quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Pragas do Cajueiro


As pragas que prejudicam o cajueiro podem ser reunidas em grupos distintos, tais como: pragas desfolhadoras, cujo ataque coincide com o período de maior concentração de chuvas, pragas que atacam os ramos, pragas que atacam as inflorescências, pragas que atacam os pseudofrutos e frutos, pragas que atacam o tronco e pragas que atacam a raiz.
Apesar do grande número de insetos associados ao cajueiro, existem, também, organismos benéficos. A literatura relaciona patógenos, parasitoides e predadores antagônicos aos outros artrópodes associados ao cajueiro.
As recomendações de controle são baseadas na filosofia do Manejo Integrado de Pragas (MIP), que consiste em adotar métodos de controle dentro de um sistema harmônico, direcionados a manter as pragas abaixo do nível de dano econômico. A ocorrência de algumas pragas está estreitamente relacionada às diversas fases de desenvolvimento do cajueiro. Algumas espécies têm preferência por tecidos jovens e tenros, enquanto outras, por tecidos de meia idade ou mais fibrosos. As principais pragas serão listadas em função dos órgãos que elas atacam.

1-Insetos que atacam ramos ponteiros e inflorescências

1.1. Broca-das-pontas, Anthistarcha binocularis Meyrick (Lepidoptera: Gelechiidae)
É considerada uma das principais pragas do cajueiro, em razão do tipo de dano que ocasiona. Os ataques ocorrem quase sempre nos ramos frutíferos, que secam, inviabilizando a formação de frutos.
O adulto é uma mariposa pequena, de coloração cinza e asas esbranquiçadas. A postura dos ovos é feita nos ponteiros das inflorescências. Após a eclosão, as lagartas penetram no tecido tenro e movem-se em direção ao centro do galho formando galerias. A larva tem coloração amarelada e completa a fase de pupa no interior do ramo atacado.
O sintoma de ataque da praga é a murcha (Figura 1), seguida de seca das inflorescências, podendo haver ou não acúmulo de goma próximo ao orifício lateral de saída do adulto (Figura 2). Na maioria dos casos, ocorre quebra do ramo da inflorescência no orifício de saída do adulto. A lagarta, que pode ser encontrada no interior do ramo brocado (Figura 3), expele excrementos que podem cair sobre as folhas abaixo e demonstram sua presença. Esses sintomas permitem distinguir entre o ataque da praga e os da antracnose e PPH (ver Capítulo Doenças do cajueiro), que também, além de causar a seca da inflorescência, enrijece-a, mumifica-a e dificulta a sua torção.
Apesar de os níveis de parasitismo natural serem baixos, até o momento, já foram registrados três parasitas que controlam naturalmente essa praga: Bracon sp. (Braconidae), Brachymeriasp. (Chalcididae) e uma espécie ainda não identificada, pertencente à família Bethylidae (Hymenoptera). O controle cultural dessa praga pode ser feito no início do ataque, podando e queimando os ramos ponteiros e as inflorescências atacadas.
A preferência da broca-das-pontas para oviposição em clones de cajueiro-anão (também denominado cajueiro-anão-precoce) é menos evidente em condição de forte infestação da praga. Em condição de menor infestação, a praga manifesta preferência em função do genótipo. O controle cultural pode ser feito no início do ataque, pela poda e eliminação dos ramos ou inflorescências atacadas; já o controle químico deverá ser feito quando o grau de infestação superar 20% de órgãos atacados, usando os produtos registrados Decis 25 EC ou Dominador, conforme informações da Tabela 1.
Foto: Antônio Lindemberg Martins Mesquita
Figura 1. Murcha do ramo atacado pela broca-das-pontas.
Foto: Antônio Lindemberg Martins Mesquita
Figura 2. Orifício e presença de resina indicando ataque da broca-das-pontas.
Foto: Antônio Lindemberg Martins Mesquita
Figura 3. Galeria e lagarta no interior de ramo atacado.
1.2. Pulgão-das-inflorescências, Aphis gossypii Glover (Homoptera: Aphididae)
O pulgão apresenta-se como uma importante praga do cajueiro, tanto pelo nível de população como pelas consequências do seu ataque. Pelo fato de sugar intensamente a seiva, causa a seca e, consequentemente, diminui a quantidade de inflorescências viáveis por plantas, com reflexos diretos na produção.
Essa praga é um pequeno inseto de corpo mole, de movimentos lentos, podendo ter asas ou não. Sua cor varia do amarelo-claro ao verde-escuro. Vive em colônias numerosas nas inflorescências e frutos jovens de onde suga a seiva (Figura 4). Os insetos com asas são os responsáveis pela infestação da cultura.
Foto: Antônio Lindemberg Martins Mesquita
Figura 4. Ataque de pulgão na inflorescência e maturis.

Ao mesmo tempo em que suga a seiva da planta, esse inseto solta uma substância açucarada denominada “mela”, que recobre, principalmente, as inflorescências e folhas, servindo de nutriente para o crescimento da fumagina (Capnodium sp.), que é um fungo de coloração negra. As inflorescências atacadas murcham e podem secar. A presença de colônias de pulgões, o aparecimento de inúmeras películas brancas, o surgimento de "mela" e fumagina (foligem negra) sobre as folhas, panículas e maturis revelam o ataque da praga.

O controle natural desse inseto é feito pelo predador Scymnus sp., que é comumente encontrado em colônias dessa praga. O controle químico deverá ser feito quando forem observadas colônias de insetos nas inflorescências, maturis e início de mela.

2-Insetos que atacam frutos (castanhas) e pseudofrutos (pedúnculos)

2.1. Traça-da-castanha, Anacampsis phytomiella Busck (Lepidoptera: Gelechiidae)
É considerada a principal praga dos frutos do cajueiro, por causa dos graves danos econômicos que causa, visto que sua ação resulta na destruição da amêndoa.
O inseto mede aproximadamente 13 mm de envergadura, apresenta coloração escura, com pequenas áreas claras nas asas. Próximo à fase de pupa, a lagarta apresenta 12 mm de comprimento e coloração rosa clara com a cabeça preta. A colocação dos ovos (invisíveis a olho nu) é feita nos frutos jovens (Figura 5), e a pequena lagarta penetra na fase de maturi pela castanha, sem deixar vestígios da penetração, destruindo totalmente a amêndoa e tornando-a imprestável para a comercialização (Figura 6). Geralmente, encontra-se apenas uma lagarta por fruto.
Antes de tornar-se pupa, a lagarta abre um orifício circular na parte final da castanha, por onde sairá depois o inseto adulto. A presença da praga, portanto, só é notada quando as castanhas apresentam o furo (Figura 7).
Foto: Antônio Lindemberg Martins Mesquita
Figura 5. Fase da castanha preferida para postura da traça.
Foto: Antônio Lindemberg Martins Mesquita
Figura 6. Amêndoa destruída e presença da larva.
Foto: Antônio Lindemberg Martins Mesquita

Figura 7. Furo na castanha feito pela saída da traça.

O controle biológico natural coletado em castanha ocorre em níveis considerados baixos. O inimigo natural mais comumente encontrado é o parasitoide Brachymeria sp. (Hymenoptera: Calcididae). O controle químico deverá ser feito quando for detectado 5% de castanhas furadas, avaliado por simples percentagem.
2.2. Percevejos dos frutos
Existe um complexo de percevejos que visita o cajueiro, principalmente durante a fase de frutificação, alimentando-se de folhas, castanhas e pedúnculos.
A espécie Sphictyrtus chryseis Lichtenstein (Hemiptera: Coreidae), quando adulto, mede cerca de 16 mm de comprimento, possui cabeça avermelhada e olhos pretos interligados por uma faixa preta na extremidade posterior da cabeça. A parte inicial do tórax do inseto é verde brilhante, delimitado por duas faixas avermelhadas nas extremidades anterior e posterior (Figura 8A).
Um outro percevejo, da espécie Crinocerus sanctus Fabricius, (Hemiptera: Coreidae), quando adulto, mede 17 mm de comprimento e apresenta uma coloração amarelo-terra. Os fêmures do último par de pernas são robustos e salpicados de tubérculos pretos, saindo de cada um deles um espinho da mesma coloração (Figura 8B).
Ainda há outro percevejo, da espécie Theognis (=Leptoglossusstigma Herbst, (Hemiptera: Coreidae), que apresenta uma linha de coloração creme ou amarelada, transversal e em zigue-zague.
Fotos: Antônio Lindemberg Martins Mesquita
Figura 8. Percevejos que atacam o cajueiro (A) Sphictyrtus cryseis e (B) Crinocerus sanctus.

Quando o ataque se dá em maturis pequenos, eles murcham e tornam-se pretos, com sintomas iguais à antracnose (Ver Capítulo Doenças do cajueiro). Em maturis maiores, o sintoma é inicialmente visualizado na forma de uma mancha oleosa escura. Posteriormente, o maturi murcha e, por fim, assume aspecto mumificado, porém permanece mole ou flexível. Em castanhas totalmente desenvolvidas, a mancha provocada pelo inseto ao sugar permanece até após a castanha estar seca.
Os insetos podem também atacar brotações novas, pedúnculos e frutos, causando perdas de qualidade e de quantidade nos pseudofrutos e frutos.
O controle deverá ser feito quando o grau de infestação superar 10% de frutos atacados.

3-Insetos que atacam folhas

3.1. Tripes-da-cinta-vermelha, Selenothrips rubrocinctus Giard (Thysanoptera: Thripidae)
Normalmente, esse inseto aparece nas épocas de estiagem (período seco). O adulto apresenta coloração preta, medindo 1 mm de comprimento. As formas jovens (ninfas) são, em geral, amareladas, com os dois primeiros segmentos abdominais vermelhos. A fêmea introduz os ovos sob a epiderme da folha e cobre-os com uma secreção que se torna escura ao secar. O ciclo completo dessa praga é de cerca de 30 dias.
O inseto ataca, principalmente, a face inferior das folhas, preferindo as de meia idade (Figuras 9 e 10). Ataca também ponteiros, inflorescências, pedúnculos e frutos (Figura 11). As partes atacadas tornam-se amareladas a princípio, passando depois para uma coloração marrom-clara, com tonalidades bronzeadas. Ataques severos causam ressecamento e queda intensa das folhas, ocorrendo a diminuição da área foliar da planta e o secamento da inflorescência (Figura 12).
Foto: Antônio Lindemberg Martins Mesquita
Figura 9. Colônia de tripes-da-cinta-vermelha na face inferior da folha.
Foto: Antônio Lindemberg Martins Mesquita
Figura 10. Danos de tripes nas folhas.
Foto: Antônio Lindemberg Martins Mesquita
Figura 11. Danos de tripes na castanha e pedúnculo.
Foto: Antônio Lindemberg Martins Mesquita
Figura 12. Desfolhamento de cajueiros causado por tripes.

Na amostragem, observa-se nos ramos avaliados a presença ou não de insetos e a associação destes com o bronzeamento das folhas. É importante atentar que o bronzeamento permanece mesmo após o controle da praga, o que por si só não caracteriza um novo ataque.
O controle deverá ser feito utilizando os inseticidas registrados para o cajueiro Decis 25 EC ou Dominador, conforme Tabela 1, tendo o cuidado de dirigir o jato para as partes inferiores da folha.
3.2. Mosca-branca, Aleurodicus cocois (Homoptera: Aleyrodidae)
Atualmente, a mosca-branca encontra-se espalhada por todas as regiões produtoras de caju. Contudo, seu ataque se inicia a partir de pequenos focos de infestação, em número reduzido de plantas, os quais podem se estender para todo o pomar.
A forma adulta desse inseto assemelha-se muito a uma pequena borboleta, de cor branca. São insetos com quatro asas, medindo 2 mm de comprimento e 4 mm de envergadura. As ninfas são achatadas, ficam presas às folhas e medem 1 mm de comprimento; possuem coloração amarelada, semelhante às cochonilhas, e encontram-se envolvidas e rodeadas por uma espécie de cera branca, que pode recobrir toda a folha atacada.
Presença de colônias de insetos envolvidos por uma secreção branca (cera) na face inferior da folha e ocorrência de fumagina na face superior da folha denunciam a presença da praga. O ataque inicial é marcado pela cera em forma de círculos aproximadamente regulares, feitos pela fêmea na parte inferior da folha. Os ovos são depositados nesses círculos, que ficam recobertos pela cera (Figuras 13 e 14).
Foto: Antônio Lindemberg Martins Mesquita
Figura 13. Início do ataque na face inferior (de baixo) da folha.
Foto: Antônio Lindemberg Martins Mesquita
Figura 14. Ataque generalizado de mosca-branca.

O controle deverá ser realizado quando se observarem colônias de insetos e início de mela, tendo o cuidado de dirigir o jato da calda para a parte inferior das folhas.
Pesquisas realizadas testaram o uso de três óleos vegetais (mamona, nim e soja) no controle de ovos e ninfas da mosca-branca. A avaliação apresentou eficiência no controle de ovos de 70,7% e 45,9%, entre o quinto e o vigésimo dia após a aplicação. Os mesmos bioinseticidas alcançaram sobre as ninfas percentual de controle acima de 91,0%, entre o segundo e o quinto dia após a aplicação. Testes realizados com Apis mellífera demonstraram que as abelhas não foram afetadas pela aplicação de nenhum dos três óleos.
Desse modo, recomenda-se a aplicação da calda composta por: 97 litros de água, 2 litros de óleo vegetal (mamona, soja, nim ou algodão) e 1 litro de detergente neutro (incolor – transparente).
3.3. Minador-da-folha, Phyllocnistis sp. (Lepidoptera: Gracillariidae)

A lagarta, ainda minúscula, penetra no mesófilo foliar, ficando entre as duas epidermes. Constrói minas longas e tortuosas, destruindo o parênquima foliar (Figuras 15 e 16). Apresenta preferência pelas folhas novas, ricas em antocianinas, podendo também atacar as castanhas nas primeiras fases de desenvolvimento.
O número de lagartas, por folha, pode variar de 1 a 4. Elas empupam no interior de uma pequena dobra feita no bordo da folha. 
Foto: Antônio Lindemberg Martins Mesquita
Figura 15. Galeria com presença da lagarta.
Foto: Antônio Lindemberg Martins Mesquita
Figura 16. Ataque em folhas novas.

Em função do alto grau de parasitismo, podendo atingir até 90%, normalmente não há necessidade de medidas de controle. Existem quatro inimigos naturais associados às pupas do minador, sendo que um dos parasitoides pertencem ao gênero Leurinion (Hym., Braconidae), enquanto os demais não foram ainda identificados. Normalmente, os níveis de infestação observados em campo não têm justificado nenhuma recomendação de controle, possivelmente pela ação eficiente dos inimigos naturais.

3.4. Lagartas e outros desfolhadores

3.4.1. Lagarta véu-de-noiva, Thagona postropaea (Lepidoptera: Lymantriidae)
É uma mariposa branca que mede 22 mm de envergadura e possui o corpo coberto de escamas, que se desprendem facilmente. A postura dos ovos realiza-se diretamente na folha, em fileiras. As lagartas, de coloração verde-clara, apresentam o corpo recoberto de pelos longos e esverdeados (Figura 17).
A desfolha é o sintoma mais evidente do ataque da praga. Esta tem o hábito de se alimentar de folhas novas, podendo desfolhar completamente as plantas.
Foto: Antônio Lindemberg Martins Mesquita
Figura 17. Lagarta véu-de-noiva.
3.4.2. Lagarta-dos-cafezaisEacles imperialis magnifica Walk (Lepidoptera: Attacidae)
O inseto adulto é uma mariposa amarela com numerosos pontos escuros nas asas, que são cortadas por duas faixas de cor violeta escura, apresentando, ainda, duas manchas circulares da mesma cor. Fazem postura de ovos em grupo, sobre as folhas. Os ovos são de coloração amarela e seu período de incubação é de 6 a 12 dias. As lagartas chegam a atingir de 80 mm a 100 mm de comprimento (Figura 18), e possuem coloração variável (verde, amarelo, alaranjado e marrom). A transformação da lagarta em crisálida ocorre no solo. Os danos se caracterizam pela desfolha do cajueiro.
Foto: Antônio Lindemberg Martins Mesquita
Figura 18. Lagarta-dos-cafezais.
3.4.3. Lagarta-de-fogo, Megalopyge lanata Stoll - Cramer (Lepidoptera: Megalopygidae)
Os adultos são mariposas que medem 70 mm de envergadura e têm o corpo robusto, de coloração preta e rósea. As fêmeas põem os ovos envoltos por uma camada de pelos. Os ovos transformam-se em crisálidas nos troncos das árvores, protegidas por um casulo grande, quase circular, de mais ou menos 100 mm de diâmetro, de coloração acinzentada. Esse comportamento facilita o controle da praga por meio da retirada e eliminação dos insetos na fase de pupa. Os ovos são colocados em massas recobertas por pelos arrancados do próprio abdômen da mariposa. As lagartas, em seus estádios iniciais, são de coloração avermelhada e costumam ficar agrupadas. Quando totalmente desenvolvidas, possuem segmentos brancos, bem definidos, semelhantes a placas, e delineados por linhas pretas. De cada segmento, saem tufos de pelos urticantes (Figura 19). As lagartas também são conhecidas por taturanas, sussuranas ou lagartas-cabeludas. O sintoma de ataque dessa praga é a desfolha da planta.
Foto: Antônio Lindemberg Martins Mesquita
Figura 19. Lagarta-de-fogo.
3.4.4. Lagarta-verde, Cerodirphia rubripes Draudt (Lepidoptera: Hemileucidae)
O adulto é uma mariposa de cor marrom avermelhada, que mede de 100 mm a 110 mm de envergadura e possui nas asas anteriores duas listras mais escuras, bem distintas, no sentido transversal, e apenas uma listra na asa posterior. Os ovos são bastante duros, esféricos, de cor branca, e apresentam um ponto negro no centro. As lagartas (Figura 20) costumam ficar juntas e têm o hábito de formar fila indiana. Possuem cor verde-clara, passando a castanho na fase de pré-pupa. O dano característico do ataque da lagarta é a desfolha do cajueiro.
Foto: Antônio Lindemberg Martins Mesquita
Figura 20. Lagarta-verde.
 
3.4.5. Besouro-vermelho-do-cajueiroCrimissa cruralis Stal (Coleoptera: Chrysomelidae)
Os adultos possuem coloração vermelha, formato oval, medem cerca de 10 mm de comprimento e têm as pernas negras (Figura 21). A larva mede cerca de 20 mm de comprimento e possui cor verde lodo (Figura 21). Apesar de apresentar movimentos lentos, a larva é bastante voraz, causando intensa redução das folhas. A fase de pupa acontece no solo, sempre na projeção da copa, especialmente nas proximidades do caule. As primeiras populações de adultos surgem após o lançamento das folhas novas que brotam em agosto e setembro, após as precipitações que são chamadas, no Ceará, de “chuvas do caju”.
Fotos: Antônio Lindemberg Martins Mesquita e Luiz Augusto Lopes Serrano
Figura 21. Larva de Crimissa cruralis (à esquerda) e adultos (à direita) alimentando-se de folhas do cajueiro.
O sintoma de ataque do besouro-vermelho-do-cajueiro é a desfolha, o que pode ser feito tanto pelas larvas como pelos adultos, sendo que o desfolhamento provocado pelos besouros é menos intenso.
3.4.6. Mané-magro, Stiphra robusta Leitão (Orthoptera: Proscopiidae)
Trata-se de um inseto de aproximadamente 110 mm de comprimento, cujo aspecto assemelha-se a de um graveto; não possui asas e apresenta movimentos lentos (Figura 22). Em casos de forte infestação, provoca desfolhamento intenso dos cajueiros.
Foto: Antônio Lindemberg Martins Mesquita
Figura 22. Cajueiro atacado por mané-magro.
3.4.7. Lagarta-saia-justa, Cicinnus callipius Sch. (Lepidoptera: Mimallonidae)
As lagartas, em seus primeiros estádios, ficam agrupadas nas folhas, passando as últimas fases separadas, envolvidas em uma folha, que lhes serve de abrigo. Quando totalmente desenvolvidas, elas medem 60 mm de comprimento, têm cabeça de cor preta e pró-tórax preto com duas manchas brancas.
A tecnologia de controle da lagarta-saia-justa se baseia em informações relativas ao comportamento bioecológico da espécie em campo, destacando-se os seguintes aspectos:
Posturas: As posturas da lagarta-saia-justa são bem características e muito diferentes dos demais lepidópteros que atacam o cajueiro. São feitas em galhos ou ramos, em vez de nas folhas, e se caracterizam por apresentar ovos colados e sobrepostos uns aos outros, formando uma espécie de fita longa, com várias voltas (Figura 23), com uma média de 361 ovos por postura.
Foto: Antônio Lindemberg Martins Mesquita
Figura 23. Postura em forma de fita com lagartas-saias-justas já eclodidas.
Larvas: Após a eclosão, as lagartas se mantêm agregadas entre duas folhas, unidas por fios de seda produzidos por elas mesmas. Nessa fase, as larvas se alimentam raspando o parênquima das folhas, deixando-as completamente rendilhadas e secas (Figura 24). Nos últimos instares, as lagartas se separam e cada uma se enrola em uma folha que lhe servirá de abrigo até a sua transformação em adulto (Figura 25). Normalmente, associado ao ataque dessas lagartas, encontra-se um emaranhado de teias que prejudicam o desenvolvimento normal das brotações (Figura 26). No solo, na projeção da copa, encontra-se uma grande quantidade de dejetos em forma de grânulos, o que denuncia também a presença da praga na planta (Figura 27). O ataque dessa praga pode acontecer tanto na fase vegetativa como na reprodutiva, sendo nesse caso mais prejudicial ao cajueiro porque as larvas se alimentam também das inflorescências.
Foto: Antônio Lindemberg Martins Mesquita
Figura 24. Folhas rendilhadas por lagarta-saia-justa.
Foto: Antônio Lindemberg Martins Mesquita
Figura 25. Início da formação do abrigo para proteção da lagarta-saia-justa.
Foto: Antônio Lindemberg Martins Mesquita
Figura 26. Lagartas protegidas por emaranhado de teias.
Foto: Antônio Lindemberg Martins Mesquita
Figura 27. Dejetos em forma de grânulos na projeção da copa indicando planta atacada pela lagarta-saia-justa.
Pupas: Após a construção do abrigo, a lagarta permanece dentro do mesmo invólucro até se transformar em adulto. Porém, antes de empupar, a lagarta fixa o abrigo em um galho ou ramo e permanece no seu interior até a emergência do adulto (Figura 28). Muitas vezes, a larva migra do cajueiro hospedeiro e empupa em plantas ou em fios de arame de cercas próximas ao aceiro do cajueiral (Figura 29).
Foto: Antônio Lindemberg Martins Mesquita
Figura 28. Detalhe do abrigo fixado ao ramo com a pupa no seu interior.
Foto: Antônio Lindemberg Martins Mesquita
Figura 29. Pupas em fios de arame de cerca no aceiro do cajueiral.
Os seguintes passos são recomendados para detectar e eliminar a praga da área:
  1. Monitorar regularmente o pomar, observando a presença de postura em forma de fitas nos ramos ou galhos.
  2. Retirar as posturas de coloração amarronzada ou preta. As posturas brancas não precisam ser retiradas porque as lagartas já emergiram; porém dão a indicação de que a planta está infestada.
  3. Procurar folhas unidas, rendilhadas ou com presença de teias, principalmente no final dos ramos ponteiros.
  4. Retirar a massa de lagartas e destruí-las.
  5. Procurar e retirar folhas enroladas, formando invólucros ou abrigos com lagartas ou pupas no seu interior, as quais devem ser eliminadas.
Em condições de campo, as lagartas-saia-justa são bastante parasitadas por vespas do gênero Bracon e outros parasitoides, e também controladas naturalmente por percevejos predadores (Figuras 30 e 31). Tais inimigos naturais devem ser preservados, evitando o uso de inseticidas químicos.
Foto: Antônio Lindemberg Martins Mesquita
Figura 30. Lagarta-saia-justa morta por inimigos naturais em campo.
Foto: Antônio Lindemberg Martins Mesquita
Figura 31. Lagarta-saia-justa sendo sugada por percevejo predador.
 
Para todos os desfolhadores, os principais sintomas de ataque são folhas danificadas e redução da área foliar, prejudicando a formação de fotossintatos, com reflexos negativos na produção das plantas.
O controle deverá ser feito quando a desfolha for de 60% na fase vegetativa e de 40% na fase reprodutiva da planta.

3.5. Díptero-das-galhas ou verruga-das-folhas, Stenodiplosis sp. = Contariniasp. (Diptera: Cecidomyiidae)

Esse inseto ataca intensamente o cajueiro na época de lançamento das folhas novas e, principalmente, quando o fluxo foliar ocorre no período úmido. O ataque dessa praga também pode ser problemático em viveiros de mudas.
A fêmea faz a postura internamente no tecido vegetal, havendo a formação de pequenas esferas, onde vivem as larvas, que podem causar deformação e redução da área foliar. Há uma nítida preferência desta praga pelas folhas mais jovens.
O sintoma característico é o aparecimento de galhas ou pequenas esferas com formato de verrugas nas folhas (Figura 32), de coloração alaranjada. O controle deverá ser feito quando se observar presença de galhas de forma generalizada em folhas novas.
Foto: Antônio Lindemberg Martins Mesquita
Figura 32. Verrugas nas folhas mais arroxeadas.

3.6. Larva-do-broto-terminal, Stenodiplosis sp. = Contarinia sp. (Diptera: Cecidomyiidae).

As larvas desse inseto atacam as gemas terminais; com a morte do broto, a planta emite novas brotações laterais que são atacadas imediatamente.
O principal sintoma é a formação de uma estrutura semelhante a um “repolhinho”, que abriga as larvas, na gema terminal do ramo (Figura 33). A inflorescência emitida, a partir de um broto atacado, é de pequeno tamanho, deformada e sem condição de se desenvolver e produzir.
O controle deverá ser feito quando for observado ataque superior a 20% dos ponteiros novos com sintomas em forma de “repolhinhos”.
Foto: Antônio Lindemberg Martins Mesquita
Figura 33. Sintoma de “repolhinho” em ramo de cajueiro causado pela larva-do-broto-terminal.
No semi-arido do Piauí, foi observado diferenças entre os clones de cajueiros quanto ao ataque larva-do-broto-terminal. Os clones foram classificados como: suscetível (‘BRS 265’), moderadamente resistente (‘BRS 226’) e altamente resistente (‘CCP 09’). A resistência observada foi provavelmente do tipo não preferência para oviposição.

3.7. Escaravelho ou besouro-dos-ponteiros, Hilarianus sp. (Coleoptera: Scarabaeidae).

Essa espécie foi constatada atacando plantios comerciais de cajueiro-anão ‘CCP 76’, nos municípios de Beberibe, no Ceará, Apodi e Severiano Melo, no Rio Grande do Norte, e Pio IX, no Piauí, onde a ocorrência se deu em uma área experimental de clones de cajueiros-comuns e anões. O adulto tem coloração amarronzada (Figura 34), hábito noturno e se alimenta de brotações novas, podendo destruir, completamente, a parte terminal dos ramos (Figura 35). Em caso de alta infestação, raspa também a casca dos ramos tenros anelando-os e provocando seu ressecamento. As larvas, conhecidas como corós, são do tipo escarabeiforme, apresentam o corpo recurvado em forma de “c” e coloração branca amarelada; possuem três pares de pernas toráxicas que, assim como a cabeça, são de coloração marrom. Nos cajueirais, as larvas foram encontradas no solo, na base de plantas jovens, principalmente em áreas onde foi utilizada cobertura morta de bagana de carnaúba não decomposta. Em função do hábito noturno da espécie, o controle da praga tem sido feito por pulverizações, após as 21 horas, na tentativa de atingir o inseto adulto.
Foto: Antônio Lindemberg Martins Mesquita
Figura 34. Besouro-dos-ponteiros.
Foto: Antônio Lindemberg Martins Mesquita
Figura 35. Danos nos ramos ponteiros causados pelos adultos.

4-Insetos que atacam raízes e troncos

4.1. Brocas da raiz e tronco do cajueiro, Marshallius bondari Lima , e M. anarcardii Rosado Neto, (Coleoptera: Curculionidae)
As duas pragas pertencem ao gênero Marshallius, sendo que a broca-da-raiz pertence à espécie M. bondari e a do tronco à espécie M. anacardii. A diferença entre as pragas está no comportamento, no tamanho e coloração dos adultos.
O adulto da broca-da-raiz tem o corpo escuro com manchas claras no tórax e final do abdômen (uma de cada lado), mede de 13,13 mm a 17,17 mm, a larva destrói o sistema radicular da planta, e fabrica um abrigo de formato oval, com terra e resto vegetal, no interior do qual se transforma em polpa, e posteriormente, em adulto.
O adulto da broca-do-tronco apresenta também as manchas claras no final do abdômen, mas não são bem visíveis no tórax. A larva se alimenta, principalmente, na região do colo da planta, logo abaixo da casca. No final do período larval, penetra no lenho, onde constrói uma célula pra se transformar em pupa e, em seguida, em adulto, que sai por pequenos furos circulares.
A broca-da-raiz (Figura 36) também pode fazer essas cavidades abaixo da linha do solo, de tamanho maior, sendo que a emergência dos adultos só se dá na estação chuvosa seguinte. Essa praga pode ser controlada pelo arranquio das plantas atacadas, revolvendo o solo à distância de 1 metro ao redor da planta, na profundidade de aproximadamente 60 cm. Deve-se, ainda, encoivarar e queimar imediatamente o material sobre o solo revolvido.
Foto: Luiz Augusto Lopes Serrano
Figura 36. Broca Marshallius do cajueiro.

Tabela 1. Os inseticidas registrados no MAPA para controle de pragas do cajueiro com os respectivos nomes comerciais, ingredientes ativos, doses e classes toxicológicas.
Produto comercial
Ingrediente ativo
Doses
(pc/100 L água1)
Classe toxicológica

Praga controlada
Decis 25 EC
deltametrina
0,150 L
III- medianamente tóxico
Broca-das-pontas
Dominador
deltametrina
0,100 L
IV- pouco tóxico
Broca-das-pontas
1Produto Comercial por 100 litros de água.