quinta-feira, 11 de abril de 2024

PERSPECTIVAS DA CULTURA DO ABACATEIRO

 

O abacateiro (Persea americana Mill.) e nativo das serras do Mexico e da Guatemala e da costa do Pacifico da America Central.

As variedades de abacateiro sao organizadas em tres racas horticolas, de acordo com sua origem. A raca Mexicana provem das terras altas do Mexico, enquanto a raca Guatemalense e originaria da Guatemala. A raca Antilhana e originaria das terras baixas da costa do Pacifico da Guatemala ate o Panama.

A chegada do abacateiro ao Brasil esta indiretamente ligada a fatos de grande Importancia historica. No seculo XIX, a Europa ocidental atravessava um periodo de intensas disputas e, por isso, a familia real portuguesa decidiu imigrar para o Brasil em fins de 1807. Ja aqui, o imperador Dom Joao VI criou o atual Jardim Botanico com a finalidade de promover a aclimatacao de plantas com potencial de cultivo no Brasil.

Assim, em 1809, quatro mudas de abacateiro da raca Antilhana provenientes do Jardim Botanico La Gabrielle da Guiana Francesa foram introduzidas no Brasil. Na decada de 1920, ocorreram duas novas introducoes de materiais provenientes da Florida. Esses materiais difundiram-se pelo Pais e, por meio de cruzamentos naturais, surgiram materiais promissores que foram identificados, clonados e estudados, originando, assim, as principais cultivares de abacate do Brasil.

As cultivares de abacateiro no Brasil sao classificadas em dois grupos distintos.

O primeiro e constituido pelas cultivares de Abacate Tropical, conhecidas como “abacate manteiga”. Possuem frutos grandes e alongados, de baixo teor de oleo, e sao adaptadas a regioes de clima tropical. As principais cultivares deste grupo sao as seguintes: Geada, Quintal, Fortuna, Margarida e Breda.

No segundo grupo, estao as cultivares de Abacate Subtropical ou Avocado.

Possuem frutos de tamanho pequeno a medio, casca enrugada e alto conteudo de oleo. Essas cultivares, entre as quais a principal e o Hass, sao adaptadas ao clima subtropical.

Achados arqueologicos evidenciam que, desde 500 a.C., o abacate ja era cultivado  no Mexico, e seus frutos serviam tanto como alimento quanto como produto para trocas comerciais pelas populacoes nativas. Embora os povos locais tenham iniciado sua domesticacao, com a selecao de frutos em funcao do seu tamanho, o abacate ainda se mostrava uma fruta bastante distante daquela que conhecemos hoje. Apos  o descobrimento da America, o abacate se dispersou para outros locais, despertando o interesse cientifico de especialistas em fruticultura, visando a domesticacao e ao aprimoramento dessa especie para sua utilizacao como cultura fruticola comercial.

Primeiros passos

1)O processo que transformou o abacate ate torna-lo a fruta que conhecemos nos tempos atuais seguiu tres etapas basicas: 1) estudo de populacoes de plantas propagadas por sementes para identificacao das plantas que apresentassem caracteristicas superiores desejaveis;

2) clonagem dessas plantas selecionadas para plantio e avaliacao em escala agronomica, visando obter cultivares;

3) desenvolvimento de praticas culturais para aumentar a produtividade das cultivares selecionadas.

Assim, as bases que alavancaram o aprimoramento cientifico do abacate foram o melhoramento genetico, as tecnologias de clonagem de plantas e as tecnologias agronomicas para aumentar a produtividade.

As flores do abacateiro sao hermafroditas, porem apresentam um desencontro na maturacao dos orgaos masculino e feminino, fazendo com que a fecundacao  ocorra de forma cruzada, com o polen vindo de outra planta. Essa particularidade faz com que cada caroco de abacate resulte em uma planta distinta, com caracteristicas ineditas ate entao, e isso cria variabilidade de forma natural e facilita a obtencao de novas variedades, cabendo ao cientista identificar sua superioridade e fazer a clonagem.

Desenvolvendo cultivares

Dessa forma, as mais de 500 cultivares de abacate existentes no mundo surgiram, na sua maioria, como hibridos naturais.

Bons exemplos sao as cultivares Hass e Fuerte, que surgiram nos Estados Unidos e no Mexico, respectivamente, e atualmente dominam o mercado internacional, e as cultivares Geada, Quintal,Na decada de 1970, tanto o cultivo quanto o mercado do abacate no Brasil eram pouco expressivos, e evoluiram muito nesses 50 anos. As modernas tecnicas de propagacao e de cultivo protegido possibilitam a producao de mudas em estufas sobre bancadas suspensas e em substrato totalmente organico, com elevados padroes de sanidade, vigor e uniformidade.

A adocao de plantio mais adensado com irrigacao localizada e manejo de podas, diversificacao de variedades plantadas, aprimoramentos nas praticas de adubacao e nutricao das plantas, manejo integrado de pragas e doencas e manejo pos-colheita tambem sao avancos tecnologicos recentes, que resultam de ardua pesquisa cientifica e promovem aumento na producao, melhor qualidade dos frutos, extensao do periodo de oferta, melhor conservacao e transporte da producao ate locais mais distantes.

A mais recente contribuicao da ciencia foi o sequenciamento do genoma do abacate realizado em 2019. Essa pesquisa obteve importantes informacoes para a compreensao das funcoes dos genes e para uso na engenharia genetica, visando incrementar a produtividade, aumentar a resistencia a doencas e criar frutoscom novos sabores e texturas.

Desafios e perspectivas

Trabalhos inovadores de pesquisa estao expandindo as fronteiras da cultura do abacate no Brasil. A viabilizacao da producao de abacate no Semiarido

A selecao de cultivares com frutos de caracteristicas distintas quanto ao tamanho, formato e teor de oleo possibilitou atender as mais diversas exigencias e preferencias dos consumidores e nas serras do Nordeste representa novos desafios para a pesquisa, com boas perspectivas de sucesso nos empreendimentos que ja se iniciaram.

Os principais desafios da pesquisa em abacate estao relacionados ao aprimoramento dos sistemas de producao, visando aumentar a produtividade e a qualidade dos frutos, bem como melhorar a eficiencia na utilizacao do espaco fisico, da agua, dos nutrientes e demais insumos.

A pesquisa tambem busca obter novas cultivares com melhor adaptacao ao cultivo em condicões de estresse abiotico (frio, calor e restricao hidrica), alem de porta enxertos mais tolerantes a condicoes adversas de solo, como salinidade e presença de patogenos.



sábado, 30 de março de 2024

Caracterização do Abacaxi BRS Imperial

 

Caracterização do `BRS Imperial` 

A fusariose (Fusarium guttiforme) é a principal doença na cultura do abacaxi no Brasil que ainda causa perdas elevadas nos pomares brasileiros, emfunção do predomínio das cultivares Pérola e Smooth Cayenne, ambas suscetíveis àquela doença. A utilização de cultivares resistentes é o método mais eficiente e econômico recomendado para o controle da doença.

A cultivar BRS Imperial, lançada pela Embrapa Mandioca e Fruticultura em 2003, é a primeira cultivar híbrida resistente à fusariose obtida pormelhoramento genético. É resultante do cruzamento entre a cultivar Perolera (nativa dos Andes da Colômbia e da Venezuela) com a cultivar SmoothCayenne (Cabral e Matos, 2005). Foi avaliada pela primeira vez em campo em 1992. Nesta e em demais avaliações posteriores realizadas em distintasregiões produtoras do Brasil, esse híbrido se destacou pela produção de frutos com polpa amarela, elevado teor de açúcares e excelente sabor nasanálises sensoriais, além da resistência à fusariose. Outra vantagem do abacaxizeiro ‘BRS Imperial’ é a ausência de espinhos nas folhas, que facilita omanejo da cultura pelo produtor (Figura 1).

. Plantio de abacaxi ‘BRS Imperial’: (A) na fase vegetativa; (B) com frutos em desenvolvimento

Outras características desta cultivar são: planta com porte médio, com folhas curtas, de coloração verde escura, com faixa central arroxeada e bordoscom faixa prateada (‘piping’). O pedúnculo é curto, o que dificulta o tombamento do fruto e a consequente escaldadura ou queima pelo sol.

O número de mudas do tipo filhote é elevado, com média de nove, além da produção de mudas tipo rebentão e filhote rebentão ser mais elevada doque a ‘Pérola’.

O tamanho do fruto é de pequeno a médio, com peso entre 900 e 1.400 g, mas pode ultrapassar 2,0 kg em solos muito férteis ou quando o plantio ébem adubado. O formato é cilíndrico, com casca espessa e amarela na maturação, com frutilhos salientes (Figura 2). O elevado teor de ácido ascórbicona polpa dificulta o desenvolvimento do escurecimento interno, sintoma da injúria pelo frio, comum em cultivares como a ‘Smooth Cayenne’. A polpado abacaxi ‘BRS Imperial’ é amarelo ouro, com teor elevado de sólidos solúveis (15 a 19 Brix) e moderado de acidez (0,3 a 0,7%).

. Planta e fruto de abacaxi ‘BRS Imperial’.

Quando comparado com a cultivar Pérola, a ‘BRS Imperial’ apresenta um crescimento mais lento, que justifica o tratamento de indução floral após os14 ou 15 meses do plantio, considerando uma boa condução da planta. Isso representa um período de dois a três meses superior ao praticado para a‘Pérola’. A ‘BRS Imperial’ tem maior exigência em água, que justifica sua indicação para áreas irrigadas ou com boa precipitação ao longo do ano;maior exigência em fertilidade ou nutrição mineral e a presença de mudas tipo filhote muito próximas da base do fruto, que dificulta a colheita. Outrodiferencial é sua maior tolerância ao frio/fotoperíodo, o que dificulta a indução natural ao florescimento. Essa característica é particularmenteimportante para os produtores rurais mais tecnificados, pois permite maior controle na época de colheita.
O fruto da ‘BRS Imperial’ é indicado principalmente para consumo fresco. Em decorrência das suas excelentes características organolépticas, tem severificado que o abacaxi ‘BRS Imperial’ ainda representa um nicho de mercado, principalmente para mercados de alto poder aquisitivo ou mesmo paraexportação.
A cultivar BRS Imperial é particularmente interessante para a produção orgânica de abacaxi, em virtude da sua resistência à fusariose, o que dispensao produtor da aplicação de fungicidas com menor custo de produção, redução da poluição ambiental e fornecimento de um produto com melhorsegurança alimentar.
Estima-se atualmente que a redução de custo no controle químico da fusariose, ao utilizar cultivares resistentes a essa doença, é de,aproximadamente, R$ 1.600,00/hectare/ciclo (em 2017), ao considerar o custo de mão de obra e de produto fungicida para seis aplicações compulverizador costal nas cultivares suscetíveis.


domingo, 10 de março de 2024

Introdução e importância econômica do Abacaxi



Sumário

Introdução e importância econômica

Caracterização do 'BRS Imperial'

Escolha e preparo do solo

Correção da acidez do solo

Obtenção e manejo de mudas

Plantio

Irrigação

Adubação

Plantas espontâneas e seu controle

Indução artificial da floração

Doenças e seu controle

Pragas e seu controle

Colheita e pós-colheita

Custo de produção e rentabilidade


Introdução e importância econômica

O Brasil é o segundo maior país produtor de abacaxi no mundo, contribuindo com 10% da produção mundial em 2013 (FAO, 2013). Entretanto, a suaparticipação é muito pequena no mercado mundial de produtos de abacaxi, em virtude de destinar muito pouco às exportações, pois o mercadointerno é muito atraente, absorvendo quase toda a produção brasileira. Esse fato evidencia a grande potencialidade do produto ainda nesse mercado.Mesmo apresentando um grande potencial econômico e produtivo, a produtividade da abacaxicultura no Brasil é considerada baixa (39,3 t/ha), quandocomparada com alguns países destaques, cuja produção é voltada para o mercado externo e que apresentam produtividade de 50 a 60 t/ha (FAO,2013). A menor produtividade no Brasil pode ser explicada tanto pela variedade produzida (de menor peso e voltada para o mercado interno) comotambém por outras variáveis: sistema de produção, condições climáticas etc.

A Bahia já esteve entre os primeiros estados brasileiros produtores de abacaxi, mas, no momento, é o sexto produtor nacional, com uma produção de104,7 milhões de frutos colhidos, em uma área de 5.280 ha, com produtividade de 29,8 t ha-1, abaixo da média nacional, que foi de 39,3 t ha-1 (IBGE,2013). Neste estado, as mesorregiões mais importantes são: Centro Norte Baiano (ex: microrregião de Itaberaba, Senhor do Bonfim e Feira deSantana), Sul Baiano (microrregiões de Porto Seguro, Valença e Ilhéus-Itabuna) e Centro Sul Baiano (ex: microrregiões de Seabra e Jequié), que,juntas, participaram com 49%, 34% e 7%, respectivamente, da produção estadual de abacaxi. A região do Sul Baiano produziu 35,2 milhões de frutosem 2013, em uma área colhida de 1.648 hectares e produtividade de 32,0 t/ha, um pouco acima da média estadual, mas abaixo da média nacional.Estes últimos dados evidenciam a necessidade de incorporação de novos resultados de pesquisa capazes de aumentar a produtividade da cultura noEstado.

Das microrregiões baianas que produzem o abacaxi, quatro merecem destaque, por representarem cerca de 75% do total produzido no estado em2013: Itaberaba (41%), Porto Seguro (20%), Valença (9%) e Ilhéus-Itabuna (6%) (IBGE, 2013). Destas, a primeira representa a região semiárida, eas demais, as regiões litorâneas. Na microrregião de Porto Seguro, merecem destaque os municípios: Itabela, Prado, Eunápolis, Santa Cruz Cabrália,Caravelas, Nova Viçosa, Itamaraju, Alcobaça, Teixeira de Freitas, Medeiros Neto e Porto Seguro. Nos diversos municípios dessa região, o turismo éuma das principais atividades econômicas, e, como esse segmento é grande consumidor de frutas in natura e processadas, a fruticultura se apresentacomo boa opção de cultivo para comercialização no potencial mercado local.

Na fruticultura da mesorregião sul Baiana, a abacaxicultura tem se mostrado como uma das atividades agrícolas de excelente oportunidade. Oabacaxizeiro é uma planta rústica e resiste a períodos de déficit hídrico, o que possibilita o cultivo de variedades tradicionais, como ‘Pérola’ e ‘SmoothCayenne’, em áreas sem irrigação na região alvo desse sistema de produção. Porém, observações em áreas de produção de abacaxi têm demonstradoque a irrigação vem apresentando vantagens competitivas relevantes no cultivo do ‘Imperial’, que tem se apresentado mais exigente em água que o‘Pérola’. O fruto do abacaxizeiro apresenta boa aceitação para o consumo in natura e para o processamento, e adapta-se à utilização de pequenasáreas de cultivo. Além da sua importância econômica, a cultura do abacaxi desempenha também uma função social de destaque por sua condição deatividade absorvedora de mão de obra no meio rural, contribuindo para a geração de empregos ao longo de todo o seu cultivo.

Apesar de grande parte da mesorregião Sul Baiana apresentar terras planas, de fácil mecanização, condições climáticas favoráveis e boa quantidadede chuvas ao longo do ano, diversos fatores têm contribuído para a baixa produtividade (32 t ha-1) da cultura na região, dentre os quais: falta detecnologias adaptadas às condições edafoclimáticas; não utilização de tecnologias disponíveis; problemas fitossanitários, dentre os quais a fusariose éo mais importante; falta de planejamento da produção, com oferta de produto em período de preços baixos etc. A utilização de boas técnicas decultivo, aliada às boas condições dos recursos naturais do Sul Baiano, pode favorecer o crescimento da abacaxicultura na região, considerando que oprodutor pode escalonar a sua produção e garantir renda estável ao longo do ano, com colheitas planejadas para atender mercados locais ouatacadistas.

A fusariose é a principal doença da abacaxicultura e ocasiona elevadas perdas de plantas e frutos durante o processo produtivo. Em torno de 20% daprodução é perdida devido não só à fusariose, mas também a outros fatores, como cochonilha, broca do fruto, frutos pequenos (sem padrãocomercial), queima solar, falha na indução, etc. Com o plantio do abacaxizeiro ‘BRS Imperial’, cultivar resistente à fusariose desenvolvida pela EmbrapaMandioca e Fruticultura, espera-se que as perdas sejam reduzidas para, no máximo, 10%.

Esta publicação destina-se a disponibilizar informações técnicas sobre o cultivo do abacaxizeiro ‘BRS Imperial’ voltadas para a realidade do Sul Baiano,com base em resultados de pesquisas, de modo a contribuir com o desenvolvimento da abacaxicultura na região.