sábado, 14 de fevereiro de 2026

Caracteristicas da Lichia

A lichia (Litchi chinensis Sonn.), família Sapindaceae, é o fruto de uma árvore subtropical com porte elevado, podendo chegar a até 30 metros de altura, e de grande longevidade, originária da China onde é considerada a fruta nacional .

Os principais países produtores são: China, Índia, Tailândia, Vietnã, Bangladesh, Madagascar, África do Sul, Nepal, Austrália, Indonésia, Ilhas Maurício, Israel, Espanha, Estados Unidos da América, México e Brasil , 2001, com produção que oscila de 1,2 milhão a 2,5 milhões de toneladas, dependendo das condições climáticas, ocupando área superior a 1 milhão de hectares; sendo a China responsável por cerca de 60 % da produção e da área plantada.

A introdução da lichia no Brasil ocorreu por volta de 1810 no Jardim Botânico do Rio de Janeiro (CARVALHO; SALOMÃO, 2000), mas os plantios comerciais tiveram início somente na década de 1970 no Estado de São Paulo onde, em 1997, foram registrados 347 ha (YAMANISHI et al., 2001). Com o boom no plantio de lichia na década de 1990 em São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Goiás e Distrito Federal, estima-se que a área plantada no Brasil seja superior a 1,5 mil hectares, dos quais, cerca de 25 % estejam em produção plena, 35 % em produção inicial e 40 % em crescimento (GARCIA-PÉREZ, 2006). O volume de 1.856 t de lichia comercializado pela Ceagesp no biênio 2004 2005 foi o maior de todos os tempos, sendo 7,7 vezes superior ao do biênio 2000–2001.

Considerando que a Ceagesp comercializa em torno de 70 % da produção nacional, estima-se que a produção brasileira seja de aproximadamente 2,5 mil toneladas em ano “bom” e em torno de 700 toneladas em ano “ruim” de produção. A previsão é dobrar a produção em 5 anos e ultrapassar 10 mil toneladas por ano em 2020; mas esse aumento ainda é insignificante diante do potencial de consumo do mercado brasileiro.

O ciclo anual de produção inicia-se com a floração entre os meses de junho e julho, seguido pelo desenvolvimento da fruta entre os meses de agosto e setembro e finalizando com o amadurecimento e a colheita entre novembro e dezembro. Pode ocorrer variação de 1 a 2 meses nesse ciclo, de acordo com as condições climáticas da região.

A produção de frutos começa a partir dos 3 anos de idade (quando tecnicamente conduzida) e, por ser uma planta de grande longevidade, pode ultrapassar os 100 anos produzindo; em várias regiões da China existem lichieiras com mais de 1.000 anos. Os frutos são produzidos em cachos, a casca é de cor vermelha e fácil de ser destacada. A polpa é gelatinosa, translúcida, não aderente à semente, suculenta e de excelente sabor. Presta-se para o consumo ao natural, e para a fabricação de sucos, compotas e passa.

A literatura chinesa indica a existência de mais de 200 cultivares de lichia, porém se denota enorme dificuldade em sua correta identificação, em virtude dos inúmeros nomes atribuídos à mesma cultivar em diferentes regiões produtoras.

No Brasil, as cultivares comerciais por ordem de importância são: Bengal (Fig. 8), Americana (Fig. 9) e Brewster. Recentemente, foram identificadas as cultivares Haak Yip, Yu Her Pau e Nuomici em pequenas áreas no Estado de São Paulo, as quais foram introduzidas nas décadas de 1980 e 1990 por imigrantes chineses de Taiwan. No entanto, essas cultivares permanecem indisponíveis para os demais produtores.

A lichia ‘Bengal’, originária da cultivar Purbi da Índia, foi introduzida no Brasil em 1960. Sua produção ocupa a árvore toda, formando cachos



A lichia ‘Americana’, originária da cultivar Nuomici, foi selecionada no Brasil, na década de 1960. Sua produção apresenta-se uniforme por toda a árvore, porém sem formação de cachos.


O grande gargalo da cultura da lichia no Brasil tem sido a falta de variabilidade genética, pois 99 % da produção está concentrada na cultivarBengal, que é propensa à alternância de produção. Como conseqüência, verifica-se drástica oscilação na oferta da fruta (500 t/ano a 2.500 t/ano), assim como no preço ao consumidor (R$ 5,00 a R$ 20,001 por quilo de fruta) de um ano para o outro. Ademais, tem causado grande oferta da fruta num curto período (dezembro), resultando em baixos preços para o produtor.

Principais cultivares de lichia comercializadas no Brasil:

Bengal originária de plântulas da cultivar Purbi, da Índia, selecionadas na Flórida, Estados Unidos da América, na década de 1940 e introduzidas no Brasil na década de 1960 pelo viveiro Dierberger, de Limeira, São Paulo.Sua produção ocupa a árvore toda (Fig. 8), formando cachos que às vezes superam 5 kg. Os frutos são grandes (23 g a 27 g) e na fase adulta pode produzir até 300 kg/planta. Apesar de apresentar produção alternante e baixa porcentagem de polpa (GALAN SAUCO; MENINI, 1987; VIEIRA et al,1996; MENZEL, 2002), a sua alta produtividade e o fruto grande de cor vermelho intenso fez de Bengal a cultivar mais plantada, com mais de 95 % da área cultivada no Brasil e cultivar predominante na Índia, onde é conhecida como Rose Scented.

Americana originária de plântulas da cultivar Nuomici trazidas da Flórida, Estados Unidos da América, e selecionadas no Brasil na década de 1960 pelo viveiro Dierberger, de Limeira, São Paulo. Sua produção apresenta-se uniforme por toda a árvore, porém sem formação de cachos (Fig. 9), o que dificulta a colheita e diminui a produção. Além disso, apresenta produção alternante conforme as condições climáticas (MARTINS et al., 2001). Esses motivos limitaram o seu plantio no Brasil.

Brewster introduzida da Flórida em 1903 pelo reverendo Brewster da Província de Fujian onde é conhecida como Chenzi. Por apresentar produção fortemente alternante (GALAN SAUCO; MENINI, 1987; VIEIRA et al., 1996; MENZEL, 2002), não houve expansão do seu cultivo no Brasil.

A ausência ausência de pesquisa, excetuando aquelas feitas por algumas universidades, como a Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp), Campus de Jaboticabal; Universidade de Brasília (UnB) e Universidade Federal de Viçosa, e a inexistência de produtos registrados para a cultura e a falta de tratamento – livre de enxofre – para estender a vida de prateleira das frutas são entraves para a exportação da fruta fresca.

A grande inovação tecnológica da cultura da lichia no Brasil teve início a partir de 2004 com a introdução das cultivares Kwai May Pink, Kwai May Red, Feizixiao, Tai So, Souey Tung, Salathiel, Emperor, Haak Yip, Kaimana, Casino e Leighton, oriundas da Austrália, e que estão sendo avaliadas em 20 municípios de São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Distrito Federal e Bahia. Objetiva-se com a inserção das novas cultivares – precoces, meia estação e tardias –, combinadas com as condições climáticas diversas, ampliar o período de oferta da fruta no País de setembro a março, possibilitando explorar janelas no mercado internacional e local, onde há pouca ou nenhuma oferta da fruta fresca. Além disso, os plantios comerciais da cultivar Bengal, localizados em áreas marginais, onde a frutificação é irregular por causa da ausência de frio, podem ser viabilizados com a substituição de copas com as cultivares de menor exigência em frio.




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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

LOCALIZAÇÃO E ESCOLHA DO TERRENO PARA O ABACATEIRO

 

LOCALIZAÇÃO E ESCOLHA DO TERRENO

2.1 - Condições climáticas

Antes da instalação de um pomar de abacateiros, além dos normais cuidados relativos às condições edafo-climáticas do local, deve-se ter um cuidado especial com a possibilidade de ocorrência de geadas pois, no caso deste acidente ser registado com alguma frequência, o cultivo desta fruteira pode ser tecnicamente inviável.

O abacateiro apresenta sensibilidade ao frio, sendo, esta característica influenciada, de certo modo, pela raça, variedade, vigor e idade da planta. Esta é uma das razões pela qual esta cultura não é viável em zonas onde o risco de geadas seja elevado.

A geada pode provocar danos elevados na planta, especialmente durante a atividade vegetativa.

A ocorrência de temperaturas muito baixas durante a fase de floração pode provocar uma reduzida taxa de vingamento do fruto, com incidência direta no resultado econômico da cultura.

Quando os abacateiros estão plantados em solos profundos, férteis e com satisfação das necessidades de água, apresentam, por norma, maior resistência ao frio.

As temperaturas elevadas também provocam estragos, em especial durante a floração e vingamento, podendo provocar uma queda excessiva de flores e de pequenos frutos. A maior parte das variedades atualmente cultivadas produzem bastante bem na seguinte situação térmica: 22-26ºC de dia, 15-17ºC de noite e 20-21ºC de média.

A humidade relativa geralmente não é limitativa, mas situações de tempo quente e seco, com humidade reduzida durante a floração e formação do fruto têm efeitos negativos na produção.

O abacateiro apresenta um crescimento rápido e vigoroso, sendo sensível aos ventos. Os ventos fortes provocam a fratura de ramos e a queda de frutos, em especial os de maior calibre. Os ventos quentes originam queda de frutos e os ventos frios queimam as folhas.

Devido aos efeitos negativos do vento, bem como da proximidade do mar (sensibilidade à salinidade), aconselha-se evitar a plantação em zonas ventosas e próximas do mar, e procurar zonas mais abrigadas. Se por algum motivo a plantação tenha que ser realizada num local ventoso, é aconselhado a instalação de quebra-ventos.

2.2 - Solo

Com origem nos trópicos o abacateiro tem uma preferência por terras ricas em matéria orgânica, permeáveis, pouco ácidas e profundas. O abacateiro tem um bom desenvolvimento em diversos tipos de solo, não se aconselhando a sua plantação em solos sujeitos a encharcamento, pois além de condicionaram um bom desenvolvimento radicular, favorecem o desenvolvimento do fungo Phytophthora cinnamoni (Rands).

Para que ocorra uma drenagem normal e para que as raízes possam crescer livremente, o perfil do solo não deverá apresentar zonas impermeáveis até uma profundidade de, pelo menos, um metro.

O desenvolvimento horizontal e vertical das raízes do abacateiro é influenciado pela profundidade do solo, bem como por outras características físicas do mesmo, tais como a textura, o grau de compactação e de arejamento.

Enquanto jovem, o abacateiro apresenta um sistema radicular pivotante (desenvolvimento dominante da raiz primária), enquanto que as árvores adultas apresentam uma ampla distribuição de raízes em todas as direções, sendo alcançada uma profundidade de 1 a 1,5 m.

O abacateiro prefere solos com um pH variável entre 6,0 a 7,5, faixa em que a maior parte dos nutrientes se encontra facilmente disponível para as plantas, não existindo, simultaneamente, eventuais problemas de toxicidade resultantes, por exemplo, do excesso de alumínio e/ou manganês.

O abacateiro é muito sensível aos sais, sobretudo se enxertados em porta-enxertos comuns, pelo que a condutividade eléctrica do solo, determinada no extracto de saturação deve ser inferior a 3 mS/cm.

A avaliação da aptidão de um terreno destinado à instalação de um pomar de abacateiros deve ser baseada na sua caracterização pedológica, através da observação do perfil do solo e na avaliação do seu estado de fertilidade, feita através da interpretação dos resultados da análise da terra.

A metodologia de colheita das amostras pressupõe, por sua vez, o conhecimento dos antecedentes culturais da parcela. Assim, é obrigatório efetuar a análise da terra a partir de amostras colhidas segundo os procedimentos descritos no ponto 8.3.1.1.. As determinações analíticas a efetuar serão as que ali são referidas.

A amostra de terra para análise deverá ser acompanhada de uma ficha informativa, semelhante à que se apresenta no Anexo II, onde constará toda a informação respeitante à parcela em que se pretende instalar o pomar.

A ocorrência de doenças que afetam as raízes, como é o caso das provocadas pela Rosellinia necatrix, Armillaria mellea, P. cinnamomi, ou outras, frequentes em solos encharcadiços, deverá ser devidamente assinalada. Esta informação é um dado importante na avaliação das características da parcela, ou de parte dela, e poderá determinar a não plantação, ou a realização de medidas profiláticas adequadas, antes da instalação do futuro pomar.

No caso de replantação é obrigatório a realização de análises de terra e ao material vegetal da cultura anterior, para pesquisar a presença dos agentes patogênicos acima referidos. Após a obtenção dos resultados das referidas análises decidir-se-á o tempo de pousio que, no caso da detecção de algum agente patogênico nunca será inferior a um ano.

Os resultados da observação do perfil do solo e da análise de terra serão igualmente determinantes para a decisão a tomar sobre a plantação do pomar, a escolha do porta-enxerto a utilizar, bem como a fertilização de instalação a praticar.

Em caso de aptidão do terreno, no relatório formular-se-ão todas as recomendações no sentido de ultrapassar eventuais limitações detectadas, nomeadamente no que respeita à sistematização do terreno, tendo sempre em conta as orientações relativas à sua conservação descritas no “Manual Básico de Práticas Agrícolas. Conservação do Solo e da Água” (MADRP, 2000).

A plantação efetuar-se-á depois do terreno limpo de todos os resíduos vegetais das culturas anteriormente instaladas e de se ter procedido à mobilização adequada à topografia, perfil e textura do solo, de acordo com o recomendado na publicação acima referida.

Em produção integrada não é permitida a desinfecção química do solo, salvo nos casos e condições expressamente autorizadas.





segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

PRODUÇÃO INTEGRADA DA CULTURA DO ABACATEIRO



INTRODUÇÃO

A cultura do abacateiro constitui uma das principais alternativas do sector frutícola algarvio, contribuindo para a diversificação da produção da região, pois para além de possuir uma boa relação custo/benefício, apresenta um escoamento fácil das produções e um mercado nacional e externo em crescimento.

Numa perspectiva de carácter econômico, ecológico e também toxicológico, reveste-se de grande importância a adoção de medidas preconizadas pelas regras da produção integrada, não só na racionalização dos custos dos diferentes factores de produção, mas também na diminuição da contaminação do ambiente e na obtenção de frutos de maior qualidade, atendendo à menor quantidade de agroquímicos utilizados.

A obtenção de produtos de alta qualidade, contaminando o menos possível tanto o ambiente como os alimentos obtidos, isto é, com o mínimo possível de resíduos, tem sido uma preocupação constante na agricultura. Deste modo, a implementação da produção integrada na cultura do abacateiro, pressupõe a elaboração de normas.

A produção de abacate exige um conjunto de ações que têm início com a instalação da cultura e se sucedem ordenadamente no tempo, até à colheita e seu transporte para as instalações onde se procede ao seu armazenamento.

Assim, o presente documento apresenta aspectos relativos aos conceitos e princípios da produção integrada, à localização e escolha do terreno, operações de instalação da cultura, escolha de porta-enxertos e variedades, podas e condução, rega, fertilização, proteção fitossanitária e colheita.

No capítulo relativo à fertilização, descrevem-se os procedimentos a observar antes e após a instalação da cultura, a metodologia de colheita de amostras e as determinações laboratoriais a requerer.

No âmbito da legislação em vigor todos os aspectos relacionados com a nutrição e fertilização são da responsabilidade da Unidade de Ambiente e Recursos Naturais (ex-Laboratório Químico

Agrícola Rebelo da Silva) do L-INIA, do Instituto Nacional de Recursos Biológicos, I.P. .

No que se refere à proteção fitossanitária, este documento integra os procedimentos que podem n servir de orientação a técnicos e agricultores na monitorização de pragas, auxiliares e doenças, as metodologias de estimativa do risco e níveis econômicos de ataque a adotar na protecção integrada da cultura do abacateiro.

Relativamente à proteção integrada, referem-se quais os meios de proteção disponíveis. No caso particular da luta química, indicam-se os produtos fitofarmacêuticos permitidos, sendo abordados diversos aspectos relevantes que lhes são inerentes e, também, os critérios adotados na sua seleção, tendo por base a revisão recentemente efetuada.

Apresenta-se, ainda, a caracterização dos grupos de auxiliares mais importantes na cultura, os = efeitos secundários dos produtos fitofarmacêuticos permitidos em proteção integrada e um guia de proteção integrada no qual se consideram os inimigos e aspectos básicos de epidemiologia e sintomatologia, assim como as medidas de luta a adotar nesta cultura.

Faz-se referência à obrigatoriedade da existência de um caderno de campo e apresenta-se um modelo a utilizar em produção integrada da cultura do abacateiro. Referem-se, ainda, alguns, aspectos relativos à colheita.

Em anexo ao documento, são apresentadas as fichas informativas que devem acompanhar as amostras a analisar e, ainda, outros elementos complementares.

As normas desenvolvidas e apresentadas no presente documento incluem procedimentos obrigatórios, proibidos e aconselhados e permitem a sua atualização ou adaptação periódica.

Por último, é de salientar que este documento foi elaborado com a colaboração do INRB, I.P., da Direção Regional de Agricultura e Pescas do Algarve (DRAPAlgarve) e da ABACASUL e foi aprovado em reunião do Conselho Nacional de Proteção da Produção Vegetal.

1 - CONCEITOS E PRINCÍPIOS DE PRODUÇÃO INTEGRADA

Em produção integrada, a proteção integrada é a orientação obrigatoriamente adotada em proteção das plantas. No presente capítulo apresentam-se os conceitos e princípios de proteção e produção integradas.

1.1- Produção integrada

De acordo com a definição adoptada pela OILB/SROP (1993, 2004), “a produção integrada é um sistema agrícola de produção de alimentos de alta qualidade e de outros produtos utilizando os

recursos naturais e os mecanismos de regulação natural, em substituição de factores de produção prejudiciais aos ambiente e de modo a assegurar, a longo prazo, uma agricultura viável”.

As características da produção integrada e as suas estreitas afinidades com o conceito de agricultura sustentável são evidenciados pelo conjunto de 11 princípios, também aprovados pela OILB/SROP (2004): - a produção integrada é aplicada apenas “holisticamente”, isto é, visa a regulação do ecossistema, o bem-estar dos animais e a preservação dos recursos naturais, não se limitando a mera combinação da proteção integrada com elementos adicionais, como a fertilização ou outras práticas agronômicas; - efeitos secundários inconvenientes de atividades agrícolas, como a contaminação azotada de águas subterrâneas e a erosão, devem ser minimizados;

- a exploração agrícola no seu conjunto é a unidade de implementação da produção integrada;

- a reciclagem regular dos conhecimentos do empresário agrícola sobre produção integrada;

- assegurar a estabilidade dos ecossistemas, evitando impactes ecológicos das atividades agrícolas que possam afetar negativamente os recursos naturais e os componentes da regulação natural;

- assegurar o equilíbrio do ciclo dos elementos nutritivos, reduzindo ao mínimo as perdas de nutrientes e compensando prudentemente a sua substituição, através de fertilizações fundamentadas, e privilegiando a reciclagem da matéria orgânica produzida na exploração agrícola;

- a fertilidade do solo, isto é, a capacidade do solo assegurar a produção agrícola sem intervenções exteriores é função do equilíbrio das características físicas, químicas e biológicas do solo, bem evidenciado pela fauna do solo, de que as minhocas são um típico indicador;

- em produção integrada, a proteção integrada é a orientação obrigatoriamente adotada em proteção das plantas;

- a biodiversidade, a nível genético, das espécies e do ecossistema é considerada a espinha dorsal da estabilidade do ecossistema, dos factores de regulação natural e da qualidade da paisagem;

- a qualidade dos produtos obtidos em produção integrada abrange não só factores externos e internos mas também a natureza do sistema de produção;

- considerar o bem-estar dos animais, produzidos na exploração agrícola.

Os princípios anteriormente referidos, aplicados à cultura do abacateiro (Persea americana Miller), visam a obtenção de frutos sãos, de boas características organolépticas e de conservação, de modo a respeitar as exigências das normas nacionais e internacionais relativas à qualidade do produto, segurança alimentar e rastreabilidade, assegurando, simultaneamente, o desenvolvimento fisiológico equilibrado das plantas e a preservação da qualidade do ambiente.

A concretização de tais objetivos passa obrigatoriamente pela gestão equilibrada dos recursos naturais, com a utilização de tecnologias que considerem a reciclagem dos elementos nutritivos e reduzam, deste modo, a utilização de produtos fitofarmacêuticos e fertilizantes, conduzindo, assim, a uma redução dos custos de produção.

1.2 - Proteção integrada

A proteção integrada procura combater os inimigos das culturas de forma econômica, eficaz e com menores inconvenientes para o Homem e o ambiente. Deste modo, recorre-se à utilização racional, equilibrada e integrada de todos os meios de luta disponíveis (genéticos, culturais, físicos, biológicos, biotécnicos e químicos) com o objectivo de manter as populações dos inimigos das culturas a níveis que não causem prejuízos. Torna-se necessário efetuar a estimativa do risco, isto é, a monitorização contínua da cultura, de modo a detectar os seus potenciais inimigos e a avaliar, através da intensidade do seu ataque, os possíveis estragos ou prejuízos que possam causar.

Segundo a Diretiva 2009/128/CE, de 21 de Outubro, que estabelece um quadro de ação a nível

comunitário para uma utilização sustentável dos produtos fitofarmacêuticos, a proteção integrada consiste na ”avaliação ponderada de todos os métodos de proteção das culturas disponíveis e a subsequente integração de medidas adequadas para diminuir o desenvolvimento de populações de organismos nocivos e manter a utilização dos produtos fitofarmacêuticos e outras formas de intervenção a níveis econômica e ecologicamente justificáveis, reduzindo ou minimizando os riscos para a saúde humana e o ambiente. A proteção integrada privilegia o desenvolvimento de culturas saudáveis com a menor perturbação possível dos ecossistemas agrícolas e agroflorestais e incentiva mecanismos naturais de luta contra os inimigos das culturas”.

Como princípios básicos desta estratégia ou modalidade de proteção das plantas destacam-se os seguintes (Félix & Cavaco, 2004):

- prevenir ou evitar o desenvolvimento dos inimigos das culturas através de medidas visando a sua limitação natural;

- reduzir ao mínimo as intervenções fitossanitárias nos ecossistemas agrícolas;

- utilizar todos os meios de luta disponíveis, integrando-os de forma harmoniosa e privilegiando, sempre que possível, as medidas indiretas;

- recorrer aos meios de luta diretos, nomeadamente uso de produtos fitofarmacêuticos, quando não houver alternativa;

- selecionar os produtos fitofarmacêuticos em função da sua eficácia, persistência, custo e efeitos secundários em relação ao Homem, aos auxiliares e ao ambiente. 


quinta-feira, 11 de abril de 2024

PERSPECTIVAS DA CULTURA DO ABACATEIRO

 

O abacateiro (Persea americana Mill.) e nativo das serras do Mexico e da Guatemala e da costa do Pacifico da America Central.

As variedades de abacateiro sao organizadas em tres racas horticolas, de acordo com sua origem. A raca Mexicana provem das terras altas do Mexico, enquanto a raca Guatemalense e originaria da Guatemala. A raca Antilhana e originaria das terras baixas da costa do Pacifico da Guatemala ate o Panama.

A chegada do abacateiro ao Brasil esta indiretamente ligada a fatos de grande Importancia historica. No seculo XIX, a Europa ocidental atravessava um periodo de intensas disputas e, por isso, a familia real portuguesa decidiu imigrar para o Brasil em fins de 1807. Ja aqui, o imperador Dom Joao VI criou o atual Jardim Botanico com a finalidade de promover a aclimatacao de plantas com potencial de cultivo no Brasil.

Assim, em 1809, quatro mudas de abacateiro da raca Antilhana provenientes do Jardim Botanico La Gabrielle da Guiana Francesa foram introduzidas no Brasil. Na decada de 1920, ocorreram duas novas introducoes de materiais provenientes da Florida. Esses materiais difundiram-se pelo Pais e, por meio de cruzamentos naturais, surgiram materiais promissores que foram identificados, clonados e estudados, originando, assim, as principais cultivares de abacate do Brasil.

As cultivares de abacateiro no Brasil sao classificadas em dois grupos distintos.

O primeiro e constituido pelas cultivares de Abacate Tropical, conhecidas como “abacate manteiga”. Possuem frutos grandes e alongados, de baixo teor de oleo, e sao adaptadas a regioes de clima tropical. As principais cultivares deste grupo sao as seguintes: Geada, Quintal, Fortuna, Margarida e Breda.

No segundo grupo, estao as cultivares de Abacate Subtropical ou Avocado.

Possuem frutos de tamanho pequeno a medio, casca enrugada e alto conteudo de oleo. Essas cultivares, entre as quais a principal e o Hass, sao adaptadas ao clima subtropical.

Achados arqueologicos evidenciam que, desde 500 a.C., o abacate ja era cultivado  no Mexico, e seus frutos serviam tanto como alimento quanto como produto para trocas comerciais pelas populacoes nativas. Embora os povos locais tenham iniciado sua domesticacao, com a selecao de frutos em funcao do seu tamanho, o abacate ainda se mostrava uma fruta bastante distante daquela que conhecemos hoje. Apos  o descobrimento da America, o abacate se dispersou para outros locais, despertando o interesse cientifico de especialistas em fruticultura, visando a domesticacao e ao aprimoramento dessa especie para sua utilizacao como cultura fruticola comercial.

Primeiros passos

1)O processo que transformou o abacate ate torna-lo a fruta que conhecemos nos tempos atuais seguiu tres etapas basicas: 1) estudo de populacoes de plantas propagadas por sementes para identificacao das plantas que apresentassem caracteristicas superiores desejaveis;

2) clonagem dessas plantas selecionadas para plantio e avaliacao em escala agronomica, visando obter cultivares;

3) desenvolvimento de praticas culturais para aumentar a produtividade das cultivares selecionadas.

Assim, as bases que alavancaram o aprimoramento cientifico do abacate foram o melhoramento genetico, as tecnologias de clonagem de plantas e as tecnologias agronomicas para aumentar a produtividade.

As flores do abacateiro sao hermafroditas, porem apresentam um desencontro na maturacao dos orgaos masculino e feminino, fazendo com que a fecundacao  ocorra de forma cruzada, com o polen vindo de outra planta. Essa particularidade faz com que cada caroco de abacate resulte em uma planta distinta, com caracteristicas ineditas ate entao, e isso cria variabilidade de forma natural e facilita a obtencao de novas variedades, cabendo ao cientista identificar sua superioridade e fazer a clonagem.

Desenvolvendo cultivares

Dessa forma, as mais de 500 cultivares de abacate existentes no mundo surgiram, na sua maioria, como hibridos naturais.

Bons exemplos sao as cultivares Hass e Fuerte, que surgiram nos Estados Unidos e no Mexico, respectivamente, e atualmente dominam o mercado internacional, e as cultivares Geada, Quintal,Na decada de 1970, tanto o cultivo quanto o mercado do abacate no Brasil eram pouco expressivos, e evoluiram muito nesses 50 anos. As modernas tecnicas de propagacao e de cultivo protegido possibilitam a producao de mudas em estufas sobre bancadas suspensas e em substrato totalmente organico, com elevados padroes de sanidade, vigor e uniformidade.

A adocao de plantio mais adensado com irrigacao localizada e manejo de podas, diversificacao de variedades plantadas, aprimoramentos nas praticas de adubacao e nutricao das plantas, manejo integrado de pragas e doencas e manejo pos-colheita tambem sao avancos tecnologicos recentes, que resultam de ardua pesquisa cientifica e promovem aumento na producao, melhor qualidade dos frutos, extensao do periodo de oferta, melhor conservacao e transporte da producao ate locais mais distantes.

A mais recente contribuicao da ciencia foi o sequenciamento do genoma do abacate realizado em 2019. Essa pesquisa obteve importantes informacoes para a compreensao das funcoes dos genes e para uso na engenharia genetica, visando incrementar a produtividade, aumentar a resistencia a doencas e criar frutoscom novos sabores e texturas.

Desafios e perspectivas

Trabalhos inovadores de pesquisa estao expandindo as fronteiras da cultura do abacate no Brasil. A viabilizacao da producao de abacate no Semiarido

A selecao de cultivares com frutos de caracteristicas distintas quanto ao tamanho, formato e teor de oleo possibilitou atender as mais diversas exigencias e preferencias dos consumidores e nas serras do Nordeste representa novos desafios para a pesquisa, com boas perspectivas de sucesso nos empreendimentos que ja se iniciaram.

Os principais desafios da pesquisa em abacate estao relacionados ao aprimoramento dos sistemas de producao, visando aumentar a produtividade e a qualidade dos frutos, bem como melhorar a eficiencia na utilizacao do espaco fisico, da agua, dos nutrientes e demais insumos.

A pesquisa tambem busca obter novas cultivares com melhor adaptacao ao cultivo em condicões de estresse abiotico (frio, calor e restricao hidrica), alem de porta enxertos mais tolerantes a condicoes adversas de solo, como salinidade e presença de patogenos.



sábado, 30 de março de 2024

Caracterização do Abacaxi BRS Imperial

 

Caracterização do `BRS Imperial` 

A fusariose (Fusarium guttiforme) é a principal doença na cultura do abacaxi no Brasil que ainda causa perdas elevadas nos pomares brasileiros, emfunção do predomínio das cultivares Pérola e Smooth Cayenne, ambas suscetíveis àquela doença. A utilização de cultivares resistentes é o método mais eficiente e econômico recomendado para o controle da doença.

A cultivar BRS Imperial, lançada pela Embrapa Mandioca e Fruticultura em 2003, é a primeira cultivar híbrida resistente à fusariose obtida pormelhoramento genético. É resultante do cruzamento entre a cultivar Perolera (nativa dos Andes da Colômbia e da Venezuela) com a cultivar SmoothCayenne (Cabral e Matos, 2005). Foi avaliada pela primeira vez em campo em 1992. Nesta e em demais avaliações posteriores realizadas em distintasregiões produtoras do Brasil, esse híbrido se destacou pela produção de frutos com polpa amarela, elevado teor de açúcares e excelente sabor nasanálises sensoriais, além da resistência à fusariose. Outra vantagem do abacaxizeiro ‘BRS Imperial’ é a ausência de espinhos nas folhas, que facilita omanejo da cultura pelo produtor (Figura 1).

. Plantio de abacaxi ‘BRS Imperial’: (A) na fase vegetativa; (B) com frutos em desenvolvimento

Outras características desta cultivar são: planta com porte médio, com folhas curtas, de coloração verde escura, com faixa central arroxeada e bordoscom faixa prateada (‘piping’). O pedúnculo é curto, o que dificulta o tombamento do fruto e a consequente escaldadura ou queima pelo sol.

O número de mudas do tipo filhote é elevado, com média de nove, além da produção de mudas tipo rebentão e filhote rebentão ser mais elevada doque a ‘Pérola’.

O tamanho do fruto é de pequeno a médio, com peso entre 900 e 1.400 g, mas pode ultrapassar 2,0 kg em solos muito férteis ou quando o plantio ébem adubado. O formato é cilíndrico, com casca espessa e amarela na maturação, com frutilhos salientes (Figura 2). O elevado teor de ácido ascórbicona polpa dificulta o desenvolvimento do escurecimento interno, sintoma da injúria pelo frio, comum em cultivares como a ‘Smooth Cayenne’. A polpado abacaxi ‘BRS Imperial’ é amarelo ouro, com teor elevado de sólidos solúveis (15 a 19 Brix) e moderado de acidez (0,3 a 0,7%).

. Planta e fruto de abacaxi ‘BRS Imperial’.

Quando comparado com a cultivar Pérola, a ‘BRS Imperial’ apresenta um crescimento mais lento, que justifica o tratamento de indução floral após os14 ou 15 meses do plantio, considerando uma boa condução da planta. Isso representa um período de dois a três meses superior ao praticado para a‘Pérola’. A ‘BRS Imperial’ tem maior exigência em água, que justifica sua indicação para áreas irrigadas ou com boa precipitação ao longo do ano;maior exigência em fertilidade ou nutrição mineral e a presença de mudas tipo filhote muito próximas da base do fruto, que dificulta a colheita. Outrodiferencial é sua maior tolerância ao frio/fotoperíodo, o que dificulta a indução natural ao florescimento. Essa característica é particularmenteimportante para os produtores rurais mais tecnificados, pois permite maior controle na época de colheita.
O fruto da ‘BRS Imperial’ é indicado principalmente para consumo fresco. Em decorrência das suas excelentes características organolépticas, tem severificado que o abacaxi ‘BRS Imperial’ ainda representa um nicho de mercado, principalmente para mercados de alto poder aquisitivo ou mesmo paraexportação.
A cultivar BRS Imperial é particularmente interessante para a produção orgânica de abacaxi, em virtude da sua resistência à fusariose, o que dispensao produtor da aplicação de fungicidas com menor custo de produção, redução da poluição ambiental e fornecimento de um produto com melhorsegurança alimentar.
Estima-se atualmente que a redução de custo no controle químico da fusariose, ao utilizar cultivares resistentes a essa doença, é de,aproximadamente, R$ 1.600,00/hectare/ciclo (em 2017), ao considerar o custo de mão de obra e de produto fungicida para seis aplicações compulverizador costal nas cultivares suscetíveis.


domingo, 10 de março de 2024

Introdução e importância econômica do Abacaxi



Sumário

Introdução e importância econômica

Caracterização do 'BRS Imperial'

Escolha e preparo do solo

Correção da acidez do solo

Obtenção e manejo de mudas

Plantio

Irrigação

Adubação

Plantas espontâneas e seu controle

Indução artificial da floração

Doenças e seu controle

Pragas e seu controle

Colheita e pós-colheita

Custo de produção e rentabilidade


Introdução e importância econômica

O Brasil é o segundo maior país produtor de abacaxi no mundo, contribuindo com 10% da produção mundial em 2013 (FAO, 2013). Entretanto, a suaparticipação é muito pequena no mercado mundial de produtos de abacaxi, em virtude de destinar muito pouco às exportações, pois o mercadointerno é muito atraente, absorvendo quase toda a produção brasileira. Esse fato evidencia a grande potencialidade do produto ainda nesse mercado.Mesmo apresentando um grande potencial econômico e produtivo, a produtividade da abacaxicultura no Brasil é considerada baixa (39,3 t/ha), quandocomparada com alguns países destaques, cuja produção é voltada para o mercado externo e que apresentam produtividade de 50 a 60 t/ha (FAO,2013). A menor produtividade no Brasil pode ser explicada tanto pela variedade produzida (de menor peso e voltada para o mercado interno) comotambém por outras variáveis: sistema de produção, condições climáticas etc.

A Bahia já esteve entre os primeiros estados brasileiros produtores de abacaxi, mas, no momento, é o sexto produtor nacional, com uma produção de104,7 milhões de frutos colhidos, em uma área de 5.280 ha, com produtividade de 29,8 t ha-1, abaixo da média nacional, que foi de 39,3 t ha-1 (IBGE,2013). Neste estado, as mesorregiões mais importantes são: Centro Norte Baiano (ex: microrregião de Itaberaba, Senhor do Bonfim e Feira deSantana), Sul Baiano (microrregiões de Porto Seguro, Valença e Ilhéus-Itabuna) e Centro Sul Baiano (ex: microrregiões de Seabra e Jequié), que,juntas, participaram com 49%, 34% e 7%, respectivamente, da produção estadual de abacaxi. A região do Sul Baiano produziu 35,2 milhões de frutosem 2013, em uma área colhida de 1.648 hectares e produtividade de 32,0 t/ha, um pouco acima da média estadual, mas abaixo da média nacional.Estes últimos dados evidenciam a necessidade de incorporação de novos resultados de pesquisa capazes de aumentar a produtividade da cultura noEstado.

Das microrregiões baianas que produzem o abacaxi, quatro merecem destaque, por representarem cerca de 75% do total produzido no estado em2013: Itaberaba (41%), Porto Seguro (20%), Valença (9%) e Ilhéus-Itabuna (6%) (IBGE, 2013). Destas, a primeira representa a região semiárida, eas demais, as regiões litorâneas. Na microrregião de Porto Seguro, merecem destaque os municípios: Itabela, Prado, Eunápolis, Santa Cruz Cabrália,Caravelas, Nova Viçosa, Itamaraju, Alcobaça, Teixeira de Freitas, Medeiros Neto e Porto Seguro. Nos diversos municípios dessa região, o turismo éuma das principais atividades econômicas, e, como esse segmento é grande consumidor de frutas in natura e processadas, a fruticultura se apresentacomo boa opção de cultivo para comercialização no potencial mercado local.

Na fruticultura da mesorregião sul Baiana, a abacaxicultura tem se mostrado como uma das atividades agrícolas de excelente oportunidade. Oabacaxizeiro é uma planta rústica e resiste a períodos de déficit hídrico, o que possibilita o cultivo de variedades tradicionais, como ‘Pérola’ e ‘SmoothCayenne’, em áreas sem irrigação na região alvo desse sistema de produção. Porém, observações em áreas de produção de abacaxi têm demonstradoque a irrigação vem apresentando vantagens competitivas relevantes no cultivo do ‘Imperial’, que tem se apresentado mais exigente em água que o‘Pérola’. O fruto do abacaxizeiro apresenta boa aceitação para o consumo in natura e para o processamento, e adapta-se à utilização de pequenasáreas de cultivo. Além da sua importância econômica, a cultura do abacaxi desempenha também uma função social de destaque por sua condição deatividade absorvedora de mão de obra no meio rural, contribuindo para a geração de empregos ao longo de todo o seu cultivo.

Apesar de grande parte da mesorregião Sul Baiana apresentar terras planas, de fácil mecanização, condições climáticas favoráveis e boa quantidadede chuvas ao longo do ano, diversos fatores têm contribuído para a baixa produtividade (32 t ha-1) da cultura na região, dentre os quais: falta detecnologias adaptadas às condições edafoclimáticas; não utilização de tecnologias disponíveis; problemas fitossanitários, dentre os quais a fusariose éo mais importante; falta de planejamento da produção, com oferta de produto em período de preços baixos etc. A utilização de boas técnicas decultivo, aliada às boas condições dos recursos naturais do Sul Baiano, pode favorecer o crescimento da abacaxicultura na região, considerando que oprodutor pode escalonar a sua produção e garantir renda estável ao longo do ano, com colheitas planejadas para atender mercados locais ouatacadistas.

A fusariose é a principal doença da abacaxicultura e ocasiona elevadas perdas de plantas e frutos durante o processo produtivo. Em torno de 20% daprodução é perdida devido não só à fusariose, mas também a outros fatores, como cochonilha, broca do fruto, frutos pequenos (sem padrãocomercial), queima solar, falha na indução, etc. Com o plantio do abacaxizeiro ‘BRS Imperial’, cultivar resistente à fusariose desenvolvida pela EmbrapaMandioca e Fruticultura, espera-se que as perdas sejam reduzidas para, no máximo, 10%.

Esta publicação destina-se a disponibilizar informações técnicas sobre o cultivo do abacaxizeiro ‘BRS Imperial’ voltadas para a realidade do Sul Baiano,com base em resultados de pesquisas, de modo a contribuir com o desenvolvimento da abacaxicultura na região.



terça-feira, 26 de dezembro de 2023

Espécies, Variedades e Cultivares de Pitayas

 

Variabilidade genética

As pitayas são conhecidas mundialmente como Dragon Fruits ou Frutas-do-Dragão e pertencem à família Cactaceae, a qual possui aproximadamente 100 gêneros e 1.500 espécies nativas das Américas. No Brasil, a pitaya é considerada uma fruta exótica pelo fato de ser pouco conhecida, exuberante e comercializada com alto valor, principalmente em mercados exigentes.

Existem diferentes espécies cultivadas que são referidas como pitayas. A taxonomia das pitayas tem sido alvo de muitas controvérsias e revisões dos gêneros e espécies ao longo do tempo. Na revisão mais recente, as espécies mais importantes das pitayas do ponto de vista comercial foram classifi cadas dentro do gênero Selenicereus. As quatro espécies de maior potencial comercial apresentam diferenças quanto ao tamanho do fruto, cor da casca e cor da polpa: a Selenicereus undatus (Haw.) D.R.Hunt (frutos grandes com casca vermelha e polpa branca), Selenicereus costaricensis (F.A.C.Weber) S.Arias & N.Korotkova ex Hammel (frutos médios com casca vermelha e polpa vermelha), Selenicereus megalanthus (K.Schum. ex Vaupel) Moran (frutos médios com casca amarela com espinhos e polpa branca) e Selenicereus setaceus (Salm-Dyck ex DC.) A.Berger ex Werderm (frutos pequenos com casca vermelha com espinhos e polpa branca).

As espécies S. undatus e S. megalanthus são as mais cultivadas no mundo. A espécie S. undatus tem destaque comercial devido à sua alta produtividade e produção de frutos grandes e a espécie S. megalanthus por produzir frutos amarelos com uma polpa muito doce. A espécie S. costaricensis se destaca pela coloração vermelho-arroxeada da polpa com presença de compostos antioxidantes e a S. setaceus por ter uma polpa muito saborosa com uma combinação perfeita entre o teor de sólidos solúveis totais e uma leve acidez, o que confere um sabor aprimorado. A espécie S. setaceus é nativa da região do Cerrado, sendo o potencial comercial relatado por Junqueira et al. (2002).

É importante considerar que existe grande variabilidade intraespecífica, ou seja, existem diferenças genéticas entre acessos dentro de cada espécie. Esta variabilidade genética tem sido verificado para características de interesse agronômico como fenologia, produtividade, adaptabilidade, resistência a doenças, características físicas e químicas dos frutos, autocompatibilidade, vigor, precocidade, fenologia e sensibilidade ao fotoperíodo para indução de florescimento (Junqueira et al., 2010; Lima et al., 2014; Faleiro e Junqueira, 2021). Esta rica variabilidade é a base para os trabalhos de melhoramento genético das espécies, tendo em vista o desenvolvimento de cultivares geneticamente superiores (Faleiro e Junqueira, 2021).

Variedades cultivadas no Brasil

Podemos dizer que, atualmente, as mudas comercializadas de pitaya no Brasil não são provenientes de matrizes selecionadas e devidamente avaliadas do ponto de vista agronômico em diferentes regiões do País. Nos pomares de pitaya, há grande variação na produção, tamanho e formato de frutos, bem como em suas características físico-químicas, refl etindo a desuniformidade das plantas. Outro problema é que os produtores têm cultivado variedades importadas com baixa capacidade produtiva e baixa adaptação às condições edafoclimáticas brasileiras. Um exemplo é o cultivo, sem sucesso, da Pitaya Amarela importada da Colômbia.

No Brasil, há o cultivo de diferentes variedades que não foram devidamente avaliadas e registradas no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Além da Pitaya Amarela Colombiana, outras variedades sem registro são cultivadas no Brasil como a Vietnamese White, Golden, Orejona, Rabilonga, Vermelha Colombiana, Grafi te, Vênus, Tailandeza, Royal Red, além de populações e híbridos de diferentes espécies.

Esta observação evidencia a necessidade do desenvolvimento de cultivares com registro no Mapa e com garantia de origem genética, que possam ser recomendadas para cultivo em diferentes regiões do Brasil.

Atualmente, já existem as instruções normativas para os processos de registro e proteção de cultivares de pitayas no Mapa, além de um conjunto de descritores morfo-agronômicos utilizados para a diferenciação das cultivares das pitayas (Faleiro et al., 2021)

Melhoramento genético

As ações de pesquisa, desenvolvimento e inovação relacionadas ao melhoramento genético das pitayas são muito recentes no Brasil e no Mundo. A nível mundial, existem alguns grupos de pesquisa como nos Estados Unidos, países asiáticos e em Israel. No Brasil, atividades de caracterização e uso de recursos genéticos, tendo em vista o seu uso no melhoramento genético das pitayas têm sido realizadas na Embrapa Cerrados, Universidade Federal de Lavras, Universidade Estadual Paulista (Unesp), Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina, Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios, além de outras instituições públicas e privadas e alguns fruticultores e colecionadores.

Os primeiros trabalhos de seleção e melhoramento genético foram realizados em 2002 na Embrapa Cerrados (Faleiro e Junqueira, 2021) e somente em 2021 foram encaminhadas para registro no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento as cinco primeiras cultivares: BRS Lua do Cerrado, BRS Luz do Cerrado, BRS Minipitaya do Cerrado, BRS Granada do Cerrado e BRS Âmbar do Cerrado. Estas cultivares têm sido validadas em todas as regiões do Brasil com resultados animadores quanto ao desempenho agronômico.

Cultivares desenvolvidas pela Embrapa

BRS Lua do Cerrado (BRS LC): Cultivar de pitaya da espécie Selenicereus undatus com frutos redondos e vermelhos de polpa branca, para o mercado de frutas especiais. As principais características desta cultivar trabalhadas no melhoramento genético foram a produtividade, vigor, autocompatibilidade, maior tamanho do fruto e do teor de sólidos solúveis totais, além da maior resistência e tolerância a doenças. A cultivar BRS Lua do Cerrado (BRS LC) apresenta frutos grandes, com o formato arredondado.

Pode atingir mais de 30 t ha-1 ano-1. Os frutos são grandes, com massa média de 600 g (sem polinização manual), mas podem atingir massa superior a 1 kg (Figura 1a).

BRS Luz do Cerrado (BRS LZC): Cultivar de pitaya da espécie Selenicereus undatus com frutos alongados e vermelhos de polpa branca para o mercado de frutas especiais. As principais características desta cultivar trabalhadas no melhoramento genético foram a produtividade, vigor, autocompatibilidade, maior tamanho do fruto e do teor de sólidos solúveis totais, além da maior resistência e tolerância a doenças. A cultivar BRS Luz do Cerrado (BRS LZC), assim como a cultivar BRS Lua do Cerrado (BRS LC), apresenta frutos grandes, entretanto com o formato mais alongado.

Estas duas cultivares agregam diversidade às variedades de pitaya cultivadas comercialmente no Brasil, com o diferencial de ter garantia de origem genética e experiências de sucesso no cultivo em diferentes regiões e sistemas de produção. Pode atingir mais de 30 t.ha-1ano-1. Os frutos são grandes, com massa média de 550 g (sem polinização manual), mas podem atingir massa superior a 1 kg (Figura 1b).

BRS Granada do Cerrado (BRS GC): Cultivar híbrida de pitaya vermelha de polpa roxa (Selenicereus undatus x Selenicereus costaricensis). Esta cultivar foi obtida por meio do melhoramento genético convencional visando aumento de produtividade, autocompatibilidade, vigor, precocidade, características físicas e químicas dos frutos (frutos vermelhos de polpa roxa rica em antioxidantes) e resistência a doenças. Pode atingir uma produtividade de mais de 40 t.ha-1ano-1. Os frutos são de tamanho médio, massa média de aproximadamente 220 g e muito uniformes, com casca e polpa vermelha (Figura 1c).

BRS Mini Pitaya do Cerrado (BRS MPC): Cultivar de minipitaya da espécie Selenicereus setaceus, de frutos vermelhos com espinhos e polpa branca para uso na fruticultura ornamental e para o mercado de frutas especiais, considerando o sabor diferenciado da sua polpa. Uma perfeita combinação entre o teor de sólidos solúveis totais e a acidez confere à polpa do fruto desta cultivar um sabor aprimorado. As principais características desta cultivar trabalhadas no melhoramento genético foram a produtividade, autocompatibilidade, combinação do teor de sólidos solúveis totais e acidez da polpa, além da maior resistência e tolerância a doenças.

Esta cultivar tem origem na biodiversidade essencialmente brasileira, especificamente vinda da região do Cerrado. Pode atingir uma produtividade de mais de 10 t ha-1 ano-1. Os frutos são pequenos, com massa média de 80 g, muito doces com leve acidez, o que confere um sabor especial (Figura 1d).

BRS Âmbar do Cerrado (BRS AC): Cultivar de pitaya amarela, Selenicereus megalanthus, para o mercado de frutas especiais de alto valor agregado.

Esta cultivar foi obtida por meio do melhoramento genético convencional visando o aumento de produtividade, autocompatibilidade, vigor, precocidade, características físicas e químicas dos frutos (frutos maiores com polpa com elevado teor de sólidos solúveis totais), resistência a doenças e adaptabilidade. Existia uma mística de que pitayas amarelas não são adaptadas às condições edafoclimáticas brasileiras, mas por meio dos recursos genéticos disponíveis no Banco Ativo de Germoplasma (BAG) de Pitayas da Embrapa Cerrados e de ações de melhoramento genético via diferentes ciclos de seleção e recombinação visando à adaptabilidade, foi possível o desenvolvimento da cultivar BRS Âmbar do Cerrado. Foram realizados 3 ciclos de seleção clonal e matrizes clonais geneticamente superiores foram selecionadas e uma de destaque foi utilizada na geração da nova cultivar. Pode atingir produtividade de mais de 10 t ha-1 ano-1. Os frutos apresentam massa média de 150 g e são muito doces, o que confere um sabor especial (Figura 1e). Uma importante característica desta cultivar nas condições do Cerrado do Planalto Central é a produção na entressafra das demais cultivares de pitayas desenvolvidas pelo programa de melhoramento genético realizado na Embrapa Cerrados.

Figura 1. Características da planta e dos frutos das cultivares BRS Lua do Cerrado (a), BRS Luz do Cerrado (b), BRS Granada do Cerrado (c), BRS Mini Pitaya do Cerrado (d) e BRS Âmbar do Cerrado (e).



Produção de mudas de abacaxi para cultivo orgânico

 

Mudas 

O abacaxizeiro produz naturalmente quatro tipos de mudas: rebentões, filhotes rebentões, filhotes e coroas. A opção quanto ao tipo a ser utilizado depende da variedade cultivada, da disponibilidade de mudas e da preferência do produtor. Vale destacar que o ciclo do abacaxizeiro é influenciado pelo tipo de muda, sendo os rebentões os mais precoces, as coroas as mais tardias, com os filhotes apresentando comportamento intermediário. Além do ciclo mais longo, as mudas tipo coroa apresentam algumas outras desvantagens, tais como: são mais sujeitas à incidência de doenças, como a podridão do olho em condições de campo; cada planta só produz uma coroa; só estão disponíveis em regiões onde os frutos são destinados ao processamento industrial, uma vez que o abacaxi é comercializado com a coroa no mercado de frutas frescas.

Considerando o papel importante do material propagativo como transmissor de pragas e doenças, as mudas devem ser colhidas apenas em plantios onde a incidência de pragas e doenças foi nula. Além disto, as mudas só podem ser obtidas de plantios conduzidos em sistema orgânico, ou de plantio convencional após dois anos de conversão para o sistema de produção orgânico. Não havendo disponibilidade de mudas oriundas de sistema orgânico, de acordo com a IN 17 de 2014, pode-se obter autorização para utilização de outros materiais desde que não tratados com produtos não permitidos pela referida IN (Brasil, 2014). Para o sucesso do cultivo do abacaxizeiro em sistema orgânico de produção, é essencial realizar uma seleção criteriosa de mudas para evitar ou reduzir a introdução de agentes patogênico uma vez que, nesse sistema, poucos produtos podem ser utilizados para o controle de pragas e doenças da cultura.

Nesse sentido, a produção de mudas não convencionais pelo método melhorado de seccionamento de talo utilizando plantas matrizes oriundas de plantios orgânicos pode ser vista como uma tecnologia a mais para reduzir os riscos de infestação de novas áreas uma vez que permite um aprimoramento na seleção do material propagativo identificando com maior precisão sintomas de doenças como a fusariose e a murcha associadas à cochonilha (Figura 1). As mudas produzidas em viveiros, além da qualidade, permitem também a rastreabilidade, uma vez que é mantido registro de todo o processo de produção, procedimento importante para a certificação orgânica da atividade. Após a seleção de plantas matrizes no campo, os talos das plantas são seccionados tanto no sentido longitudinal como no sentido transversal, sendo tratados em solução de dióxido de cloro (5 ml/L de água) ou calda bordalesa (10 ml/L) por umperíodo de cinco minutos. Em seguida, as secções são secas à sombra e posteriormente encaminhadas para canteiros em local sombreado. Após a disposição dos talos nos canteiros, eles devem ser cobertos com uma fina camada de substrato como casca de pinus, coco, serragem, vermiculita ou outro resíduo de origem vegetal capaz de reter umidade. Entre os 30 e 45 dias iniciais, começam a surgir as primeiras brotações e, com 90 dias após o seccionamento, as mudas alcançam tamanho para serem transplantadas para os tubetes e canteiros onde se desenvolvem por 4 a 6 meses até atingirem tamanho ideal para campo (30-40 cm).

Além desses métodos de produção, outra possibilidade é a utilização de mudas obtidas em laboratórios ou biofábricas certificados, conhecidas como mudas micropropagadas ou de cultura de tecidos, contendo garantia da estabilidade genética.

Figura 1. (A) Seccionamento de talo de abacaxizeiro; (B) talos dispostos em canteiros cobertos com camada de substrato; (C) mudas de abacaxizeiro com 7-8 cm transplantas para tubetes; (D) mudas transplantadas para canteiros  

Seleção e tratamento das mudas

A qualidade do material de plantio merece uma atenção muito especial do produtor. As mudas precisam ser sadias, ter vigor e tamanho não inferior a 30 cm, sem a presença de sintomas da fusariose e da murcha, esta devido ao vírus transmitido pela cochonilha. É essencial realizar uma seleção visual rigorosa, descartando-se toda e qualquer muda com sintomas de ataque de pragas. Com o objetivo de controlar pragas, sobretudo cochonilhas e ácaros, pode-se realizar o processo de cura que consiste em colocar as mudas com a base voltada para cima, para secar ao sol, o que permite acelerar a cicatrização das lesões resultantes da colheita, além de eliminar o excesso de água presente nas mesmas. Após o período de cura, as mudas devem ser classificadas e plantadas em talhões por faixa de peso, de maneira a permitir melhor uniformidade no desenvolvimento das plantas, facilitando os tratos culturais e ensejando uma maior uniformidade no tamanho dos frutos ao final do ciclo. Em caso de morte de mudas nos primeiros três meses de cultivo, pode ser feito o replantio com mudas do mesmo tamanho das plantas em fase de crescimento.