A fusariose (Fusarium guttiforme) é a principal doença na cultura do abacaxi no Brasil que ainda causa perdas elevadas nos pomares brasileiros, emfunção do predomínio das cultivares Pérola e Smooth Cayenne, ambas suscetíveis àquela doença. A utilização de cultivares resistentes é o método mais eficiente e econômico recomendado para o controle da doença.
A cultivar BRS Imperial, lançada pela Embrapa Mandioca e Fruticultura em 2003, é a primeira cultivar híbrida resistente à fusariose obtida pormelhoramento genético. É resultante do cruzamento entre a cultivar Perolera (nativa dos Andes da Colômbia e da Venezuela) com a cultivar SmoothCayenne (Cabral e Matos, 2005). Foi avaliada pela primeira vez em campo em 1992. Nesta e em demais avaliações posteriores realizadas em distintasregiões produtoras do Brasil, esse híbrido se destacou pela produção de frutos com polpa amarela, elevado teor de açúcares e excelente sabor nasanálises sensoriais, além da resistência à fusariose. Outra vantagem do abacaxizeiro ‘BRS Imperial’ é a ausência de espinhos nas folhas, que facilita omanejo da cultura pelo produtor (Figura 1).
. Plantio de abacaxi ‘BRS Imperial’: (A) na fase vegetativa; (B) com frutos em desenvolvimento
Outras características desta cultivar são: planta com porte médio, com folhas curtas, de coloração verde escura, com faixa central arroxeada e bordoscom faixa prateada (‘piping’). O pedúnculo é curto, o que dificulta o tombamento do fruto e a consequente escaldadura ou queima pelo sol.
O número de mudas do tipo filhote é elevado, com média de nove, além da produção de mudas tipo rebentão e filhote rebentão ser mais elevada doque a ‘Pérola’.
O tamanho do fruto é de pequeno a médio, com peso entre 900 e 1.400 g, mas pode ultrapassar 2,0 kg em solos muito férteis ou quando o plantio ébem adubado. O formato é cilíndrico, com casca espessa e amarela na maturação, com frutilhos salientes (Figura 2). O elevado teor de ácido ascórbicona polpa dificulta o desenvolvimento do escurecimento interno, sintoma da injúria pelo frio, comum em cultivares como a ‘Smooth Cayenne’. A polpado abacaxi ‘BRS Imperial’ é amarelo ouro, com teor elevado de sólidos solúveis (15 a 19 Brix) e moderado de acidez (0,3 a 0,7%).
. Planta e fruto de abacaxi ‘BRS Imperial’.
Quando comparado com a cultivar Pérola, a ‘BRS Imperial’ apresenta um crescimento mais lento, que justifica o tratamento de indução floral após os14 ou 15 meses do plantio, considerando uma boa condução da planta. Isso representa um período de dois a três meses superior ao praticado para a‘Pérola’. A ‘BRS Imperial’ tem maior exigência em água, que justifica sua indicação para áreas irrigadas ou com boa precipitação ao longo do ano;maior exigência em fertilidade ou nutrição mineral e a presença de mudas tipo filhote muito próximas da base do fruto, que dificulta a colheita. Outrodiferencial é sua maior tolerância ao frio/fotoperíodo, o que dificulta a indução natural ao florescimento. Essa característica é particularmenteimportante para os produtores rurais mais tecnificados, pois permite maior controle na época de colheita.
O fruto da ‘BRS Imperial’ é indicado principalmente para consumo fresco. Em decorrência das suas excelentes características organolépticas, tem severificado que o abacaxi ‘BRS Imperial’ ainda representa um nicho de mercado, principalmente para mercados de alto poder aquisitivo ou mesmo paraexportação.
A cultivar BRS Imperial é particularmente interessante para a produção orgânica de abacaxi, em virtude da sua resistência à fusariose, o que dispensao produtor da aplicação de fungicidas com menor custo de produção, redução da poluição ambiental e fornecimento de um produto com melhorsegurança alimentar.
Estima-se atualmente que a redução de custo no controle químico da fusariose, ao utilizar cultivares resistentes a essa doença, é de,aproximadamente, R$ 1.600,00/hectare/ciclo (em 2017), ao considerar o custo de mão de obra e de produto fungicida para seis aplicações compulverizador costal nas cultivares suscetíveis.
O Brasil é o segundo maior país produtor de abacaxi no mundo, contribuindo com 10% da produção mundial em 2013 (FAO, 2013). Entretanto, a suaparticipação é muito pequena no mercado mundial de produtos de abacaxi, em virtude de destinar muito pouco às exportações, pois o mercadointerno é muito atraente, absorvendo quase toda a produção brasileira. Esse fato evidencia a grande potencialidade do produto ainda nesse mercado.Mesmo apresentando um grande potencial econômico e produtivo, a produtividade da abacaxicultura no Brasil é considerada baixa (39,3 t/ha), quandocomparada com alguns países destaques, cuja produção é voltada para o mercado externo e que apresentam produtividade de 50 a 60 t/ha (FAO,2013). A menor produtividade no Brasil pode ser explicada tanto pela variedade produzida (de menor peso e voltada para o mercado interno) comotambém por outras variáveis: sistema de produção, condições climáticas etc.
A Bahia já esteve entre os primeiros estados brasileiros produtores de abacaxi, mas, no momento, é o sexto produtor nacional, com uma produção de104,7 milhões de frutos colhidos, em uma área de 5.280 ha, com produtividade de 29,8 t ha-1, abaixo da média nacional, que foi de 39,3 t ha-1 (IBGE,2013). Neste estado, as mesorregiões mais importantes são: Centro Norte Baiano (ex: microrregião de Itaberaba, Senhor do Bonfim e Feira deSantana), Sul Baiano (microrregiões de Porto Seguro, Valença e Ilhéus-Itabuna) e Centro Sul Baiano (ex: microrregiões de Seabra e Jequié), que,juntas, participaram com 49%, 34% e 7%, respectivamente, da produção estadual de abacaxi. A região do Sul Baiano produziu 35,2 milhões de frutosem 2013, em uma área colhida de 1.648 hectares e produtividade de 32,0 t/ha, um pouco acima da média estadual, mas abaixo da média nacional.Estes últimos dados evidenciam a necessidade de incorporação de novos resultados de pesquisa capazes de aumentar a produtividade da cultura noEstado.
Das microrregiões baianas que produzem o abacaxi, quatro merecem destaque, por representarem cerca de 75% do total produzido no estado em2013: Itaberaba (41%), Porto Seguro (20%), Valença (9%) e Ilhéus-Itabuna (6%) (IBGE, 2013). Destas, a primeira representa a região semiárida, eas demais, as regiões litorâneas. Na microrregião de Porto Seguro, merecem destaque os municípios: Itabela, Prado, Eunápolis, Santa Cruz Cabrália,Caravelas, Nova Viçosa, Itamaraju, Alcobaça, Teixeira de Freitas, Medeiros Neto e Porto Seguro. Nos diversos municípios dessa região, o turismo éuma das principais atividades econômicas, e, como esse segmento é grande consumidor de frutas in natura e processadas, a fruticultura se apresentacomo boa opção de cultivo para comercialização no potencial mercado local.
Na fruticultura da mesorregião sul Baiana, a abacaxicultura tem se mostrado como uma das atividades agrícolas de excelente oportunidade. Oabacaxizeiro é uma planta rústica e resiste a períodos de déficit hídrico, o que possibilita o cultivo de variedades tradicionais, como ‘Pérola’ e ‘SmoothCayenne’, em áreas sem irrigação na região alvo desse sistema de produção. Porém, observações em áreas de produção de abacaxi têm demonstradoque a irrigação vem apresentando vantagens competitivas relevantes no cultivo do ‘Imperial’, que tem se apresentado mais exigente em água que o‘Pérola’. O fruto do abacaxizeiro apresenta boa aceitação para o consumo in natura e para o processamento, e adapta-se à utilização de pequenasáreas de cultivo. Além da sua importância econômica, a cultura do abacaxi desempenha também uma função social de destaque por sua condição deatividade absorvedora de mão de obra no meio rural, contribuindo para a geração de empregos ao longo de todo o seu cultivo.
Apesar de grande parte da mesorregião Sul Baiana apresentar terras planas, de fácil mecanização, condições climáticas favoráveis e boa quantidadede chuvas ao longo do ano, diversos fatores têm contribuído para a baixa produtividade (32 t ha-1) da cultura na região, dentre os quais: falta detecnologias adaptadas às condições edafoclimáticas; não utilização de tecnologias disponíveis; problemas fitossanitários, dentre os quais a fusariose éo mais importante; falta de planejamento da produção, com oferta de produto em período de preços baixos etc. A utilização de boas técnicas decultivo, aliada às boas condições dos recursos naturais do Sul Baiano, pode favorecer o crescimento da abacaxicultura na região, considerando que oprodutor pode escalonar a sua produção e garantir renda estável ao longo do ano, com colheitas planejadas para atender mercados locais ouatacadistas.
A fusariose é a principal doença da abacaxicultura e ocasiona elevadas perdas de plantas e frutos durante o processo produtivo. Em torno de 20% daprodução é perdida devido não só à fusariose, mas também a outros fatores, como cochonilha, broca do fruto, frutos pequenos (sem padrãocomercial), queima solar, falha na indução, etc. Com o plantio do abacaxizeiro ‘BRS Imperial’, cultivar resistente à fusariose desenvolvida pela EmbrapaMandioca e Fruticultura, espera-se que as perdas sejam reduzidas para, no máximo, 10%.
Esta publicação destina-se a disponibilizar informações técnicas sobre o cultivo do abacaxizeiro ‘BRS Imperial’ voltadas para a realidade do Sul Baiano,com base em resultados de pesquisas, de modo a contribuir com o desenvolvimento da abacaxicultura na região.