sábado, 14 de julho de 2018

Exigências Climáticas para a Cultura da Banana


A bananeira, como uma planta tropical, exige calor constante, precipitações bem distribuídas e elevada umidade para o seu crescimento, desenvolvimento e produção.
O Submédio São Francisco situa-se numa região com ótimas condições climáticas para a prática da agricultura irrigada, apresentando alta luminosidade e temperatura o que favorece o rápido crescimento vegetativo da bananeira.

Temperatura

A temperatura é um fator muito importante no cultivo da bananeira, porque influi diretamente nos processos respiratórios e fotossintéticos da planta, estando relacionada com a altitude, luminosidade e ventos. A temperatura ótima para o desenvolvimento normal das bananeiras comerciais situa-se em torno de 28 oC. Considera-se a faixa de 15 oC a 35 oC de temperatura como os limites extremos para a exploração racional da cultura. Havendo suprimento de água e de nutrientes, essa faixa de temperatura induz ao crescimento ótimo da planta. Abaixo de 15 oC a atividade da planta é paralisada e, acima de 35 oC, o desenvolvimento é inibido, principalmente devido à desidratação dos tecidos, sobretudo das folhas, especialmente sob condições de sequeiro.
Na região do Submédio São Francisco a temperatura média é de 26,3 oC, estando, portanto dentro das faixas adequadas à cultura.

Precipitação

Para obtenção de colheitas economicamente rentáveis, considera-se suficiente uma precipitação, bem distribuída, de 100 mm/mês, para solos com boa capacidade de retenção de água, a 180 mm/mês para solos com menor capacidade de retenção; contudo, deve ser assegurada uma disponibilidade de água não inferior a 75%. Assim, a precipitação efetiva anual seria de 1.200-2.160 mm/ano. Abaixo de 1.200 mm/ano os climas são considerados marginais, e a bananeira somente sobrevive e frutifica se a cultivar plantada for tolerante ou resistente à seca ou se for utilizada a prática de irrigação.
O regime pluviométrico da região do Submédio São Francisco apresenta um total anual médio de chuvas de 608 mm, concentrado no período de janeiro-março, insuficiente para atender às necessidades da bananeira, havendo necessidade de irrigação.

Luminosidade

A bananeira requer alta luminosidade, a qual reduz o tempo de colheita do cacho; porém, níveis excessivamente altos podem provocar queima das folhas. Em regiões de alta luminosidade, o período para que o cacho atinja o ponto de corte comercial é de 80 a 90 dias após a sua emissão, enquanto que, em regiões com baixa luminosidade em algumas épocas do ano, o período necessário para o cacho alcançar o ponto de corte comercial varia de 85 a 112 dias.

Vento

O vento é um fator climático importante, podendo causar desde pequenos danos, até a destruição do bananal. A velocidade do vento deve ser inferior a 40 km/h, pois pode levar a desidratação da planta, fendilhamento das nervuras secundárias e diminuição da área fotossintética.
Na região do Submédio São Francisco o vento tem sido um dos fatores limitantes para a bananeira, principalmente para cultivares de porte alto.

Umidade relativa

A bananeira, como planta típica das regiões tropicais úmidas, apresenta melhor desenvolvimento em locais com médias anuais de umidade relativa superiores a 80%. Esta condição acelera a emissão das folhas, prolonga sua longevidade, favorece a emissão da inflorescência e uniformiza a coloração dos frutos.
O clima semiárido propicia condições menos favoráveis ao desenvolvimento de doenças fúngicas de parte aérea como o mal-de-sigatoka.

Altitude

A bananeira é cultivada em altitudes que variam de 0 a 1.000 m acima do nível do mar. A altitude influencia nos fatores climáticos (temperatura, chuva, umidade relativa, luminosidade, entre outros) que, consequentemente, afetarão o crescimento e a produção da bananeira. Variações na altitude induzem alterações no ciclo da cultura.
Comparações de bananais conduzidos sob as mesmas condições de cultivo, solos, chuvas e umidade evidenciaram aumento de 30 a 45 dias no ciclo de produção para cada 100 m de acréscimo na altitude.

7 – Exigências climáticas
Antes de se fazer o plantio de um bananal, em escala comercial, é preciso estudar bem os fatores climáticos da localidade, para se saber se eles suprem aqueles que a planta exige. Se eles não forem favoráveis à cultura, dificilmente o produtor obterá bons lucros, pois os fatores climáticos são os grandes responsáveis pelo desenvolvimento da planta.
7.1 - Temperatura
Os limites mais favoráveis de temperatura para o bom desenvolvimento da bananeira estão entre 20° a 24°C, registrados ao redor do pseudocaule a 100 cm do solo. A bananeira também pode se desenvolver satisfatoriamente em locais com temperatura abaixo e acima dos limites citados, porém com prejuízos para o ritmo de seu desenvolvimento e da qualidade da banana.
As temperaturas de 15° e 35°C têm sido apontadas como os limites extremos entre os quais a bananeira encontraria boas condições para crescer e produzir. Se os valores absolutos da temperatura permanecerem dentro desses índices (15° e 35°C), o cultivo da bananeira estará assegurado na área. Temperaturas pouco acima de 24ºC, por breve período de tempo, também são favoráveis à produção da bananeira.
Quando a temperatura mínima cai abaixo de 12ºC, os tecidos da planta são prejudicados, principalmente os da casca do fruto. Se descer até 4ºC, inicialmente começam a aparecer nos bordos das folhas as primeiras manchas amarelas, as quais se acentuam com o tempo, culminando com danos letais nessa área.
Quando a temperatura sobe acima de 35ºC, há inibições no desenvolvimento da planta devido, principalmente, à desidratação dos tecidos, em especial, o das folhas. Isto faz com que elas se tornem rígidas e sujeitas ao fendilhamento mais facilmente.
A temperatura é muito importante para a bananicultura em relação a várias moléstias e pragas que atacam a planta e cuja velocidade de desenvolvimento delas varia em função desse fator.

7.2 - Precipitação
A bananeira necessita permanentemente de umidade, oriunda de chuvas ou de irrigação. Para ela o importante não é a média anual que interessa e sim a diária. O ideal seria que a média anual de chuvas caísse dividida semanalmente.
Regiões onde haja uma estação das chuvas e outra da seca bem definidas não são boas, pois a bananeira não precisa de hibernação para crescer ou produzir.
A quantidade de água que ela precisa para ter um bom desenvolvimento e produção varia com os múltiplos fatores climáticos no que concerne aos seus limites máximos e mínimos e, quanto ao solo, no que se refere aos fatores profundidade, textura, declividade, drenagem, etc.
Se não houver suficiente regularidade e quantidade de chuvas, a irrigação precisará ser feita. Isto é importante, principalmente para as raízes poderem ter um bom e constante desenvolvimento.

7.3 – Umidade Relativa
As regiões onde a umidade relativa média anual situa-se acima de 80% são as mais favoráveis à bananicultura.
Esta alta umidade acelera a emissão de folhas, prolonga a sua longevidade, favorece o lançamento da inflorescência e uniformiza a coloração da fruta. Contudo, quando associada a chuvas e variações de temperatura, provoca a ocorrência de doenças fúngicas.
Sob condições de baixo teor de umidade as folhas tornam-se mais coriáceas e têm vida mais curta.

7.4 – Luminosidade
A bananeira tem seu melhor crescimento quando recebe mais de 2.000 lux (horas de luz/ano queimada no heliógrafo) suportando, contudo, até um limite de 1.000 lux. Valores abaixo são insuficientes para que ela tenha desenvolvimento normal.
Se cultivada em local que receba apenas 30% do limite mínimo de luminosidade, em caráter permanente, a bananeira tende a não interromper seu contínuo e lento desenvolvimento, mantendo-se apenas em fase vegetativa, podendo até mesmo chegar a não entrar no processo da diferenciação floral. Disto resulta que a bananeira não suporta sombra artificial ou natural (cerração, bruma, poluição, sombra de morros, etc.) sobre suas folhas, pois ela retarda seu desenvolvimento, principalmente por não fazer a fotossíntese.
Quando muito acima do limite máximo citado, pode haver queima das folhas, o que acontece, principalmente, durante a fase de cartucho ou folha recém-aberta. Nessa idade da folha seu tecido é muito tenro, ficando vulnerável aos raios solares. Da mesma forma, a inflorescência pode também ser prejudicada pelos mesmos fatores. Apenas nas áreas com luminosidade muito alta (4.000 lux), poder-se-ia pensar em sombrear parcialmente, as bananeiras.

7.5 – Vento
O vento é uma das maiores preocupações comuns a todos os produtores de banana. Os prejuízos e a perda da produção que o vento causa, por derrubar as bananeiras ou romper suas raízes e folhas, são, em geral, maiores do que os provocados pela sigatoka-amarela não controlada.
Esse é um aspecto para o qual os bananicultores e principalmente os brasileiros, não têm voltado sua atenção e, por isso, não protegem suas plantações como o fazem outros povos, em especial os europeus, que consideram o quebra-vento como um seguro agrícola, que fica de geração para geração.
Os ventos são capazes de provocar danos suficientes para arrasar em poucos minutos uma boa plantação. Eles causam prejuízos proporcionais à sua intensidade, a saber:
a) “chilling” ou “friagem” que consiste em danos fisiológicos na bananeira e ou no fruto, causados por baixas temperaturas;
b) desidratação da planta devido à grande evaporação;
c) fendilhamento entre as nervuras secundárias;
d) diminuição da área foliar pela dilaceração das folhas que já foram fendilhadas;
e) rompimento das raízes;
f) quebra do seu pseudocaule;
g) tombamento inteiro da bananeira e sua “família”.

7.6 – Altitude
A altitude afeta diretamente a temperatura, chuvas, umidade relativa, luminosidade, etc., fatores estes que, por sua vez, influem no desenvolvimento e na produção da bananeira.
Trabalhos realizados em regiões tropicais equatorianas, com baixas altitudes, demonstraram que o ciclo de produção da bananeira, principalmente do subgrupo Cavendish, foi de 8 a 10 meses. Nessas regiões, onde a altitude passou para 900 m, ele aumentou para 18 meses.
Comparações feitas entre plantações conduzidas em situações iguais de cultivo, solos, chuvas, umidade, etc., evidenciaram um aumento de 30 a 45 dias no ciclo de produção, a cada 100 m de acréscimo na altitude, em uma mesma latitude.
Estudos feitos com vários cultivares do subgrupo Cavendish, para avaliar seu comportamento em diferentes altitudes, indicaram que os cultivares Mons Marie e Williams foram os menos prejudicados com os maiores índices.



quarta-feira, 27 de junho de 2018

Importância da Cultura da Banana


A cultura da banana está presente em todos os estados brasileiros, sendo a fruta com maior volume de produção após as frutas cítricas. Planta de demanda hídrica relativamente elevada, a bananeira desempenha papel preponderante na maioria dos perímetros irrigados no Nordeste do Brasil, incluindo a região do Submédio São Francisco.
A obtenção de altas produtividades da cultura, com a qualidade da fruta conforme demandas dos mercados, exige o uso de técnicas adequadas e a atenção especial dos produtores em todas as fases do seu cultivo. Ciente disso, a Embrapa Mandioca e Fruticultura, situada em Cruz das Almas, BA, em parceria com a Embrapa Semiárido, localizada em Petrolina, PE, elaborou este sistema de produção para a cultura irrigada da bananeira no Submédio São Francisco, contando com a colaboração de técnicos e produtores que atuam nesta região do Vale do Rio São Francisco.
Este sistema de produção apresenta as informações técnicas necessárias ao cultivo da bananeira nas fases de estabelecimento do plantio, tratos culturais, controle de pragas e doenças, manejo na colheita e pós-colheita, além de informações sobre o processamento da fruta e cuidados que devem ser dispensados durante o manuseio e a utilização dos agrotóxicos.
Procurou-se inserir os avanços tecnológicos para melhorar a qualidade da fruta produzida na região e aumentar sua competitividade no mercado nacional. Desta forma, espera-se que este sistema de produção contribua, significativamente, como instrumento de mudança na forma de produzir banana irrigada na área de abrangência da região, agregando tecnologia ao sistema, para melhoria da renda e da qualidade de vida do agricultor.
Dentre as frutas produzidas no Brasil, a banana ocupa o segundo lugar em área colhida (aproximadamente 481 mil hectares), produção (6,9 milhões de toneladas) e consumo aparente por habitante (30 kg/ano) (IBGE, 2013). É consumida, nas diversas camadas da população brasileira, como sobremesa e fonte de vitaminas e nutrientes, sendo rica principalmente em potássio (2.640 a 3.870 mg/kg). A fruta contém vitaminas C (59 a 216 mg/kg), B6 (0,3 a 1,7 mg/kg) e B1 (0,3 a 0,9 mg/kg); minerais, como potássio, magnésio (240 a 300 mg/kg), fósforo (160 a 290 mg/kg), cálcio (30 a 80 mg/kg), ferro (2 a 4 mg/kg) e cobre (0,5 a 1,1 mg/kg); carboidratos (203 a 337 g/kg); proteínas (11 a 18 g/kg), apresentando baixos teores de lipídeos (1,0 a 2,0 g/kg) e baixo valor calórico (780 a 1.280 kcal/kg) (TACO, 2011). Todavia, a parcela da renda gasta na aquisição dessa fruta é de apenas 0,80% do total das despesas com alimentação (IBGE, 2008).
A produção brasileira de banana está distribuída por todo o território nacional, sendo a região Nordeste a maior produtora (35%), seguida do Sudeste (33%), Sul (16%), Norte (12%) e Centro Oeste (4%). O Estado da Bahia participa com 72,4 mil ha (maior área) e Pernambuco, 40,8 mil ha (sexta maior área). A produção de ambos foi de 1.490.920 t (segunda maior produção nacional) e 407.574 t (sétima maior produção nacional), respectivamente (IBGE, 2013).
Embora a região do Submédio São Francisco apresente excelentes condições de clima e solo para a produção irrigada de banana de alto padrão de qualidade, ainda é preciso superar, em grande parte, a baixa eficiência na produção e no manejo pós-colheita. São vários os problemas que afetam a bananicultura da região, principalmente no que se refere ao manejo e tratos culturais dispensados à cultura e ao tratamento pós-colheita.
A região do Submédio São Francisco envolve vários projetos de irrigação, tais como Nilo Coelho, Mandacaru, Salitre, Tourão, Curaçá, Pontal, que em conjunto mantêm uma produção de frutas que coloca este polo como destaque no cenário nacional e também internacional. Nesta microrregião, a cultura da banana, que chegou a atingir em 2002-2003 mais de 5.000 ha colhidos, em 2011, destinou à colheita cerca de 2.400 ha, cuja produção foi de 48.056 t. Neste cenário a cultivar ‘Pacovan’ domina mais de 80% da área.
A banana (Musa spp.) é uma fruta de consumo universal, sendo umas das mais consumidas no mundo, e, é comercializada por dúzia, por quilo e até mesmo por unidade. É rica em carboidratos e potássio, médio teor em açúcares e vitamina A, e baixo em proteínas e vitaminas B e C.
A banana é apreciada por pessoas de todas as classes e de qualquer idade, que a consomem in natura, frita, assada, cozida, em calda, em doces caseiros ou em produtos industrializados.
A fruta verde é usada in natura com grande sucesso na desidratação infantil, depois de bem homogeneizada no liquidificador; seu tanino, revestindo as paredes intestinais e do tubo digestivo, evita, por ação mecânica, que as células do órgão continuem se desidratando.
No meio rural é utilizada, ainda verde, como alimento de animais, depois de cozida, para eliminar o efeito do tanino nos intestinos.
A importância da bananicultura varia de local para local, assim como de país para país. Por vezes, ela é plantada para servir de complemento da alimentação da família (fonte de amido), como receita principal ou complementária da propriedade ou como fonte de divisas para o país.
Com freqüência, seu cultivo é feito em condições ecológicas adversas, mas, em vista da proximidade de um bom mercado consumidor, esta atividade se torna economicamente viável.
Há uma grande diversidade de cultivares, cujos frutos têm vários sabores e utilizações. O porte das plantas varia de 1,50 m a 8,0 m e seus cachos podem ser compostos por algumas bananas ou centenas delas.
Merece realçar que seu tronco não é um tronco e, sim, um imbricamento de bainhas de folhas. Seu período de vida é definido pelo aparecimento do “filhote” na superfície do solo e a sua colheita ou a seca do seu cacho. Entretanto, sua lavoura é considerada de caráter permanente na área.
As bananas cultivadas podem ser divididas em duas classes: as consumidas frescas ou industrializadas e as consumidas fritas ou assadas, que chamamos de bananas de fritar ou da terra. Na língua espanhola, apenas as bananas do subgrupo Cavendish (“Nanica”, “Nanicão”, “D”água”, etc.) são chamadas de bananas; as demais são conhecidas por   “plátanos”.

domingo, 17 de junho de 2018

Colheita e Pós Colheita do Guaraná

Colheita

A colheita é feita manualmente, devendo-se utilizar uma tesoura de poda para a retirada dos cachos. O cacho pode ser colhido por inteiro se os frutos estiverem todos maduros, com no mínimo 50% deles abertos (Figura 1A). Se não for o caso, a coleta dos frutos deve ser individual (Figura 1B). 
Os frutos, quando maduros, apresentam coloração que vai do amarelo ao vermelho e depois se abrem parcialmente deixando as sementes expostas, assemelhando-se a um olho humano, e podem ser retirados com as mãos. Neste estágio, se não forem colhidas, as sementes irão cair, entrando em contato com o solo e tendo sua qualidade prejudicada. 
O guaranazeiro apresenta frutificação desuniforme dentro de uma mesma planta, o que determina a necessidade de se proceder à colheita pelo menos duas vezes por semana. Esta frequência poderá aumentar ou diminuir de acordo com a velocidade de maturação dos frutos.
Fotos: Murilo Arruda 

Figura 1. Cacho de em ponto de colheita (A) e frutos maduros sendo colhidos individualmente (B).

Despolpamento

Logo após a colheita, os frutos deverão ser acondicionados em sacos ou ser amontoados, por até três dias, para fermentação em local limpo, sobre piso de cimento ou cerâmica e de preferência fechado, para evitar o contato com animais. Essa fermentação facilita a retirada da casca, que pode ser feita manualmente ou com equipamentos apropriados. Após o despolpamento, as sementes devem ser lavadas em água limpa e classificadas em dois tamanhos, por peneira de 6 mm.

Torrefação

Após a classificação, as sementes deverão ser torradas separadamente, o que possibilitará a uniformização do ponto de torrefação, com a consequente obtenção de um produto homogêneo. A torrefação pode ser feita em tacho de barro (Figura 1A) ou metálico (Figura1B), em fogo brando, mexendo-se as sementes constantemente para melhor distribuição do calor.
Fotos: Murilo Arruda 
Figura 1. Torrefação do guaraná em forno de barro (A) e em forno metálico (B).
Para a torrefação no tacho de barro (a mais usual), o tempo é de quatro a cinco horas; enquanto no tacho metálico esse tempo é reduzido para cerca de três horas e meia. No tacho metálico, pode se adicionar água no início da torrefação, para diminuir a possibilidade de queima das sementes no início do processo, pois a temperatura atingida nesse tipo de recipiente é mais alta quando comparada com o de barro. As sementes estarão prontas quando atingirem o "ponto de estalo", indicativo de que a umidade nas sementes está em torno de 5% a 7%, teor exigido pela indústria de refrigerantes; enquanto para os produtores de guaraná em bastão, essa umidade deve ser de 8% a 12%.
Após o resfriamento, as sementes deverão ser armazenadas em sacos aerados, de preferência de fibras naturais, como os de aniagem ou juta. O tempo de armazenamento, desde que em condições adequadas, deve ser de no máximo dezoito meses.

Comercialização

Guaraná em bastão

A forma mais antiga de se comercializar o guaraná é em bastão, método desenvolvido pelos índios na região de Maués. No Amazonas, e principalmente no Mato Grosso, existe grande demanda por  este tipo de produto. Depois de torrado, elimina-se o casquilho do grão e este será triturado e pilado ou somente pilado (artesanal) misturando-se com água, formando uma pasta consistente que será moldada na forma de bastão, conhecida por panificação. O bastão passa por um processo de desidratação, conhecido por defumação prolongada, o que consolidará o formato comercial (Figura 1). Na região, o bastão normalmente é ralado para ser transformado em pó e consumido.
Foto: Firmino José N. Filho
Figura 1. Bastão de guaraná.

Guaraná em rama

São as sementes torradas (Figura 2), utilizadas na produção de xaropes e extratos de guaraná. É a maneira mais comum de comercialização do guaraná pelos produtores do Amazonas, mas a de menor valor agregado.
Foto: Murilo Arruda
Figura 2. Guaraná em rama.

Guaraná em pó

São as sementes torradas e finamente moídas (Figura 3), utilizadas para o preparo de bebidas, sorvetes, cremes e outros alimentos a base de guaraná. É um produto de valor agregado mais alto, pouco utilizado pelos produtores para comercialização, e é a forma comumente encontrada no comércio varejista.
Foto: Murilo Arruda
Figura 3. Guaraná em pó.

Usos

O guaraná é utilizado na forma de pó, bastão, xaropes e extratos. Nos refrigerantes, o conteúdo mínimo de sementes de guaraná é de 0,2 g e o máximo é de 2 g/litro ou o seu equivalente em extrato (Lei dos sucos n.º 5.823, de 14/11/1972). O guaraná pode ainda ser utilizado na fabricação de bebidas energéticas, sorvetes, cremes, além de fármacos, cosméticos, confecção de artesanato, entre outros.


sábado, 9 de junho de 2018

Tratos Culturais e Podas na Cultura do Guaraná

Controle de plantas invasoras

Durante os dois primeiros anos após o plantio, quando necessário, deve ser feito o coroamento das plantas com uso de enxada, num raio de aproximadamente meio metro. Deve-se evitar revolver em excesso o solo, para não cortar o sistema radicular do guaranazeiro, que é muito superficial, e impedir a formação de "bacias" ao redor das plantas. Nas entrelinhas, quando o mato atingir mais de 40 cm de altura, deve-se fazer roçagem com terçado ou roçadeiras costais motorizadas. Em situações de elevada infestação de plantas daninhas ou presença de espécies agressivas, como o capim-taripucu, o controle pode ser feito com herbicidas dessecantes à base de glifosato, aplicando-os dentro das normas de segurança, sem que o produto atinja o guaranazeiro.

Cobertura morta

Nos 24 meses após o plantio, recomenda-se o uso de cobertura morta ao redor das plantas, no verão (junho a outubro), com o objetivo de diminuir a temperatura do solo, evitar a perda de água, controlar plantas daninhas e fornecer matéria orgânica para a planta. Esses restos vegetais podem ser das próprias plantas invasoras roçadas na área de plantio, devendo-se tomar o cuidado de não deixar a cobertura morta encostar no tronco da planta.

Poda de limpeza

Logo após o término do período de colheita (janeiro/fevereiro), deve-se fazer a poda de limpeza, eliminando-se ramos secos, quebrados e doentes das plantas. Retira-se também um terço das extremidades dos ramos mais longos, para impedir que as plantas fechem a linha, e aqueles que produziram no ano anterior.
Restos florais e frutos remanescentes também devem ser eliminados. Durante o decorrer do ano, é importante a vistoria das plantas, para a eliminação de ervas de passarinho e de ramos que apresentarem superbrotamento.

Poda de frutificação

Entre a segunda quinzena de abril e a primeira quinzena de maio, preferencialmente, proceder à poda de frutificação, reduzindo em 50% o número de lançamentos e em 50% o comprimento dos ramos remanescentes. Primeiramente retiram-se os ramos da parte basal da copa (Figura 1A, 1B e 1C); depois, podam-se os ramos da parte superior da planta (Figura 1D) e realiza-se o acabamento (Figura 1E). A planta deve ficar com o formato de taça (Figura 1F), facilitando a adubação, os tratos culturais e a colheita.
Fotos: Murilo Arruda

Figura 1. Poda de frutificação: planta antes da poda (A), sequência de passos para a poda (B e E) e resultado final (F).
Adubação
As quantidades, fontes e épocas de aplicação de fertilizantes para o guaranazeiro no Amazonas encontra-se na Tabela 1. Na Tabela 2, sugestão de fontes e suas respectivas quantidades de nutrientes para adubação do guaranazeiro. Nos primeiros 12 meses após o plantio, os adubos devem ser colocados ao redor e a 15 cm do colo da planta, em cobertura. Do segundo ao terceiro ano, a localização do fertilizante deverá ser disposta a partir de 20 cm do coleto, também de forma circular, numa faixa de 30 cm de largura. Do quarto ano em diante, a adubação será distribuída ao redor de toda a planta, a uma distância mínima de 50 cm do colo da planta, espalhando-o até o limite da projeção da copa. 
Tabela 1. Recomendação de adubação para o guaranazeiro no Estado do Amazonas.
Idade
Parcelamento
N
P2O5
K2O
Mg
B
Zn
g/planta
1° ano*
No plantio
-
25
-
-
-
-
3 meses após o plantio
8
-
24
5
1
1
Total adubo ao ano
8
16
24
5
1
1
2° ano*
1ª aplicação
8
50
-
5


2ª aplicação
8
-
24
-
1
1
3ª aplicação
8
-
24
-


Total adubo ao ano
24
50
48
10
1
1
3º ano*
1ª aplicação
18
50
-
10
-
-
2ª aplicação
18
-
24
-
1
1
3ª aplicação
36
-
48
-
-
-
Total adubo ao ano
72
50
72
10
1
1
1ª aplicação: final do período produtivo, logo após a poda de limpeza (janeiro).
2ª aplicação: logo após a poda de frutificação, lançamento de ramos novos (abril).
3ª aplicação: logo antes do início da floração (maio).
*Esta adubação deverá ser feita sempre até maio, mesmo que não se tenha completado os três meses.
Fonte: Embrapa Amazônia Ocidental, 2005.

Controle de pragas

O tripes (Liothrips adisi) é o inseto que causa os maiores danos ao guaranazeiro no Amazonas. Desenvolve-se (ovo, ninfa e adulto) geralmente na parte inferior de folhas em estádio inicial de desenvolvimento, onde causa deformações e queda, e nas inflorescências, provocando o secamento prematuro das flores. Essa espécie também ataca os frutos nos estádios iniciais de seu desenvolvimento, comprometendo o crescimento e a qualidade (Figura 2).
Fotos: Marcos V. B. Garcia 

Figura 2. Tripes (Liothrips adisi) (A); danos causados aos frutos (B) e folhas (C); desfolha do guaranazeiro causada pelo tripes (D).
Tabela 2. Recomendação de fontes e doses de fertilizantes para a cultura do guaranazeiro no Estado do Amazonas.
Idade
Parcelamento
Sulfato de amônia
Superfosfato simples
Cloreto de Potássio
Sulfato de Magnésio
Bórax
Sulfato de zinco
g/planta
1° ano*
No plantio
-
150
-
-
-
-
3 meses após o plantio
40
-
40
50
10
10
Total adubo ao ano
40
150
40
50
10
10
2° ano*
1ª aplicação
40
300
-
50


2ª aplicação
40
-
40
-
10
10
3ª aplicação
40
-
40
-
-
 -
Total adubo ao ano
120
300
80
50
10
10
3º ano*
1ª aplicação
90
300
-
50
-
-
2ª aplicação
90
-
40
-
10
10
3ª aplicação
180
-
80
-
-
-
Total adubo ao ano
360
300
120
50
10
10
1ª aplicação: final do período produtivo, logo após a poda de limpeza (janeiro).
2ª aplicação: logo após a poda de frutificação, lançamento de ramos novos (abril).
3ª aplicação: logo antes do início da floração (maio).
*Esta adubação deverá ser feita sempre até maio, mesmo que não se tenha completado os três meses.
Fonte: Embrapa Amazônia Ocidental, 2005.
Em sua fase jovem, o inseto apresenta coloração que varia do alaranjado ao avermelhado; quando adulto, torna-se negro, com 2,2 mm de comprimento, em média. Durante o período chuvoso, a população de tripes é relativamente baixa, e no início do período seco, que coincide com a floração e frutificação, o inseto se multiplica rapidamente.
O controle desta praga nas áreas experimentais da Embrapa Amazônia Ocidental tem sido feito com uso dos inseticidas acephate 75% (40 g do produto comercial em 20 litros de água), methamidophos 60% (30 mL do produto comercial em 20 L de água) ou ainda a deltamethrina 25% (10 mL do produto comercial em 20 L de água), preventivamente, a partir dos ramos novos (maio) até o início da frutificação (setembro). A aplicação sempre é feita após as 16h, período em que a visitação de polinizadores nas flores é mínima. Entretanto, esses produtos ainda estão em processo de registro provisório no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Controle de doença

Antracnose
Esta doença (Figura 3) é causada pelo fungo Colletotrichum guaranicola, que ataca a planta em qualquer estádio de desenvolvimento de forma altamente destrutiva. Nas plantas atacadas, o fungo induz o crestamento (queima) em folhas jovens, com sua subsequente queda. Em folhas novas, ainda em crescimento e antes da maturidade, os sintomas são lesões necróticas com formato variável de circular a elíptico, caracterizando o quadro da antracnose. 

Quando numerosas, essas lesões causam deformações e enrolamento das folhas, principalmente quando atingem as nervuras. Folhas maduras ou velhas não são infectadas. Ataques sucessivos deste fungo induzem a morte descendente dos ramos e por fim a da planta. O controle da antracnose pode ser obtido pelo emprego de pelo menos três estratégias: utilização de clones possuidores de alto níveis de resistência estável, aplicações regulares de fungicidas e redução de severidade de doença mediante utilização de podas em épocas pré-definidas.

Fotos: Murilo Arruda
  
Figura 3. Incidência de antracnose (Colletotrichum guaranicola) em folhas jovens do guaranazeiro, no detalhe (A), levando à má formação das folhas maduras (B).

Utilização de clones resistentes

A utilização de clones possuidores de altos níveis de resistência estável e previsível constituiu-se na estratégia de controle mais viável do ponto de vista socioeconômico e ambiental. Neste sentido, a Embrapa Amazônia Ocidental, através do seu programa de melhoramento genético do guaranazeiro, tem caracterizado os clones quanto ao nível de resistência, estabilidade e previsibilidade de resistência, frequência de infecção e também adaptabilidade dos clones a serem recomendados para o uso pelos produtores. Além de apresentarem estabilidade para resistência à antracnose, estes clones foram também selecionados com relação às características agronômicas adequadas ao manejo sustentável da cultura. Os clones BRS-Maués, BRS-Amazonas, BRS-CG-611, BRS-CG-648, BRS-CG-882 e BRS-CG-612 estão sendo recomendados para o cultivo em região e/ou locais onde a antracnose constituiu-se em fator de produção (Tabela 1). Para as regiões onde a antracnose não prevalece, ou seja, apresenta baixos níveis de severidade, podem ser utilizados os clones BRS-CG- 372, BRS-CG-189, BRS-CG-505, BRS-CG-610, BRS-CG-850 e BRS-CG-608 (Tabela 2).

Utilização de podas

Trabalhos executados no Campo Experimental da Embrapa Amazônia Ocidental no Município de Maués têm demonstrado efeito positivo da poda do guaranazeiro em reduzir substancialmente a severidade da antracnose. Desta forma a poda pode constituir medida complementar de controle da antracnose, visando à redução da severidade da doença nos plantios efetuados com guaranazeiros suscetíveis.
Em princípio o objetivo da poda é estimular a planta a emitir novos lançamentos e subsequentemente novas folhas em época menos favorável à doença.
Baseados em testes efetuados no Campo Experimental de Maués, recomenda-se a realização da poda do guaranazeiro nos meses de abril e maio, preferencialmente entre a segunda quinzena de abril e a primeira quinzena de maio. A poda do guaranazeiro, visando diminuir a severidade da antracnose, é constituída pela redução de 50% do número de lançamentos e de 50% no comprimento dos lançamentos remanescentes e principalmente a eliminação das secções verdoengas dos lançamentos e das folhas fisiologicamente imaturas.

Utilização de fungicidas

O uso de fungicidas é a estratégia de controle mais prontamente disponível para estabilizar a produtividade em cultivos com clones altamente suscetíveis à antracnose, principalmente em regiões onde as condições favoráveis à doença prevalecem por um longo período de tempo e/ou em anos com período de precipitação pluviométrica prolongado. Para a maior eficiência de controle, os fungicidas devem ser aplicados cerca de três semanas após as podas, de abril e maio, e/ou quando aproximadamente 10% dos ramos apresentarem lançamentos com folhas novas.
Com base em experimentos executados no Campo Experimental da Embrapa Amazônia Ocidental em Maués, os fungicidas1 azoxistrobin 0,1 L/ha, azoxistrobin 0,1 L/ha + difenoconazole 0,162 L/ha, tiofanato metílico 0,425 kg/ha, tebuconazole 0,16 L/ha e  flutriafol 0,125 L/ha controlam eficientemente a antracnose do guaranazeiro. Para a maior eficiência de controle, os fungicidas devem ser aplicados a intervalos regulares de 14 dias, perfazendo um total de três aplicações.

Superbrotamento

O fungo causador desta doença é o Fusarium decemcellulare (Figura 4), que provoca a inibição quase completa do florescimento e consequentemente da produção. O fungo induz a emissão de brotações sucessivas ao longo dos ramos, caracterizados pelo crescimento desuniforme e exagerado dos tecidos. Os sintomas aparecem em mudas e plantas adultas. Para o controle do superbrotamento, recomenda-se realizar inspeções fitossanitárias periódicas em intervalos regulares de 30 dias, a partir do mês de fevereiro até o mês de setembro. Durante as inspeções, eliminar as partes afetadas, seccionando-se o lançamento aproximadamente 10 cm abaixo do início do superbrotamento. É necessário que se proceda à poda fitossanitária, eliminando-se as partes da planta afetadas pela doença quando elas ainda estiverem verdes, de forma a prevenir maiores danos ao guaranazeiro. Quando a doença incidir nas inflorescências, recomenda-se eliminar todo o lançamento portador dessas doenças, seccionando-se 10 cm abaixo da última inflorescência a apresentar superbrotamento. As partes recepadas da planta devem ser retiradas das áreas de cultivo.
Fotos: Murilo Arruda

Figura 4. Superbrotamento em gemas vegetativas (A); Poda fitossanitária, 10 cm abaixo do início do superbrotamento em gema vegetativa (B); Retirada de partes de plantas infectadas (C); Superbrotamento em gemas florais (D); e Poda fitossanitária, 10 cm abaixo do início do superbrotamento em gemas florais (E).

Podridão-vermelha-das-raízes

Doença causada pelo fungo Ganoderma philippii, que ocorre quando a raiz do guaranazeiro entra em contato com restos de vegetação colonizados pelo fungo, como troncos apodrecidos que ficam no solo após a derrubada da mata. O sintoma inicial é um amarelecimento que começa de um lado da planta para depois se generalizar, causando seu secamento total. Verifica-se necrose extensiva na parte externa da raiz principal e no colo da planta (Figura 5), que apresenta coloração marrom-avermelhada; e as raízes mais novas ficam totalmente cobertas pelo fungo, o que lhes causa a morte. Para o controle, recomenda-se erradicar e queimar as plantas doentes evitando-se o replantio no mesmo local, retirar troncos e raízes apodrecidos ou não do local antes do plantio e evitar ferimentos nas raízes e colo da planta durante a realização dos tratos culturais.
Fotos: Firmino José N. Filho
 
Figura 5. Sitomas da podridão-vermelha-das-raízes do guaranazeiro.