O açaizeiro inicia seu ciclo de produção de frutos com a idade entre 3 e 4 anos. A sua inflorescência é formada por um conjunto de ramos com números variáveis de flores masculinas e femininas que, após o desenvolvimento dos frutos, é conhecido por cacho (Fig. 1).
O florescimento ocorre durante todos os meses do ano, com o pico entre os meses de fevereiro e julho. Após a abertura (antese) e fecundação das flores, são necessários, aproximadamente, de 5 a 6 meses para os frutos atingirem a fase de colheita.
A produção anual de cachos frutíferos por touceira depende da fertilidade e umidade do solo, e da luminosidade. Cada cacho, freqüentemente, contém algumas centenas de frutos que, quando maduros, têm a coloração roxo-escura, por isso muitas vezes é denominado de roxo ou preto, sendo exceção o açaizeiro do tipo branco, com a coloração verde.
Na Região do Estuário Amazônico se destacam duas épocas perfeitamente diferenciadas para a produção de frutos de açaizeiro:
- Safra de inverno: Corresponde à época das chuvas e os frutos, nesse período, normalmente são colhidos em diferentes estágios de maturação, têm a coloração roxo-azulada e o açaí produzido é considerado de qualidade inferior.
- Safra de verão: Ocorre no período de estiagem, com um volume de produção de duas a três vezes maior que a safra de inverno. Os cachos apresentam maior homogeneidade quanto ao estágio de maturação e o açaí obtido tem a coloração vermelho-arroxeada, o qual é considerado de melhor qualidade sensorial.
No Estado do Amapá a produção de frutos é mais acentuada no período compreendido entre janeiro e junho, com picos de produção de fevereiro a abril e, no Estado do Amazonas, a produção vai de janeiro a agosto. Portanto, existem variações entre as diferentes regiões produtoras quanto ao período de produção de frutos.
Procedimentos de colheita
A colheita se inicia aos 180 dias após a antese, ocasião em que o epicarpo apresenta uma coloração roxo-escura ou verde-escura, ambas recobertas por uma camada acinzentada. A colheita é uma operação onerosa e difícil, pois os estipes atingem facilmente de 10 a 15 metros de altura, com o perigo de quebra ou tombamento dos mesmos.
Durante a operação de colheita devem ser estabelecidos certos padrões, como realizá-la na época certa e de higiene ainda no campo. A colheita deve ser seguida de imediata seleção, com a remoção de produtos indesejáveis à comercialização e ao processamento. Os produtos rejeitados não devem ser mantidos sobre o solo por longos períodos, pois são focos de contaminação dos produtos sadios (Chitarra, 1990).
O colhedor escala o estipe com auxílio de uma peconha e corta o cacho, na sua base, tendo o cuidado para que não se desprenda uma quantidade elevada de frutos das ráquilas (Fig. 2). Após o corte, o cacho normalmente é depositado ao solo, mas é recomendado faze-lo sobre lona ou toalha de plástico, pois com essa prática é possível evitar a maior contaminação dos frutos.
Um escalador habilidoso é capaz de passar de um estipe para outro, em uma mesma touceira, sem descer ao solo, coletando, em função do peso, de 3 a 5 cachos em uma única escalada. Normalmente, um bom escalador é capaz de colher de 150 a 200 kg de frutos numa jornada de trabalho de 6 horas.
A colheita, preferencialmente, deve ser realizada pela manhã, pois as chuvas, normalmente acompanhadas de ventos fortes, ocorrem com maior freqüência no período vespertino e tornam mais difícil a escalada nos estipes, que ficam mais escorregadios.
A Embrapa Amazônia Oriental testou, com sucesso, um equipamento na colheita de cachos de pupunheira (Bactris gasipaes H.B.K.), que, certamente, pode ser utilizado na otimização do processo de colheita de cachos de açaizeiro. Consiste de uma vara de alumínio, com 6 metros de comprimento, contendo na sua extremidade superior uma lâmina, para o corte do cacho; um recipiente, para a depositação do cacho e uma roldana, permitindo a descida e a subida desse recipiente, facilitando a operação de colheita em áreas com exploração intensa e racionalizada, dando maior segurança ao colhedor, pois dispensa a necessidade de escalar o açaizeiro.
Procedimentos de pós-colheita
Debulha
Após a colheita dos cachos, ainda no açaizal, são realizadas as operações de debulha e de catação, que consistem da liberação dos frutos dos cachos e da seleção dos frutos de acordo com a coloração ou estágio de maturação (Fig. 3), respectivamente. Os frutos do açaizeiro são classificados em:
- Vitrin: os frutos apresentam grande parte da casca (epicarpo) com a coloração roxo-escura e o restante a verde-escura, não estando em condições de colheita;
- Paró ou Parau: os frutos apresentam a coloração roxo-escura intensa, com brilho na superfície da casca, mas ainda não no ponto ideal de colheita;
- Tuíra: os frutos apresentam a casca com a tonalidade roxo-escura intensa, mas recoberta por uma camada de pó com a tonalidade branco-acinzentada, que caracteriza estádio adequado para a colheita dos frutos.
Os frutos do açaizeiro devem ser debulhados, preferencialmente, sobre lonas ou plásticos (Fig. 4), ou ainda diretamente nas caixas de plástico, evitando o contato direto dos frutos com o solo ou com qualquer outro contaminante, como combustíveis ou produtos químicos. Nessa operação, é feita a seleção visual e a eliminação de frutos atacados por insetos, doenças ou animais e daqueles contaminados por material fecal de aves. É prudente a não-permanência na área, quando da debulha dos frutos, de animais domésticos, como precaução à contaminação cruzada dos frutos.
Os frutos colhidos devem ser removidos do campo de produção, o mais rápido possível, como medida preventiva à exposição desnecessária à radiação solar direta. Na impossibilidade de imediata tomada dessa providência, os frutos devem ser mantidos a sombras das árvores ou protegidos da radiação usando, para tal, folhas de açaizeiro ou de outras palmeiras.
Deve ser ressaltado que existem iniciativas para o transporte dos frutos dentro do açaizal, através do uso de vagonetas, que se deslocam sobre trilhos (Fig. 5), e circulam entre as touceiras recolhendo as caixas de plástico contendo os frutos. Essa operação concorre para a redução de danos mecânicos nos frutos e torna o produto menos susceptível à deterioração e, conseqüentemente, melhora a qualidade do açaí.
Após a debulha, os restos dos cachos são deixados no local e, com a decomposição, servem de adubo orgânico, mas podem ser utilizados na confecção de vassouras rústicas.
Acondicionamento
Os frutos, após a colheita e debulha manual das ráquilas, são acondicionados, rusticamente, em cestos, feitos com fibras vegetais, ou paneiros, confeccionados com fibras de jacitara (Desmoncus polyacanthus Mart.) ou de guarumã (Ischinasiphon obliquus (Rud.) Koern.), com capacidade para comportar 14 ou 28 kg de frutos (Fig. 6). Os cestos ou rasas oferecem boa aeração, favorecendo a conservação dos frutos.
O acondicionamento dos frutos também pode ser feito em caixas de plástico (Fig. 7) utilizadas na colheita e transporte de outras frutas, as quais possuem aberturas laterais facilitando a aeração,. Essas caixas são mais fáceis de higienizar, resistentes e duráveis, além de proteger os frutos contra danos mecânicos, tão comuns nos frutos do açaizeiro quando acondicionados em cestos ou paneiros, causado pelo empilhamento desses durante o transporte aos centros consumidores.
Quando do acondicionamento dos frutos, seja em cestos, paneiros ou caixas de plásticos, devem ser tomados os cuidados necessários que evitem o contato desses recipientes com o solo, além de exposições desnecessárias à radiação direta dos raios solares, pois aumentam a possibilidade de ressecamento e deterioração dos frutos.
O uso de caixas de plástico minimiza a contaminação dos frutos, mesmo se mantidas indevidamente em contato com o solo, quando comparado ao que possa ocorrer quando acondicionados em cestos ou paneiros. Outra vantagem das caixas de plástico é de ocupar menor espaço e dar maior estabilidade à carga durante o transporte, pois possuem encaixe perfeito quando sobrepostas, maximizando a utilização dos espaços e diminuindo a pressão sobre os frutos. Entretanto, esse tipo de acondicionador tem o custo mais elevado, o que torna a sua popularização mais lenta, quando comparado aos cestos e paneiros.
Armazenamento
Os locais de armazenamento, antes do transporte dos frutos para os locais de processamento, devem ser exclusivos para a estocagem do açaí, sendo vetado a ambiência com outros alimentos, material de limpeza, combustíveis, lubrificantes, peças de motores, defensivos agrícolas ou qualquer outro material que possa concorrer para a contaminação da produção. O ambiente de armazenagem deve ser preservado da ocorrência de pragas que possam contaminar, direta ou indiretamente, os frutos.
Ao final de cada safra, e no início da próxima, é recomendável a limpeza do local de armazenamento, eliminando as sujidades, insetos ou qualquer outro material estranho ou indesejável.
Os frutos de açaizeiro são muito perecíveis, por isso devem ser despolpados no tempo máximo de 24 horas, após a colheita, quando estocados sob temperatura ambiente. O processo de degradação é acelerado, principalmente, pelas temperaturas elevadas nas áreas de produção e comercialização, o que torna a proteção contra radiação solar direta um fator importante para evitar a perda excessiva de água, prejudicial a despolpa, pois provoca a diminuição do rendimento e o açaí obtido apresentará cor inadequada, com restrições da aceitabilidade quando da comercialização.
A preservação de pós-colheita dos frutos do açaizeiro pode ser prolongada, a exemplo do que ocorre com outras frutas tropicais, mantendo-os em ambientes com temperatura em torno de 10 oC, muito embora não existam estudos formais sobre a conservação desses frutos em ambientes refrigerados.
Transporte
O horário matutino é fundamental para o transporte, pois os frutos estão com a temperatura mais baixa, o que reduz o processo de degradação. Quando o transporte é realizado nas primeiras horas do dia, garante, dependendo da distância, a chegada dos frutos nos grandes centros consumidores, como Belém, no dia seguinte ao da colheita.
Quando o tempo entre a colheita e o despolpamento for superior a 48 horas, os frutos do açaizeiro têm sido transportados em sacos de polipropileno, com capacidade para até 60 kg, recobertos com gelo. No entanto, deve ser evitado o contado direto dos frutos com o gelo, que pode provocar queimaduras no epicarpo, diminuindo a qualidade do produto e aumentando a área de exposição à contaminação por microrganismos. No transporte fluvial, os barcos que transportam pescados também podem ser usados, desde que convenientemente higienizados.
Na Região Amazônica, o meio de transporte mais utilizado é o fluvial, o que facilita o escoamento da produção de frutos de açaizeiro provenientes das áreas de várzeas.
O transporte fluvial pode ser realizado em embarcação de pequeno porte (Fig. 8), com capacidade variando de 200 kg até poucas toneladas. Esse tipo de embarcação cobre pequenas distâncias e a operação de transporte, na maioria das vezes, realizada no período noturno e com o tempo entre 30 minutos a 3 horas.
Quando há a necessidade de transportar volumes maiores de frutos, são utilizadas embarcações com capacidade entre 10 e 20 toneladas. Os pequenos produtores ribeirinhos muitas das vezes comercializam as suas produções, em pontos distantes dos centros de consumo, para serem transportadas em barcos maiores.
A produção originada de áreas de terra firme é transportada, normalmente, por via rodoviária, em caminhões ou pequenos veículos utilitários e os frutos são acondicionados em sacos de plástico, com capacidade para 60 kg, cestos, paneiros, caixas de plástico ou a granel. O transporte em recipientes não-adequados, como cestos e paneiros, pode provocar a ocorrência de danos físicos aos frutos, acelerando a sua degradação.
colheita do açaí
Durante o transporte dos frutos, deve ser evitado o contato ou a ocupação de ambientes que transportem produtos químicos, combustíveis, graxas, defensivos químicos e animais vivos, ou que acondicionem peixes, frangos e outras carnes, assim como qualquer outra substância capaz de contribuir para a contaminação dos frutos do açaizeiro.
Após a descarga, o veículo utilizado para o transporte de frutos de açaizeiro, deve ser limpo, como medida preventiva à propagação de microrganismos ou pragas, evitando danos aos próximos lotes a serem transportados.
Durante a entressafra do açaizeiro, no Estado do Pará, os processadores de Belém, principalmente, são supridos pelos frutos produzidos nos Estados do Maranhão e do Amapá. A produção vinda do Maranhão é transportada por via rodoviária e a do Amapá, muitas das vezes, utiliza barcos dotados de câmaras frias ou em compartimento de carga com gelo.
Os agrotóxicos, produtos e agentes químicos ou biológicos, cuja finalidade é a de preservar, a flora e a fauna, da ação danosa de outros seres vivos considerados nocivos, são distribuídos em grupos de produtos classificados como inseticidas (controlam as pragas), fungicidas (agem sobre os fungos), herbicidas (combatem as plantas invasoras), bactericidas (controlam as bactérias), acaricidas (eliminam os ácaros), nematicidas (agem sobre os nematóides do solo), moluscidas (combatem as lesmas) e raticidas (agem sobre os ratos).
O uso de agrotóxicos tem sido questionado pelos ambientalistas, ecologistas e biólogos, pois são produtos químicos que, quando aplicados de forma indiscriminada e inadequada, causam problemas à flora, à fauna e ao próprio homem.
O uso de agrotóxicos nos cultivos de açaizeiro ainda são limitados, pois se restringem a poucas ações no controle de pragas, em sementeiras, viveiros e no campo. O uso de fungicidas praticamente inexiste, pois o "anel-vermelho", até então referido em alguns trabalhos entomológicos, associados às ações provocadas pela broca-do-coqueiro, vetor do nematóide causador dessa doença, não atingiram ainda estágios de comprometimento econômico à produção de frutos.
Para que sejam obtidos resultados eficientes, no controle desses seres nocivos dentro da atividade agrícola, são observados, como princípios básicos, se a incidência de doença, praga ou concorrência de plantas invasoras justifica o controle, e se o uso de agrotóxico provoca desequilíbrio à cultura e ao meio ambiente.
É importante avaliar, quando da decisão do combate à nocividade, se o agrotóxico é recomendado para o controle desejado, tendo sempre em mente a preocupação de escolher produtos menos tóxicos. Quando houver a necessidade do uso de dois produtos é prudente verificar se não há incompatibilidade e não deve ser esquecido o respeito ao intervalo mínimo entre a aplicação e a colheita.
Cuidados especiais no uso e manuseio de agrotóxicos
O uso de agrotóxicos exige de seus manuseadores o conhecimento básico sobre o modo de ação, as doses recomendadas, a hora e a época de aplicações, a formulação do produto (pó-molhável, concentrado emulsionável, pó seco), a classe toxicológica e sobre os cuidados durante e após as aplicações no controle de doenças, pragas e plantas invasoras nas culturas de importância socioeconômica, assim como na manipulação das embalagens após o esvaziamento das mesmas.
Os agrotóxicos, comercializados em embalagens do tipo pacote, caixa, lata e vidro, são dotados de rótulos, que devem ser sempre preservados, contendo informações importantes sobre o produto, como: as culturas beneficiadas com a sua aplicação; as doenças, pragas ou plantas invasoras que podem ser tratadas; a melhor época para controlar as doenças, pragas e plantas invasoras; a dosagem recomendada; o intervalo entre as aplicações; a carência ou intervalo entre a última aplicação e a colheita, para que o agrotóxico não contamine os alimentos; a compatibilidade, quando da possibilidade e necessidade de se aplicar mais de um produto ao mesmo tempo; os cuidados a serem tomados pelo aplicador, para não se contaminar; e sobre a formulação do produto e a indicação do princípio ativo.
Nas propriedades, os agrotóxicos devem ser armazenados ou guardados longe do alcance de crianças e de animais, e evitados os lugares úmidos, a céu aberto e próximo das habitações. As embalagens devem ser mantidas sempre fechadas e os produtos conservados na embalagem original.
Quando do manuseio, após a abertura das embalagens, o produtos não deve ser tocado sem a observação dos cuidados necessários, como os usos de equipamentos de proteção individual (EPI), tais como luvas, óculos e máscara para evitar o contato e a inspiração do produto.
As embalagens devem ser recolhidas e encaminhadas para terem o destino final, de acordo com a legislação regulamentada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Na impossibilidade de cumprimentos das normas de proteção, devem ser inutilizadas e enterradas em locais adequados, mas sempre longe de rios, fontes e igarapés; e, nos casos de embalagens abertas ou rasgadas, as mesmas devem ser mantidas em sacos de plástico.
Os agrotóxicos são poderosos contaminantes que necessitam, quando usados, de cuidados que minimizem ou neutralizem os seus efeitos prejudiciais ao homem, animais, alimentos e ao ambiente. As ações que devem ser postas em prática, com vistas à redução do perigo da contaminação, estão relacionadas com o uso e lavagens dos pulverizadores, as aplicações do produto, os cuidados com o aplicador e o destino final dos resíduos e embalagens.
Esses temas são regulamentados por leis específicas e detalhados quanto aos seus usos e aplicações, como a Lei n° 7.802, de 11 de julho de 1989, que dispõe sobre a pesquisa, a experimentação, a produção, a embalagem e rotulagem, o transporte, o armazenamento, a comercialização, a propaganda comercial, a utilização, a importação, a exportação, o destino final dos resíduos e embalagens, o registro, a classificação, o controle, a inspeção e a fiscalização de agrotóxicos, seus componentes e afins, e dá outras providências. Parte dessa lei, foi regulamenta pelo Decreto nº 3.179, de 21.09.1999, que dispõe sobre a especificação das sanções aplicáveis às condutas e atividades lesivas ao meio ambiente e alterada pela Lei 9.974, de 06 de junho de 2000, que trata especificamente sobre o destino das embalagens vazias.
Técnica de aplicação
Os defensivos químicos são os meios mais perigosos, porém eficazes, que o agricultor dispõe para o controle de doenças, pragas e plantas invasoras, que comprometem a rentabilidade de suas lavouras. No entanto, por causa dos seus usos indiscriminados e inadequados, vêm causando danos ao ambiente e ao próprio homem, mesmo quando são necessários poucos gramas de ingrediente ativo por hectare para controlar as doenças, pragas e plantas invasoras.
Formulação e modo de aplicação
Os defensivos são comercializados nas formulações sólidas (pó e granulado); líquidas (pó-molhável ou emulsionável), e gasosas, sendo estas últimas de uso bastante restrito.
As formulações na forma de pó seco contêm 0,5% a 10% de ingrediente ativo e a aplicação é feita com polvilhadora ou polvilhadeira. Essas formulações têm baixas concentrações, por isso o custo da aplicação, por unidade de área, é maior. As desvantagens da aplicação de pó estão relacionadas ao fato das partículas serem levadas pelo vento a longas distâncias, a baixa aderência das mesmas, o que facilita a lavagem pela chuva, e ao alto risco de inalação das partículas pelos aplicadores.
As formulações granulares são aplicadas a lanço e oferecem maior segurança aos aplicadores. Os grânulos também contêm baixa concentração de ingrediente ativo sendo, portanto, de custo mais alto como ocorre com os pós-secos. O maior problema com o uso de granulados é o fato de terem ação sistêmica, por isso vêm sendo desenvolvidos produtos microencapsulados, de liberação lenta, que reduz mais os riscos de contaminação do aplicador.
As formulações líquida, pó-molhável ou concentrado emulsionável, são aplicadas em pulverizadores, constituídos de bomba de pressão e de bico. O bico é a parte mais importante do pulverizador, pois são usados diferentes tipos para que sejam conseguidos espectros de gotas desejados e mais eficientes. Os bicos são usados para fracionar o líquido em gotas e, além do tipo universal, são classificados de acordo com a energia utilizada em:
- Bicos de impacto, leque ou cone (energia hidráulica): são de baixa pressão e gotas grandes, usados na aplicação de herbicidas;
- Pneumático e vertical (energia gasosa): usados para as aplicações em folhagem de arbustos e árvores, e espacial de aerossóis;
- Disco rotativo e gaiolas (energia centrífuga): usados para aplicação de herbicidas em volumes pequenos com gotas de tamanho quase uniformes;
- Vibratório (energias cinética e térmica): empregados para produzir grandes gotas (herbicidas) e neblina ou fumaça, uso em recinto fechado ou floresta, respectivamente;
- Eletrohidrodinâmico (energia elétrica): utilizados na aplicação de produtos oleosos e volumes reduzidos (0,5 a 1,5 L/hectare).
As dosagens dos agrotóxicos usados nas lavouras podem ser expressas em quantidades do produto por unidade de área (hectare ou alqueire) ou pela quantidade do produto por 100 litros de água (180 g/100 L; 210 mL/100 L; 320 cc/100 L).
De acordo com os volumes de agrotóxicos aplicados nas lavouras, quando também é levado em consideração o porte das culturas, existem pelo menos 5 tipos de aplicações de defensivos, a saber: alto volume, normalmente são aplicados de 600 a 1.000 L/hectare; médio volume, de 200/600 a 600/1.000 L/hectare; baixo volume, de 50/200 a 200/500 L/hectare; muito baixo volume 5/50 a 50/ 200 L/hectare; e ultrabaixo volume de 5 L/hectare, para plantas rasteiras e árvores/arbustos, respectivamente.
O tamanho das gotas, que têm grande importância na eficiência da aplicação de diferentes defensivos, com o mínimo de contaminação ambiental, foi definido ou classificado pela Organização Mundial de Saúde (1976) em:
- Aerossol: distribui gotas com diâmetro médio do volume inferior a 50 micrômetros (1 micrômetro = 0,001 milímetro);
- Nebulização: distribui gotas com diâmetro médio do volume inferior a 50 micrômetros; pulverização fina, distribui gotas com diâmetro médio do volume entre 50 e 100 micrômetros; e
- Pulverização grossa: distribui gotas com diâmetro médio do volume superior 400 micrômetros.
O preparo da calda é uma operação que oferece perigo ao aplicador e ao ambiente, pois o defensivo químico está concentrado. A preparação da calda não deve ser feita às proximidades de poços, rios e igarapés, pois no caso de ocorrer vazamentos e respingos resultará em contaminação, principalmente, daqueles que usarão a água para consumo e sobrevivência.
Os principais cuidados no preparo da calda são: o pó não deve ser colocado diretamente no tanque do pulverizador, antes há a necessidade de misturá-lo com um pouco de água, em balde ou outro tipo de vasilha, para a obtenção de uma mistura mais homogênea, assim é evitada a deposição do produto no fundo do tanque do pulverizador, que pode provocar entupimento de bicos e provocar desgastes no equipamento; o defensivo não deve ser colocado no pulverizador vazio, abastecer antes com certa quantidade de água, que não afete a concentração da calda de aplicação; usar água limpa no preparo da calda, com isso não haverá o entupimento e menor será o desgaste do equipamento; adicionar o espalhante-adesivo, após o preparo da calda, para evitar a formação de espuma; e aplicar a mistura no mesmo dia em que foi preparada.
Antecedendo à aplicação do agrotóxico, o equipamento de distribuição, pulverizador costal (manual e motorizado), pulverizador de barra ou atomizador, deve ser regulado, de modo a garantir a vazão correta da calda e o volume a ser aplicado na área, planta, etc. considerada na operação.
É importante observar que, quando das aplicações de agrotóxicos, é comum o desgaste dos bicos após algumas horas de trabalho, assim precisam ser substituídos para não haver prejuízos à pulverização.
Dentre os fatores que comprometem a produção racional do açaizeiro, pode ser destacada a ocorrência de insetos. Com a expansão de cultivos comerciais na Região Norte do Brasil, os problemas causados por esses organismos têm surgido com maior evidência e aumentado a preocupação quanto aos prejuízos que vêm causando ao açaizeiro. Diversos insetos são capazes de atacar o açaizeiro, desde a fase de sementeira até o plantio adulto. As pragas que atacam o açaizeiro ainda são pouco conhecidas, fato que dá importância às informações sobre o assunto.
Principais pragas
a) Cerataphis lataniae Boisudval, 1867 (Heteroptera: Aphididae). Conhecida como o pulgão-preto-do-coqueiro, ataca mais intensamente o açaizeiro no viveiro e durante os 3 primeiros anos de vida no campo.
- Descrição: Esse pulgão tem o formato circular, mede cerca de 2 mm de diâmetro, tem a coloração quase preta e locomoção lenta, podendo ser de forma alada ou sem asas. Excreta uma substância adocicada que atrai vespas, moscas e, principalmente, formigas, que impedem a presença de inimigos naturais dessa praga. Ataca, preferencialmente, a flecha da palmeira e a inserção das folhas jovens ao estipe.
- Ocorrência: No Brasil, ocorre nos Estados do Amazonas, Bahia, Pará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Maranhão, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo.
- Sintomas: Esse inseto provoca o atraso no desenvolvimento das mudas do açaizeiro, tornando-as raquíticas e com as folhas amareladas, por causa da seiva que tanto as ninfas como os adultos sugam para se alimentarem.
- Controle: No viveiro, o controle é feito separando as mudas atacadas das sadias e os insetos retirados manualmente com auxílio de um pano umedecido em água. As mudas atacadas são mantidas isoladas fora do viveiro e observadas, por cerca de 10 dias, até que haja a certeza de que a praga foi completamente eliminada, quando então poderão retornar ao viveiro. Ainda não existe um método de controle dessa praga no campo, por isso, deve haver o cuidado de não levar mudas atacadas para o plantio definitivo.
b) Alleurodicus cocois (Curtis, 1846) (Heteroptera: Alyrodiae). Conhecida por mosca branca causa maior dano ao açaizeiro no viveiro, mas pode atacar essa palmácea nos primeiros anos de vida no campo.
- Descrição: O adulto se assemelha a uma pequena mosca, tem a cor branca, mede cerca de 2mm de comprimento por 4mm de envergadura, possui 4 asas membranosas e cobertas por uma secreção pulverulenta. As ninfas medem cerca de 1mm de comprimento, têm coloração amarelada, rodeada de serosidade branca e vivem na face inferior da folha, onde excretam uma substância adocicada, proporcionando o aparecimento de formigas e do fungo fumagina. As ninfas e os adultos formam colônias e, na maioria das vezes, ocupam toda a área dos folíolos.
- Ocorrência: A mosca branca ataca um grande número de fruteiras e diversas palmeiras. É encontra de Norte ao Sul do Brasil (Silva et al. 1968).
- Sintomas: Por se alimentar da seiva, torna a planta amarelada, debilitada e depois clorótica, atrasando o desenvolvimento e a produção, podendo causar a morte do açaizeiro no caso de ataque severo. Esse inseto favorece o aparecimento do fungo fumagina, que provoca a diminuição na fotossíntese da planta.
- Controle: Tanto no viveiro como no campo, as medidas de controle são as mesmas propostas para C. lataniae.
c) Atta spp. (Hymenoptera: Formicidae). Conhecidas popularmente por saúvas, tanajura e formigas-saúvas, atacam as plântulas do açaizeiro na sementeira, as mudas no viveiro e as plantas nos primeiros anos de vida no campo. No entanto, os ataques são mais drásticos na sementeira e no viveiro, em virtude das folhas estarem muito tenras (Fig. 2). As espécies mais comuns são: A. laevigata (saúva-da-mata), A. cephalotes (saúva-cabeça-de-vidro) e A. sexdens sexdens (saúva-limão-do-norte ou formiga-da-mandioca).
- Descrição: São insetos sociais que vivem em ninhos subterrâneos, onde se alimentam e se reproduzem. O ninho é formado por dezenas ou centenas de câmaras ou panelas, com comunicação entre si por meio de galerias. No nível do solo, chamam a atenção, pois formam montes de terra solta com muitos orifícios (olheiros). As saúvas se alimentam do fungo Gonylophora pholiota (Rhozitles) Moeller, 1893, que são cultivados com folhas trazidas pelas próprias saúvas para o interior do sauveiro.
- Ocorrência: Essas saúvas são encontradas em todos os Estados do Brasil. A saúva-da-mata, além do açaizeiro ataca diversas fruteiras; a saúva-cabeça-de-vidro também ataca diversas fruteiras, assim como o açaizeiro, coqueiro (Cocos nucifera L.) e o dendezeiro (Elaeis guineensis Jack.) e a saúva-limão-do-norte ou formiga-da-mandioca ataca o açaizeiro e outras palmeiras e fruteiras.
- Sintomas: As saúvas cortam os folíolos do açaizeiro no viveiro, provocando o desfolhamento parcial ou total das mudas, concorrendo para o atraso no desenvolvimento ou até mesmo a morte da planta.
- Controle: Como controle preventivo são observados os locais de instalações dos viveiros. Devem ser evitadas as proximidades de áreas de matas, pois são os ambientes preferidos das saúvas. Outro fator a ser observado é se existem sauveiros às proximidades e, quando se tratar de áreas infestadas, esses são retirados e queimados, seguidos de tratamento do solo com inseticida. Essas providências são de grande importância, não só antes da instalação do viveiro, como antecedendo ao plantio do açaizeiro no local definitivo.
O controle químico com gases liquefeitos (metil bromide) é o mais utilizado, mas podem ser aplicados produtos líquidos (termonebulizáveis _ fenitrothion e deltametrin) e iscas granuladas (diflubenzuron), que são mais práticos, eficientes e econômicos.
As saúvas também podem ser controladas por inimigos naturais, como fungos, nematóides, ácaros parasitas, formigas predadoras e um coleóptero da família Scarabaeidae, predador das rainhas (Della Lúcia, 1993). Pode também ser feita a gradagem do terreno para destruir os ninhos no solo.
d) Rhynchophorus palmarum Linnaeus, 1746 (Coleóptera: Curculionidae). Conhecida por broca-do-olho-do-coqueiro, bicudo e broca-do-coqueiro (Fig. 3), ataca o açaizeiro, no campo, a partir dos 3 anos de idade, quando as plantas estão com o estipe suficientemente desenvolvido. Além do açaizeiro, essa praga ataca outras palmeiras, principalmente o coqueiro e o dendezeiro.
- Descrição: Essa praga possui hábito diurno e, pelo seu tamanho, é facilmente vista voando dentro de plantações atacadas. A larva, completamente desenvolvida, mede 75 mm de comprimento por 25 mm de largura, possui corpo recurvado de coloração branco-cremosa. A pupa tem a coloração amarelada, onde é possível observar todos os membros do besouro adulto. O adulto recém emergido, depois de algumas horas, começa a voar à procura de fêmea para acasalar e uma palmeira para se alimentar. O adulto vive de 45 a 60 dias e as fêmeas põem, em média, 250 ovos durante o seu ciclo de vida. Na fase adulta é um besouro de cor preto-aveludada, medindo, em média, 5 cm de comprimento, sendo possível observar machos e fêmeas em constantes acasalamentos, tanto no campo como sob condições de laboratório (Bondar, 1940; Genty et al. 1978; Ferreira et al. 1998).
- Ocorrência: O gênero Rhynchophorus é encontrado disperso por todo o Brasil.
- Sintomas: O açaizeiro atacado apresenta porte reduzido, folhas mais curtas e amareladas, com o pecíolo bronzeado, redução do número de folhas, redução ou ausência de cachos, inflorescências abortadas e estipe com furos enegrecidos junto à região da coroa. Quando o açaizeiro está muito atacado, as folhas mais jovens são mais curtas e não se abrem completamente, tomando o formato de uma vassoura. Essa praga além de fazer enormes galerias no estipe e na região da coroa foliar, bloqueando a passagem dos nutrientes, provocando o enfraquecimento ou até a morte da planta, propicia a entrada de microrganismos como fungos, bactérias e vírus, ou insetos secundários capazes de provocar novos danos. Além disso, é o vetor do nematóide causador, nas palmáceas, da doença conhecida por "anel-vermelho".
- Controle: As plantas decadentes ou mortas, que são focos e servem de criadouro para a broca-do-coqueiro, quando eliminadas concorrem para a redução da ocorrência dessa praga. Também devem ser evitados ferimentos mecânicos acentuados durante a colheita dos cachos, para que os adultos não sejam atraídos pela seiva exudada. Os estipes eliminados são cortados em pedaços e queimados fora da plantação.
O uso de armadilhas é o método mais seguro para o controle dessa praga e pode ser feita com o aproveitamento de recipientes descartáveis de plástico (20 litros), utilizados no envasamento de óleo para máquinas agrícolas. A parte superior dos recipientes é retirada e, no local, adaptada uma tampa de madeira, com um furo de aproximadamente 10 cm ao centro, no qual é fixado um funil feito com a parte superior de garrafa de plástico descartável de refrigerante (2 litros), com a parte afunilada voltada para dentro da armadilha, do modo a facilitar a entrada do inseto. No interior da armadilha deve conter iscas compostas por feromônio de agregação sintético rincoforol (trocados a cada 3 meses), mais 6 roletes de cana de açúcar (20 cm cada, cortados transversalmente). As armadilhas (Fig. 4) são colocadas em moirões de madeira com 1 metro de altura e distribuídas dentro do açaizal a cada 150 metros. A troca da cana deve ser feita a cada 15 dias, ocasião em que será feita a coleta dos insetos capturados (Silva et al. 1998).
e) Mytilococcus (Lepidosaphis) bechii (Newman, 1869) (Heteroptera: Diaspididae). Conhecida por escama vírgula e cochonilha escama vírgula, ataca o açaizeiro no viveiro e nos primeiros anos de vida no campo.
- Descrição: Seu corpo é curvo, semelhante a uma vírgula ou um marisco, a coloração varia de marrom-clara a marrom-violeta. A fêmea põe em média 50 ovos e mede cerca de 3 mm de comprimento (Gallo et al. 1988).
- Ocorrência: Encontrada dispersa por todo o Brasil.
- Sintomas: Essa praga se fixa ao longo da nervura principal, na parte ventral dos folíolos. Em decorrência de sua constante sucção da seiva, a planta fica, inicialmente, com as folhas amareladas e depois cloróticas, atrasando o seu desenvolvimento e sua produção.
- Controle: Como não existe nenhum inseticida registrado para o controle dessa praga em açaizeiro, podem ser adotadas ações preventivas, baseadas em cuidados de não instalar o viveiro próximo a plantas atacadas por esse inseto, para que não haja a possibilidade de ser levada planta atacada para o local de plantio definitivo.
f) Alleurothrixus floccosus (Maskell, 1895) (Heteroptera: Aleyrodiae). Conhecida por mosca branca ou piolho farinhento, ataca o açaizeiro no viveiro e as plantas jovens no campo.
- Descrição: O adulto dessa praga, pelo ao seu formato e a sua cor, é conhecida por mosca branca e o corpo é recoberto por uma serosidade esbranquiçada. As fêmeas põem os ovos na face inferior da folha, e depois de 10 dias ocorre a eclosão das ninfas. Tanto as ninfas como os adultos são facilmente observados, pois são envolvidos por densa aglomeração flocosa, formada por filamentos cerosos de cor branca, chegando mesmo a cobrir toda a folha. Exudam um líquido açucarado, favorecendo o aparecimento de formigas, moscas e do fungo fumagina.
- Ocorrência: A mosca branca é encontrada em todos os Estados do Brasil.
- Sintomas: Os folíolos, por causa do sugamento da seiva, inicialmente, ficam amarelados, depois a planta fica debilitada, atrasando seu desenvolvimento e, conseqüentemente, a sua produção.
- Controle: Pode ser o mesmo descrito para Alleurodicus cocois.
g) Eutropidacris cristata (L., 1758) (Orthoptera: Acridiae). Conhecida por gafanhoto do coqueiro, gafanhotão e tucurão (Fig. 5), ataca o açaizeiro no viveiro e, principalmente, as plantas jovens no campo.
- Descrição: No Estado do Pará, essa praga é conhecida por gafanhotão, mede 110 mm de comprimento, as asas anteriores são verde-pardacentas e, as posteriores, esverdeadas com leve tonalidade azul. As fêmeas põem os ovos no chão e, quando emergem, recebem o nome de "mosquitos", após atingirem certo desenvolvimento são chamados de "saltões", cujas asas ainda são rudimentares, e só depois alcançam a fase adulta.
- Ocorrência: É encontrado em todos os Estados da Região Norte e em extensas áreas das outras regiões do Brasil.
- Sintomas: Provoca a redução no desenvolvimento da planta e, conseqüentemente, o atraso no início da fase produtiva, pela voracidade com que as ninfas e os adultos se alimentam. Outra maneira de ser detectado o ataque desse gafanhoto, é pela observação de grande quantidade de folíolos severamente cortados, que ficam caídos no solo.
- Controle: Deve ser feito com o uso de iscas colocadas na vegetação rasteira junta às palmeiras, quando o gafanhoto está, preferencialmente, no estádio de "mosquito" ou mesmo "saltões", pois nesses estádios vivem agregados para se protegerem. As iscas são preparadas com a mistura de: 10 kg de farelo de trigo, arroz ou milho; 0,5 kg de triclorfon 50%; 0,4 kg de açúcar mascavo; 0,8 kg de melaço; e 6,5 L de água. Esses componentes são bem misturados, até que seja alcançada a consistência moldável de massa (Gallo et al. 1988).
h) Synale hylaspes (Cramer, 1782) (Lepidoptera: Hesperidae). Conhecida por lagarta-verde-do-coqueiro ou lagarta-verde, ataca o açaizeiro (Fig. 6) no viveiro e nos primeiros anos de vida no campo. Ataca também outras palmeiras (Gallo et al. 1988).
- Descrição: O adulto é uma borboleta com 4,5 cm de envergadura, de cor prata com manchas brancas e translúcidas nas asas anteriores, e branca, com a extremidade amarelo-dourada, nas asas posteriores. A lagarta, verde-clara brilhante, constrói seu abrigo unindo as bordas do folíolo com fortes filamentos brancos, cujo interior é revestido por um pó branco que também lhe reveste, permanece no abrigo durante o dia, sai à noite para se alimentar e usa, também, esse abrigo para empupar (Bondar, 1940).
- Ocorrência: É encontrada nos Estados da Bahia e Sergipe (Silva et al. 1968) e, no Estado do Pará, foi encontrada atacando o açaizeiro nos Municípios de Belém e de Tomé-Açu.
- Sintomas: A lagarta se alimenta do limbo foliar, tornando-o esgarçado, seco e com a coloração amarronzada.
- Controle: Quando o ataque ocorre no viveiro, as lagartas são retiradas manualmente para não infestar as mudas sadias que estão próximas. Por isso, são imprescindíveis as inspeções mais intensas, quando da produção de mudas. Ainda não existe um método para controlar o ataque dessa praga, no campo, em açaizeiro. Entretanto, em coqueiro, o controle é feito com o uso dos inseticidas carbaryl a 0,16% i.a. ou trichlorphon a 0,15 i.a. (Ferreira et al. 1998).
i) Hemisphaerota tristis (Bohheman,1850) (Coleóptera: Crysomeliade). Conhecida por inseto-rodilha (Fig. 7)
- Descrição: O adulto é um besouro de cor azul escura, corpo relativamente esférico com cerca de 4 mm de comprimento, por 3,2 mm de largura. A larva é branco-amarelada; com o corpo coberto de seus próprios excrementos, formando para se proteger uma espiral em forma de rodilha. Adultos e larvas alimentam-se da face inferior dos folíolos raspando os mesmos, fazendo ranhuras no sentido longitudinal do folíolo (Bondar, 1940).
- Ocorrência: A sua distribuição foi feita através da Colômbia, Suriname e Brasil (Genty et al. 1978). No Brasil, a ocorrência dessa espécie foi registrada na Bahia, por Silva et al. (1968), e, em Sergipe, por Ferreira et al. (1998). Além desses Estados, há registros de ocorrência no Amazonas, Pará e Amapá.
- Sintomas: O açaizeiro atacado tem os folíolos esgarçados longitudinalmente, tornando-os secos, com as cores marrons, que se rompem, facilmente, pela ação do vento. As palmeiras atacadas exibem desenvolvimento e produção reduzidos.
- Controle: Não existe nenhum tipo de controle para essa praga em açaizeiro. Em coqueiro, é controlada com inseticidas fosforados (Ferreira et al. 1998).
j) Brassolis sophorae (Linnaeus, 1758) (Lepidoptera: Nyphalidae). Conhecida por lagarta-das-folhas; lagarta-das-folhas-do-coqueiro e brassolis (Fig. 8).
- Descrição: O adulto é uma mariposa cujas asas, anteriores e posteriores, são marrom-escuras, com uma faixa transversal de cor alaranjada e expansão média de 8,5 cm. Seu hábito de voar é crepuscular vespertino. O ciclo de vida, do estádio de ovo à fase adulta, é de cerca de 100 dias (Ferreira et al. 1998). A crisálida, inicialmente, é verde-clara, depois se torna marrom. A lagarta é cremosa e apresenta listras longitudinais escuras ao longo do corpo. Sua cabeça, castanho-avermelhada, possui bastante movimentação em relação ao corpo e é recoberta por uma fina camada de pelos. Possui hábito gregário, constrói os seus ninhos para se proteger, unindo vários folíolos em forma de sacos alongados, onde permanece durante a noite, ficando pendurado nas folhas.
- Ocorrência: Ocorre em quase todos os países tropicais da América do Sul (Lever, 1969) e, no Brasil, nos Estados do Amazonas, Bahia, Espírito Santo, Maranhão, Minas Gerais, Mato Grosso, Pará, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, São Paulo e Distrito Federal (Silva et al. 1968) e Sergipe (Ferreira & Leal, 1989).
- Sintomas: As lagartas são muito vorazes, consomem grande quantidade de massa foliar, deixando somente as nervuras centrais dos folíolos e da ráquila, podendo ser encontradas mais de mil lagartas em um único ninho. Como conseqüência, ocorre a diminuição da absorção de nutrientes retirados do solo. Dependendo da intensidade do ataque, pode ocorrer o atraso no desenvolvimento da planta, queda prematura dos frutos e a redução da produção, ou ainda a morte da planta.
- Controle: A ocorrência dessa praga pode ser controlada da seguinte forma:
. Controle biológico - Os ninhos examinados, são abertos, parcialmente, para a verificação da existência de lagartas parasitadas pelo fungo Beauveria bassiana ou B. brongniartii, facilmente constatada pela presença de lagartas mortas e esbranquiçadas. Caso seja positiva, os ninhos não são retirados do campo, para que o fungo possa ser disseminado dentro da plantação; e, no caso de ser negativa, os ninhos não-parasitados são retirados e as lagartas eliminadas. Em plantas altas é usada uma vara, com gancho na ponta, para baixar a folha com o ninho, quando isso não for possível, são verificadas as fezes amontoadas no solo, cuja coloração esbranquiçada, pela presença dos esporos, indica que as lagartas estão parasitadas dentro do ninho. Outros agentes biológicos que se destacam são o fungo Bacillus thuringiensis, no controle das lagartas (Ferreira & Leal, 1989), e os parasitóides, bastantes eficientes no controle das crisálidas. No Pará, é muito comum a ocorrência em plantações de dendezeiro e de coqueiro, parasitóides tanto em crisálidas como em ovos;
. Controle mecânico - Consiste da retirada dos ninhos não parasitados por microrganismos, de dentro da plantação;
. Controle químico - Não existe nenhum inseticida registrado e liberado no mercado para essa praga em açaizeiro. Existe recomendação de uso do trichlorphon a 0,4% i.a. e do carbaryl a 0,35% i.a. em casos de altas infestações em plantações de coqueiro.
k) Opsiphanes invirae (Huebner, 1818) (Lepidoptera: Brassolidae). Conhecida por lagarta-desfolhadora e opisifane (Fig. 9).
- Descrição: O adulto é uma mariposa cujas asas anteriores são negras, com uma faixa larga amarela na parte mediana e duas pontuações da mesma cor na parte superior. A lagarta é de cor verde-clara brilhante, com duas listras finas longitudinais amarelas-claras ao longo do corpo, cujo abdômen termina por dois prolongamentos caudais, sua cabeça é cor-de-rosa com dois cornos cefálicos em forma de espinho, e vivem na face inferior dos folíolos. Alimenta-se dos folíolos causando danos à planta, em virtude da alta voracidade. A crisálida, inicialmente, é verde-clara brilhante, depois se torna marrom com listras transversais e longitudinais róseo-ferrugem. Não possui nenhuma proteção externa em seu corpo, quando está para empupar permanece dependurada em algum ponto da planta, até a emergência do adulto, principalmente nos folíolos próximo ao estipe, quando a população é grande podem também empupar na vegetação rasteira junto ao açaizeiro.
- Ocorrência: Essa praga está distribuída por toda a parte setentrional das
Américas do Sul e Central (Lepesme, 1947). No Brasil, está presente em quase
todos os Estados (Silva et al.1968; Ferreira et al. 1998), mas, no Pará, só foi
constatada, em 2003, atacando açaizeiros jovens e adultos.
- Sintomas: O açaizeiro, quando atacado, apresenta grande parte dos folíolos destruídos desordenadamente, no entanto, ataca com maior freqüência o coqueiro e o dendezeiro.
- Controle: O controle dessa mariposa, pode ser feito com armadilhas feitas com o aproveitamento de latões cilíndricos, com 80 cm de comprimento e 15 cm de diâmetro, cortados transversalmente, ou vasilhas de plástico cortadas de maneira a formar uma janela para entrada dos insetos adultos. No interior das armadilhas, é colocado o inseticida trichlorphon a 0,1% do produto comercial. As armadilhas devem ficar suspensas a 1 metro do solo, fixas em suportes de madeira, à distância uma das outras de 150 m. Devem ser realizadas inspeções periódicas, com vistas à constatação da ocorrência dessa praga e à avaliação dos danos causados.
l) Eupalamides dedalus (Cramer, 1775) (sin. Castnia dedalus, Lepidoptera: Castniidae). Conhecida por broca-do-estipe, broca-da-coroa-foliar e broca-dos-cachos-do-dendezeiro (Fig. 10).
- Descrição:O adulto é uma mariposa com asas marrom-escura e reflexos violeta, a envergadura das asas da fêmea varia de 170 a 205 mm e dos machos de 170 a 185 mm. Possui duas fileiras de pontuações amarelas esbranquiçadas acompanhando o contorno das asas posteriores e, na parte média das asas anteriores, há uma faixa amarela transversal com pontuações da mesma cor nas extremidades. Na cabeça chama atenção o tamanho grande dos olhos. A longevidade do macho, em média, é de 12 a 13 dias e, das fêmeas, de 15 a 18 dias.
No período de 12 a 17 dias, o número de ovos postos pela fêmea varia de 200 a 500, com uma média de 265, dos quais a maioria é colocada nos 5 primeiros dias e, em cada local de postura, a fêmea deposita de 2 a 30 ovos, o que indica a grande capacidade de dispersão da espécie (Korkytkowski & Ruiz, 1979b). A postura é feita em grupos de 2 a 8 ovos (Ray, 1973). O ovo mede de 5 a 6mm de comprimento, por 2mm de largura, com formato ovalado e provido de 5 estrias longitudinais proeminentes, semelhantes a um grão de arroz. Inicialmente é esbranquiçado, depois levemente rosado e, finalmente, escuro quando se aproxima a eclosão da larva. A incubação do ovo varia de 10 a 15 dias (Korkytkowski & Ruiz, 1979a).
A larva possui coloração branca leitosa, cabeça fortemente esclerificada de cor castanha brilhante e com mandíbulas negras muito fortes. Ao emergir, mede aproximadamente 7 mm de comprimento e pode alcançar de 110 a 130 mm no último estádio de seu desenvolvimento. Seu hábito de vida é do tipo "minador", constrói galerias no estipe do açaizeiro, junto à coroa, onde permanece durante todo seu desenvolvimento, que varia de 144 a 403 dias, com uma média de 233 dias.
No final de seu desenvolvimento a lagarta passa por um período de pré-pupa, durante 19 dias, em média (Korkytkowski & Ruiz, 1979b). No final do ciclo, transfere-se para a região superior do estipe onde empupa. A pupa é de cor castanho-escura brilhante e mede de 64 a 95 mm de comprimento; o casulo formado pela pupa é marrom escuro e é confeccionado com as fibras da palmeira, fortemente compactadas (Korkytkowski & Ruiz 1979b). O período pupal foi estimado por Korkytkowski & Ruiz (1979a) em aproximadamente 30 dias, e o ciclo biológico completo é de aproximadamente 14 meses.
A mariposa possui comportamento matutino e vespertino muito característico, voando somente por um período de 10 a 15 minutos nas primeiras horas da manhã (6h às 6h15m) e nas primeiras horas da noite (18h às 18h15m), permanecendo, durante o dia, pousada no estipe próximo a copa da palmeira, o vôo é rápido e silencioso, e se realiza a uma altura entre 1 a 4 metros.
- Ocorrência: É encontrada, em plantações de dendezeiro, coqueiro e algumas palmeiras nativas, na Venezuela, Suriname, Guiana, Brasil (Região Norte), Colômbia, Equador, Peru e Panamá, (Ray, 1973; Genty et al. 1978; Korkytkowski & Ruiz, 1979b). Em 1996, foi detectada a presença dessa praga atacando os estipes de açaizeiro e de bacabeiras (Oenocarpus maropa H. Karst e O. minor Mart.), palmeiras nativas da Região Norte. No Estado do Pará, o primeiro registro desta praga atacando diversas palmeiras foi por Silva et al. (1968).
- Sintomas: O ataque, inicialmente, ocorre na região da inserção da folha (axila foliar). Após a emergência, as larvas se dispersam pela coroa da palmeira e na medida que crescem, caminham em direção ao estipe fazendo enormes galerias, danificando seus tecidos, impedindo a circulação e o transporte de nutrientes para a região da copa, causando grandes prejuízos à produção (Schuilling & Dinther, 1980). O estipe, junto à coroa, fica totalmente perfurado e enegrecido em decorrência da oxidação da seiva, que escorre por meio das galerias abertas externamente. Como conseqüência, as folhas ficam carcomidas ao nível dos pecíolos, que pendem junto ao estipe e terminam por cair.
Concomitantemente, com os prejuízos causados pelas larvas desse inseto, é possível encontrar danos simultâneos de larvas de Rhynchophorus palmarum atraídos pelo odor de fermentação dos tecidos danificados pelas larvas da broca-do-estipe (Risco, 1996). Este autor estima que a forte incidência dessa broca no coqueiro pode reduzir a produção em até 50% e, concorrer para a ocorrência de problema mais sério, propiciando o ataque de broca-do-coqueiro, principal vetor do agente causal da doença "anel-vermelho".
- Controle: Não existem informações sobre o controle dessa praga em açaizeiro, entretanto, podem ser utilizadas algumas práticas de controle adotadas para o coqueiro e o dendezeiro, como a poda das folhas infestadas e a coleta manual de crisálidas e adultos, reduzindo consideravelmente a população da praga (Genty et al. 1978). O inseticida carbosulfan, na concentração de 0,02% de i.a., pulverizado na coroa foliar do coqueiro, tem sido eficiente no controle dessa praga. (Lins et al. 1998; Ohashi et al. 1998; Souza et al. 1998). Pouco se conhece sobre a ação de agentes naturais que tenham ação efetiva de controle dessa praga no campo.
Outras pragas
a) Caracóis: São moluscos, providos de conchas, com cerca de 10 mm de comprimento, encontrados por toda a planta, principalmente nos 2 primeiros anos de vida no campo. São encontrados, principalmente, na flecha e nos folíolos mais jovens, raspando os mesmos para se alimentarem. O controle pode ser feito por meio de catação manual, realizada periodicamente nas plantas jovens.
b) Lesmas: São moluscos desprovidos de conchas, mas com hábito alimentar semelhante ao dos caracóis. Atacam o açaizeiro tanto no viveiro como palmeiras jovens no campo. Alimentam-se raspando os folíolos mais jovens e as flechas. Ocorrem, com maior freqüência, na época chuvosa e em lugares mais úmidos. Dependendo da população, podem causar sérios problemas às mudas de açaizeiro ou ainda nos primeiros anos de vida. O controle pode ser feito através da catação manual nas plantas e limpezas ao redor do viveiro, retirando os pedaços de madeiras podres, uma vez que se reproduzem em material vegetal úmido e em decomposição.
Dentre as possibilidades de exploração das áreas de várzeas, o açaizeiro tem se destacado como componente desse ecossistema, pela facilidade de reconstituir o revestimento florístico, além de ser importante fonte de alimento e de renda para as populações ribeirinhas.
Nas várzeas, quando há a ocorrência de cobertura florestal, é possível fazer o manejo da vegetação visando o aumento da população de açaizeiro ou o enriquecimento com o plantio de mudas dessa e de outras espécies de interesse comercial, conciliando, de modo racional e equilibrado, a proteção ambiental com o rendimento econômico.
Nas áreas destinadas para a produção de frutos, normalmente, são eliminados os estipes de açaizeiro excedentes das touceiras e, também, algumas plantas de outras espécies, com vistas à redução da concorrência por água, luz e nutrientes. Ambos os casos provocam sensíveis alterações nos fatores que afetam a produtividade dessa palmeira. No caso da exploração do palmito, são eliminadas grandes quantidades de estipes de açaizeiro em decorrência da própria atividade.
O manejo de açaizeiro tem a condição de modificar a capacidade de suporte Xc1 para a capacidade limite Xc2 , equivalente a de um plantio racional. Com isto, são alterados os custos de extração, a rentabilidade, a produtividade máxima sustentável (PMS) e o ponto ótimo econômico (Fig. 1).
No caso do açaizeiro, que sofre duplo extrativismo (colheita de fruto e extração de palmito), o crescimento do mercado de fruto proporcionou à formação de populações mais homogêneas nas áreas mais próximas dos grandes centros consumidores, decorrente da redução da extração de palmito. As conseqüências da formação dessas populações homogêneas devem ser bem avaliadas em todos os seus aspectos.
O manejo tem sido enfatizado como a forma de garantir a extração sustentada dos recursos naturais. No extrativismo da madeira, pesca e caça, por exemplo, há a preocupação de serem igualadas as taxas de extrações com a capacidade de regeneração. No entanto, a taxa de extração biológica, muitas vezes, não garante a sustentabilidade econômica.
O manejo de açaizais visa o aumento da capacidade de suporte e, com isso, obter taxas de extração que assegurem maior rentabilidade à atividade. As diferentes características quanto ao manejo dos recursos naturais, recomendam, portanto, cautela para determinadas propostas que procuram induzir a adoção da "colonização extrativa" na Amazônia.
Nos últimos 10 anos, com a valorização dos frutos do açaizeiro, há a tendência de adensamento desta espécie e, como conseqüência indireta, a redução da biodiversidade de várzea, com a eliminação de plantas não-produtoras de frutos, como as palmeiras masculinas de buritizeiro (Mauritia flexuosa L.), cuja manutenção é considerada desnecessária pelos ribeirinhos, mas de importância para a produção de pólen e produção de frutos nas plantas femininas.
O fato das áreas de ocorrência de açaizeiro sofrerem inundações diárias tem restringido a pressão de uso da terra para fins agrícolas, permitindo a regeneração das populações de açaizais. Com o gradativo crescimento do mercado de frutos, é provável que grandes áreas do estuário amazônico sejam transformadas em populações homogêneas de açaizeiro ao longo das margens dos cursos d'água. Por outro lado, outras transformações antrópicas, levadas a efeito nos últimos dois séculos e meio (extração de madeira, abertura de canais, coleta de outros produtos extrativos etc.), juntamente com o processo de crescimento de populações homogêneas de açaizeiro, devem ter os seus efeitos sobre a biodiversidade melhor analisada.
Muito embora esta atividade provoque danos ambientais menores do que as atividades agrícolas, em comparação com as áreas de terra firme, se constitui um erro analisar as atividades extrativas considerando apenas do ponto de vista estático, esquecendo seu dinamismo, as transformações e as inter-relações ao longo do tempo.
O ribeirinho tem diante de si a alternativa de colher frutos ou extrair palmito do açaizeiro (Fig. 2), dependendo dos preços relativos destes dois produtos e do custo da mão-de-obra. Se o preço do fruto sobe, proporcionalmente, mais que o do palmito, a tendência da ação extrativa é de ser concentrada, com maior ênfase, na colheita de frutos (A). Por outro lado, quando o preço do fruto é menor, a tendência é de ser dada maior importância para a extração de palmito (B).
Nas áreas mais próximas do mercado e com facilidades de transporte, a extração dos frutos do açaizeiro tem sido mais lucrativa e vantajosa. A relação de preço mais desvantajosa para o palmito foi a principal causa que motivou a conservação dos estoques de açaizeiro, quando comparada com as políticas ambientais restritivas e que não tiveram sucesso.
Em áreas distantes do mercado e com dificuldades de transporte, a extração de palmito é mais vantajosa. Apesar da grande disponibilidade de estoques de açaizeiro, estes podem ser aumentados com a prática de manejo. O cenário futuro para a expansão do cultivo do açaizeiro está relacionado com o crescimento dos mercados de fruto e palmito, fato que pode motivar a implantação de cultivos racionais, em outras regiões do Brasil.
Para muitos produtos extrativos, tanto para aqueles que exigem o aniquilamento do recurso como apenas a coleta, a extração é efetuada da forma mais racional possível, a fim de não prejudicar a capacidade de suporte. É bom lembrar que o manejo racional não implica na permissão de sua exploração ad infinitum, uma vez que depende das relações econômicas, na qual o produto extrativo está inserido.
Os produtos extrativos que se encontram em grandes estoques, tais como madeira, castanha-do-brasil (Bertholletia excelsa H.B.K.), babaçu (Orbygnia speciosa (Mart.) Barb. Rodr.) e açaí, esforços devem ser efetuados para garantir a extração o mais racional/sustentável possível. Isto asseguraria uma exploração por um período maior, bem como garantiria a sua conservação.
Para muitos produtos extrativos, tal como o açaí no Estado do Pará, o manejo da floresta, para a coleta de frutos, tem como resultado os estoques mais homogêneos e, conseqüentemente, o aumento da produtividade da terra e da mão-de-obra. Esse fato não deve ser considerado como regra geral, como nos casos em que a extração de outros produtos pode levar ao desaparecimento ou perda de recursos genéticos importantes para o ecossistema.
As populações de açaizeiro, encontradas em áreas de florestas submetidas a constantes alterações, são relativamente elevadas em comparação com a observada em regiões com reduzida densidade demográfica e, conseqüentemente, baixa intensidade de exploração dos recursos naturais.
A principal razão para que os açaizais do estuário amazônico apresentem grande concentração de plantas de açaizeiro, é o fato dessas áreas serem intensamente exploradas pelos habitantes ribeirinhos, os quais praticam a eliminação das espécies consideradas de baixo valor comercial que ocorrem naturalmente nas áreas de várzea. Com isso, o açaizeiro, por ser considerado planta pioneira, domina o ambiente, chegando a formar populações até 5 vezes maiores que aquelas observadas em áreas de várzea com a vegetação original pouco ou não-alterada, segundo alguns autores (Costa et al. 1973; Costa et al. 1974; Calzavara, 1976; Pollak et al. 1995).
As práticas de manejo desenvolvidas pelos produtores ribeirinhos para a formação de açaizais, com a finalidade de produção de frutos, apesar de provocarem mudanças consideráveis na composição florística da floresta de várzea, permitem aos açaizais manterem as características funcionais e estruturais da floresta, além de propiciar ao produtor ribeirinho a concentração de espécies de valor econômico (Brondizio et al. 1993). O inventário da vegetação de floresta de várzea não-manejada, no Município de Ponta de Pedras, possibilitou a identificação de 44 espécies, enquanto na floresta de várzea, intensamente manejada para a formação de um açaizal, a ocorrência foi de apenas 15 espécies. As práticas de manejo, aplicadas pelos ribeirinhos nas áreas de açaizais nativos, afetam as condições ambientais e, conseqüentemen-te, as plantas remanescentes.
A grande capacidade de regeneração do açaizeiro, a partir de touceiras remanescentes do corte do palmito, e de sementes que germinam espontaneamente nas áreas de várzeas, tem possibilitado a formação de açaizais com elevada concentração de plantas, mesmo em áreas onde é praticado, rotineiramente, o extrativismo do palmito. Essas populações, além de elevadas, são semelhantes quando comparadas com outras áreas com diferentes idades após o corte do palmito.
Ao contrário do que ocorre com algumas espécies de palmeiras nativas, o açaizeiro, em condições naturais, apresenta elevada taxa de germinação das sementes, cuja dispersão ocorre das mais variadas formas, dando origem a grande quantidade de plantas jovens, capazes de sobreviver sob condições de sub-bosque, a espera de luminosidade para atingirem com mais rapidez a fase adulta. Essas condicionantes conferem vantagens à espécie em se tratando de estratégia e equilíbrio demográficos da população (Bullock, 1980; Sist, 1989).
A forma de exploração sistemática dos açaizais nativos de várzea, pelos habitantes ribeirinhos, depende, fundamentalmente, da localização do açaizal em relação aos principais conglomerados urbanos, tradicionalmente consumidores do açaí, com destaque para a cidade de Belém e alguns municípios situados às suas proximidades. Mesmo com o processo de urbanização, as populações rurais que migraram para os centros urbanos, não abandonaram o hábito de consumo do açaí.
Nas áreas circunvizinhas a grandes centros urbanos, como Belém, a consciência é quase geral para a preservação dos açaizais, ou seja, destinando-os, preferencialmente, para a produção de frutos, pois, é sabido que toda a produção obtida, ao longo do período de safra, é facilmente comercializada, mesmo que a preços menores quando comparados com os alcançados durante a entressafra. Nessas áreas, a extração de palmito só ocorre quando o produtor ribeirinho necessita de capitalização imediata, quando recorre à sua "poupança", que é o estoque de palmito disponível no açaizal produtivo, pois, tem a consciência de que o mesmo estará recomposto algum tempo depois.
Nas localidades mais distantes, onde o tempo gasto com o transporte fluvial é superior a 12 horas, inviabiliza a conservação e comercialização dos frutos, os ribeirinhos exploram, na maioria das vezes, quase que exclusivamente os açaizais nativos para a produção de palmito. Por essa razão, a indústria palmiteira, inicialmente instalada às proximidades de Belém, foi deslocada, gradativamente, para as regiões onde a pressão pela coleta de frutos é ainda relativamente pequena, permanecendo apenas as "fabriquetas" que extraem, industrializam e comercializam o palmito sem qualquer forma de controle.
Modelos de manejo
É bastante enfatizada na Amazônia, a adoção de práticas de manejo sustentável de recursos naturais, como solução ecológica-econômica. Entretanto, considerando a facilidade quanto ao acesso a novos estoques de recursos naturais, o extrativismo em áreas não-manejadas tem apresentado, em curto prazo, maiores vantagens econômicas.
As florestas de várzea, em que o açaizeiro é um dos componentes mais importantes, são exploradas das mais variadas formas, principalmente, através de atividades extrativas (Anderson & Jardim, 1989; Oliveira Jr. & Nascimento, 1992; Anderson & Ioris, 1992; Brondizio et al. 1994). O diagrama da Fig. 3 representa o processo tradicional de exploração dessas florestas, com ênfase para o extrativismo do açaizeiro visando às produções de fruto e palmito.
A partir de resultados experimentais e de informações obtidas junto aos ribeirinhos, que se dedicam ao extrativismo do açaizeiro e de outras espécies; ao plantio de enriquecimento de áreas; e à coleta de frutos e extração de palmito, foram definidas algumas estratégias com vistas à melhoraria do rendimento dos sistemas de exploração das florestas de várzeas do estuário amazônico (Nogueira, 1997). Para que seja garantido o manejo de floresta, com rendimento sustentável e exploração de forma cíclica, no mínimo, deverão ser observados os aspectos de avaliação do estoque disponível, as taxas de incremento e a regeneração natural de cada espécie a ser explorada (Reis et al. 1993).
Considerando a forma como os açaizais vêm sendo explorados, e algumas práticas bem sucedidas realizadas pelos ribeirinhos, é possível propor, de modo racional e equilibrado, manejo de exploração de açaizais nativos, conciliando a proteção ambiental com o rendimento econômico. O pressuposto básico deve estar voltado para o estabelecimento de florestas diversificadas de várzeas , que possam proporcionar aos ribeirinhos rentabilidade maior que a obtida com a forma atual de exploração. Nesse contexto, deve ser considerado que o manejo e a exploração do maior número possível de espécies, constituirão em aspectos favoráveis para a manutenção da biodiversidade, evitando, com isso, o risco da formação de maciços homogêneos de açaizais (tendência atual), e também favorecer o ressurgimento de espécies vegetais nativas, que praticamente desapareceram da região.
O diagrama representado na Fig. 4, propõe o manejo e a utilização das florestas de várzeas, tendo o açaizeiro como componente principal, porém, consorciado com as espécies de ocorrência natural na própria área e com outras introduzidas, caracterizando dessa forma o enriquecimento e a manutenção da biodiversidade.
O processo consiste, basicamente, na eliminação das plantas de espécies consideradas de baixo valor comercial, cujos espaços livres surgidos são ocupados com o plantio de mudas de açaizeiro e de outras espécies com importância econômica. No caso específico do açaizeiro, também podem ser utilizadas plantas jovens. com 4 a 5 folhas e altura média de 50 cm, oriundas de germinação espontânea de sementes e transplantadas de áreas próximas (Fig. 5).
A eliminação das plantas pode ser feita por anelamento, derruba ou ateando fogo no tronco, dependendo do porte e da altura. Dentre as espécies utilizadas no enriquecimento, em conjunto com o açaizeiro, há de ser destacado o aproveitamento do cupuaçuzeiro, cacauzeiro, mangueira (Mangifera indica L.), viroleira (Virola surinamensis L.), andirobeira (Carapa guianensis Aubl.) e pau-mulato (Calycophyllum spruceanum L.). As espécies, como o taperebazeiro (Spondias mombin L.), buritizeiro, jenipapeiro (Genipa americana L.) e seringueira (Hevea brasiliensis H.B.K.), são encontradas, espontaneamente, nessas áreas de várzeas, havendo, no entanto, a necessidade de compatibilizar a densidade em função da população total de plantas que possa ser ideal.
Nas Fig. 6 e 7, estão representados os detalhamentos dos procedimentos iniciais de raleamento da vegetação de várzea, com a eliminação de espécies consideradas de baixos valores comerciais, seguido do remanejamento do plantio do açaizeiro e de outras espécies, respectivamente. Essas práticas possibilitam disponibilizar, para a exploração racional, florestas de várzeas diversificadas e econômicas.
A grande vantagem econômica do manejo de açaizais, para a produção de frutos, induz à implantação de sistemas direcionados, prioritariamente, para esse fim e devem levar em consideração todos os procedimentos mencionados anteriormente. Ao final do processo de implantação será possível dispor de sistema agroflorestal, caracterizado como açaizal de várzea enriquecido com espécies nativas e introduzidas, constituído de aproximadamente 400 a 500 plantas adultas de açaizeiro e 100 a 150 plantas de espécies frutíferas e árvores de essências florestais por hectare.
Quando o interesse pela exploração dos açaizais manejados for, essencialmente, para a produção de palmito é desaconselhável o plantio de outras espécies, mas é importante realizar o raleamento da vegetação, seguido do enriquecimento, nas áreas de baixa concentração, com mudas de açaizeiro.
Na implantação de sistemas diversificados são recomendadas, preferencialmente, as áreas de várzea alta, por causa das facilidades de desenvolvimento das operações necessárias ao estabelecimento e à manutenção desses sistemas. No caso de áreas de várzea baixa, cujos solos permanecem quase sempre inundados, é recomendado o enriquecimento por meio do manejo das touceiras de açaizeiro existentes, pois o plantio e a manutenção de outras espécies são praticamente inviáveis.
Operações necessárias ao manejo
Limpeza da área
A roçagem é o primeiro trabalho feito na área e consiste da eliminação das plantas de menor porte e de cipós, bem como da retirada de galhos, e visa facilitar o deslocamento de pessoas que implementarão as demais práticas.
Raleamento da vegetação
Nessa etapa são identificadas e eliminadas as árvores sem valor de mercado, mantendo aquelas produtoras de madeira, frutos, sementes, fibras, látex, óleos e fitoterápicos.
As árvores mais finas e as palmeiras podem ser eliminadas por meio de corte, e as mais grossas por anelamento, consistindo da retirada, em forma de anel de 25 a 100 cm de largura, de parte do córtex em torno do tronco, dependendo da espécie. As árvores preservadas devem estar bem distribuídas, permitindo a penetração da luz do sol na área, facilitando o crescimento e o aumento da produção de frutos do açaizeiro e das outras espécies.
Desbaste das touceiras
Nos açaizais não-manejados, geralmente, as touceiras apresentam número excessivo de estipes. A prática de desbaste visa eliminar o excesso de estipes, deixando de 3 a 4 em cada touceira, sendo eliminados aqueles muito altos, finos, defeituosos ou que apresentem pouca produção de frutos. Essa prática é realizada na entressafra, com aproveitamento dos palmitos.
Após o desbaste, são plantadas as mudas de açaizeiro nas áreas mais espaçadas, para que seja constituída a população aproximada de 400 touceiras por hectare.
Obtenção de mudas
As mudas de açaizeiro, para plantios nas áreas com baixa concentração dessa espécie, podem ser obtidas a partir de plantas jovens oriundas da germinação natural de sementes ou produzidas especificamente para esse fim. As mudas das outras espécies, que serão cultivadas em associação com o açaizeiro, também, podem ser produzidas às proximidades da área em manejo ou adquiridas junto a produtores credenciados.
Manutenção do açaizal
Anualmente é efetuada a eliminação das plantas de valor comercial desconhecido, para que o açaizal seja mantido limpo e mais produtivo. São eliminadas as brotações novas, deixando somente as que substituirão os açaizeiros grandes indesejáveis, com vistas a manter a população recomendada.
Para que os estipes do açaizeiro apresentem rápido crescimento em diâmetro, é indispensável a realização da limpeza das touceiras, que consiste da retirada das bainhas presas no estipe após a morte da folha. Essa prática é mais necessária nas plantas jovens, pois nas adultas as bainhas se desprendem, naturalmente, junto com as folhas.
Estimativas dos impactos positivos do manejo
Impactos econômicos
Os sistemas não-manejados propiciam a renda líquida de R$ 400,00/hectare. Com o manejado, a partir do 4º ano, é possível obter, ad infinitum, até R$ 700,00/hectare, correspondendo a 75% de aumento. Os custos com a técnica de manejo são ressarcidos com a produção da primeira safra após o manejo.
Outro aspecto importante, para a valorização do mercado do fruto de açaí, foi o desestímulo para extração de palmito, nas áreas mais próximas a Belém, pela maior lucratividade proporcionada, quase o dobro nos açaizais manejados para fruto, com a vantagem de possibilitar, a cada 3 anos, a extração de palmito.
Considerando que 1 hectare de açaizal não-manejado produz, em média 4,2 toneladas de frutos, há indicativo que algo em torno de 37 mil hectares estejam sendo explorados, no Estado do Pará. Com as técnicas de manejo, a produtividade de frutos aumenta para 8,4 toneladas, indicando a existência de mais de 10 mil hectares de açaizais manejados, com o apoio de financiamento oficial. Com isso, houve o acréscimo de 42 mil toneladas de frutos, que representa R$ 48 milhões, sem a ocorrência de mudanças espaciais nas áreas às proximidades dos principais centros urbanos, reduzindo os impactos ambientais. Desse modo, houve substancial aumento da extração para atender o crescente mercado exportador e de consumo local.
Impactos sociais
Com o emprego da técnica de manejo, a produtividade da terra é dobrada para a produção de fruto, o que não ocorre com a mão-de-obra, pela impossibilidade de mecanização do processo de colheita, exigindo, dessa forma, o dobro da necessidade de esforço humano, em relação ao sistema não-manejado.
Como o sistema manejado implica no uso adicional de 46 dias/homem/hectare decorrente do aumento da produtividade e das técnicas de manejo, indica que pelo menos 2.000 empregos diretos tenham sido criados com os 15.000 hectares manejados.
A exploração do açaizeiro é de fundamental importância para a sustentação econômica das populações ribeirinhas dos Estados do Pará e Amapá. As atividades de extração, transporte, comercialização e beneficiamento de frutos e palmitos de açaizeiro são as responsáveis pela geração de 25 mil empregos diretos, injetando anualmente mais de R$ 40 milhões na economia regional.
Em 1999, as exportações de palmito do Estado do Pará, produziram a cifra de aproximadamente US$ 7,5 milhões, mas em 1992 alcançou cerca de US$ 29,3 milhões. Essa perda de participação, decorre da competitividade com a colheita de frutos, além da destruição dos açaizais. A produção de frutos no Estado do Pará cresceu de 91.581 toneladas, em 1994, para 156.046 em 2000, um aumento de aproximadamente 70%.
Impactos ambientais
O manejo dos açaizais nativos concilia a proteção ambiental com o rendimento econômico, de modo racional e equilibrado. O pressuposto básico é o estabelecimento de florestas de várzea diversificadas, proporcionando, aos ribeirinhos, maior rentabilidade que os açaizais nativos na forma como são explorados atualmente. Nesse contexto, o manejo e a exploração do maior número possível de espécies, são os aspectos favoráveis para a manutenção do equilíbrio da biodiversidade, evitando assim o risco da formação de maciços homogêneos de açaizais e favorecendo o ressurgimento de espécies vegetais nativas que praticamente desapareceram da região.
Alcance da tecnologia
No Estado do Pará, com a adoção das técnicas de manejo, estão sendo financiados mais de 6 mil pequenos produtores, correspondendo a mais de 15 mil hectares, para a extração de palmito e colheita de frutos.
Eficiência tecnológica
O emprego dessa técnica de manejo não requer o uso de insumos, como corretivos e fertilizantes, nem, tampouco, a utilização de recursos energéticos modernos. Sob o ponto de vista ecológico, as ações de manejo estão limitadas às áreas existentes, sem a possibilidade de se estender a novas áreas ou a de inserir novos recursos naturais.
Nas várzeas do estuário amazônico são encontradas quantidades expressivas de pequenas áreas desmatadas, pelos moradores ribeirinhos, para utilização com agricultura de subsistência, em pequena escala (cana-de-açúcar, arroz, milho, banana, pastagem), as quais são abandonadas após um curto período de utilização.
Essas áreas podem ser reflorestadas com o plantio de açaizeiro, em sistemas de produção solteiro ou consorciado com espécies frutíferas e/ou florestais.
O cultivo de açaizeiro em várzeas, por meio de plantios em áreas desflorestadas, de manejo e de enriquecimento florestal, em associação com outras espécies frutíferas e florestais, adaptadas a essas condições, é incentivado e visto como uma das opções para tornar essas áreas ribeirinhas mais produtivas e ecologicamente melhor protegidas (Nogueira & Homma, 1998).
Seleção e preparo da área
Devem ser utilizadas as áreas de várzeas desmatadas, anteriormente cultivadas com espécies de ciclo curto ou que se encontrem com a cobertura vegetal característica de capoeira rala. O preparo da área consistirá apenas de roçagem manual, a ser realizada durante o final do período chuvoso (abril/maio), quando é possível a implementação de práticas agrícolas em função do menor nível das águas das marés. Essas áreas desmatadas, geralmente, ocupam faixas de áreas de várzea alta, mas apropriadas aos cultivos de espécies anuais, semiperenes e perenes.
Plantio e tratos culturais
Nessas áreas, o plantio é realizado no início do período de estiagem (maio/junho). Nesse período, mesmo durante a estiagem na região, os solos das áreas de várzea são permanentemente úmidos, em decorrência das marés periódicas que cobrem essas áreas, com intervalos de 15 dias, com lâmina de água de aproximadamente 40 cm, impedindo que as plantas sejam submetidas a estresse hídrico.
No caso da opção pelo plantio de açaizeiro em sistema solteiro, o espaçamento a ser adotado é de 5 x 5 m entre covas, com a manutenção de 3 a 4 estipes por touceira, cuja emissão, geralmente, ocorre entre 12 e 15 meses após o plantio das mudas no campo. Durante os 2 primeiros anos, os espaços entre os açaizeiros podem ser aproveitados para o cultivo de espécies de ciclo rápido (hortaliças, arroz, milho, banana).
No sistema consorciado, as mudas de açaizeiro são plantadas em covas, obedecendo ao espaçamento de 6 x 4 m, que permite abrigar a população de 420 touceiras/hectare. Juntamente com o açaizeiro, pode ser cultivada a bananeira nas entrelinhas, guardando o mesmo espaçamento dos açaizeiros, utilizando mudas de variedades adaptadas ao ecossistema de várzea, com 420 plantas por hectare (Fig. 3). Junto com essas espécies, também podem ser cultivados o feijão caupi, maxixe e abóbora, como opções de aproveitamento das áreas limpas e de renda para o agricultor em curto prazo.
O sistema também contempla o plantio de uma espécie de fruteira (cupuaçu ou cacau), no espaçamento de 6 x 4 m, com a população de 420 plantas/hectare e de uma ou mais espécies de essências florestais, no espaçamento de 12 x 8 m, que garante a população de 104 plantas/hectare. O croqui do sistema completo é apresentado na Fig. 4.
Os principais tratos culturais são os mesmos realizados nos cultivos em terra firme e constam de desbaste dos perfilhos, roçagem, coroamento e limpeza dos estipes. Não é recomenda adubação química, face as boas condições de fertilidade natural dos solos de várzea do estuário amazônico.