quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Adubação e Calagem na Cultura da Manga


Nutrição, Calagem e Adubação

Efeitos e funções dos nutrientes na cultura

Nitrogênio (N) - O N é um dos nutrientes mais importantes para a mangueira e exerce um importante papel na produção e na qualidade dos frutos. Seus efeitos se manifestam principalmente na fase vegetativa da planta e, considerando a relação existente entre surtos vegetativos/emissão de gemas florais/frutificação, sua deficiência poderá afetar negativamente a produção. Mangueiras adequadamente nutridas com N poderão emitir regularmente brotações que, ao atingirem a maturidade, resultarão em panículas responsáveis pela frutificação. Em excesso, este nutriente pode aumentar a suscetibilidade da cultura a desordens fisiológicas, tais como colapso interno e doenças de pós-colheita, e se for aplicado no momento errado, pode prejudicar o florescimento. Altos teores de N podem, ainda, deixar os frutos verdes, ou manchados de verde, o que compromete a qualidade de produção e valor de mercado.
Fósforo (P) - O P é necessário na divisão e crescimento celular da planta. É especialmente importante no desenvolvimento radicular, comprimento da inflorescência, duração da floração, tamanho da folha e maturação do fruto. Influencia positivamente na coloração da casca, uma característica de grande importância para o mercado consumidor.
Potássio (K) - O K exerce um importante papel na fotossíntese e produção de amido, na atividade das enzimas e na resistência da planta a doenças. Ele está estreitamente relacionado com a qualidade dos frutos, em particular cor da casca, aroma, tamanho e brix. Influencia ainda a regulação de água na célula, controlando as perdas de água das folhas por meio da transpiração. É o nutriente mais importante em termos de produção e qualidade de frutos. No entanto, o excesso desse nutriente pode causar desbalanço nos teores de cálcio e magnésio, causando, ainda, queima nas margens e ápice das folhas velhas.
Cálcio (Ca) - O Ca, juntamente com o N, é um nutriente exigido em grandes quantidades pela mangueira. Contribui no desenvolvimento celular da planta e influencia na firmeza e na vida de prateleira dos frutos. Baixos teores de Ca estão associados com o colapso interno. Os períodos críticos para a sua absorção são durante o desenvolvimento inicial dos frutos e pós-colheita. É melhor absorvido pelo sistema radicular; assim, aplicações foliares não têm sido eficientes, uma vez que ele é praticamente imóvel na planta.
Magnésio (Mg) - Embora o Mg não seja exigido em grandes quantidades, sua deficiência poderá provocar redução no desenvolvimento, desfolha prematura e, em decorrência, diminuição da produção. Adubações com altas doses de Ca e de K diminuem a sua absorção, motivo pelo qual deve ser verificada, antecipadamente, a relação K/Ca/Mg.
Enxofre (S) - Sintomas de deficiência de S são raramente observados, uma vez que a disponibilidade deste nutriente nos solos geralmente é capaz de atender as necessidades das plantas. Além disso, a aplicação de fertilizantes minerais e orgânicos ao solo e de determinados defensivos agrícolas contendo enxofre, garantem um suprimento adicional de S à mangueira.
Boro (B) - O B é importante na fase de florescimento e desenvolvimento de frutos e essencial para a absorção e uso do Ca. A sua deficiência resulta em baixas taxas de florescimento, além de frutos de tamanho reduzido. Os sintomas de deficiência são mais visíveis durante o florescimento, produzindo inflorescências deformadas, brotações de tamanho reduzido, com folhas pequenas e coriáceas. Poderá ocorrer ainda redução significativa em termos de produção, uma vez que a gema terminal poderá morrer. A morte de gemas terminais resulta na perda da dominação apical, induzindo assim a emissão de grande número de brotos vegetativos, originados das gemas axilares dos ramos principais. Deve-se tomar cuidado com as quantidades de B aplicadas, uma vez que o limite entre deficiência e toxicidade é muito próximo. A toxidez de B causa queima das margens e queda das folhas, podendo causar grande prejuízo à produção.
Cobre (Cu) - O Cu é necessário para a ativação de várias enzimas. As exigências da mangueira por Cu são pequenas, assim, raramente ocorrem deficiências. Em alguns casos pode-se observar concentrações elevadas nas folhas, em consequência da aplicação de fungicidas e caldas à base de Cu, usados no controle de doenças. Esses produtos podem se acumular no solo, aumentando a disponibilidade desse nutriente para a planta.
Zinco (Zn) - Plantas deficientes em Zn apresentam encurtamento dos entrenós e, além disso, o limbo foliar tem sua espessura ampliada e torna-se quebradiço. Os distúrbios denominados malformação floral ou “embonecamento” e malformação vegetativa ou vassoura-de-bruxa podem, em parte, ser confundidos com a deficiência de Zn, uma vez que as plantas emitem panículas pequenas, de forma irregular, múltiplas e deformadas.
Ferro (Fe) - A disponibilidade de Fe normalmente é alta em solos tropicais. A carência de Fe pode ocorrer em solos ácidos, por causa do excesso de manganês, bem como em solos que apresentem pH elevado.
Manganês (Mn) - A disponibilidade de Mn, normalmente alta em solos tropicais, é reduzida quando se realiza calagem e quando se aplicam altas doses de P.
Amostragem e análise de solo
O resultado da análise química do solo é essencial na recomendação de adubação, no entanto, é necessário que se faça uma amostragem de solo criteriosa, de modo que represente as condições reais do campo.
Inicialmente, separam-se as áreas com solos diferentes no que se refere à cor, à textura, ao relevo e ao uso (virgem ou cultivado, adubado ou não adubado, etc.). Feita a separação, em cada área homogênea realiza-se a amostragem em 20 pontos ao acaso, para se obter uma amostra composta, nas profundidades de 0-20 cm e de 20-40 cm. A terra retirada na amostragem em cada profundidade deve ser colocada em um recipiente limpo (balde plástico). Completado o número de amostras simples, mistura-se bem a terra, retirando-se depois, aproximadamente, meio quilo de solo, que deve ser colocado num saco plástico, que representará a referida amostra composta. As amostras não devem ser coletadas em locais de formigueiro, monturo e coivara ou próximos a currais e estradas. Antes da coleta, deve-se limpar a superfície do terreno, caso haja mato ou resto vegetal. A amostragem é facilitada quando o solo está ligeiramente úmido.
Em pomares já estabelecidos as amostras de solo devem ser coletadas na projeção da copa das árvores, nos locais nos quais se faz a adubação, evitando-se a coleta em faixas de terra recém-adubadas. As amostras devem ser retiradas nas profundidades de 0-20 cm e 20-40 cm. Em áreas com sistemas de irrigação localizada, a maior concentração de raízes da mangueira limita-se ao bulbo molhado. Portanto, a amostragem e a adubação deverão ser realizadas nestes locais. Nos pomares já estabelecidos a amostragem deverá ser realizada após a colheita, no período de repouso da mangueira, e antes de efetuar a adubação de base.
Amostragem e análise de planta
A análise mineral de planta é importante para se fazer a recomendação de adubação mas, para isso, é necessária uma amostragem adequada. Deve-se separar talhões ou conjunto de talhões (não ultrapassar 10 ha) com a mesma idade, variedade e produtividade, em áreas de solos homogêneos. Manter o mesmo agrupamento usado na amostragem de solo. Escolher para a coleta apenas as folhas inteiras e sadias. As folhas devem ser coletadas na parte mediana da copa, nos quatro pontos cardeais, em ramos normais e recém-maduros. Coletar as folhas na parte mediana do penúltimo fluxo do ramo ou do fluxo terminal, com, pelo menos, 4 meses de idade. Retirar quatro folhas por planta, em 20 plantas selecionadas ao acaso.
Realizar a coleta antes da aplicação de nitratos ou outro fertilizante foliar para a quebra de dormência das gemas florais. Não amostrar plantas que tenham sido adubadas, pulverizadas ou após períodos intensos de chuvas. Após a coleta, deve-se acondicionar as amostras em sacos de papel, identificando-as e enviando-as, imediatamente, para um laboratório. Se isto não for possível, armazená-las em ambiente refrigerado. A amostragem de folhas deve ser realizada anualmente, pois os teores foliares de N condicionam as doses de fertilizantes nitrogenados a serem aplicadas.
Interpretação dos resultados de análise de folhas
Partindo de uma amostra padronizada, colhida como foi explicado anteriormente, é realizada a análise total dos elementos no material vegetal. A interpretação pode ser feita com base na faixa de teores considerados adequados. Na Tabela 1, são apresentadas essas faixas, sem especificação da cultivar de manga.
Tabela 1. Teores de nutrientes adequados em folhas de mangueira (Mangifera indica L).
Nutrientes
Faixas de Teores

Deficiente
Adequado
Excessivo
N (g/kg)
< 8,0
12,0 a 14,0
> 16,0
P (g/kg)
< 0,5
0,8 a 1,6
> 2,5
K (g/kg)
< 2,5
5,0 a 10,0
> 12,0
Ca (g/kg)
< 15,0
20,0 a 35,0
> 50,0
Mg (g/kg)
< 1,0
2,5 a 5,0
> 8,0
S (g/kg)
< 0,5
0,8 a 1,8
> 2,5
B (mg/kg)
< 10
50 a 100
> 150
Cu (mg/kg)
< 5
10 a 50
-
Fe (mg/kg)
< 15
50 a 200
-
Cl (mg/kg)
-
100 a 900
> 1600
Mn (mg/kg)
< 10
50 a 100
-
Zn (mg/kg)
< 10
20 a 40
> 100
Fonte: Quaggio (1996).
Calagem
A calagem tem a finalidade de corrigir a acidez do solo, elevando o pH e neutralizando os efeitos tóxicos do alumínio (Al) e Mn, concorrendo, assim, para que haja um melhor aproveitamento dos nutrientes pelas culturas. Além da correção da acidez, a calagem eleva os teores de Ca e Mg do solo, porque o calcário, que é o corretivo normalmente usado, contém altos teores desses nutrientes.
A mangueira é uma das culturas mais exigentes em Ca, pois possui quase sempre o dobro desse nutriente nas folhas em relação ao N, que é o nutriente predominante nas folhas da maioria das espécies cultivadas. No campo, também são frequentes os sintomas de deficiência de Mg, considerado o quarto nutriente mais importante para a mangueira. Em solos ácidos, os problemas de deficiência de Mg são facilmente corrigidos mediante a aplicação de calcário dolomítico, que é uma fonte eficiente e a mais econômica do nutriente. Entretanto, em solos alcalinos, a deficiência de Mg só é corrigida pela aplicação de sais solúveis de Mg, como sulfato, cloreto ou nitrato, os quais normalmente têm custo elevado, principalmente quando comparados com o calcário dolomítico.
Em pomares corrigidos com calcário ou naqueles em que o pH elevado não permite a sua utilização, a concentração de Ca nas folhas pode ficar abaixo do nível crítico, predispondo as plantas a distúrbios fisiológicos, como o colapso interno (soft nose). Uma fonte alternativa de Ca é o gesso ou o fosfogesso. Nestas situações, o gesso é um material que vem sendo usado para aumentar os teores de Ca, sem alterar o pH do solo. Existem, também, os produtos quelatizados com ácidos orgânicos (polihidroxicarboxílicos) como fonte de Ca. Em condições de pH elevado e baixa disponibilidade de Ca no solo, deve-se empregar, como fonte de P, fertilizantes também ricos em Ca como é o caso dos superfosfatos, termofosfatos e fosfatos naturais.
A calagem deverá promover a elevação da saturação por bases (V) a 80% e/ou o teor de Ca2+ a 2 cmolc dm-3 e o de Mg2+ a 0,8 cmolc dm-3. A quantidade dos corretivos deve ser determinada pelo técnico especialista, com base nos resultados da análise de solo.
Adubação
O manejo de adubação da mangueira envolve três fases: 1) adubação de plantio; 2) adubação de formação; e 3) adubação de produção.
Adubação de plantio - Depende, essencialmente, da análise do solo. Os fertilizantes minerais e orgânicos são colocados na cova e misturados com a terra da própria cova, antes de se fazer o transplantio das mudas (Tabela 2).
Adubação de formação - As adubações minerais devem ser iniciadas a partir de 30 dias após o plantio, distribuindo-se os fertilizantes na área correspondente à projeção da copa, mantendo-se uma distância mínima de 20 cm do tronco da planta. Deve-se fazer uma leve incorporação e irrigar logo em seguida. O raio da área de aplicação deverá ser ampliado em função do crescimento da planta (Tabela 2).
Tabela 2. Quantidades de N, P2O5;e K2O indicadas para a adubação de plantio e formação da mangueira (Mangifera indica L) irrigada no Semiárido.
Adubação
N
P Mehlich-1, mg dm-3
K solo, cmolc dm-3

< 10
10 - 20
21 - 40
> 40
< 0,16
0,16 - 0,30
0,31 - 0,45
> 0,45
g/cova
P2O5, g/cova
K2O, g/cova
Plantio
-
250
150
120
80
-
-
-
-
Formação
0-12 meses
150
-
-
-
-
80
60
40
20
13-24 meses
210
160
120
80
40
120
100
80
60
25-30 meses
150
-
-
-
-
80
60
40
20
Fonte: Silva et al. (2004).
Adubação de produção - A partir de 3 anos ou quando as plantas entrarem na fase de produção, os fertilizantes deverão ser aplicados em sulcos, abertos ao lado da planta. A cada ano, o lado adubado deve ser alternado. A localização destes sulcos deve ser limitada pela projeção da copa e pelo bulbo molhado, por ser esta a região com maior concentração de raízes (Tabela 3). A distribuição dos fertilizantes nesta fase poderá ser realizada da seguinte maneira: após a colheita, aplica-se 50% do N, de 60% a 100% de P e 25% do K. Antes da indução floral, deve ser adicionado 20% do K. Na floração, aplica-se mais 15% do K e, se houver, a dose complementar de P. Após o pegamento dos frutos, aplica-se 30% do N e 15% do K. Cinquenta dias após o pegamento dos frutos, devem ser adicionados 20% do N e 15% do K. As doses desses nutrientes devem ser definidas de acordo com os resultados de análise foliar e do solo.
Adubação orgânica - Aplicar 20 L a 30 L de esterco por cova no plantio e pelo menos uma vez por ano.
Adubação com micronutrientes - As deficiências mais comuns de micronutrientes que ocorrem na mangueira são de Zn e B. A correção dessas deficiências poderá ser realizada por meio da aplicação de fertilizantes ao solo ou via foliar, de acordo com os resultados de análise foliar e do solo.
Fornecimento de cálcio – Considerando-se a elevada exigência da mangueira por Ca, recomenda-se associar a calagem com a aplicação de gesso. A quantidade de gesso a ser aplicada deve ser definida de acordo com os resultados da análise química e a textura do solo, e associada à quantidade de calcário, que fica em torno de 0,5 t/ha em solos de textura arenosa e 2,5 t/ha em solos de textura argilosa. Aplicar o gesso na superfície, sem incorporação, após a calagem e antes da adubação, para se evitar perda excessiva de K.
Tabela 3. Quantidades de N, P2O55 e K2O indicadas para a adubação de produção da mangueira (Mangifera indica L) em função da produtividade e da disponibilidade de nutrientes.
Produtividade esperada
N nas folhas, g kg-1
P Mehlich-1, mg dm-3
K solo, cmolc dm-3
< 12
12 - 14
14 - 16
> 16
< 10
10 - 20
21 - 40
> 40
< 0,16
0,16 - 0,30
0,31 - 0,45
> 0,45
t/ha
N, kg/ha
P2O5, kg/ha
K2O, kg/ha
< 10
30
20
10
0
20
15
8
0
30
20
10
0
10 – 15
45
30
15
0
30
20
10
0
50
30
15
0
15 – 20
60
40
20
0
45
30
15
0
80
40
20
0
20 – 30
75
50
25
0
65
45
20
0
120
60
30
0
30 – 40
90
60
30
0
85
60
30
0
160
80
45
0
40 – 50
105
70
35
0
110
75
40
0
200
120
60
0
> 50
120
80
40
0
150
100
50
0
250
150
75
0
Fonte: Silva et al. (2004).



terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Manejo do Solo na Cultura da Manga



Manejo do Solo

O principal propósito do manejo do solo na cultura da mangueira é proporcionar alternativas de produção que infiram a sustentabilidade e que minimizem o impacto ambiental, aproveitando conhecimentos, experiências e recursos locais, tendo como base a reciclagem da matéria orgânica e as técnicas de produção compatíveis com o ambiente, utilizando-se os recursos naturais tais como água, solo, energia e biodiversidade como forma de garantir o equilíbrio biológico.
Para estabelecer um sistema de manejo, a proteção e uso do solo devem se basear, primeiramente, no seu potencial produtivo. Para um manejo adequado do solo é necessário considerar suas propriedades físicas (aeração, retenção de água, compactação, estruturação), químicas (reação do solo, disponibilidade de nutrientes e interações entre estes) e biológicas (teor de matéria orgânica, respiração, carbono e nitrogênio da biomassa microbiana, taxa de colonização e tipo de microrganismos).
Independentemente do tipo do sistema de produção de manga, é importante observar os aspectos edafoambientais (insolação, altitude, precipitação e distribuição das chuvas). No Submédio do Vale do São Francisco, o cultivo da mangueira é realizado em áreas irrigadas e o período de frutificação é determinado pelo uso de indutores florais. As técnicas de manejo da cultura são altamente especializadas.
Em relação aos aspectos edáficos é importante levar em consideração a granulometria, estrutura, densidade, teor de matéria orgânica, drenagem, impedimentos à mecanização e profundidade do solo.
Para o desenvolvimento da mangueira, a profundidade do solo (horizontes A + B) é de grande importância. Esta é a profundidade efetiva que consiste na camada do solo que vai ser explorado pelo sistema radicular, traduzindo-se em volume de solo com água e/ou nutrientes que as raízes da mangueira terão disponíveis. Aliando à profundidade do solo, o sistema radicular das plantas deve ter condições de explorá-lo, significando que se houver algum impedimento químico ou físico, as raízes não conseguem explorar satisfatoriamente esse substrato. Alguns impedimentos podem ser eliminados por meio do manejo adequado do solo como promover a subsolagem, quando este estiver compactado; calagem no caso de solos ácidos; incorporação de leguminosas, quando o teor de matéria orgânica estiver muito baixo; a drenagem, quando apresentar restrições relativas à presença de sais, etc.
Com ênfase no manejo ecológico, algumas medidas de condução da área podem ser adotadas, tais como uso de rochas naturais moídas como calcário e o fosfato natural para melhorar a fertilidade. Plantio e incorporação de leguminosas (coquetéis vegetais) que aumentem o teor de matéria orgânica, melhorando a estrutura do solo e, também, contribuindo para o aumento de cargas dependentes de pH. Vale ressaltar que, como nos solos do Submédio do Vale do São Francisco são, na maioria, cauliniticos/oxídicos, o aumento de cargas provenientes da incorporação de matéria orgânica pode resultar em aumento nos pontos de carga para a retenção/troca de nutrientes com o sistema radicular da mangueira. A ausência de pontos de carga faz com que os nutrientes adicionados ao solo sejam lixiviados a grandes profundidades, principalmente em solos de textura arenosa, como alguns que ocorrem no Submédio do Vale o São Francisco.
A mangueira cresce bem em qualquer solo, desde que não sejam encharcados, alcalinos, rochosos, extremamente rasos ou demasiado pobre. Adapta-se melhor em solos profundos, moderadamente férteis e bem drenados. Prospera igualmente bem em solos leves e pesados se as outras condições forem favoráveis.
De modo geral, as exigências edáficas para o cultivo da mangueira são solos de fertilidade e textura média, profundos e permeáveis. Entretanto, no Submédio do Vale do São Francisco solos de textura arenosa até muito argilosa são bastante explorados com a cultura, tais como Neossolos Quartzarênicos, Argissolos, Latossolos e Vertissolos. Entre estes, os solos ligeiramente ácidos e com pH variando de 5,5 a 6,8 são os mais interessantes.
As áreas de solos arenosos cultivados com manga têm apresentado produtividade elevada e permitido um manejo eficiente da irrigação. Além disso, requerem menor custo de implantação do pomar, por não apresentarem problemas de drenagem. No entanto, por causa da textura arenosa, necessitam da adição de matéria orgânica para aumentar a capacidade de retenção de água e nutrientes, bem como melhorar a estabilidade estrutural do solo. Os solos com impedimentos físicos, tais como adensamentos genéticos, caso dos Argissolos, comuns na região do Submédio do Vale do São Francisco, devem ser trabalhados (escarificações, subsolagem, etc.) na época de implantação do pomar, pois influenciam na distribuição e absorção de água e dos nutrientes.
Em área cultivada com mangueira, estudos demonstraram que houve aumento nos teores de Ca (62% a 130%), Mg (50% a 250%), K (37% a 90%) e P (200% a 433%) e nos valores de pH (4% a 29%), CTC (13% a 25%) e V (31% a 102%), e redução nos teores de Al (40% a 83%) nas três camadas em relação aos do solo virgem, em decorrência das calagens e adubações realizadas. Em relação à matéria orgânica, também houve acréscimos nos seus teores nas três camadas do solo, na área sob a copa (9% a 35%) e nas duas primeiras camadas do solo da área entre as filas de plantas (11% a 21%). A Ds diminuiu apenas nas duas primeiras camadas do solo da área entre as mangueiras.
Constata-se que, nas áreas sob a copa, os incrementos foram maiores que na área entre as linhas de plantas. A melhoria observada nas características do solo nesta área sinaliza o aproveitamento de todo o material proveniente da poda para fazer uma cobertura morta entre as filas de plantas do pomar ou compostar.
Nas áreas com mangueiras cultivadas sobre Neossolos Quartzarênicos, verifica-se que praticamente todas as características químicas foram melhoradas com o cultivo, evidenciando a capacidade dos Neossolos serem melhorados quanto à sua fertilidade com o cultivo sustentável, como é o caso da agricultura orgânica.

Seleção da área e preparo do solo

Levando-se em consideração as práticas agronômicas e a necessidade de escoamento da produção, as áreas onde serão implantados os pomares devem ser selecionadas considerando-se o relevo e as vias de acesso. No Submédio do Vale do São Francisco, em solos de textura arenosa, como os Neossolos Quartzarênicos, faz-se a limpeza da área por meio do destocamento e roçagem da vegetação, 3 a 4 meses antes do plantio, sem o uso da aração e da gradagem. Normalmente, são abertos berços que são adubados com fertilização química ou orgânica, onde são plantadas as mudas.
Após a limpeza, deve-se realizar uma amostragem do solo para a avaliação da fertilidade, que pode ser coletada na profundidade de 0-20 cm e 20-40 cm, ou ainda em maiores profundidades, quando necessário. Em solos de textura argilosa ou muito argilosa executa-se, após o destocamento e roçagem, a gradagem a uma profundidade variável de 20 cm a 30 cm, dependendo do tipo de disco utilizado. Nos solos que apresentam adensamento genético como no caso dos Argissolos do Submédio do Vale do São Francisco, pode-se realizar subsolagem para romper a camada adensada.
As operações de aração, gradagem leve e/ou pesada, ou qualquer outra com o objetivo de preparar o solo, deverão ser definidas em função das condições da área a ser preparada.
Aração - Caso seja necessário, fazer uma aração a uma profundidade de 30-40 cm, objetivando, principalmente, a incorporação dos restos culturais, rompimento da camada de impedimento, eliminação de ervas daninhas, entre outras.
Gradagem - É recomendada uma gradagem leve, gradagem pesada ou subsolagem. Após a aração, no caso de haver sido aplicado calcário, deve ser feita uma gradagem cruzada com a operação anterior (aração, gradagem pesada ou subsolagem).

Cobertura do solo e adubação verde

Outra prática que vem sendo estudada para a região é a utilização de várias espécies vegetais consorciadas entre as mangueiras. Essa mistura é conhecida como coquetel vegetal (leguminosas, gramíneas e oleaginosas) e tem a finalidade de servir como adubo verde e cobertura morta. As espécies vegetais são semeadas em conjunto (misturadas) e quando atingem o estádio de pleno florescimento são cortadas para a produção de material orgânico para manejo de solo.
Na tentativa de fornecer informações sobre as espécies vegetais que podem ser utilizadas para a cobertura do solo e adubação verde nos Perímetros Irrigados, a Embrapa Semiárido vem conduzindo, desde 2004, estudos com coquetéis vegetais para o manejo de solo em sistema de cultivo orgânico de manga (Figura 1). Os coquetéis vegetais são constituídos pelas seguintes espécies em diferentes proporções: leguminosas - calopogônio (Calopogonium mucunoide), Crotalaria junceaCrotalaria spectabilis, feijão-de-porco (Canavalia ensiformes (L.) DC.), guandu (Cajanus cajan L.), lab-lab (Dolichos lablab L.), mucuna-preta (Mucuna aterrima Piper & Tracy), mucuna-cinza (Mucuna conchinchinensis (Lour.) A. Chev.); não-leguminosas: gergelim (Sesamum indicum L.), girassol (Helianthus annuus L.), mamona (Ricinus communis L.), milheto (Penissetum americanum L.) e sorgo (Sorghum vulgare Pers.). Neste estudo, concluiu-se que todas as espécies estudadas apresentaram desenvolvimento vegetativo e nutricional favorável às condições ambientais do Semiárido.
Fotos: Petrere V. G.


Figura 1. Leguminosas cultivadas na entrelinha.
A utilização de coquetéis vegetais associados ao não revolvimento do solo pode ser uma estratégia de manejo de solo viável para o Semiárido brasileiro. Para monitorar a evolução dos sistemas de manejo, procura-se estabelecer indicadores de qualidade do solo. A matéria orgânica do solo, considerada como um dos indicadores de sua qualidade e, consequentemente, dos sistemas de manejo empregados, tem sido muito utilizada nos estudos desenvolvidos com o objetivo de avaliar, direta ou indiretamente, as condições químicas, biológicas e físicas do sistema solo. A matéria orgânica do solo é sensível às diferentes práticas de manejo agrícola.
Comprovando a melhoria da qualidade do solo em sistemas que empregam coquetéis vegetais, observou-se que a utilização destes nas entrelinhas da mangueira aumenta teor de matéria orgânica, nitrogênio e fósforo, além de diminuir a densidade e a resistência à penetração das raízes. Essas alterações podem se deslocar em profundidade promovendo melhorias nas características físicas químicas e biológicas do solo.
A utilização de compostos orgânicos na adubação da cultura da mangueira também pode trazer benefícios nas características físicas, químicas e biológicas do solo. O composto orgânico é o produto final da decomposição aeróbia de resíduos vegetais e animais. Para a produção do composto, utiliza-se uma fonte de matéria-prima rica em carbono (resto de poda de mangueira, capins, bagaço de coco e outros) e uma outra fonte rica em nitrogênio como estercos de animais (caprinos, ovinos e bovinos) e restos de leguminosas.
O processo de compostagem permite a ciclagem desses resíduos e sua desinfecção contra insetos, fungos, bactérias, plantas espontâneas e compostos indesejáveis. A escolha da combinação das matérias-primas é importante para a maior eficiência da compostagem. A relação carbono/nitrogênio (C/N) inicial ótima é de 25-35:1 e pode ser atingida por meio do uso aproximado de 75% de restos vegetais variados e 25% de esterco. Esses resíduos, vegetais e animais, são dispostos em camadas alternadas formando uma leira ou monte de dimensões e formatos variados (Figura 2). O composto orgânico altera as propriedades físicas, químicas e biológicas do solo, fornecendo nutrientes e carbono mais estabilizado. O composto pode ser feito com diferentes matérias-primas, porém, após estabilizado, deve-se fazer uma análise química, utilizando-se como extratores água e ácido, e, assim, verificar as concentrações de nutrientes prontamente e potencialmente disponíveis.
Na formação dos berços para receber as mudas de mangueira podem ser adicionados até 5 L de composto. Após o plantio, distribui-se o composto na área correspondente à projeção da copa de acordo com a recomendação do programa de adubação.
Foto: Petrere V. G.
Figura 2. Elaboração da pilha de composto.



sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Clima para a Mangueira (Manga)


Exigências climáticas

A manga é reconhecida como o fruto fresco mais consumido em todo o mundo. As árvores com menos de 10 anos de idade podem florescer e frutificar regularmente a cada ano. O florescimento é fortemente afetado pelo clima. A umidade do ar estimula o desenvolvimento das flores, e as chuvas são desfavoráveis nesta fase. Portanto, um período seco durante o ano é essencial para o sucesso dos pomares em cultivo comercial. A melhor condição de umidade, para condições de sequeiro, se verifica em áreas com índices pluviométricos entre 750 mm e 2.500 mm durante um período relativamente curto de 4 meses, seguidos de 8 meses sem chuvas.
As regiões áridas e semiáridas são favoráveis ao cultivo da mangueira irrigada, principalmente por proporcionarem a exposição dos frutos a elevados níveis de radiação solar, deixando-os com coloração intensa e relativamente livres de doenças. Porém, embora esta radiação absorvida pela folhagem favoreça o crescimento vegetativo, as folhas situadas no interior do dossel recebem baixos níveis, reduzindo a disponibilidade de carboidratos, afetando o desenvolvimento dos frutos e a produção final. Dessa forma, a prática da poda torna-se um trato cultural de grande importância e pode ser realizada de acordo com a localização do pomar e a necessidade de penetração de luz no interior do dossel.
Tanto a temperatura do ar como a velocidade do vento são importantes no processo da evapotranspiração. O ar quente próximo à superfície rugosa da folhagem transfere energia, aumentando o fluxo do vapor d’água dos pomares para a atmosfera. Desta forma, o consumo hídrico da cultura depende, em grande parte, da turbulência do ar, que, por sua vez, é afetada pela rugosidade das árvores altas e da arquitetura das mesmas. Fortes ventos durante a frutificação causam a queda prematura de frutos.
A temperatura do ar também é importante na fotossíntese, atuando em enzimas responsáveis pelas reações bioquímicas. A faixa térmica considerada ideal para este processo varia de 24 ºC a 30 ºC. Valores acima de 48 ºC são prejudiciais à produtividade. Baixos valores são também desfavoráveis e, quando estão próximos de 0 ºC, podem ocorrer danos severos e até a morte de plantas. A produção de matéria seca é afetada por baixos valores de temperatura, pois resultam em redução das copas. Ar muito frio ou muito quente é desfavorável para a formação do grão de pólen, afetando a polinização e, consequentemente, a produção de frutos pequenos, sem valor comercial.
A umidade do ar é também importante, pois altos valores são favoráveis à ocorrência de doenças fúngicas, e quando são associados com temperaturas do ar também elevadas, a produção de mangas é afetada. Os valores baixos da umidade do ar favorecem o processo de transferência de água para a atmosfera quando a cultura está sob boas condições de umidade do solo.
Pomares de mangueiras em regiões semiáridas são cultivados sob baixos índices pluviométricos e alta demanda evapotranspiratória, tornando a irrigação necessária à produção comercial. Os cultivos irrigados consomem uma grande quantidade de água; uma consequência dos altos níveis de radiação solar. As plantas são resistentes a baixos níveis de umidade do solo, porque o sistema radicular atinge grandes profundidades. Entretanto, mesmo com a capacidade de sobreviver a 8 meses sem chuvas em condições de sequeiro, a existência de um longo período de estiagem sem ocorrência de ascensão capilar pode causar estresse hídrico, afetando a produtividade da mangueira.

Potencial agroclimático da região semiárida do Submédio do Vale do São Francisco para o cultivo da mangueira

Condições ideais de clima para a exploração comercial da mangueira sob irrigação são encontradas na região semiárida do Submédio do Vale do São Francisco, onde os pomares são extensivamente cultivados. Sistemas de irrigação localizada, como os sistemas por microaspersão e gotejamento fornecem a flexibilidade adequada para o atendimento aos requerimentos hídricos da cultura.
Na Figura 1, são apresentados o comportamento médio da radiação solar global (RG), temperatura do ar (Ta), umidade relativa do ar (UR), velocidade do vento (V) nos polos produtores de mangas de Petrolina, PE e Juazeiro, BA, da região semiárida do Submédio do Vale do São Francisco.
Os maiores valores de RG são registrados no mês de outubro, com valores em torno de 21 MJ m-2 dia-1, enquanto os menores ocorrem no mês de junho, em torno de 14,5 MJ m-2 dia-1; em Petrolina, PE. Em juazeiro, BA, os valores são ligeiramente mais elevados por causa da maior nebulosidade.


Figura 1. Variações médias mensais: radiação solar global (RG), temperatura do ar (Ta), umidade relativa do ar (UR) e velocidade do vento (V) nos polos produtores de mangas de Petrolina, PE e Juazeiro, BA, durante o período de 1965 a 2008.
Com relação à Ta, em Petrolina, PE, as normais mensais variam de 23,8 ºC a 27,8 ºC e, em Juazeiro, BA, de 24,3 ºC a 28,5 ºC. Constata-se uma pequena variabilidade ao longo do ano, decorrente da proximidade da região ao Equador terrestre, sendo julho o mês mais frio e novembro, o mês mais quente. Os meses mais úmidos correspondem àqueles do período chuvoso. Nesse período, em Petrolina, PE, a UR varia, em média, de 68% a 73%, e em Juazeiro, BA, de 64% a 67%. Menores valores são encontrados nos meses de setembro a novembro, com médias de 58% em Petrolina, PE e 56% em Juazeiro, BA, para este trimestre mais quente do ano. O mês mais úmido é o de abril, que corresponde ao fim do período chuvoso, e os mais secos são outubro e novembro, correspondendo ao final do período com pouca ou nenhuma chuva.
Os valores mais elevados da velocidade do vento (V) ocorrem no período seco, entre os meses de agosto e outubro, em torno de 3 m s-1 em Petrolina, PE e 3,2 m s-1 em Juazeiro, BA. Os menores valores são observados no período chuvoso (janeiro a abril), apresentando médias de 1,7 m s-1 e 1,9 m s-1, em Petrolina, PE, e Juazeiro, BA, respectivamente.

Utilização de parâmetros agrometeorológicos para quantificar o consumo hídrico em pomares de mangueira

Para o manejo racional da irrigação, a utilização de parâmetros agrometeorológicos na determinação dos requerimentos hídricos apresenta-se como uma ferramenta crucial para os produtores de manga.
O processo físico no qual a água é transferida do pomar de mangueira para a atmosfera se refere à evapotranspiração atual da cultura (ET). Este fluxo ocorre através dos estômatos como transpiração (T) e diretamente da superfície do solo como evaporação (E). A maior parte da água extraída do solo pelas raízes é transferida por T. Os estádios fenológicos, as condições ambientais, o manejo cultural e os sistemas de irrigação devem ser considerados quando se acessa as proporções de T e E.
Considerando-se a aplicação de métodos agrometeorológicos na cultura da mangueira irrigada, devem ser feitas distinções entre a evapotranspiração de referência (ETo), a evapotranspiração potencial (ETP) e a ET. A ETo é a taxa evapotranspiratória de uma superfície de referência, geralmente a de um gramado, com características específicas, sem deficiência hídrica. A ETP pode ser definida como o fluxo de água dos pomares cultivados em áreas grandes com ótimas condições de umidade do solo, excelente manejo e condições ambientais, atingindo ótimas produções de manga para uma dada condição climática. Já a ET envolve todas as situações do pomar. Por causa das condições reais de manejo em que normalmente se encontram os cultivos, considerando-se todas as fases fenológicas, a ET é geralmente inferior à ETP.
Os elementos representativos do balanço hídrico nos polos produtores de manga Petrolina, PE, e Juazeiro, BA, na região do Submédio do Vale do São Francisco são apresentados na Figura 2. Estes parâmetros são muito importantes para a estimativa do requerimento hídrico no manejo e dimensionamento dos sistemas de irrigação.

Figura 2. Médias dos totais mensais de precipitação (P) e das médias diárias de evapotranspiração de referência calculada pelo método de Penman-Monteith (ET0) nos polos produtores de mangas de Petrolina, PE e Juazeiro, BA, durante o período de 1965 a 2008.


A precipitação pluvial é o parâmetro meteorológico de maior variabilidade espacial e temporal na região semiárida do Brasil. Nos últimos 40 anos, em Petrolina, PE, o total anual médio é da ordem de 550 mm, enquanto em Juazeiro, BA, é de 540 mm. O período chuvoso concentra-se entre os meses de novembro e abril, com 90% do total anual. A quadra chuvosa, de janeiro a abril, contribui com 68% deste total, destacando-se o mês de março e o de agosto como o mais e o menos chuvoso, com totais médios na ordem de 128 mm e 4 mm, em Petrolina, PE, e de 133 mm e 2 mm em Juazeiro, BA, respectivamente.
A ET0 apresenta totais anuais médios de 1.660 mm e 1.640 mm em Petrolina, PE, e Juazeiro, BA, respectivamente, sendo a variação ao longo do ano similar à da radiação solar global. Os meses de maior demanda atmosférica coincidem com aqueles mais secos em ambos os polos produtores de mangas. Pela magnitude dos parâmetros hídricos apresentados na Figura 2, percebe-se a necessidade da irrigação para suprir a deficiência hídrica nos períodos secos do ano. Para o manejo racional da irrigação, há a necessidade de se estimar a ET ao longo dos estádios fenológicos dos mangueirais, tanto pelos problemas das deficiências hídricas como dos excessos de aplicação de água.
A capacidade de se estimar a ET por meios agrometeorológicos é de extrema importância para o manejo de água na cultura da mangueira, bem como dos recursos hídricos em geral, quando se considera uma bacia hidrográfica com demanda de grande quantidade de pomares irrigados, pois esta estimativa descreve o consumo desses pomares que substituem a vegetação natural da bacia. O conhecimento do consumo hídrico é uma informação essencial para o planejamento da irrigação, para o regulamento dos direitos hídricos, alocação de água e estudos hidrológicos.
Parâmetros agrometeorológicos, características dos pomares, manejo e aspectos ambientais são fatores que afetam a ET, além da cobertura do solo, da densidade dos plantios, da arquitetura das árvores, do microclima e da umidade do solo. As práticas culturais e o tipo de irrigação podem alterar o microclima, afetando as proporções de T e E. De um lado, o efeito da umidade do solo se manifesta principalmente pelo deficit hídrico e tipo de solo. Por outro lado, muita água resulta em solo encharcado que pode danificar as raízes e limitar o fluxo hídrico pela inibição da respiração.
Pelo fato de a mangueira possuir raízes profundas, as medições de ET por lisímetros de pesagem ou pelo balanço hídrico no solo são difíceis de serem realizadas. Com a utilização destes métodos, há consideráveis incertezas relacionadas com as medições da profundidade de solo envolvida na retirada da água pelas raízes, na percolação, no escoamento superficial e na ascensão capilar.
As medições separadas de T e E compondo a ET da mangueira, podem ser realizadas por diferentes métodos, todos eles apresentando vantagens e desvantagens. Os métodos agrometeorológicos para as medições de ET baseados no balanço de energia não têm estas limitações e associados a dados de evapotranspiração de referência, geram os valores de coeficiente de cultivo (Kc).
O Kc médio da mangueira foi de 0,91. Considerando-se a Figura 2 e um ciclo de 1 ano, e os valores médios anuais de ETo, tem-se um consumo hídrico anual médio de 1.500 mm em Petrolina, PE, e 1.490 mm em Juazeiro, BA (Kc x ET0). Os valores médios de Kc foram relacionados com os graus-dia (temperatura basal: Tb = 10 ºC) para o mesmo período (Figura 3), incorporando-se, assim, os efeitos da temperatura do ar nos diferentes estágios do ciclo produtivo dos pomares de mangueira. Esta relação torna-se importante na estimativa do consumo hídrico, visto que os efeitos do aquecimento térmico decorrentes das mudanças climáticas estão alterando o comportamento das fases fenológicas da cultura na região. Alguns estudos sobre os impactos das mudanças climáticas no Semiárido, segundo os cenários do Relatório do Painel Intergovernamental em Mudanças Climáticas (IPCC) indicam que a temperatura pode aumentar de 2 ºC a 5 ºC no Nordeste até o final do século 21. Reduções de 10-15% nas precipitações também estão previstas para as próximas décadas.

Figura 3. Variação estacional das médias diárias do coeficiente de cultura (Kc) da mangueira (Mangifera indica L), cv. Tommy Atkins, como uma função dos graus-dia (GD) em Petrolina, PE, Brasil.
Considerando-se os polos produtores de manga Petrolina, PE, e Juazeiro, BA, o primeiro apresenta, em média, maior consumo hídrico pelos pomares como consequência de maiores taxas de evapotranspiração decorrentes da radiação solar mais elevada ao longo do ano, o que deve ser levado em consideração nas possíveis condições de restrição de água no futuro em que se almeja uma eficiência do uso da água.

Um dos maiores problemas das regiões semi-áridas é a irregularidade das chuvas, aliada à ocorrência de temperaturas elevadas, ocasionando grandes taxas de deficiência hídrica. O clima da região que compreende o pólo Petrolina-PE/Juazeiro-BA é do tipo BSwh’, segundo a classificação de Köeppen. Abaixo são apresentados os parâmetros climáticos considerados importantes para o cultivo comercial da cultura da mangueira.

Radiação solar

A radiação solar absorvida pela cultura da mangueira, interfere no seu ciclo vegetativo e no período de desenvolvimento do fruto, sendo de grande importância para o crescimento, floração e frutificação, daí a importância do manejo cultural, principalmente, em plantios muito adensados. Em decorrência do hábito de crescimento vigoroso da árvore, existe, geralmente, uma porcentagem relativamente alta de folhas sombreadas, em comparação com folhas ensolaradas. Dessa forma, grande parte das folhas localizadas no interior da copa recebe baixos níveis de luz, diminuindo a disponibilidade de carboidratos provocando, consequentemente, reduções no crescimento e produção. Uma maior penetração da luz na copa, como resultado da realização da poda, pode provocar um aumento significativo na produção e melhoria na coloração dos frutos. Uma maior intensidade de radiação solar incidente promove maiores teores de açúcar e de ácido ascórbico nos frutos. O aumento da quantidade desse ácido tem sido observado em frutos de várias espécies vegetais, expostos diretamente à luz do Sol, durante os estágios de desenvolvimento, e em plantas que crescem sob altas intensidades de radiação solar.

Temperatura do ar

A temperatura do ar atua no processo de evapotranspiração, devido ao fato de que a radiação solar absorvida pela atmosfera e o calor emitido pela superfície cultivada, elevam a temperatura do ar. O ar aquecido próximo às plantas, transfere energia para a cultura na forma de fluxo de calor sensível, aumentando as taxas evapotranspiratórias. Além disso, a temperatura interfere na atividade fotossintética das plantas, por que este fenômeno envolve reações bioquímicas, cujos catalisadores, as enzimas, são dependentes da temperatura para expressar sua atividade máxima. A faixa de temperatura considerada ideal para o cultivo da mangueira situa-se entre 24ºC a 30ºC, sendo que valores acima de 48ºC limitam a produção. Valores baixos também são limitantes e quando próximos a 0ºC por poucas horas, provocam danos severos ou morte das plantas. A distribuição de matéria seca na mangueira é também influenciada pela temperatura. A partição de matéria seca para as raízes é maior sob condições de baixa temperatura, resultando na redução do crescimento da parte aérea. Com o aumento da temperatura, a parte aérea é mais favorecida, culminando em maior crescimento dos ramos e das folhas. A temperatura  influencia de forma significativa a seqüência do desenvolvimento das gemas da mangueira. Na região do Vale do Rio São Francisco, tem sido observado que temperaturas dia/noite de 30oC/25oC, estimulam o crescimento vegetativo, enquanto a combinação 28oC/18oC, que ocorre com mais freqüência entre os meses de maio a agosto promove intensa floração. A frutificação e o pegamento dos frutos também são afetados pela temperatura. Temperaturas  muito baixas ou elevadas prejudicam a formação do grão de pólen, reduzindo sua viabilidade, alem de provocar,  altas taxas de partenocarpia (frutos que se desenvolvem sem o embrião), originando frutos pequenos e sem valor comercial.
De maneira geral, não havendo excesso de precipitação pluvial, quanto mais elevada for a temperatura da região, dentro dos limites críticos de cultivo, maior será a concentração de açúcar e menor a acidez  nos frutos, favorecendo a qualidade. 

Umidade do ar

A umidade do ar durante o ciclo da cultura da mangueira é muito importante, por favorecer o surgimento de doenças fúngicas. Quando altos valores de umidade relativa estão associados a temperaturas elevadas, ocorre uma maior incidência dessas doenças, provocando danos econômicos, podendo, inclusive, inviabilizar a produção comercial de frutos. A concentração de vapor d’água da atmosfera também condiciona a perda de água pelas plantas e consequentemente, o processo de evapotranspiração. A diferença entre a pressão do vapor d’água, entre a cultura e o ar vizinho, é um fator determinante para esse processo. Assim, cultivos bem irrigados em regiões semi-áridas, como no caso do Submédio São Francisco, consomem grandes quantidades de água, em virtude da abundância de energia solar e do poder dissecante da atmosfera. Em regiões úmidas, a elevada umidade do ar reduz a demanda evapotranspiratória. Em tais circunstâncias, o ar encontra-se próximo ao ponto de saturação, causando, portanto, um menor consumo hídrico da cultura do que nas regiões áridas. 

Velocidade do vento

Existem poucos estudos com relação ao efeito do vento sobre o comportamento da mangueira no Vale do Rio São Francisco, existindo divergências quanto ao efeito sobre o crescimento das plantas, produção e da importância da utilização de quebra ventos. A velocidade do vento é outro parâmetro importante no processo de evapotranspiração. A remoção do vapor d’água depende, em grande parte, do vento e da turbulência do ar. Nesse processo, o ar acima da cultura vai se tornando gradativamente saturado com vapor d’água e se não há reposição de ar seco, a evapotranspiração da cultura decresce.

Precipitação pluviométrica

Em termos de exigências hídricas, a mangueira é muito resistente à seca, graças ao seu sistema radicular que é capaz de atingir grandes profundidades, sobrevivendo até 8 meses sem chuvas, nas regiões onde não é irrigada. As regiões de cultivo incluem áreas onde a ocorrência de baixas precipitações e alta demanda evapotranspiratória, impõem o fornecimento de água através da irrigação. Nessas condições, mesmo irrigada, a mangueira sofre um certo grau de estresse hídrico. O excesso de chuvas, por outro lado, combinado com temperaturas elevadas, torna a cultura muito suscetível a doenças fúngicas e pragas, sendo conveniente que não ocorram precipitações durante todo o período vegetativo. A cultura porém apresenta tolerância à iinundação. Um período seco precedendo o florescimento favorece a produção, porém, a cultura requer umidade edáfica  do início da frutificação à maturação, o que também influencia na promoção de novo crescimento vegetativo. Portanto, em regiões com baixas taxas de precipitações pluviométricas é recomendável a irrigação com base nos requerimentos de água da cultura. 

Potencial climático da região do submédio São Francisco

Nas Figuras 1 a 5 é apresentado o comportamento climático do pólo produtor de manga Petrolina-Juazeiro.  Os maiores valores de radiação solar global são registrados no mês de outubro, com  528 cal/cm2/dia e 495 cal/cm2/dia para Petrolina e Juazeiro, respectivamente. Os menores valores são registrados no mês de junho, com 363 cal/cm2/dia e 351 cal/cm2/dia em Petrolina e Juazeiro, respectivamente (Fig. 1). 
Com relação à temperatura do ar, em Petrolina, as normais mensais apresentam variações médias de 24,2ºC a 28,2ºC e em Juazeiro de 24,5ºC a 28,6ºC. Constata-se uma pequena variabilidade interanual, devida à proximidade da região em relação ao equador terrestre,  sendo julho o mês mais frio e  novembro o mês mais quente do ano (Fig. 2).Os meses mais úmidos correspondem àqueles do período chuvoso. Nesse período, em Petrolina a umidade relativa do ar varia em média de 66% a 71,5% e em Juazeiro de 61% a 65%.  Menores valores acontecem nos meses de setembro e outubro, abaixo de 55% em Petrolina e de 51,5% em Juazeiro, coincidindo com os meses mais quentes do ano. Nestes locais o mês mais úmido é o de abril que corresponde ao fim do período chuvoso e, o mais seco é o de outubro, correspondendo ao final do período seco (Fig. 3).A Figura 4 mostra o comportamento médio anual da velocidade do vento a 2,0 m de altura em relação à superfície do solo. Os valores mais elevados ocorrem no período seco, entre os meses de agosto a outubro, chegando a 256 km/dia em Petrolina e 300 km/dia em Juazeiro, no mês de setembro. Os menores valores ocorrem no período chuvoso apresentando valores médios de 139 km/dia e 164,3 km/dia respectivamente em Petrolina e Juazeiro. 
A precipitação pluvial, apresentada na Figura 5, é o elemento meteorológico de maior variabilidade espacial e temporal. Nos últimos 30 anos, em Petrolina, o total anual médio é da ordem de 567 mm, enquanto que em Juazeiro é de 542 mm . O período chuvoso concentra-se entre os meses de novembro e abril, com 90% do total anual. A quadra chuvosa, de janeiro a abril, contribui com 68% do total anual, destacando-se o mês de março e o de agosto como o mais e o menos  chuvoso,  com totais médios de 136,2 mm e 4,8 mm, respectivamente, em Petrolina e de 139,6 mm e 1,7 mm   em Juazeiro.

 
Fig. 1. Radiação solar global em Bebedouro - Petrolina-PE(Rbeb) e Mandacaru - Juazeiro-BA (Rmand).

Fig. 2. Temperatura média do ar em Bebedouro - Petrolina-PE (Rbeb) e Mandacaru - Juazeiro-BA (Rmand).


Fig. 3. Umidade relativa média do ar em Bebedouro - Petrolina-PE (Rbeb) (URbeb) e Mandacaru - Juazeiro-BA (URmand).



Fig. 4. Velocidade média do vento  (2m) em Bebedouro - Petrolina-PE (Vbeb) e Mandacaru - Juazeiro-BA (Vmand)


 
Fig. 5. Precipitação pluviométrica em Bebedouro (Pbeb) e Mandacaru (Pmand).