quarta-feira, 20 de setembro de 2017

O Cultivo da Framboesa



A framboeseira é uma espécie frutífera ainda pouco cultivada no Brasil, cuja produção anual é de apenas 150 toneladas em uma área que não ultrapassa 50 hectares. Esses dados foram levantados junto a produtores e extensionistas, já que não existem estatísticas oficiais.
Os fruticultores têm manifestado interesse no cultivo dessa espécie do grupo das pequenas frutas, cuja demanda tem aumentado significativamente no País e, principalmente, no exterior, motivada por suas propriedades nutracêuticas associadas à prevenção de doenças e à longevidade. Há mais de uma década, a Embrapa Clima Temperado vem introduzindo, multiplicando e avaliando o desempenho produtivo de cultivares de framboeseira. Mais recentemente, a Embrapa Uva e Vinho iniciou uma série de pesquisas sobre a cultura, atualmente destacando-se nas áreas de monitoramento de doenças e indexação de matrizes e de mudas. A muda é um dos principais insumos do sistema de produção, sendo o ponto de partida para a obtenção de melhor resposta a qualquer tecnologia empregada no processo produtivo. Nesse aspecto, as mudas certificadas são as que oferecem maior garantia de qualidade genética, fitossanitária e fitotécnica, aumentando as chances de sucesso do empreendimento agrícola.
A presente publicação aborda o conjunto de tecnologias disponíveis sobre a produção de mudas de framboeseira, as quais estão em consonância com as normas de certificação vigentes. Além disso, são apresentados dados sobre as principais cultivares recomendadas no Brasil, relativos às suas exigências edafoclimáticas, potencial de produção e qualidade dos frutos. Espera-se, com isso, potencializar a produção de framboesa no Brasil e, ao mesmo tempo, contribuir para a diversificação da matriz produtiva.

A framboeseira (Rubus ideaus L.) é uma espécie do grupo das pequenas frutas ainda pouco cultivada no Brasil, sendo considerada uma alternativa de renda, principalmente para a pequena propriedade familiar das regiões de clima temperado. Trata-se de uma cultura de baixo custo de implantação, grande demanda por mão de obra, facilmente conduzida em sistema orgânico de produção e que apresenta alta rentabilidade por hectare (POLTRONIERI, 2003).
A produção de framboesa pode ser destinada tanto ao mercado de frutas frescas quanto à fabricação de polpa congelada, purês, conservas, geleias, sucos e concentrados para sorvetes e iogurtes (VENDRÚSCULO, 2004). O mercado nacional e internacional encontra-se em expansão, motivado pelas propriedades nutracêuticas dessa fruta, que se enquadra no grupo dos alimentos funcionais, ou seja, aqueles que, além de nutrir, têm ação comprovada na prevenção e/ou na cura de doenças. Segundo Salgado (2003), a framboesa é rica em vitamina C, betacaroteno e compostos fenólicos. Dentre os compostos fenólicos presentes, destacam-se os flavonoides, os quais se ligam a açúcares, formando complexos chamados de glicosídeos, que apresentam ação antioxidante, anticancerígena e anti-inflamatória, além de atuarem como retardadores do envelhecimento.
A produção mundial de framboesa é de aproximadamente 415 mil toneladas, sendo a Rússia a maior produtora, seguida pela Sérvia, Montenegro, Estados Unidos e Polônia (UNIVERSITY OF GEORGIA, 2006). Na América Latina, segundo Plaza (2003), o Chile se destaca, com produção anual de 30 mil toneladas, cultivadas em cerca de 5 mil ha, possuindo alta tecnologia de produção e logística de exportação para os principais mercados mundiais. Nos últimos anos, os plantios de framboeseira têm aumentando significativamente na Argentina e no Uruguai. Não existem dados mais recentes.
A produção de framboesa no Brasil iniciou-se com a chegada dos imigrantes alemães, que a cultivavam nos quintais de suas colônias, visando consumo familiar (PAGOT, 2004). A produção comercial ocorreu pela primeira vez em Campos do Jordão, Estado de São Paulo, em função de, na década de 1950, o Barão e Baronesa Von Leithner, terem introduzido o material para cultivo em sua fazenda, onde constituíram a empresa agroindustrial Alto da Boa Vista, que fabricava geleias, xaropes e uma bebida destilada de framboesa (FARIA, 2010). Mais tarde, foram realizados plantios nas regiões de Vacaria e de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, e no Sul de Minas Gerais (PAGOT, 2004). Não existem dados precisos e atuais sobre a cultura da framboeseira no Brasil, porém, com base nos dados divulgados porPagot e Hoffmann (2003), Faria (2010) e pelo IBGE (2012), estima-se que a área plantada seja de aproximadamente 50 ha, com produção anual de 150 toneladas e receita direta de R$ 500 mil. O mercado interno, assim como o internacional, tem se expandido nos últimos anos, sendo frequentes as importações de frutos de framboesa, principalmente do Chile, na forma congelada, para abastecimento das indústrias brasileiras.
Os principais fatores limitantes à expansão da cultura da framboeseira no Brasil referem-se à sensibilidade da planta e dos frutos à alta pluviometria e à alta umidade relativa do ar, alta suscetibilidade a fungos e a viroses, e exigência de frio hibernal para frutificação (PAGOT; HOFFMANN, 2003; INFOAGRO, 2006). Esses fatores restringem a área produtora a regiões de altitude elevada nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Minas Gerais.
As produtividades dos plantios de framboeseira no País são extremamente variáveis, sendo as maiores obtidas na região de Vacaria (5,6 t ha-1) (EMATER, 2004). No entanto, segundo Plaza (2003), a produção de um pomar adequadamente manejado pode chegar a 16 t ha-1. Esses dados demonstram a necessidade de se aperfeiçoar o sistema de produção adotado no País, o que somente será possível mediante a realização de pesquisas nas áreas de seleção e melhoramento genético, otimização do sistema de produção de mudas e manejo fitotécnico da cultura.


domingo, 17 de setembro de 2017

Coeficientes técnicos para a produção de Mirtilo


Por envolver consumidores de diversos segmentos econômicos, o mirtilo atinge valores interessantes no mercado externo, representando uma boa alternativa para a cadeia produtiva de regiões ainda com pouca tradição na sua comercialização, como a América do Sul. Dados registrados pela Organização Mundial de Agricultura e Alimentação das Nações Unidas (FAO) indicam que nos últimos 40 anos a produção mundial de mirtilo aumentou 7 vezes. No mesmo período, a área cultivada teve um acréscimo ao redor de 15 vezes. Nos últimos 11 anos, esses números praticamente duplicaram, passando de 105 mil toneladas em 1992 para 207 mil toneladas em 2002. O crescente interesse dos consumidores norte-americanos, europeus e asiáticos tem pressionado os tradicionais produtores mundiais a aumentarem a oferta do fruto, somado a novos empreendedores, entre eles o Chile, a Argentina e, mais recentemente, o Brasil. Os Estados Unidos detêm 50% da produção mundial do fruto, seguidos pelo Canadá, com 33%, e pelo continente europeu com 16%, cabendo ao restante do mundo apenas 1% de participação no volume produzido em 2002. É também nos Estados Unidos onde se encontram os maiores índices de consumo. Os norte-americanos importam cerca de 82% da produção do restante do mundo. Embora seja o maior produtor de mirtilo, o país não é auto-suficiente e, exceto nos meses de maio, junho e julho (período de safra), depende diretamente do abastecimento canadense, chileno, neozelandês e argentino. O crescente interesse dos consumidores norte-americanos, europeus e asiáticos tem pressionado os tradicionais produtores mundiais e os novos empreendedores a aumentar a oferta do fruto, entre eles o Chie, a Argentina e, mais recentemente, Uruguai e Brasil. Quanto aos países da América do Sul, cabe destacar a participação do Chile, que produz cerca de 7.500 t/ano, sendo o representante deste grupo que mais produz e mais exporta para o mercado norte-americano, concentrando seu abastecimento entre os meses de janeiro e abril. Outro país que merece destaque é a Argentina, que ingressou no mercado externo de mirtilo há pouco tempo, mas já apresenta números relevantes no abastecimento mundial da fruta. A primeira exportação argentina ocorreu em 1994 para o Reino Unido, mas somente em 1997 o país começou sua incursão pelo mercado norte-americano. Produzindo hoje cerca de 380 t/ano, 74% dessa produção é destinada ao abastecimento dos Estados Unidos entre os meses de outubro e dezembro. O quadro produtivo atual, no Brasil, está estimado em cerca de 60 toneladas, concentradas nas cidades de Vacaria e Lavras do Sul no Rio Grande do Sul, e Campos do Jordão em São Paulo, totalizando uma área de 12 ha em produção comercial. Para o ano de 2004, projeta-se um incremento de 15 ha de área plantada, o que poderá praticamente duplicar a produção. Para os próximos cinco anos, a empresa Nice Blueberries na cidade de Itá (RS) projeta aumentar a área explorada em 100 ha o que, definitivamente deixa claro o interesse brasileiro em inserir-se neste promissor mercado. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Fruticultura (IBRAF), em 2002 o Brasil exportou cerca de quatro toneladas de mirtilo, o que representou uma receita de US$ 24.000,00 aos produtores e divisas para o Brasil. Trata-se de um número pouco significativo, face ao potencial natural que o País oferece para a produção comercial. Porém, em vista das previsões otimistas, novos investidores surgirão, preenchendo a fatia do mercado interno, ainda não explorado com o produto nacional e, principalmente, o mercado internacional, facilitado pela política cambial ora praticada no Brasil.

Coeficientes de produção

A cultura do mirtilo explorada com fins comerciais, no Brasil, é recente e carece de informações econômicas, capazes de registro, como custo de produção, vida útil de um pomar, produtividade média durante a vida útil, etc. Na Tabela 8 discriminam-se as operações que compõem o sistema de produção explorado comercialmente no País e seus coeficientes técnicos.
Tabela 1. Coeficientes técnicos para a produção de Mirtilo (por hectare)
Especificação
Unidade
Quantidade
Implantação
Produção
1. Insumos
 
 
 
Mudas
muda
2.200
--
Sulfato de amônia
kg
--
200
Sulfato de potássio
kg
150
--
Superfosfato triplo
kg
216
60*
Mangueira (irrigação por gotejo)**
m
3.300
--
Formicida
kg
4
--
Cumbuca (100 gr)
Un.
60.000
--
Caixas de papelão
Un.
6.000
--
2. Preparo do solo e plantio
 
 
 
Roçada mecânica (3x)
H/M
0,5
0,5
Aração mecânica (1x)
H/M
0,5
--
Gradagem mecânica
H/M
0,5
--
Marcação e nivelamento
D/H
2
--
Coveamento e plantio
D/H
3
--
3. Tratos culturais
 
 
 
Capina mecânica (3x)
D/H
1
1
Capina manual (3x)
D/H
3
3
Aplicação de adubo (cobertura)
D/H
3
6
Aplicação de formicida
D/H
2
2
Poda verde
D/H
2
4
Poda de inverno
D/H
--
5
Irrigação
D/H
10
15
4. Colheita (***)
 
 
 
Colheita manual
D/H
--
15
Transporte interno
D/H
10
40
Embalagem
D/H
--
20
(*) Dependendo da análise foliar
(**) Moto bomba 3 a 5 cv/uma mangueira de 2"
(***) 3 t/ha no primeiro ano de produção; 6 t/ha nos anos seguintes.
Fonte: Embrapa Clima Temperado




quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Colheita e Pós colheita do Mirtilo



Colheita e pós-colheita de mirtilo (nacionais e estrangeiros), incluindo-se mecanismos de colheita mecânica e manual assistida assim como será analisada a problemática da calibração da fruta.
A colheita e o pós-colheita são fases de maior complexidade para produtores e responsáveis da cadeia logística, verificando-se que a maior perda de valor da produção nacional de mirtilo tem sido nesta fase.
A realização deste evento pretende contribuir para o aumento do conhecimento dos processos fisiológicos que ocorrem na fase de pós-colheita de mirtilo, a intricada relação entre a fase de colheita e o a vida útil da fruta, as metodologias existentes para a manutenção da qualidade e as quebras pós-colheita e algumas opções de comercialização de mirtilo, nomeadamente o processamento industrial, não esquecendo um balanço do panorama comercial do mercado do mirtilo e perspectivas de futuro.

Conservação pós-colheita

Durante o armazenamento de frutos ocorrem uma série de alterações químicas e físicas, as quais diminuem a qualidade, conduzindo à senescência e morte dos mesmos. Estas mudanças se devem a que os frutos são produtos que, depois de colhidos, continuam vivos, com as funções ativas do metabolismo vegetal, como respiração e transpiração.
As alterações podem ser devidas a:

Processos físicos

Em frutos, o processo físico mais importante está relacionado com a transpiração. Denomina-se transpiração, a perda de água em forma de vapor pelos tecidos. Ocorre porque os frutos contêm entre 85 a 90% de água na sua constituição, isto equivale a uma pressão de vapor interna de água equivalente a 99% de umidade relativa (UR). Assim, se evaporará água desde o interior do fruto até a atmosfera, sempre que a umidade da câmara seja menor que a do fruto. Esta é a principal causa da perda de peso dos frutos durante a pós-colheita. Perdas de peso acima de 3-5% resultam numa aparência pouco atrativa, reduzindo o valor comercial e a qualidade do produto.
Existem fatores que condicionam a perda de água. Entre estes se destacam os ambientais (temperatura, umidade relativa, déficit de pressão de vapor do ar e pressão atmosférica) e os biológicos (tamanho, presença de ceras naturais na superfície, espessura da cutícula, danos na superfície, estado de maturação, etc.). Como medida de prevenção para diminuir a perda de água recomenda-se baixar a temperatura, aumentar a umidade relativa e revestir os frutos (modificação da atmosfera com ceras, filmes poliméricos, etc.).

Processos químicos e bioquímicos

O principal processo é a respiração (degradação oxidativa de produtos mais complexos presentes na célula, tais como amido, açúcares e ácidos orgânicos, em moléculas mais simples como dióxido de carbono e água, com liberação de energia). Os frutos após a colheita respiram continuamente, utilizando as reservas armazenadas, consumindo oxigênio e desprendendo gás carbônico. A ausência de respiração pode ser considerada a principal forma de diferenciar a conservação de frutos processados dos frutos in natura. Mais taxas respiratórias significam mais rápida deterioração.
Os frutos, segundo o padrão respiratório, são classificados em climatéricos - onde a produção de CO2 e o consumo de O2 diminuem antes da colheita, durante certo tempo, para logo aumentar rapidamente, até um máximo, e, sem seguida diminuir, provocando a morte do fruto; não climatéricos – a taxa respiratória do fruto diminui gradativamente, desde a colheita até que o fruto atinja o estágio final de senescência.
A taxa respiratória aumenta à medida que se incrementa a temperatura. De modo geral, quando a temperatura aumenta em 10ºC, a intensidade respiratória aumenta, em média, de duas a três vezes. Acima de 35ºC a intensidade respiratória diminui devido ao um bloqueio no sistema enzimático.

Ação de microrganismos

Fungos e bactérias são os microorganismos mais importantes como agentes causadores de doenças que surgem após a colheita e durante o armazenamento, constituindo-se num dos principais fatores de perdas qualitativas e quantitativas dos frutos. Podem, ainda, infectar os frutos no pomar, e se desenvolverem durante a conservação, ou promover a infecção na própria frigoconservação, em casos de falta de higienização dos equipamentos utilizados para classificação, das embalagens de colheita e das câmaras frias.

Fatores que condicionam a conservação pós-colheita

Considerando os frutos como elementos resultantes da produção agrícola, é evidente que fatores de campo (pré-colheita) tenham influência fundamental na conservação pós-colheita, sendo estes de extrema importância para que o produto apresente potencialidade máxima de armazenamento. Podem ser divididos em:

Fatores do pomar

Grau de maturação do fruto na colheita
O grau ótimo de maturação do fruto no momento da colheita é de fundamental importância, pois influencia diretamente na palatabilidade e conseqüente aceitação pelo consumidor, como também o máximo tempo de armazenamento. Assim, frutos colhidos imaturos, ainda que receba manejo adequado de pós-colheita, possuem qualidade comercial e apresentação inferior àquele colhido com grau ótimo de maturação.
Recomenda-se, independentemente da cultivar, que os frutos apresentem as seguintes características químicas e físicas na colheita (Tabela 7).
Tabela 1. Característica físico-químico de frutos de mirtilo.
Características
Valor médio
Peso (g)
1,0-1,30
Sólidos solúveis totais (SST)
13-14,0
Acidez total titulável (AT) (%ácido cítrico)
0,4-0,5
Relação SST/AT
36,0-37,0
Firmeza (libras)
9,0-10,0
Fonte: Embrapa Clima Temperado
Colheita
Durante todo o processo de colheita, é importante o manejo cuidadoso do fruto. Assim, pequenos danos no fruto, constituem-se em problemas graves durante o armazenamento, pois ferimentos que rompam a casca dos frutos, facilitam o ataque de fungos e aumentam a perda de água, diminuindo a qualidade comercial dos mesmos. Portanto, são necessários alguns cuidados básicos tais como;
  • Não provocar qualquer tipo de dano mecânico ao fruto, seja por choque com embalagens, utilização de ferramentas, queda de frutos no chão, colhedores com unhas muito compridas;
  • Realizar a colheita nas horas mais frescas do dia, colocando as frutas em local protegido do sol (Figura 60);
  • Não realizar a colheita logo após a ocorrência de chuvas fortes;
  • Procurar colher os frutos com o mesmo grau de coloração (frutos com azul intenso uniforme) (Figura 61);
  • Colher os frutos diretamente na embalagem de comercialização (Figura 62); e
  • Não realizar o empilhamento excessivo de caixas.
Dependendo da cultivar, a colheita poderá ser realizada em cinco ou seis vezes (repassadas), uma vez que a maturação dos frutos ocorre de modo desuniforme.
Observação: Um bom colhedor (com experiência) colhe cerca de 14,0 kg de mirtilos por dia.
Foto: Enilton Fick Coutinho
Figura 1. Estrutura de sombrite, no interior de uma plantação de mirtilo, utilizada para colocar embalagens de colheita.
Fotos: Enilton Fick Coutinho
Figura 2. A = Mirtilos colhidos no estádio em maturação adequada (epiderme azul uniforme). B = Mirtilos em diferentes estágios de maturação.
Foto: Enilton Fick Coutinho
Figura 3. Embalagens utilizadas para comercialização de mirtilos.
Pré-resfriamento
Consiste em uma rápida eliminação do calor ??que o fruto possui ao ser colhido. Este processo é realizado antes do armazenamento definitivo do fruto. O objetivo é reduzir rapidamente os processos de respiração e transpiração, constituindo-se na primeira etapa da cadeia de frio. No entanto, para que seja eficaz, deve ser realizado em tempo mínimo (cerca de 4 horas após a colheita). Normalmente, se busca reduzir a temperatura do produto para o mais próximo possível da temperatura de armazenamento, geralmente em torno de 4ºC.
Duas considerações são essenciais para a aplicação desta técnica:
  1. O período de tempo entre a colheita e o pré-resfriamento do fruto deve ser o menor possível, respeitando, logicamente, as questões de logística.
  2. A velocidade de pré-resfriamento deve ser a maior possível. Quanto mais rápido se baixa a temperatura de polpa dos frutos, melhores serão os resultados obtidos.
A maior ou menor velocidade de esfriamento obtida dependerá de fatores como: sistemas utilizados, tamanho do fruto, facilidade de penetração do meio refrigerante no produto, diferença de temperatura entre o produto e o meio, tipo de refrigerante e sua velocidade de circulação e tipo de embalagem.
São recomendados, em geral, dois tipos de sistemas de pré-resfriamento para mirtilos:
  1. Por água fria ou “hidrocooling" Os frutos são submetidos a imersão em água fria (1-2ºC) ou transportadas e tratadas através de um túnel onde estão localizadas duchas ou jatos de água. Neste sistema, a transferência de calor é rápida e homogênea e a perda de peso é praticamente nula. Observação: a água deve ser renovada e desinfestada periodicamente, para evitar problemas fitossanitários por contaminação da água por fungos.
  2. Por circulação de ar frio ou “forced air cooling”: Neste sistema, o ar frio entra em contato direto com o fruto, proporcionando seu resfriamento. A eficiência deste método dependerá da qualidade de transferência de calor entre ar, embalagem e produto. O contato do ar com o fruto deverá ser facilitado ao máximo.
A vantagem deste sistema é que se pode aproveitar toda a infra-estrutura instalada (câmaras). Seu inconveniente é que pode produzir desidratação dos frutos. Para evitar isto, recomenda-se utilizar umidificadores nas câmaras.
As alternativas para aplicar este método são:
  1. Câmaras ou túnel de pré-refrigeração: a velocidade de circulação do ar poderá ser de 2-5 m/s no pré-resfriamento e de 0,25-0,50 m/s durante o armazenamento do produto.
  2. Sistema de ar forçado (pressão de ar): Neste caso, o ar frio é forçado a passar através das embalagens dos frutos.

Armazenamento

Ambiente
Os mirtilos são armazenados em condições ambientes (20-25ºC e 65-70% de UR). Geralmente, este tipo de armazenamento é realizado por produtores rurais que têm acesso a câmaras frias, seja de forma comunitária ou não. Os frutos são conservados, durante, no máximo, 10 dias (dependendo da cultivar).
Refrigerado
O armazenamento de produtos em câmaras com circulação de ar resfriado, por meio de uma planta de refrigeração, é chamado, comumente, de armazenamento refrigerado.
A refrigeração, no armazenamento, tem sido difundida e aplicada, prolongando a comercialização dos frutos. Nos frutos não climatéricos (mirtilo), essa prática simplesmente, acarreta uma diminuição na taxa de deterioração, enquanto que nos climatéricos retarda-se, também, o processo de amadurecimento. O abaixamento da temperatura serve também como complemento para outros métodos de conservação de frutos, tais como o controle ou a modificação da atmosfera, a irradiação e o uso de produtos químicos que, se utilizados isoladamente, muitas vezes não surtem efeitos satisfatórios.
Em atmosfera modificada
O termo armazenamento em atmosfera modificada é utilizado quando a composição da atmosfera de armazenamento não é hermeticamente fechada, tal como a utilização de filmes plásticos, onde ocorrem as alterações da composição da atmosfera (oxigênio, nitrogênio, dióxido de carbono, etileno, etc.), voluntária ou involuntariamente.
O armazenamento refrigerado (0ºC e 85-90% de UR) de mirtilos, associado à modificação da atmosfera pelo uso de PVC (Cloreto de Polivinila), perfurado e com espessura de 7µ, proporciona a conservação os frutos durante 14 e 30 dias para o consumo in natura e processamento, respectivamente.
Em atmosfera controlada
A atmosfera controlada tem os mesmos princípios da modificada, porém difere quanto ao controle dos níveis de CO2 e O2 durante o armazenamento, onde estes devem ser constantemente monitorados e mantidos em valores toleráveis para cada espécie e cultivar.
No Brasil, não são comuns relatos de pesquisa sobre o uso de atmosfera controlada na conservação pós-colheita de mirtilos.
Ceponis & Cappellini (1985), ao armazenarem mirtilos durante 17 dias (14 dias a 2ºC, mais três dias a 21ºC), com o uso de atmosfera controlada (20% de CO2 e 2% de O2), obtiveram frutos com excelente qualidade comercial, além da redução em 14% na deterioração dos frutos devido, à incidência de doenças fúngicas.




quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Doenças do Mirtilo


A cultura do mirtilo (Vaccinium ashei) vem ganhando destaque como mais uma boa alternativa de renda para a agricultura familiar e empresarial na região Sul do Rio Grande do Sul. A introdução e o cultivo dessas culturas são recentes, mas apresentam um grande potencial de crescimento na região, e também em outras localidades do Estado, despertando muito o interesse dos agricultores que buscam novas alternativas agrícolas. Apesar disso, ainda os estudos sobre as doenças que ocorrem nessa cultura é muito incipiente, tornando necessários trabalhos de levantamento e monitoramento dos problemas fitossanitários, que podem ou poderão causar perdas na produção dessas fruteiras.
A melhor estratégia de controle de pragas e doenças está na prevenção, evitando a sua introdução em uma área indene. Como a cultura de mirtilo ainda é pouco difundida no Brasil, o trabalho de prevenção de doenças se torna mais fácil, principalmente daquelas que são disseminados através de material propagativo. O uso do método preventivo contribui muito no controle de doenças, reduzindo o seu custo de produção e os danos por eles causados, aumentando a qualidade do produto final, tanto do ponto de vista visual, como de sabor, além da redução da dependência da aplicação de agrotóxicos, que muitas vezes são necessárias para solucionar os problemas fitossanitários.
Devido aos fatores acima citados, são importantes os estudos sobre as doenças que ocorrem em mirtilo. Durante os anos de 2004 e 2005 foram feitos levantamentos de doenças que ocorrem em mirtilo do Banco de Germoplasma e em unidades demonstrativas de produção que estão sendo instaladas na região Sul do Rio Grande do Sul. A presente publicação relata os fungos que foram encontrados associados à cultura do mirtilo nesse trabalho.

Fungos encontrados em mirtilo

Os principais gêneros de fungos constatados com maior freqüência no trabalho de levantamento realizado nos anos de 2004 a 2005 estão relacionados na Tabela 1. Para esse trabalho foram feitos o diagnóstico direto do material coletado, com suspeita de dano causado por fitopatógeno, ou por posterior isolamento em meio de cultura de BDA. Entre eles, o único que foi detectado, mas que provelmente não causa danos ao mirtilo é oTrichoderma, já que este gênero de fungo está mais associado ao controle biológico de outros fungos fitopatogênicos e é normalmente encontrado na superfície de plantas. Os outros fungos são considerados patógenos de plantas, portanto com potencial para causar danos em mirtilo.
Tabela 1. Principais gêneros de fungos associados à planta de mirtilo.
Cultura
Órgão da planta
Gênero de fungo
Mirtilo
Folha
Trichoderma
Ramo
Pestalotia
Botrytis
Flor
Botrytis
Trichoderma
Fruto
Colletotrichum
Aspergillus
Colo e raiz
Sclerotium
Phythophthora
Fonte: Embrapa Clima Temperado
O fungo Pestalotia foi encontrado associado à ramos com necrose superficial (Fig. 1). É mais comum em ramos que são usados para estaquia, principalmente quando há uma demora no seu enraizamento, chegando a secá-lo internamente. Ele é descrito com um patógeno secundário (Caruso & Ramsdell, 1995) de frutos nos EUA. Aparentemente em plantas com bom vigor este fungo não seria importante como fitopatógeno.
Foto: Bernardo Ueno 
Figura 1. Ramo de mirtilo atacado por Pestalotia sp.
Associado às flores de mirtilo foram constatados fungos do gênero Botrytis e Trichoderma, mas só o primeiro é importante. A espécie deve ser B. cinerea, fungo que é comum também em outras culturas no Brasil. É considerada uma doença importante no mirtilo, causando sérios prejuízos, pois afeta ramos, flores e frutos (Caruso & Ramsdell, 1995). No presente trabalho foi constatado a ocorrência de Botrytis em flores e ramos de mirtilo (Fig. 2). Devido aos danos que B. cinerea causa em mirtilo, é recomendado o controle preventivo com fungicidas na época da florada e frutificação até a colheita (Yang et al., 2005).
Frutos de mirtilo apresentaram doenças causadas por fungos do gênero Colletotrichum eAspergillus. Segundo Caruso & Ramsdell (1995), o primeiro é um patógeno primário e o segundo secundário. O Colletotrichum ataca frutos maduros causando o apodrecimento e formando sobre ele acérvulos com esporulação aralanjada, pode afetar ramos também (Michigan State University, 2006). É recomendado eliminação de ramos doentes, podas para melhor aeração da planta, cultivares resistentes e uso de fungicidas na época do florescimento até a pré-colheita. O Aspergillus causa necrose em frutos maduros conforme está mostrado na Figura 3.
Foto: Bernardo Ueno 
Figura 2.  Flores e ramos de mirtilo com sintomas de ataque de Botrytis cinerea.
Foto: Bernardo Ueno
Figura 3. Fruto de mirtilo atacado por Aspergillus sp.
O fungo Sclerotium rolfsii foi encontrado em plantas que tinham aproximadamente um ano e apresentavam necrose na região do colo, o que provavelmente resultou em sintomas de amarelecimento, murcha e posterior morte de plantas. A presença de esclerócios arredondados, semelhantes às sementes de brássicas que indica a infecção da planta por esse fungo. S. rolfsii causa anelamento do colo da planta, o que resulta nos sintomas acima descritos. Esse fungo é muito comum em locais que acumula muita umidade e matéria orgânica e condições de alta temperatura, portanto é importante evitar que isso aconteça.
Phytophthora foi detectado em plantas que apresentavam folhas avermelhadas, queda de folhas, causando posteriormente desfolha total e morte de plantas (Fig. 4). A região do colo da planta apresenta um anelamento e a parte interna do tronco e caule próximo a essa região está necrosada, conforme está ilustrado na Figura 4. A espécie de Phytophthora que é relatada como causadora do sintoma acima descrito é P. cinnamomi (Caruso & Ramsdell, 1995). Solos encharcados, uso de serragem mal curtida, excesso de nitrogênio favorecem o ataque por Phytophthora (Pscheidt, 2005). Segundo este mesmo autor, além do manejo cultural evitando criar condições favoráveis para o estabelecimento do fungo, quando necessário é recomendado o uso de produtos químicos a base de metalaxil, fosetil-Al ou fosfito na folha e no solo.
Foto: Bernardo Ueno
Figura 4.  Plantas com sintomas causados por Phytophthora




sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Irrigação no Mirtilo

Para que o pomar de mirtilo tenha um bom desenvolvimento, as plantas devem ter suas necessidades hídricas supridas adequadamente. A irrigação é um fator determinante para o crescimento e produção do mirtilo, pois em função das características do sistema radicular, superficial e de poucos pêlos radiculares, a capacidade de absorção é reduzida. Mingeau et al. (2001) verificaram, para variedades do grupo highbush, que o diâmetro de ramos é afetado pelo déficit hídrico principalmente na fase de crescimento vegetativo. Os autores verificaram ainda que o crescimento dos ramos é afetado principalmente em estiagens longas, visto que a planta possui capacidade de retomar as taxas de crescimento, quando cessado o período de estresse. Pode-se definir duas fases criticas em relação à disponibilidade de água no solo para a cultura: A primeira diz respeito à fase de implantação e formação do pomar. Nos dois primeiros anos, a prioridade é a formação de estrutura vegetativa (ramos) e principalmente do sistema radicular (pois é esta estrutura que será perene no pomar, em virtude de periodicamente os ramos serem podados e substituídos por novos lançamentos). Nesta fase, deve-se disponibilizar adequadamente água, especialmente nos períodos onde as chuvas são insuficientes para fornecimento adequado de água às plantas. A segunda fase critica diz respeito a produção de frutos. Conforme Mingeau et al. (2001), deficiência hídrica reduz a produção e o número de frutos. Se esta for moderada, ocorrida em qualquer fase fenológica da planta, a redução é próxima a 20%. Sob restrição severa, a redução pode ser de 31 a 49%, se ocorrer na fase de crescimento vegetativo ou maturação de frutos respectivamente. Esta redução é influenciada, principalmente, pela redução ao peso médio dos frutos (17% para restrição moderada e de 30% a 39% sob restrição severa ocorrida na floração ou no período vegetativo, respectivamente), visto que a queda de frutos, número de flores e frutos e formação deste não é afetada. Outra característica da espécie é que não apresenta boa resistência ou adaptação à terrenos encharcados, o que deve ser evitado por ocasião da implantação do pomar. Entre os tipos de cultivo, variedades do grupo highbush são mais sensíveis à falta de água no solo, enquanto as do grupo habitteye são mais tolerantes, porém também são afetadas por este fator. A cultura se adapta bem aos vários métodos de irrigação, desde os de superfície até os localizados (Figura 51 e 52), largamente utilizados nas regiões de maior plantio, como Argentina, Chile e Uruguai. Seu requerimento de água é variável conforme o desenvolvimento da planta e às condições do clima que determinam a demanda atmosférica por água. Mingeau et al. (2001) manejando a água próximo à capacidade de campo do solo atingiram as maiores produtividades. Holzapfel et al. (2004) trabalhando na Estação Experimental de Concepción, no Chile, avaliaram durante 7 anos dois sistemas de irrigação (gotejamento e microaspersão) e níveis de aplicação de água, na variedade Bluetta, e verificaram que a maior produção de frutos (10,3 t.ha-¹) foi obtida com a aplicação de 6.200 m³ .ha-¹ e que a produção foi crescente com o aumento de água até este volume, porém verificou que volumes maiores reduziam a produtividade. Deficiência hídrica em mirtilo também afeta a produtividade da próxima safra, ou seja, reduz o potencial produtivo do pomar para os próximos anos. Mingeau et al. (2001) verificaram que, apesar da planta reduzir o número de novos ramos, modificando a arquitetura da planta, a evapotranspiração não é influenciada. Por outro lado, os fatores de produção são afetados com a restrição hídrica. Forte estresse hídrico, ocorrido após a colheita, reduz o número de frutos em 43 % no próximo ciclo e 23% para estresse moderado. O tamanho dos frutos pode diminuir quase 60% para forte estresse e 21% para moderado. Quando a falta de água ocorre no período de crescimento do fruto, a redução da produção é de 27%.
Foto: Luis E. C. Antunes
Figura 1.  Irrigação superficial de mirtilo.
Fotos: Luis E. C. Antunes
Figura 2. Irrigação localizada através de tubo gotejador.