quarta-feira, 11 de abril de 2018

Plantas Daninhas na Cultura da Mangueira (Manga)



Plantas espontâneas

As plantas espontâneas são um dos maiores problemas da agricultura tropical e uma das maiores causas de perdas na produção agrícola em todo o mundo. Além da redução da produção, as plantas invasoras reduzem a qualidade do produto, aumentam os custos, servem como hospedeiras de pragas, doenças, nematoides e, ainda, podem apresentar efeito alelopático sobre a cultura. É fundamental diferenciar uma planta indesejável (planta daninha) das outras de interesse agrícola. Para tanto, é importante lembrar que daninha é toda e qualquer planta não cultivada que causa perdas às explorações agrícolas por meio, principalmente, da competição por luz, água, nutrientes e espaço. Essas e outras perdas conferem a responsabilidade direta ou indireta às plantas espontâneas de serem causadoras de menores rendimentos do pomar de manga bem como de elevarem o custo de produção.
Estas plantas espontâneas podem se apresentar como anuais, bianuais e perenes, e esse conhecimento é indispensável para que possam ser controladas.
Plantas anuais são aquelas que possuem um ciclo vegetativo de, no máximo, 1 ano, reproduzindo-se, exclusivamente, por sementes. Todo o trabalho de erradicação destas invasoras deve estar voltado à não produção de sementes. As bianuais são plantas que no primeiro ano apresentam apenas crescimento vegetativo, para, no segundo ano, produzirem sementes. As perenes são, na verdade, as plantas indesejáveis de controle mais difícil, visto que se mantêm vivas durante muito tempo, reproduzindo-se todos os anos, além de, geralmente, multiplicarem-se vegetativamente (por rizomas, estolões, etc.), Como exemplo de plantas indesejáveis podemos mencionar a tiririca (Cyperus rotundus L.), o capim-fino (Digitaria horizontalis Willd.), o capim-angola ou capim-de-planta (Brachiaria mutica Forsk), a grama-seda (Cynodon dactylon L.), entre outros.

Manejo de plantas espontâneas

No manejo das plantas invasoras ou espontâneas, podem ser utilizadas estratégias preventivas e de controle por meio do manejo cultural, mecânico, químico e integrado, levando-se em consideração o impacto ao meio ambiente e ao homem.
Manejo preventivo
O manejo preventivo é a melhor e mais eficaz forma de evitar ou reduzir a infestação das áreas pelas plantas daninhas. Dentre as medidas preventivas que podem ser adotadas na cultura da manga citam-se: aquisição de mudas isentas de sementes ou propágulos de plantas daninhas; em caso de utilização de material orgânico, deve-se dar preferência ao material curtido, pois o processo de fermentação reduz a viabilidade das sementes das plantas daninhas; limpeza de veículos, equipamentos e roupas a fim de evitar que sementes ou propágulos das plantas daninhas de áreas infestadas entrem em novas áreas; cuidados com a captação de água para irrigação, pois as sementes das plantas daninhas podem se dispersar pela água e monitorar áreas vizinhas ao pomar de mangueiras eliminando-se possíveis fontes de plantas daninhas.
Manejo cultural
O manejo cultural, por sua vez, aumenta o potencial competitivo da mangueira e reduz a incidência de plantas daninhas. A definição de um período crítico de interferência das plantas daninhas no cultivo da mangueira ainda não está bem clara. Contudo, a competição por água é mais significativa após a formação dos frutos, sendo recomendado, neste período, o controle das invasoras com herbicidas ou roçagem.
O uso da cobertura morta também reduz a incidência das plantas daninhas, seja pela redução da germinação das sementes, pela formação de uma barreira física, seja pelos efeitos alelopáticos. A deposição das folhas da própria mangueira no solo, liberando alguns compostos alelopáticos, reduz a incidência das invasoras. Contudo, durante o ciclo produtivo de formação de frutos, recomenda-se que as áreas sob a projeção da copa das mangueiras fiquem isentas de materiais (plantas espontâneas e restos de culturas, que podem ser fonte de proliferação de patógenos). Esses materiais devem ser removidos, por ação mecânica, para as entrelinhas, onde serão decompostos longe dos respingos da água de irrigação ou das gotas de chuva, a fim de evitar a dispersão de conídios de Fusicoccum sp., Lasiodiplodia theobromae e Alternaria alternata.
A correta condução do pomar como a escolha adequada do espaçamento e a densidade de plantio, o preparo do solo, a irrigação, a adubação e o controle de pragas e doenças aumentam a capacidade competitiva da cultura.
Manejo mecânico
O controle de plantas espontâneas pode ser feito por meio de equipamentos motomecanizados, manuais e de tração animal, e do pastejo direto de ruminantes no pomar. Por medidas de segurança alimentar, o tráfego de animais de tração ou para pastejo na área do pomar, após a floração, deve ser restrito, pois constitui um risco de contaminação alimentar, por alguns patógenos como Salmonella spp.ao usarem os animais como hospedeiros e, assim, constituírem uma ameaça de contaminação aos frutos, o que pode tornar a produção imprópria para alguns mercados importadores, principalmente, os Estados Unidos. Uma vez eliminada por animais infectados, a Salmonella apresenta alta resistência no ambiente. Estudos mostraram que esta bactéria se mantém virulenta por 89 dias em água de tanques, 120 dias em solo seco, 280 dias em gramados, 28 meses em fezes de aves e 30 meses em esterco de bovino. Em decorrência, não somente o contato direto com os animais, mas também da manipulação do seu ambiente pode levar à infecção humana.
A capina manual, com o uso de enxadas, é recomendável apenas para catação e repasse, uma vez que o rendimento é baixo e o custo da operação é alto.
O controle mecanizado de plantas indesejáveis deve estar associado ao método de irrigação, seja ele de superfície (sulcos e bacias), aspersão de subcopa fixa ou móvel, ou localizada (gotejamento e microaspersão).
Equipamentos que promovem a movimentação do solo (grades, cultivadores, enxadas rotativas), entre outros, devem ser utilizados, preferencialmente, fora do período chuvoso, para proteger o solo dos processos erosivos, trabalhando com a menor profundidade possível (suficiente para eliminar as plantas invasoras), a fim de que as partes ativas dos implementos não agridam o sistema radicular da mangueira. No entanto, não é uma prática muito utilizada, em virtude de deixar o solo desnudo e suscetível à erosão hídrica e eólica.
A tendência é explorar a diversidade biológica, aproveitando seu potencial como fonte de matéria orgânica para o pomar de mangueiras, manejando adequadamente as plantas indesejáveis por meio de roçagens, favorecendo a estabilidade ecológica e minimizando o uso de herbicidas. Nos pomares em produção deve-se manter as linhas da cultura da mangueira isentas de plantas espontâneas por meio de roçagens ou capinas, direcionando o material eliminado para as entrelinhas.
É importante lembrar que uma movimentação excessiva de máquinas e equipamentos no pomar causa compactação do solo, principalmente quando o solo está úmido. No entanto, nem sempre é possível evitar estas operações em períodos de alta; nesta condição, a recomendação é utilizar roçagens (Figura 1) que podem ser manuais ou mecânicas, de maneira que permitam controlar os processos de erosão, além de melhorar as condições físicas (estrutura e porosidade) e biológicas do solo.
Foto: Anjos, J. B. dos.
Figura 1. Eliminação de ervas indesejáveis pela roçagem com equipamento manual.
O uso de roçadeira motorizada costal e/ou lateral, equipada com lâminas, é comum na eliminação de ervas indesejáveis. O material cortante pode ser lâminas metálicas de formatos variados. No entanto, o mais recomendável é o fio de náilon com perfil circular ou retangular (corte mais eficiente), pois o risco de danificarem os troncos das fruteiras é bem menor que as lâminas metálicas, visto que os danos físicos podem ser uma porta de entrada de agentes patogênicos (Figura 2).
Foto: Anjos, J. B. dos.
Figura 2. Eliminação de ervas indesejáveis com roçadeira motorizada, operada em posição lateral.
A eliminação de ervas espontâneas com roçadeira de levante hidráulico (posição deslocada) de tração motorizada (trator) é recomendada para trabalhar tanto nas entrelinhas como sob as copas das fruteiras (Figuras 3 e 4). O ideal seria adaptar a roçadeira para lançar o material roçado na direção central das entrelinhas do pomar.
Foto: Anjos, J. B. dos.
Figura 3. Eliminação de ervas indesejáveis com roçadeira de largura simples, de levante hidráulico (posição deslocada), e tração motorizada (trator).
Foto: Anjos, J. B. dos.
Figura 4. Eliminação de ervas indesejáveis com roçadeira de largura dupla, de levante hidráulico (posição deslocada) e tração motorizada (trator).
Manejo químico                                               
Consiste na utilização de produtos denominados herbicidas, que aplicados nas plantas indesejáveis, interferem em seus processos bioquímicos e fisiológicos, podendo matar ou retardar significativamente o crescimento destas. O controle químico de plantas indesejáveis é permitido com algumas restrições. Devem-se utilizar herbicidas preferencialmente no período chuvoso, quando o controle mecânico ou manual é difícil ou ineficiente e mediante receituário técnico, conforme a legislação vigente.
A escolha do herbicida e da dose a ser utilizada deve levar em consideração as espécies de plantas indesejáveis presentes na área e o nível de infestação das mesmas. Não são recomendados herbicidas de princípio ativo pré-emergente na linha de plantio. O herbicida deve ser utilizado somente nas entrelinhas da cultura da mangueira. A aplicação de herbicidas abaixo da copa das fruteiras não é recomendada.
O uso de herbicidas apresenta as vantagens de evitar a competição das plantas daninhas com a cultura desde o início da formação do pomar, controlar mais eficientemente as plantas daninhas de propagação vegetativa e reduzir os danos às raízes da mangueira provocados pelo uso dos equipamentos que revolvem o solo.
Ressalta-se a importância da utilização de equipamentos adequados, a fim de garantir a eficiência da aplicação, assim como o uso de equipamentos de proteção individual (EPIs), de modo a evitar a exposição dos aplicadores aos herbicidas.
Notadamente, o ideal é integrar os métodos de controle (preventivo, cultural, mecânico e químico), a fim de se ter maior eficiência e economia.
No sistema de Produção Integrada de Frutas (PIF), o controle químico de plantas indesejáveis na cultura da mangueira é permitido. Porém, deve ser empregado somente como complemento aos métodos culturais e na faixa de projeção da copa das mangueiras, utilizando-se, no máximo, duas aplicações anuais com produtos de pós-emergência.

Levantamento e ocorrência de plantas espontâneas na cultura da mangueira no Submédio do Vale do São Francisco

O levantamento detalhado da ocorrência de plantas espontâneas no pomar é de fundamental importância no manejo de tais vegetais na cultura da mangueira.
As plantas espontâneas encontradas com mais frequência nos pomares de mangueiras no Submédio do Vale do São Francisco, Petrolina, PE, são apresentadas na Tabela 1.
As informações sobre a frequência de plantas espontâneas encontradas nos pomares de manga (Município de Petrolina, PE) são indicativas para que o técnico responsável pelo receituário e assistência técnica da área elabore o plano de ação dos tratos culturais com o objetivo de obter o máximo de eficiência com um menor custo de produção.
Tabela 1. Lista das plantas espontâneas mais encontradas em cultivo de mangueira no Município de Petrolina, PE.
Nome científico
Nome vulgar
Amaranthus deflexus
bredo
Bidens pilosa
agulha
Boerhaavia diffusa
pega-pinto
Cenchrus echinatus
capim-carrapicho
Chamaesyce hirta
orelha-de-mexirra
Croton glandulosus
bolinha-verde
Croton lobatus
três-sementes
Dactyloctenium aegyptium
pé-de-papagaio
Desmanthus sp.
jureminha
Digitaria horizontalis
capim-fino
Emilia sagittata
serralha-roxa
Emilia sonchifolia
serralha-vermelha
Euphorbia heterophylla
sara-ferida
Evolvulus aff.analoides
azul-rasteira
Froelichia lanata
ervanço-de-pendão
Herissanthia crispa
malva-rasteira
Indigofera sp.
bananinha
Marsypianthes chamaedrys
meloso
Pavonia humifusa
corda-de-viola
Phyllanthus niuri
quebra-pedra
Tribulus cistoides
begô
Waltheria indica
malva-flor-amarela
Fonte: Kiill (2001).