contraste com a irrigação durante todo o período de seca.
A frequência de irrigação do cajueiro-anão varia de acordo com a capacidade de retenção de água do solo, o volume de solo molhado por planta, o consumo de água das plantas e a fase da cultura (floração, frutificação, etc.). Em média, quando se utiliza irrigação localizada, pode-se considerar um intervalo entre irrigações de 1 a 3 dias em solo arenoso e de 1 a 5 dias em solo argiloso.
A fim de reduzir as perdas de água por evaporação, recomenda-se ajustar o diâmetro molhado dos microaspersores em pomares jovens. No primeiro ano após o plantio, o diâmetro molhado deve ser de 1 m (Figura 5). A partir do segundo ano de cultivo, a área molhada dos microaspersores deve aumentar de acordo com o diâmetro da copa e o desenvolvimento do sistema radicular das plantas. Em pomares adultos, a porcentagem da superfície do solo molhada deve ser de, no mínimo, 30%, ou seja, o diâmetro molhado dos microaspersores deve ser de, no mínimo, 4,5 m.
Foto: Fábio R. Miranda
Figura 5. Planta de cajueiro-anão, clone ‘CCP 76’, com 6 meses de idade, em plantio irrigado por microaspersão.
Para o cálculo da lâmina de irrigação a ser aplicada no cajueiro-anão, podem-se utilizar valores de coeficiente de cultivo (Kc) de 0,55 na fase de crescimento vegetativo e de 0,65 na fase de florescimento e frutificação. Deve-se considerar ainda o coeficiente de redução da evapotranspiração (Kr) em função da fração da superfície do solo coberta pela cultura ou molhada na irrigação. O Kr pode ser calculado dividindo-se a fração da superfície do solo coberta pela cultura ou molhada na irrigação (o que for maior) por 0,85.
A título de exemplo, é mostrado abaixo o cálculo do volume e do tempo de irrigação diária para plantas de cajueiro-anão irrigadas por microaspersão, no 3º ano de cultivo:
-      Espaçamento entre cajueiros: 7 m x 7 m
-      Vazão do microaspersor: 50 L/h
-      Eficiência do sistema de irrigação: 90%
-      Evapotranspiração de referência (ET0): 4,5 mm/d
-      Coeficiente de cultivo (Kc) na fase de frutificação: 0,65
-      Diâmetro médio de copa dos cajueiros: 4 m (área sombreada: 12,6 m2)
-      Fator de cobertura do solo: 12,6 m/ (7 m x 7 m) = 0,26
-      Diâmetro molhado do microaspersor: 3 m (área molhada: 7,1 m2)
-      Fração de área molhada: 7,1 m/ (7 m x 7 m) = 0,14
-      Coeficiente de redução da evapotranspiração (Kr): 0,26 / 0,85 = 0,31
-      Evapotranspiração do cajueiro (ETc): 4,5 mm/d x 0,65 x 0,31 = 0,91 mm/d
-      Volume de irrigação diário: 0,91 mm/d x 7 m x 7 m = 44 L/planta dia
-      Tempo de irrigação diário: 44 L / 50 L/h = 0,88 hora ou 53 minutos
 Tabela 1. Recomendação de irrigação do cajueiro-anão (em litros por planta, por dia) nas regiões produtoras do Ceará e Rio Grande do Norte(1).
Idade do pomar
Volume de água recomendado
(L/planta dia)
1º ano
10 a 20
2º ano
23 a 35
3º ano
35 a 53
4º ano
62 a 90
5º ano
100 a 120
(1) Considerando-se uma evapotranspiração de referência média de 4,5 mm/dia.
Na Tabela 1, são apresentadas recomendações para a irrigação do cajueiro-anão, sob condições climáticas médias das regiões produtoras do Ceará e Rio Grande do Norte, utilizando sistemas de gotejamento ou microaspersão. Os valores apresentados na Tabela 1 são para a irrigação do cajueiro-anão nas fases de crescimento vegetativo (1º ano de cultivo) e de florescimento e frutificação (2º ano em diante), considerando-se que a área molhada pelos emissores é semelhante à área sombreada pela cultura.



terça-feira, 28 de novembro de 2017

Calagem e Adubação no Cajueiro


A prática de correção química do solo se faz pelas práticas da calagem e gessagem.

Calagem

          A necessidade de correção do solo de uma área que vai receber um novo pomar de cajueiro vai depender dos resultados da análise de solo da amostra retirada na profundidade de 0 cm a 20 cm, principalmente em relação aos teores de cálcio, magnésio, alumínio, saturação por bases e capacidade de troca catiônica. Quando necessária, a correção se faz por meio de calcário, aplicado em uma ou duas etapas, dependendo da quantidade necessária.
Geralmente, em doses acima de 1 t por hectare, recomenda-se a aplicação em duas parcelas iguais, sendo a primeira antes da aração, e a segunda, por ocasião da gradagem. As quantidades a serem aplicadas devem ser suficientes para elevar a saturação por bases (V2) a 60% e os teores de cálcio (Ca2+) e magnésio (Mg2+) trocáveis para o mínimo de 6 mmolc/dme 3 mmolc/dm3, respectivamente (CRISOSTOMO et al., 2003; CRISOSTOMO, 2013).
A determinação da necessidade de calagem pode ser feita de acordo com diversas fórmulas, sendo a de Quaggio (2000) a mais usual:
em que:
NC é a necessidade de calagem, em t/ha por 0,20 m de profundidade.
T é a capacidade de troca de cátions a pH 7, em mmolc/dm(aferida na análise de solo).
V2 é a saturação por bases desejada, 60% para o cajueiro.
V1 é a saturação por bases atual, em % (aferida na análise de solo).
PRNT é o poder relativo de neutralização total do calcário, em % (encontrado na embalagem do produto).

Gessagem

O gesso agrícola também é um corretivo de solo, apesar de não corrigir a acidez como faz o calcário. A sua função principal é fazer com que os nutrientes atinjam maior profundidade no solo, beneficiando o aprofundamento do sistema radicular. A necessidade da aplicação de gesso também é verificada por meio da análise de solo, porém da camada subsuperficial (20 cm a 40 cm), sendo considerados como parâmetros para aplicação: menos de 3 mmolc/dm3 de cálcio (Ca2+) e/ou mais de 5 mmolc/dm3 de alumínio (Al3+) e/ou saturação por alumínio (m%) maior que 40% (LOPES, 1986). Nesses casos, a dose de gesso deve ser calculada em função do teor de argila do solo (determinado pela análise física do solo), sendo recomendado aplicar até 500 kg/ha em solo arenoso, 1.000 kg/ha em solo de textura média, 1.500 kg/ha em solo argiloso e 2.000 kg/ha em solo muito argiloso. Outro critério de recomendação é substituir 25% do calcário por gesso (CRISOSTOMO, 2013), isto é, por exemplo, se em um solo são necessários a aplicação de 1.000 kg/ha de calcário, o produtor poderá aplicar 750 kg/ha de calcário e 250 kg/ha de gesso agrícola.

Recomendação de adubação de fundação

Na cova de plantio indicada para o cajueiro (geralmente 40 cm de largura x 40 cm de comprimento x 40 cm de profundidade), recomenda-se aplicar calcário dolomítico em quantidade equivalente à recomendada na calagem para 1 m² de solo. Em seguida, encher a cova com mistura de terra superficial acrescida de superfosfato simples (quantidade definida de acordo com a análise do solo), 100 g de FTE BR12, e, se possível, 10 litros de esterco bovino bem curtido (coloração escura). Deixar a cova assim preparada por um período de 30 dias antes do transplantio da muda, quando do início do período chuvoso (CRISOSTOMO et al., 2009; CRISOSTOMO, 2013).

Recomendação de adubação para cultivo de sequeiro

Adubação de pós-plantio (primeiro ano): os fertilizantes nitrogenados (ureia, sulfato de amônio ou MAP) e potássico (cloreto de potássio) (Tabela 1) deverão ser aplicados no período das chuvas em três ou mais parcelas iguais, em sulco circular, com 10 cm a 15 cm de profundidade e 10 cm a 15 cm de largura, com distância entre 20 cm e 30 cm do caule da planta e cobertos com terra, para diminuir as perdas da amônia por volatilização (CRISOSTOMO, 2013).
Adubação de formação e produção: a adubação recomendada deverá seguir o mesmo sistema de aplicação para o primeiro ano; contudo, o fósforo (superfostato simples) deverá ser aplicado em uma única parcela. A profundidade e largura do sulco de adubação são as mesmas adotadas para o pós-plantio; porém, a distância do caule deverá ser aumentada de modo a situar-se no terço externo da projeção da copa (CRISOSTOMO, 2013).


Tabela 1. Recomendações de adubação mineral para cajueiro-anão sob sequeiro, de acordo com os teores de fósforo (P) e potássio (K) determinados na análise química de solo.
Adubação
N
P resina (mg/dm3)
K solo (mmolc/dm3)

0 a 12
13 a 30
> 30
0 a 1,5
1,6 a 3,0
> 3,0
(g/planta)
P2O5 (g/planta)*
K2O5 (g/planta)
Plantio

0
180
140
90
0
0
0
Formação
0-1 ano
45
0
0
0
50
30
20

1-2 anos
70
160
140
90
90
50
30

2-3 anos
120
220
180
110
110
90
50

3-4 anos
150
290
230
140
170
130
70

4-5 anos
220
290
230
140
170
130
70
Produção:



< 1.200 kg/ha de castanhas
300
160
80
80
120
80
80
1.200 – 3.000 kg/ha de castanhas
520
240
160
120
240
160
120
> 3.000 kg/ha de castanhas
1.000
400
300
200
450
300
200
Fonte: Crisostomo (2009).
*Adicionar como fonte de fósforo o superfosfato simples, com o objetivo de fornecer enxofre às plantas. Adubação de produção baseada na produtividade esperada

Recomendação de adubação para cultivo irrigado

No cultivo irrigado, os fertilizantes nitrogenados (ureia, sulfato de amônio, nitrato de cálcio, nitrato de potássio, nitrato de amônio, MAP e DAP) e potássicos (cloreto de potássio, sulfato de potássio, nitrato de potássio e fosfato monopotássico) solúveis, sólidos ou líquidos são injetados na água de irrigação, possibilitando, dessa maneira, melhor distribuição e aproveitamento pelo sistema radicular. Por sua vez, os fosfatados (ácido fosfórico, MAP, DAP e fosfato monopotássico) também podem ser aplicados via água de irrigação, observando-se os cuidados necessários para evitar o entupimento dos emissores (microaspersores ou gotejadores). As doses recomendadas às diversas fases de crescimento da planta são apresentadas na Tabela 2 (CRISOSTOMO, 2013).

Tabela 2. Recomendações de adubação mineral para cajueiro-anão sob irrigação, de acordo com os teores de fósforo (P) e potássio (K) determinados na análise química de solo.
Adubação
N
P resina (mg/dm3)
K solo (mmolc/dm3)

0 a 12
13 a 30
> 30
0 a 1,5
1,6 a 3,0
> 3,0
(g/planta)
P2O5 (g/planta)
K2O5 (g/planta)
Plantio

0
200
150
100
0
0
0
Formação
0-1 ano
60
0
0
0
60
40
20

1-2 anos
80
200
150
100
100
60
40

2-3 anos
150
250
200
120
140
100
60

3-4 anos
200
300
250
150
180
140
80

4-5 anos
300
300
250
150
180
140
80
Produção:



< 1.200 kg/ha de castanhas
400
200
100
100
150
100
80
1.200 – 3.000 kg/ha de castanhas
700
300
200
150
300
200
150
> 3.000 kg/ha de castanhas
1.000
400
300
200
450
300
200
Fonte: Crisostomo (2009). Adubação de produção baseada na produtividade esperada.

Estado nutricional do cajueiro

A análise química do tecido vegetal é uma ferramenta que permite a avaliação do estado nutricional das plantas por meio de comparação de um padrão preestabelecido. As folhas refletem o estado nutricional das plantas, pois nelas ocorrem os processos fisiológicos. Assim, a diagnose foliar é utilizada para a identificação da deficiência ou da toxicidade de nutrientes, bem como para complementar as informações da análise química do solo visando à recomendação da adubação. No caso das culturas perenes, as informações das análises químicas do solo e da planta são mais relevantes, pois permitem a correção de uma possível deficiência ainda no mesmo ano agrícola (OLIVEIRA et al., 2013).
A concentração de nutrientes no cajueiro pode ser influenciada por fatores como idade das folhas, tipo de ramo amostrado, época de amostragem, etc. Entretanto, nos trabalhos envolvendo a diagnose foliar, não existe a padronização desse tipo de informação, o que dificulta a comparação dos resultados. Na Austrália, Kernot (1998) recomenda a coleta de quatro folhas maduras por planta no início do florescimento, em pelo menos 16 plantas por hectare, enquanto, no Brasil, Malavolta et al. (1997) sugerem a coleta de 40 folhas recém-maduras do ano no verão (OLIVEIRA et al., 2013).

Coleta de amostras foliares

A amostragem das folhas é uma etapa crítica, pois, se feita de forma incorreta, a análise resultante não refletirá o estado nutricional da planta, ocasionando a sub ou superestimativa da adubação (OLIVEIRA et al., 2013). Assim, para evitar transtornos que venham mascarar os resultados da análise, recomenda-se:
a)   Separar a área com cajueiros homogêneos, quanto ao clone e idade.
b)   Retirar folhas (amostras) de plantas selecionadas em caminhamento em zigue-zague.
c)    Evitar a coleta de folhas danificadas por insetos, doenças ou fenômenos ambientais.
d)   Separar as folhas dos pecíolos para evitar uma eventual translocação de nutrientes.
e)   Amostrar as plantas separadamente em casos de sintomas de deficiência ou em manchas de solos.
f)    Não se amostrar folhas após a aplicação de fertilizantes e defensivos ou após períodos intensos de chuvas.
As folhas coletadas devem ser acondicionadas em sacos de papel, identificadas e enviadas ao laboratório preferencialmente no mesmo dia. Caso contrário, acondicioná-las em refrigerador (não no congelador) até o envio.

Interpretação dos resultados

Na Tabela 3, estão apresentadas as concentrações de macro e micronutrientes obtidas em folhas maduras de cajueiro do tipo comum. A comparação dos resultados torna-se difícil devido às diferenças do tipo de cajueiro, época de coleta das folhas e idade das plantas. Assim, os valores apresentados devem ser utilizados apenas como referência.

Tabela 3. Concentração de macro e micronutrientes em folhas de cajueiro.
Nutriente
Haag et al. (1975)*
Kernot (1998)**
N (g/kg)
22,9
14,0 – 18,0
P (g/kg)
1,4
1,2 – 1,4
K (g/kg)
8,9
7,2 – 11,0
Ca (g/kg)
2,1
2,4 – 7,5
Mg (g/kg)
3,4
2,2 – 3,1
S (g/kg)
1,8
1,1 – 1,4
B (mg/kg)
51,7
56 – 67
Cu (mg/kg)
12,7
> 7
Fe (mg/kg)
83,1
148 – 165
Mn (mg/kg)
139,0
91 – 204
Zn (mg/kg)
25,0
> 20
* Folhas de plantas com 10 anos.
** Folhas maduras de ramos sem flores

Sintomas de deficiências

De acordo com Malavolta (2006), para a distinção entre os sintomas de deficiências minerais e aqueles causados por pragas e doenças, deve-se considerar que:
a)   A desordem nutricional é homogênea no campo.
b)   É necessário um gradiente: para os elementos móveis (N, P, K, Mg, Cl e Mo), que são redistribuídos nas plantas, a severidade dos sintomas ocorre das folhas mais velhas (ou órgãos) para as mais novas. No caso dos elementos pouco móveis (S, Cu, Fe, Mn e Zn) ou quase imóveis (Ca e B), os sintomas são mais acentuados nas folhas mais novas.
c)    Os sintomas devem ser simétricos: a desordem nutricional ocorre no par de folhas ou em duas folhas consecutivas.

Nitrogênio

Os sintomas são os primeiros a se manifestarem, com as folhas mais velhas tornando-se cloróticas da região apical para o limbo (Figura 1). Em face da mobilidade do nitrogênio, a carência começa nas folhas mais velhas, com as mais novas mantendo-se verdes em consequência da redistribuição, que é um processo relativamente rápido no caso do N.
Foto: Rovira (1971).
Figura 1. Folha normal à esquerda. Folhas no centro e à direita com deficiência de nitrogênio.

Fósforo

As folhas mais velhas apresentam inicialmente uma coloração verde-escura e, em estágio mais avançado, tornam-se verde-opacas e caem. Observa-se, também, menor porte das folhas (Figura 2).
Foto: Kernot (1998).
Figura 2. Folhas maduras (oldest) e recém-maduras (YML) normais à direita. Folhas maduras com sintomas de deficiência de fósforo (-P) à esquerda.

Potássio

Inicia-se também nas folhas mais velhas, que apresentam uma leve clorose nas bordas. Ao contrário do N, os sintomas desenvolvem-se lentamente. Em estágio desenvolvido, a clorose avança para o limbo da folha, permanecendo verde apenas a base, numa espécie de V invertido (Figura 3).
Foto: Kernot (1998).
Figura 3. Folha madura em estágio inicial (acima) e avançado de deficiência de potássio (abaixo).

Cálcio

Os sintomas manifestam-se precocemente, embora com progressão lenta. As folhas mais novas desenvolvem ondulações nas margens, que se curvam para dentro e entre as nervuras (Figura 4). Por ser um elemento quase imóvel na planta, em condições de deficiência, os sintomas aparecem em órgãos ou partes mais novas. Assim, o seu fornecimento deve ser durante todo o ciclo de crescimento.
Foto: Rovira (1971).
Figura 4. Folha normal à direita. Folha à esquerda com deficiência de cálcio.

Magnésio

Verifica-se um amarelecimento internervural que começa na nervura principal e evolui para as bordas nas folhas mais velhas (Figura 5).
Foto: Rovira (1971).
Figura 5. Folha normal à esquerda. Folha à direita com deficiência de magnésio.

Enxofre

As folhas mais novas tornam-se cloróticas e ficam com consistência mais rígida, apresentando no ápice necroses acompanhadas de enrolamento das pontas afetadas e bordas rompidas (Figura 6). Além desses sintomas, as folhas terminais mais novas, enquanto se desenvolvem, ficam mais estreitas, diminuindo consideravelmente a superfície do limbo.
Foto: Rovira (1971).
Figura 6. Folha normal à esquerda. Folhas no centro e à direita com deficiência de enxofre.

Manganês

Inicialmente, as folhas mais novas apresentam uma coloração verde-pálida, que evolui posteriormente para verde-amarelada, com as partes próximas às nervuras permanecendo verdes. Em algumas folhas, as margens apresentam uma coloração marrom. As plantas produzem pequeno número de folhas, e o crescimento torna-se bastante lento, apesar de desenvolverem grande número de ramos laterais. É comum ocorrerem agrupamentos de pequenas folhas em forma de roseta, além de secamento e queda prematura das folhas.

Boro

Os principais sintomas são a morte das gemas e das folhas mais novas, com as adjacentes tomando um aspecto coriáceo. Ocorre superbrotamento e repetição dos sintomas nos novos brotos emitidos.

Zinco

As plantas apresentam-se com internódios curtos e poucos ramos laterais. As folhas mais novas mostram-se pequenas, alongadas, com a coloração variando gradualmente do verde até o verde-pálido, com as nervuras permanecendo verde (Figura 7). As folhas maduras inferiores desenvolvem-se normalmente.
Foto: Kernot (1998).
Figura 7. Folha nova normal à esquerda. Folhas novas com deficiência de zinco.

Ferro

O crescimento do cajueiro é seriamente comprometido na ausência de ferro. Em apenas um mês, os sintomas de deficiência tornam-se visíveis, com uma severa clorose das folhas jovens que se tornam estreitas e delicadas ao tato. Com a progressão da carência, as folhas tornam-se translúcidas, permanecendo verde-claras somente as mais velhas.

Cobre

A carência do cobre traduz-se num ligeiro escurecimento na tonalidade verde. As folhas jovens apresentam-se mais alongadas e curvam-se para baixo, como se estivessem com estresse hídrico. O crescimento parece não ser afetado, pelo menos nos primeiros meses de vida da planta.

Molibdênio

Plantas apresentam as folhas terminais com uma coloração verde-clara e, posteriormente, verde-amarelada, com as nervuras esverdeadas. Nas folhas jovens, pode ocorrer uma coloração marrom-avermelhada.