sábado, 9 de junho de 2018

Tratos Culturais e Podas na Cultura do Guaraná

Controle de plantas invasoras

Durante os dois primeiros anos após o plantio, quando necessário, deve ser feito o coroamento das plantas com uso de enxada, num raio de aproximadamente meio metro. Deve-se evitar revolver em excesso o solo, para não cortar o sistema radicular do guaranazeiro, que é muito superficial, e impedir a formação de "bacias" ao redor das plantas. Nas entrelinhas, quando o mato atingir mais de 40 cm de altura, deve-se fazer roçagem com terçado ou roçadeiras costais motorizadas. Em situações de elevada infestação de plantas daninhas ou presença de espécies agressivas, como o capim-taripucu, o controle pode ser feito com herbicidas dessecantes à base de glifosato, aplicando-os dentro das normas de segurança, sem que o produto atinja o guaranazeiro.

Cobertura morta

Nos 24 meses após o plantio, recomenda-se o uso de cobertura morta ao redor das plantas, no verão (junho a outubro), com o objetivo de diminuir a temperatura do solo, evitar a perda de água, controlar plantas daninhas e fornecer matéria orgânica para a planta. Esses restos vegetais podem ser das próprias plantas invasoras roçadas na área de plantio, devendo-se tomar o cuidado de não deixar a cobertura morta encostar no tronco da planta.

Poda de limpeza

Logo após o término do período de colheita (janeiro/fevereiro), deve-se fazer a poda de limpeza, eliminando-se ramos secos, quebrados e doentes das plantas. Retira-se também um terço das extremidades dos ramos mais longos, para impedir que as plantas fechem a linha, e aqueles que produziram no ano anterior.
Restos florais e frutos remanescentes também devem ser eliminados. Durante o decorrer do ano, é importante a vistoria das plantas, para a eliminação de ervas de passarinho e de ramos que apresentarem superbrotamento.

Poda de frutificação

Entre a segunda quinzena de abril e a primeira quinzena de maio, preferencialmente, proceder à poda de frutificação, reduzindo em 50% o número de lançamentos e em 50% o comprimento dos ramos remanescentes. Primeiramente retiram-se os ramos da parte basal da copa (Figura 1A, 1B e 1C); depois, podam-se os ramos da parte superior da planta (Figura 1D) e realiza-se o acabamento (Figura 1E). A planta deve ficar com o formato de taça (Figura 1F), facilitando a adubação, os tratos culturais e a colheita.
Fotos: Murilo Arruda

Figura 1. Poda de frutificação: planta antes da poda (A), sequência de passos para a poda (B e E) e resultado final (F).
Adubação
As quantidades, fontes e épocas de aplicação de fertilizantes para o guaranazeiro no Amazonas encontra-se na Tabela 1. Na Tabela 2, sugestão de fontes e suas respectivas quantidades de nutrientes para adubação do guaranazeiro. Nos primeiros 12 meses após o plantio, os adubos devem ser colocados ao redor e a 15 cm do colo da planta, em cobertura. Do segundo ao terceiro ano, a localização do fertilizante deverá ser disposta a partir de 20 cm do coleto, também de forma circular, numa faixa de 30 cm de largura. Do quarto ano em diante, a adubação será distribuída ao redor de toda a planta, a uma distância mínima de 50 cm do colo da planta, espalhando-o até o limite da projeção da copa. 
Tabela 1. Recomendação de adubação para o guaranazeiro no Estado do Amazonas.
Idade
Parcelamento
N
P2O5
K2O
Mg
B
Zn
g/planta
1° ano*
No plantio
-
25
-
-
-
-
3 meses após o plantio
8
-
24
5
1
1
Total adubo ao ano
8
16
24
5
1
1
2° ano*
1ª aplicação
8
50
-
5


2ª aplicação
8
-
24
-
1
1
3ª aplicação
8
-
24
-


Total adubo ao ano
24
50
48
10
1
1
3º ano*
1ª aplicação
18
50
-
10
-
-
2ª aplicação
18
-
24
-
1
1
3ª aplicação
36
-
48
-
-
-
Total adubo ao ano
72
50
72
10
1
1
1ª aplicação: final do período produtivo, logo após a poda de limpeza (janeiro).
2ª aplicação: logo após a poda de frutificação, lançamento de ramos novos (abril).
3ª aplicação: logo antes do início da floração (maio).
*Esta adubação deverá ser feita sempre até maio, mesmo que não se tenha completado os três meses.
Fonte: Embrapa Amazônia Ocidental, 2005.

Controle de pragas

O tripes (Liothrips adisi) é o inseto que causa os maiores danos ao guaranazeiro no Amazonas. Desenvolve-se (ovo, ninfa e adulto) geralmente na parte inferior de folhas em estádio inicial de desenvolvimento, onde causa deformações e queda, e nas inflorescências, provocando o secamento prematuro das flores. Essa espécie também ataca os frutos nos estádios iniciais de seu desenvolvimento, comprometendo o crescimento e a qualidade (Figura 2).
Fotos: Marcos V. B. Garcia 

Figura 2. Tripes (Liothrips adisi) (A); danos causados aos frutos (B) e folhas (C); desfolha do guaranazeiro causada pelo tripes (D).
Tabela 2. Recomendação de fontes e doses de fertilizantes para a cultura do guaranazeiro no Estado do Amazonas.
Idade
Parcelamento
Sulfato de amônia
Superfosfato simples
Cloreto de Potássio
Sulfato de Magnésio
Bórax
Sulfato de zinco
g/planta
1° ano*
No plantio
-
150
-
-
-
-
3 meses após o plantio
40
-
40
50
10
10
Total adubo ao ano
40
150
40
50
10
10
2° ano*
1ª aplicação
40
300
-
50


2ª aplicação
40
-
40
-
10
10
3ª aplicação
40
-
40
-
-
 -
Total adubo ao ano
120
300
80
50
10
10
3º ano*
1ª aplicação
90
300
-
50
-
-
2ª aplicação
90
-
40
-
10
10
3ª aplicação
180
-
80
-
-
-
Total adubo ao ano
360
300
120
50
10
10
1ª aplicação: final do período produtivo, logo após a poda de limpeza (janeiro).
2ª aplicação: logo após a poda de frutificação, lançamento de ramos novos (abril).
3ª aplicação: logo antes do início da floração (maio).
*Esta adubação deverá ser feita sempre até maio, mesmo que não se tenha completado os três meses.
Fonte: Embrapa Amazônia Ocidental, 2005.
Em sua fase jovem, o inseto apresenta coloração que varia do alaranjado ao avermelhado; quando adulto, torna-se negro, com 2,2 mm de comprimento, em média. Durante o período chuvoso, a população de tripes é relativamente baixa, e no início do período seco, que coincide com a floração e frutificação, o inseto se multiplica rapidamente.
O controle desta praga nas áreas experimentais da Embrapa Amazônia Ocidental tem sido feito com uso dos inseticidas acephate 75% (40 g do produto comercial em 20 litros de água), methamidophos 60% (30 mL do produto comercial em 20 L de água) ou ainda a deltamethrina 25% (10 mL do produto comercial em 20 L de água), preventivamente, a partir dos ramos novos (maio) até o início da frutificação (setembro). A aplicação sempre é feita após as 16h, período em que a visitação de polinizadores nas flores é mínima. Entretanto, esses produtos ainda estão em processo de registro provisório no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Controle de doença

Antracnose
Esta doença (Figura 3) é causada pelo fungo Colletotrichum guaranicola, que ataca a planta em qualquer estádio de desenvolvimento de forma altamente destrutiva. Nas plantas atacadas, o fungo induz o crestamento (queima) em folhas jovens, com sua subsequente queda. Em folhas novas, ainda em crescimento e antes da maturidade, os sintomas são lesões necróticas com formato variável de circular a elíptico, caracterizando o quadro da antracnose. 

Quando numerosas, essas lesões causam deformações e enrolamento das folhas, principalmente quando atingem as nervuras. Folhas maduras ou velhas não são infectadas. Ataques sucessivos deste fungo induzem a morte descendente dos ramos e por fim a da planta. O controle da antracnose pode ser obtido pelo emprego de pelo menos três estratégias: utilização de clones possuidores de alto níveis de resistência estável, aplicações regulares de fungicidas e redução de severidade de doença mediante utilização de podas em épocas pré-definidas.

Fotos: Murilo Arruda
  
Figura 3. Incidência de antracnose (Colletotrichum guaranicola) em folhas jovens do guaranazeiro, no detalhe (A), levando à má formação das folhas maduras (B).

Utilização de clones resistentes

A utilização de clones possuidores de altos níveis de resistência estável e previsível constituiu-se na estratégia de controle mais viável do ponto de vista socioeconômico e ambiental. Neste sentido, a Embrapa Amazônia Ocidental, através do seu programa de melhoramento genético do guaranazeiro, tem caracterizado os clones quanto ao nível de resistência, estabilidade e previsibilidade de resistência, frequência de infecção e também adaptabilidade dos clones a serem recomendados para o uso pelos produtores. Além de apresentarem estabilidade para resistência à antracnose, estes clones foram também selecionados com relação às características agronômicas adequadas ao manejo sustentável da cultura. Os clones BRS-Maués, BRS-Amazonas, BRS-CG-611, BRS-CG-648, BRS-CG-882 e BRS-CG-612 estão sendo recomendados para o cultivo em região e/ou locais onde a antracnose constituiu-se em fator de produção (Tabela 1). Para as regiões onde a antracnose não prevalece, ou seja, apresenta baixos níveis de severidade, podem ser utilizados os clones BRS-CG- 372, BRS-CG-189, BRS-CG-505, BRS-CG-610, BRS-CG-850 e BRS-CG-608 (Tabela 2).

Utilização de podas

Trabalhos executados no Campo Experimental da Embrapa Amazônia Ocidental no Município de Maués têm demonstrado efeito positivo da poda do guaranazeiro em reduzir substancialmente a severidade da antracnose. Desta forma a poda pode constituir medida complementar de controle da antracnose, visando à redução da severidade da doença nos plantios efetuados com guaranazeiros suscetíveis.
Em princípio o objetivo da poda é estimular a planta a emitir novos lançamentos e subsequentemente novas folhas em época menos favorável à doença.
Baseados em testes efetuados no Campo Experimental de Maués, recomenda-se a realização da poda do guaranazeiro nos meses de abril e maio, preferencialmente entre a segunda quinzena de abril e a primeira quinzena de maio. A poda do guaranazeiro, visando diminuir a severidade da antracnose, é constituída pela redução de 50% do número de lançamentos e de 50% no comprimento dos lançamentos remanescentes e principalmente a eliminação das secções verdoengas dos lançamentos e das folhas fisiologicamente imaturas.

Utilização de fungicidas

O uso de fungicidas é a estratégia de controle mais prontamente disponível para estabilizar a produtividade em cultivos com clones altamente suscetíveis à antracnose, principalmente em regiões onde as condições favoráveis à doença prevalecem por um longo período de tempo e/ou em anos com período de precipitação pluviométrica prolongado. Para a maior eficiência de controle, os fungicidas devem ser aplicados cerca de três semanas após as podas, de abril e maio, e/ou quando aproximadamente 10% dos ramos apresentarem lançamentos com folhas novas.
Com base em experimentos executados no Campo Experimental da Embrapa Amazônia Ocidental em Maués, os fungicidas1 azoxistrobin 0,1 L/ha, azoxistrobin 0,1 L/ha + difenoconazole 0,162 L/ha, tiofanato metílico 0,425 kg/ha, tebuconazole 0,16 L/ha e  flutriafol 0,125 L/ha controlam eficientemente a antracnose do guaranazeiro. Para a maior eficiência de controle, os fungicidas devem ser aplicados a intervalos regulares de 14 dias, perfazendo um total de três aplicações.

Superbrotamento

O fungo causador desta doença é o Fusarium decemcellulare (Figura 4), que provoca a inibição quase completa do florescimento e consequentemente da produção. O fungo induz a emissão de brotações sucessivas ao longo dos ramos, caracterizados pelo crescimento desuniforme e exagerado dos tecidos. Os sintomas aparecem em mudas e plantas adultas. Para o controle do superbrotamento, recomenda-se realizar inspeções fitossanitárias periódicas em intervalos regulares de 30 dias, a partir do mês de fevereiro até o mês de setembro. Durante as inspeções, eliminar as partes afetadas, seccionando-se o lançamento aproximadamente 10 cm abaixo do início do superbrotamento. É necessário que se proceda à poda fitossanitária, eliminando-se as partes da planta afetadas pela doença quando elas ainda estiverem verdes, de forma a prevenir maiores danos ao guaranazeiro. Quando a doença incidir nas inflorescências, recomenda-se eliminar todo o lançamento portador dessas doenças, seccionando-se 10 cm abaixo da última inflorescência a apresentar superbrotamento. As partes recepadas da planta devem ser retiradas das áreas de cultivo.
Fotos: Murilo Arruda

Figura 4. Superbrotamento em gemas vegetativas (A); Poda fitossanitária, 10 cm abaixo do início do superbrotamento em gema vegetativa (B); Retirada de partes de plantas infectadas (C); Superbrotamento em gemas florais (D); e Poda fitossanitária, 10 cm abaixo do início do superbrotamento em gemas florais (E).

Podridão-vermelha-das-raízes

Doença causada pelo fungo Ganoderma philippii, que ocorre quando a raiz do guaranazeiro entra em contato com restos de vegetação colonizados pelo fungo, como troncos apodrecidos que ficam no solo após a derrubada da mata. O sintoma inicial é um amarelecimento que começa de um lado da planta para depois se generalizar, causando seu secamento total. Verifica-se necrose extensiva na parte externa da raiz principal e no colo da planta (Figura 5), que apresenta coloração marrom-avermelhada; e as raízes mais novas ficam totalmente cobertas pelo fungo, o que lhes causa a morte. Para o controle, recomenda-se erradicar e queimar as plantas doentes evitando-se o replantio no mesmo local, retirar troncos e raízes apodrecidos ou não do local antes do plantio e evitar ferimentos nas raízes e colo da planta durante a realização dos tratos culturais.
Fotos: Firmino José N. Filho
 
Figura 5. Sitomas da podridão-vermelha-das-raízes do guaranazeiro.





sexta-feira, 1 de junho de 2018

Implantação da Cultura do Guaraná



A implantação de um guaranazal exige planejamento inicial, levando-se em consideração fatores que vão desde a escolha da área até a pós-colheita, passando pelos tratos culturais, com o objetivo de se ter em mão todas as técnicas que, quando somadas, irão resultar na expressão de toda a capacidade produtiva do guaranazeiro.

Clima e solo

O guaranazeiro se desenvolve adequadamente em locais com temperatura média anual de 23 ºC a 28 ºC e precipitação pluviométrica de 1.500 a 3.000 mm/ano, com um período de seca definido, fator este que aparentemente induz o florescimento da planta. Essas condições são encontradas na Amazônia, no sul da Bahia e norte do Mato Grosso, onde a cultura se desenvolve satisfatoriamente.

A planta do guaraná tem sido cultivada em solos profundos e bem drenados, sem pedregosidade, e com textura variando de média a argilosa. O terreno pode ser plano, se bem drenado, ou levemente inclinado, uma vez que o guaranazeiro morre ao menor sinal de acúmulo de água na região de seu sistema radicular. Locais com declividade elevada devem ser evitados, já que podem ocorrer problemas com erosão.

Clones recomendados

Em 1999, foi realizada, pela Embrapa Amazônia Ocidental, a primeira recomendação oficial de clones de guaranazeiro, com o lançamento dos clones BRS Amazonas e BRS Maués. A partir do ano 2000, outros dez clones, cujas características morfológicas e agronômicas encontram-se nas Tabelas 1 e 2, foram lançados para cultivo no Amazonas. Esses clones deverão contribuir para o aumento da produtividade e rentabilidade da cultura na região.
Tabela 1. Características morfológicas e agronômicas dos clones de guaranazeiro recomendados para plantio no Amazonas.
Nome
Cor dos frutos
Tipo de ramos
Reação à antracnose
Número de colheita/ano
Produtividade*
BRS-Amazonas
Amarelo-avermelhada
Curto
Resistente
5
1,5
BRS-CG648
Vermelho-amarelada
Curto
Resistente
3
1,0
BRS-CG612
Amarelo-avermelhada
Médio
Resistente
3
1,1
BRS-CG882
Vermelho-amarelada
Médio
Resistente
4
1,1
BRS-CG611
Vermelho-amarelada
Longo
Resistente
4
1,4
BRS-Maués
Alaranjada
Longo
Resistente
4
1,5
*Expresso em kg/planta/ano de sementes secas. Valores médios obtidos de cinco colheitas a partir do 3° ano do plantio.
Fonte: Embrapa Amazônia Ocidental, 2005. 
As principais vantagens desses clones em relação às plantas tradicionais, originadas de sementes, são: a) redução no tempo de formação da muda, que é de aproximadamente sete meses, enquanto a muda de sementes demora pelo menos 12 meses; b) resistência dos clones à antracnose; c) produtividade até dez vezes maior do que a média das plantas tradicionais; d) precocidade para o início da produção, que é, em média, de dois anos, contra quatro anos das plantas de sementes; e e) sobrevivência das plantas oriundas de estacas, no campo, após quatro anos do plantio superior a 95%, enquanto nos plantios provenientes de sementes apenas 20% dos indivíduos sobrevivem. Todos esses fatores têm como consequência o menor custo de implantação e condução da cultura e maior retorno financeiro.
Tabela 2. Características morfológicas e agronômicas dos clones de guaranazeiro recomendados para o Estado do Amazonas, em regiões onde a antracnose não apresenta prevalência.
Nome
Cor dos frutos
Tipo de ramos
Número de colheitas/ano
Produtividade*
BRS-CG372
Vermelho-amarelada
Curto
3
1,5
BRS-CG189
Vermelho-amarelada
Médio
3
1,0
BRS-CG505
Vermelho-amarelada
Médio
5
1,1
BRS-CG610
Vermelho-amarelada
Médio
3
1,1
BRS-CG850
Amarelo-alaranjada
Médio
4
1,3
BRS-CG608
Amarelo-avermelhada
Longo
4
1,3
*Expresso em kg/planta/ano de sementes secas. Valores médios obtidos de cinco colheitas a partir do 3° ano do plantio.
Fonte: Embrapa Amazônia Ocidental. Manaus, AM, 2005.

Escolha e preparo do solo

Em razão dos custos e da conservação do ambiente, deve-se escolher áreas anteriormente cultivadas ou de capoeiras para o plantio do guaranazeiro, evitando-se locais de matas virgens. No preparo de áreas já abertas, como pastagens degradadas, recomenda-se inicialmente uma aração ou escarificação do solo, para prevenir e corrigir problemas de compactação. Caso isso não seja possível, deve-se abrir covas maiores, para proporcionar a expansão do sistema radicular da planta no início de seu desenvolvimento.
Para o preparo de áreas de capoeira, faz-se a broca, retirando-se inicialmente cipós, arbustos e árvores com caule de aproximadamente 20 cm de diâmetro. Depois, faz-se a derrubada manual ou mecanizada das árvores de maior porte, com exceção daquelas protegidas por lei, como a castanheira e o mogno. Terminada a fase de derrubada, fazem-se aceiros com pelo menos 2 m de largura ao redor de toda a área, preparando-a para a queima da vegetação. As restrições legais, assim como as devidas licenças para o uso da queimada, devem ser obtidas nos órgãos responsáveis. No Amazonas, essa operação deve ser realizada de julho a outubro, período que apresenta menor intensidade de chuvas, o que facilita a queima da vegetação.
Práticas de conservação devem ser adotadas para manutenção e melhoria da qualidade do solo. Essas práticas variam de acordo com o tipo de solo, com a declividade do terreno e precipitação local. Em áreas declivosas, recomenda-se a construção de terraços e o plantio em nível. O dimensionamento dos terraços deverá ser orientado por um técnico.
Para as condições edafoclimáticas do Amazonas é de vital importância a cobertura vegetal do solo para evitar a sua degradação. O plantio de culturas intercalares nos três primeiros anos é recomendado. Outra alternativa é o uso das próprias plantas daninhas (Figura 1) como cobertura do solo, desde que seu manejo seja feito corretamente, de maneira a não interferir no desenvolvimento do guaranazeiro.
Foto: Murilo Arruda
Figura 1. Plantas do clone BRS- CG611 aos 18 meses após o plantio em área de capoeira.
Espaçamento, demarcação da área e preparo da cova
O espaçamento recomendado para o guaranazeiro é o de 5 m nas entrelinhas e 5 m entre plantas, totalizando 400 covas por hectare. A área deverá ser inicialmente demarcada com piquetes nos locais onde ficarão os centros das covas. Os piquetes devem ser de madeira, de preferência verde, para evitar a infestação de cupins, que poderão atacar a muda quando de seu plantio. A alternativa é o plantio em sulcos, com pelo menos 40 cm de profundidade, diminuindo os custos de implantação em propriedades que possam ter acesso a máquinas. A abertura e a adubação das covas ou sulcos deverão ser feitas pelo menos 30 dias antes do plantio das mudas.
Para a abertura da cova, quando feita manualmente, raspam-se cerca de 5 cm da terra superficial (solo mais escuro, rico em matéria orgânica) em volta do piquete, num raio de aproximadamente um metro, deixando-a separada. Em seguida, abre-se a cova com pelo menos 40 cm x 40 cm x 40 cm de largura, comprimento e profundidade, respectivamente, deixando-se ao lado, em um  único ponto, o solo dela retirado. No solo mais escuro, deixado separado, adicionam-se 150 g de superfosfato simples e pelo menos 10 litros de esterco de gado ou 4 litros de esterco de aves curtido. Mistura-se bem e preenche-se a cova (Figura 2). Caso a quantidade da mistura não seja suficiente para encher a cova totalmente, pode-se utilizar, para completá-la, o solo que foi retirado da cova. O nível do solo da cova nunca deverá ficar abaixo do nível do solo da área, para não haver acúmulo de água. Após o preparo da cova, recoloca-se o piquete em seu centro para permitir que o local exato de plantio seja encontrado.
Fotos: Murilo Arruda

Figura 2. Cova aberta (A), adubação do solo de preenchimento da cova (B) e fechamento da cova (C).

Plantio

O plantio das mudas deverá ser feito no período chuvoso (janeiro a março), de preferência em dias nublados e com temperatura amena. Retira-se o piquete da cova e abre-se um buraco, com a ferramenta "boca de lobo", com tamanho suficiente para conter o volume de terra da muda e profundidade adequada, em que o nível superior do torrão coincida com o nível do solo. Caso seja necessário, deve-se colocar ou retirar terra da abertura até que se consiga a altura ideal. O saco plástico deve ser retirado com cuidado para não desmanchar o torrão de terra da muda, o que poderia danificar as raízes. Após colocar a muda na cova, preenchem-se os espaços vazios com terra, comprimindo-a com um espeque de madeira (Figura 3), a fim de evitar que fiquem bolsas de ar em torno da muda. Ao final do plantio, recomenda-se colocar o solo ao redor de cada muda, para evitar o aparecimento de "bacias" e acúmulo de água.
Fotos: Murilo Arruda

Figura 3. Abertura da cova para o plantio, 30 dias após o seu preparo (A e B); retirada do saco plástico, evitando danos  às raízes (C e D); plantio  da muda (E); leve compactação do solo ao redor da muda para retirada de bolhas de ar em excesso (F).

Sombreamento

Imediatamente após o plantio e nos meses seguintes, as mudas devem permanecer protegidas do sol, para evitar a sua desidratação e morte.
Assim, recomenda-se cobri-las com folhas de palmeira, utilizando-se três pedaços de aproximadamente um metro. As folhas de palmeira devem ser cortadas em bisel e fincadas firmemente no terreno, sendo colocadas com a parte mais fina da nervura central para baixo, para facilitar o escoamento da água (Figura 4). Um dos pedaços deve ser colocado na direção do nascente e os outros dois, na direção do poente, dado que o sol da tarde é mais agressivo à planta.
Fotos: Murilo Arruda
Figura 4. Muda de guaranazeiro protegida com folhas de palmeira.