terça-feira, 26 de dezembro de 2023

Espécies, Variedades e Cultivares de Pitayas

 

Variabilidade genética

As pitayas são conhecidas mundialmente como Dragon Fruits ou Frutas-do-Dragão e pertencem à família Cactaceae, a qual possui aproximadamente 100 gêneros e 1.500 espécies nativas das Américas. No Brasil, a pitaya é considerada uma fruta exótica pelo fato de ser pouco conhecida, exuberante e comercializada com alto valor, principalmente em mercados exigentes.

Existem diferentes espécies cultivadas que são referidas como pitayas. A taxonomia das pitayas tem sido alvo de muitas controvérsias e revisões dos gêneros e espécies ao longo do tempo. Na revisão mais recente, as espécies mais importantes das pitayas do ponto de vista comercial foram classifi cadas dentro do gênero Selenicereus. As quatro espécies de maior potencial comercial apresentam diferenças quanto ao tamanho do fruto, cor da casca e cor da polpa: a Selenicereus undatus (Haw.) D.R.Hunt (frutos grandes com casca vermelha e polpa branca), Selenicereus costaricensis (F.A.C.Weber) S.Arias & N.Korotkova ex Hammel (frutos médios com casca vermelha e polpa vermelha), Selenicereus megalanthus (K.Schum. ex Vaupel) Moran (frutos médios com casca amarela com espinhos e polpa branca) e Selenicereus setaceus (Salm-Dyck ex DC.) A.Berger ex Werderm (frutos pequenos com casca vermelha com espinhos e polpa branca).

As espécies S. undatus e S. megalanthus são as mais cultivadas no mundo. A espécie S. undatus tem destaque comercial devido à sua alta produtividade e produção de frutos grandes e a espécie S. megalanthus por produzir frutos amarelos com uma polpa muito doce. A espécie S. costaricensis se destaca pela coloração vermelho-arroxeada da polpa com presença de compostos antioxidantes e a S. setaceus por ter uma polpa muito saborosa com uma combinação perfeita entre o teor de sólidos solúveis totais e uma leve acidez, o que confere um sabor aprimorado. A espécie S. setaceus é nativa da região do Cerrado, sendo o potencial comercial relatado por Junqueira et al. (2002).

É importante considerar que existe grande variabilidade intraespecífica, ou seja, existem diferenças genéticas entre acessos dentro de cada espécie. Esta variabilidade genética tem sido verificado para características de interesse agronômico como fenologia, produtividade, adaptabilidade, resistência a doenças, características físicas e químicas dos frutos, autocompatibilidade, vigor, precocidade, fenologia e sensibilidade ao fotoperíodo para indução de florescimento (Junqueira et al., 2010; Lima et al., 2014; Faleiro e Junqueira, 2021). Esta rica variabilidade é a base para os trabalhos de melhoramento genético das espécies, tendo em vista o desenvolvimento de cultivares geneticamente superiores (Faleiro e Junqueira, 2021).

Variedades cultivadas no Brasil

Podemos dizer que, atualmente, as mudas comercializadas de pitaya no Brasil não são provenientes de matrizes selecionadas e devidamente avaliadas do ponto de vista agronômico em diferentes regiões do País. Nos pomares de pitaya, há grande variação na produção, tamanho e formato de frutos, bem como em suas características físico-químicas, refl etindo a desuniformidade das plantas. Outro problema é que os produtores têm cultivado variedades importadas com baixa capacidade produtiva e baixa adaptação às condições edafoclimáticas brasileiras. Um exemplo é o cultivo, sem sucesso, da Pitaya Amarela importada da Colômbia.

No Brasil, há o cultivo de diferentes variedades que não foram devidamente avaliadas e registradas no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Além da Pitaya Amarela Colombiana, outras variedades sem registro são cultivadas no Brasil como a Vietnamese White, Golden, Orejona, Rabilonga, Vermelha Colombiana, Grafi te, Vênus, Tailandeza, Royal Red, além de populações e híbridos de diferentes espécies.

Esta observação evidencia a necessidade do desenvolvimento de cultivares com registro no Mapa e com garantia de origem genética, que possam ser recomendadas para cultivo em diferentes regiões do Brasil.

Atualmente, já existem as instruções normativas para os processos de registro e proteção de cultivares de pitayas no Mapa, além de um conjunto de descritores morfo-agronômicos utilizados para a diferenciação das cultivares das pitayas (Faleiro et al., 2021)

Melhoramento genético

As ações de pesquisa, desenvolvimento e inovação relacionadas ao melhoramento genético das pitayas são muito recentes no Brasil e no Mundo. A nível mundial, existem alguns grupos de pesquisa como nos Estados Unidos, países asiáticos e em Israel. No Brasil, atividades de caracterização e uso de recursos genéticos, tendo em vista o seu uso no melhoramento genético das pitayas têm sido realizadas na Embrapa Cerrados, Universidade Federal de Lavras, Universidade Estadual Paulista (Unesp), Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina, Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios, além de outras instituições públicas e privadas e alguns fruticultores e colecionadores.

Os primeiros trabalhos de seleção e melhoramento genético foram realizados em 2002 na Embrapa Cerrados (Faleiro e Junqueira, 2021) e somente em 2021 foram encaminhadas para registro no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento as cinco primeiras cultivares: BRS Lua do Cerrado, BRS Luz do Cerrado, BRS Minipitaya do Cerrado, BRS Granada do Cerrado e BRS Âmbar do Cerrado. Estas cultivares têm sido validadas em todas as regiões do Brasil com resultados animadores quanto ao desempenho agronômico.

Cultivares desenvolvidas pela Embrapa

BRS Lua do Cerrado (BRS LC): Cultivar de pitaya da espécie Selenicereus undatus com frutos redondos e vermelhos de polpa branca, para o mercado de frutas especiais. As principais características desta cultivar trabalhadas no melhoramento genético foram a produtividade, vigor, autocompatibilidade, maior tamanho do fruto e do teor de sólidos solúveis totais, além da maior resistência e tolerância a doenças. A cultivar BRS Lua do Cerrado (BRS LC) apresenta frutos grandes, com o formato arredondado.

Pode atingir mais de 30 t ha-1 ano-1. Os frutos são grandes, com massa média de 600 g (sem polinização manual), mas podem atingir massa superior a 1 kg (Figura 1a).

BRS Luz do Cerrado (BRS LZC): Cultivar de pitaya da espécie Selenicereus undatus com frutos alongados e vermelhos de polpa branca para o mercado de frutas especiais. As principais características desta cultivar trabalhadas no melhoramento genético foram a produtividade, vigor, autocompatibilidade, maior tamanho do fruto e do teor de sólidos solúveis totais, além da maior resistência e tolerância a doenças. A cultivar BRS Luz do Cerrado (BRS LZC), assim como a cultivar BRS Lua do Cerrado (BRS LC), apresenta frutos grandes, entretanto com o formato mais alongado.

Estas duas cultivares agregam diversidade às variedades de pitaya cultivadas comercialmente no Brasil, com o diferencial de ter garantia de origem genética e experiências de sucesso no cultivo em diferentes regiões e sistemas de produção. Pode atingir mais de 30 t.ha-1ano-1. Os frutos são grandes, com massa média de 550 g (sem polinização manual), mas podem atingir massa superior a 1 kg (Figura 1b).

BRS Granada do Cerrado (BRS GC): Cultivar híbrida de pitaya vermelha de polpa roxa (Selenicereus undatus x Selenicereus costaricensis). Esta cultivar foi obtida por meio do melhoramento genético convencional visando aumento de produtividade, autocompatibilidade, vigor, precocidade, características físicas e químicas dos frutos (frutos vermelhos de polpa roxa rica em antioxidantes) e resistência a doenças. Pode atingir uma produtividade de mais de 40 t.ha-1ano-1. Os frutos são de tamanho médio, massa média de aproximadamente 220 g e muito uniformes, com casca e polpa vermelha (Figura 1c).

BRS Mini Pitaya do Cerrado (BRS MPC): Cultivar de minipitaya da espécie Selenicereus setaceus, de frutos vermelhos com espinhos e polpa branca para uso na fruticultura ornamental e para o mercado de frutas especiais, considerando o sabor diferenciado da sua polpa. Uma perfeita combinação entre o teor de sólidos solúveis totais e a acidez confere à polpa do fruto desta cultivar um sabor aprimorado. As principais características desta cultivar trabalhadas no melhoramento genético foram a produtividade, autocompatibilidade, combinação do teor de sólidos solúveis totais e acidez da polpa, além da maior resistência e tolerância a doenças.

Esta cultivar tem origem na biodiversidade essencialmente brasileira, especificamente vinda da região do Cerrado. Pode atingir uma produtividade de mais de 10 t ha-1 ano-1. Os frutos são pequenos, com massa média de 80 g, muito doces com leve acidez, o que confere um sabor especial (Figura 1d).

BRS Âmbar do Cerrado (BRS AC): Cultivar de pitaya amarela, Selenicereus megalanthus, para o mercado de frutas especiais de alto valor agregado.

Esta cultivar foi obtida por meio do melhoramento genético convencional visando o aumento de produtividade, autocompatibilidade, vigor, precocidade, características físicas e químicas dos frutos (frutos maiores com polpa com elevado teor de sólidos solúveis totais), resistência a doenças e adaptabilidade. Existia uma mística de que pitayas amarelas não são adaptadas às condições edafoclimáticas brasileiras, mas por meio dos recursos genéticos disponíveis no Banco Ativo de Germoplasma (BAG) de Pitayas da Embrapa Cerrados e de ações de melhoramento genético via diferentes ciclos de seleção e recombinação visando à adaptabilidade, foi possível o desenvolvimento da cultivar BRS Âmbar do Cerrado. Foram realizados 3 ciclos de seleção clonal e matrizes clonais geneticamente superiores foram selecionadas e uma de destaque foi utilizada na geração da nova cultivar. Pode atingir produtividade de mais de 10 t ha-1 ano-1. Os frutos apresentam massa média de 150 g e são muito doces, o que confere um sabor especial (Figura 1e). Uma importante característica desta cultivar nas condições do Cerrado do Planalto Central é a produção na entressafra das demais cultivares de pitayas desenvolvidas pelo programa de melhoramento genético realizado na Embrapa Cerrados.

Figura 1. Características da planta e dos frutos das cultivares BRS Lua do Cerrado (a), BRS Luz do Cerrado (b), BRS Granada do Cerrado (c), BRS Mini Pitaya do Cerrado (d) e BRS Âmbar do Cerrado (e).



Produção de mudas de abacaxi para cultivo orgânico

 

Mudas 

O abacaxizeiro produz naturalmente quatro tipos de mudas: rebentões, filhotes rebentões, filhotes e coroas. A opção quanto ao tipo a ser utilizado depende da variedade cultivada, da disponibilidade de mudas e da preferência do produtor. Vale destacar que o ciclo do abacaxizeiro é influenciado pelo tipo de muda, sendo os rebentões os mais precoces, as coroas as mais tardias, com os filhotes apresentando comportamento intermediário. Além do ciclo mais longo, as mudas tipo coroa apresentam algumas outras desvantagens, tais como: são mais sujeitas à incidência de doenças, como a podridão do olho em condições de campo; cada planta só produz uma coroa; só estão disponíveis em regiões onde os frutos são destinados ao processamento industrial, uma vez que o abacaxi é comercializado com a coroa no mercado de frutas frescas.

Considerando o papel importante do material propagativo como transmissor de pragas e doenças, as mudas devem ser colhidas apenas em plantios onde a incidência de pragas e doenças foi nula. Além disto, as mudas só podem ser obtidas de plantios conduzidos em sistema orgânico, ou de plantio convencional após dois anos de conversão para o sistema de produção orgânico. Não havendo disponibilidade de mudas oriundas de sistema orgânico, de acordo com a IN 17 de 2014, pode-se obter autorização para utilização de outros materiais desde que não tratados com produtos não permitidos pela referida IN (Brasil, 2014). Para o sucesso do cultivo do abacaxizeiro em sistema orgânico de produção, é essencial realizar uma seleção criteriosa de mudas para evitar ou reduzir a introdução de agentes patogênico uma vez que, nesse sistema, poucos produtos podem ser utilizados para o controle de pragas e doenças da cultura.

Nesse sentido, a produção de mudas não convencionais pelo método melhorado de seccionamento de talo utilizando plantas matrizes oriundas de plantios orgânicos pode ser vista como uma tecnologia a mais para reduzir os riscos de infestação de novas áreas uma vez que permite um aprimoramento na seleção do material propagativo identificando com maior precisão sintomas de doenças como a fusariose e a murcha associadas à cochonilha (Figura 1). As mudas produzidas em viveiros, além da qualidade, permitem também a rastreabilidade, uma vez que é mantido registro de todo o processo de produção, procedimento importante para a certificação orgânica da atividade. Após a seleção de plantas matrizes no campo, os talos das plantas são seccionados tanto no sentido longitudinal como no sentido transversal, sendo tratados em solução de dióxido de cloro (5 ml/L de água) ou calda bordalesa (10 ml/L) por umperíodo de cinco minutos. Em seguida, as secções são secas à sombra e posteriormente encaminhadas para canteiros em local sombreado. Após a disposição dos talos nos canteiros, eles devem ser cobertos com uma fina camada de substrato como casca de pinus, coco, serragem, vermiculita ou outro resíduo de origem vegetal capaz de reter umidade. Entre os 30 e 45 dias iniciais, começam a surgir as primeiras brotações e, com 90 dias após o seccionamento, as mudas alcançam tamanho para serem transplantadas para os tubetes e canteiros onde se desenvolvem por 4 a 6 meses até atingirem tamanho ideal para campo (30-40 cm).

Além desses métodos de produção, outra possibilidade é a utilização de mudas obtidas em laboratórios ou biofábricas certificados, conhecidas como mudas micropropagadas ou de cultura de tecidos, contendo garantia da estabilidade genética.

Figura 1. (A) Seccionamento de talo de abacaxizeiro; (B) talos dispostos em canteiros cobertos com camada de substrato; (C) mudas de abacaxizeiro com 7-8 cm transplantas para tubetes; (D) mudas transplantadas para canteiros  

Seleção e tratamento das mudas

A qualidade do material de plantio merece uma atenção muito especial do produtor. As mudas precisam ser sadias, ter vigor e tamanho não inferior a 30 cm, sem a presença de sintomas da fusariose e da murcha, esta devido ao vírus transmitido pela cochonilha. É essencial realizar uma seleção visual rigorosa, descartando-se toda e qualquer muda com sintomas de ataque de pragas. Com o objetivo de controlar pragas, sobretudo cochonilhas e ácaros, pode-se realizar o processo de cura que consiste em colocar as mudas com a base voltada para cima, para secar ao sol, o que permite acelerar a cicatrização das lesões resultantes da colheita, além de eliminar o excesso de água presente nas mesmas. Após o período de cura, as mudas devem ser classificadas e plantadas em talhões por faixa de peso, de maneira a permitir melhor uniformidade no desenvolvimento das plantas, facilitando os tratos culturais e ensejando uma maior uniformidade no tamanho dos frutos ao final do ciclo. Em caso de morte de mudas nos primeiros três meses de cultivo, pode ser feito o replantio com mudas do mesmo tamanho das plantas em fase de crescimento.