A goiabeira é uma planta pouco exigente em fertilidade do solo, podendo desenvolver-se em solos com pH de 4,5 a 8,0, com faixa ótima de desenvolvimento entre 5,0 e 6,5.
No entanto, para a obtenção e a manutenção de boas produtividades em pomares comerciais, é necessário manter níveis adequados de fertilidade.
Prado e Natale (2004), avaliando os efeitos da calagem sobre o desenvolvimento e a produção da goiabeira, observaram que houve correção da acidez do solo, elevação do pH, do cálcio (Ca) e do magnésio (Mg), aumentando a saturação por bases (V), com incremento da absorção de cálcio e também maior desenvolvimento do sistema radicular.
Concentrações de cálcio no solo de aproximadamente 3,0 cmolc/dm3 e teores desse nutriente de 7,5 g/kg nas raízes promoveram maior crescimento radicular da planta. Os teores foliares de Ca e Mg aumentaram com as doses de calcário. As maiores produções acumuladas de frutos estavam associadas a um valor de V de 50% na linha e de 65% na entrelinha do pomar (NATALE et al., 2007).
À medida que a produção da goiabeira aumenta, aumenta sua necessidade de nutrição, considerando-se que os frutos são grandes consumidores e exportadores de nutrientes. Além disso, a poda extrai
grande quantidade de nutrientes. Os elementos extraídos em maior quantidade pelos frutos na colheita são potássio (K), nitrogênio (N) e fósforo (P), seguidos de enxofre (S), magnésio (Mg) e cálcio (Ca).
Entre os micronutrientes, a sequência é ferro (Fe), manganês (Mn), zinco (Zn), cobre (Cu) e boro (B). Na poda de frutificação, os elementos extraídos em maior quantidade são K, N, Ca, Mg, S e P, seguidos dos micronutrientes Mn, Fe, B, Zn e Cu (MAIA et al., 2007).
O cálculo da necessidade de calagem pode ser feito por uma das seguintes fórmulas:
NC (t/ha) = [3 - (Ca2+ + Mg2+)] + 2 x Al3+ x f, em que:
NC = necessidade de calagem, em t/ha.
Ca2+, Mg2+ e Al3+ = teores de Ca, Mg e Al determinados pela análise de solo em cmolc /dm3.
f = 100/PRNT, fator corretivo do calcário.
NC (t/ha) = (V2 - V1)/100 x T em que:
NC = necessidade de calagem, em t/ha.
V2 = saturação de bases a ser atingida.
V1 = saturação de bases atual.
T = CTC do solo.
Recomenda-se aplicar de 20 L a 30 L por planta de esterco de curral bem curtido no plantio e antes das podas de frutificação, conforme a disponibilidade. A adubação com micronutrientes depende dos resultados da análise foliar ou do aparecimento de sintomas de deficiência.
A quantidade de N, P e K requerida e recomendada nas fases de implantação e produção está na Tabela 1.
Na fase de crescimento, as doses de nitrogênio devem ser parceladas em cinco aplicações ao ano em solos argilosos, e em dez aplicações ao ano em solos arenosos, iniciando-se 30 dias depois do plantio. Na fase de produção, 30% do nitrogênio deve ser aplicado depois da poda de frutificação, e os 70% restantes, aplicados de forma decrescente, até 150 dias depois da poda.
A adubação potássica deve ser parcelada em 30% depois da poda, 15% depois do pegamento dos frutos, 25% na fase intermediária de crescimento do fruto e 30% na fase final de crescimento do fruto (antes da maturação).
As doses de fertilizantes fosfatados devem ser aplicadas de uma única vez no plantio e antes de cada poda de frutificação, de acordo com os resultados da análise de solo.
Viveiro é uma área de terreno convenientemente demarcada, onde as mudas frutíferas são obtidas e conduzidas até o momento do transplante. Para algumas espécies, entre elas as plantas cítricas, em função de doenças e pragas, todo o processo de obtenção de mudas é realizado em telados a prova de insetos.
Por muda, entende-se toda a planta jovem, com sistema radicular e parte aérea, com ou sem folhas, obtida por qualquer método de propagação, utilizada para a implantação de novos pomares. No caso de mudas obtidas por enxertia, as mudas são formadas pela combinação de duas ou mais cultivares diferentes.
Muda de pé-franco, é a denominação utilizada para designar aquelas mudas obtidas, normalmente por estaquias, as quais são tem o sistema radicular e a parte aérea formadas por uma única cultivar. Em alguns estados, como em São Paulo, a denominação de pé-franco é utilizada para aquelas mudas oriundas de sementes.
2.2 Escolha do local
Para o estabelecimento do viveiro, interferem fatores econômicos, ambientais, técnicos e as preferências pessoais do viveirista. Recomenda-se não instalar viveiros no mesmo terreno por mais de 2 anos. Deve-se proceder rotação com culturas anuais ou adubação verde. Assim procedendo, obtém-se maior desenvolvimento das mudas.
A área do viveiro a ser escolhida deve considerar:
- Exposição preferencialmente ao Norte;
- Isolada do pomar, observando a legislação para a cada espécie;
- Afastada de estradas públicas;
- Isenta de ervas daninhas de difícil controle;
- Evitar áreas sujeitas a geadas, principalmente no caso dos citros;
- Em terrenos de mata, proceder a destoca total, no mínimo 2 anos antes da instalação do viveiro;
- Disponibilidade de água para o uso com irrigação e com tratamentos fitossanitários;
- Não usar áreas encharcadas ou áreas sujeitas à inundação;
- Preferir solos profundos e medianamente arenosos;
- Evitar áreas sujeitas a ventos constantes que podem quebrar as mudas na região da enxertia;
- Escolher solos ricos em matéria orgânica;
- Terrenos isentos da infestação de nematóides;
- Não repetir o cultivo da mesma espécie pelo menos, por três anos, na mesma área;
- Preferir topografia plana ou levemente ondulada, executando-se, neste caso, práticas para a conservação do solo.
2.2.1 Condições edáficas e biológicas
Deve-se dar preferência a solos areno-argilosos, profundos, levemente ondulados ou planos, porém na maioria dos casos não se tem essa situação, devendo-se, então, utilizar os solos com as melhores condições possíveis. Os solos argilosos são geralmente de difícil mecanização e dificultam o desenvolvimento do sistema radicular das mudas, predispondo às podridões de raízes e ao excesso de manganês.
Deve-se realizar uma rigorosa escolha nas características físicas do solo, já que as químicas podem ser substancialmente modificadas.
O viveiro deve estar livre de fitonematóides nocivos, tiririca (Cyperus spp.), capim bermuda (Cynodon dactylon), pérola da terra (Eurhizococus brasiliensis) e do ataque de qualquer praga ou doença que se hospede na muda e que seja motivo de infestação em outras mudas. Uma análise microbiológica do solo ajuda na avaliação da população de fitonematóides e de outras doenças importantes para a espécie a ser explorada.
Recomenda-se o cultivo de gramíneas, tais como o milho, aveia, azevém, entre outras, antes de serem instalados os viveiros, principalmente quando no solo houver material lenhoso em decomposição. Esta prática diminui o ataque de fitonematóides e deve ser repetida por um período de dois anos. A produção das culturas deve ser incorporada na forma de adubo verde.
No caso de viveiros e pomares de macieiras, o ataque de podridões do sistema radicular causa prejuízos significativos. Dentre elas, destaca-se aquela provocada por fungos do gênero Phytophthora, que a partir de trabalhos desenvolvidos, pode ser controlada por
fungos do gênero Trichoderma sp.. Estes fungos fazem o controle biológico das podridões de raiz e já possuem distribuição comercial para o produtor. Eles são utilizados por ocasião do
plantio e produzem substâncias antibiológicas e enzimas que inibem o desenvolvimento do patógeno. Agem também como parasita de outros fungos, desta forma alcançam uma taxa de reprodução e crescimento mais elevada do que a do patógeno, passando a predominar no ambiente.
As plantas frutíferas liberam fitotoxinas que podem se acumular no solo, prejudicando o desenvolvimento das mudas. A nogueira libera uma fitotoxina chamada jiglone; a macieira libera floridzina; e o pessegueiro e a ameixeira prunazina e amigdalina. Estas substâncias desenvolvem efeitos alelopáticos sobre as mudas em desenvolvimento. Também devem ser evitados solos infectados com Agrobacterium tumefasciens.
O viveiro deverá ser instalado em área onde não houve pomar há pelo menos 5 anos e viveiros nos últimos 3 anos; estar distanciado pelo menos a 50 metros de qualquer pomar e, no mínimo, 5.000 metros para o caso do morangueiro.
A água deverá estar disponível em quantidade para a irrigação, quando necessária, e mesmo para realização de tratamentos fitossanitários.
2.2.2 Condições de clima
Os ventos podem prejudicar o desenvolvimento e quebrar as mudas na região da enxertia. Para tanto deve-se utilizar quebra-ventos para proteger as plantas dos ventos dominantes.
A temperatura limita o crescimento das mudas. Uma muda cítrica que, nas condições de São Paulo, pode ser produzida em menos de 24 meses, nas condições do Rio Grande do Sul, pode demorar até 36 meses.
2.2.3 Preparo e correção do solo do viveiro
Fazer uma aração profunda, atingindo 20-30cm de profundidade. Os corretivos devem ser baseados na análise do solo, sendo que a calagem e a aplicação de potássio e fósforo devem ser antes da instalação do viveiro. Caso houver necessidade, é possível aplicar-se quantidades de matéria orgânica com o objetivo de aumentar a disponibilidade de nitrogênio e, ao mesmo tempo, melhorar as propriedades físicas do solo.
As linhas de plantio das mudas devem ser distanciadas de 1,2 a 1,5m entre si, ou então pode-se utilizar filas duplas distanciadas de 0,6m entre si e 1,2 a 1,5m entre filas duplas. A distância entre filas pode ser modificada em função do implemento a ser utilizado. Dentro das filas as mudas ficam distanciadas em torno de 15cm.
2.3 Mercado
A muda deve ser produzida, de preferência, próximo ao local de consumo e deve considerar a existência de mão-de-obra qualificada, bem como de estradas que facilitem o acesso.
2.4 Infra-estrutura
2.4.1 Benfeitorias
Deve-se dispor de galpões para embalagem e controle do material propagado, guarda de equipamentos, defensivos e fertilizantes. Em alguns casos, também é necessário que se tenha estufas, telados, ripados, entre outros.
2.4.2 Equipamentos Deve-se ter todos os equipamentos que possibilitem o preparo da área, tratos culturais, tratamentos fitossanitários, irrigações e embalagem das mudas.
2.5 Formação da muda
As mudas podem ser formadas a partir de sementes ou a partir de partes vegetativas, como a enxertia, a estaquia, a mergulhia, a micropropagação, entre outras.
2.5.1 Obtenção das sementes e preparo da sementeira
Na fruticultura, a utilização de sementes basicamente está restrito à obtenção de porta enxertos
e ao melhoramento genético, pois, comercialmente, poucas espécies frutíferas têm suas mudas obtidas por este método.
O uso de sementes e a época de semeadura decorrem da época da maturação das frutas e do poder germinativo das mesmas. Normalmente, as sementes devem ser semeadas logo após a colheita das frutas, principalmente no caso dos citros e da nogueira-pecan. Entretanto, existem espécies que necessitam um período de repouso para germinarem (estratificação), superando-se a dormência e favorecendo a maturação fisiológica, como acontece em sementes de pessegueiro.
As sementes devem ser provenientes de plantas sadias, adultas, possuírem um bom vigor e características varietais definidas.
A semente deve ser separada da polpa logo após o coleta das frutas para evitar a sua fermentação. Na polpa das frutas existem inibidores que impedem a germinação das sementes.
Por esta razão, nunca se deve fazer a semeadura de frutas inteiras. Nas plantas cítricas, colhem-se as frutas maduras (inverno); corta-se a fruta ao meio com faca de madeira, para evitar lesões nas sementes e, em seguida, espreme-se em peneiras; lava-se com água corrente ou água de cal e seca-se à sombra, em local ventilado. Já com o pessegueiro, os caroços devem ser de cultivares de maturação tardia (Capdeboscq e Aldrighi), não podem ser cozidos e a polpa deve ser removida para evitar-se a fermentação. Para tanto, eles devem ser mantidos em locais sombreados e úmidos, com baixa temperatura <10 b="" nbsp="" o="">que faz com que a maturação fisiológica seja completa.10>
Armazenamento e estratificação
O êxito da germinação nas sementeiras depende da qualidade da semente e do meio que a mesma é conservada desde a coleta até a semeadura.
As sementes que tem embrião grande perdem a vitalidade e dessecam durante o armazenamento. Este tipo de semente deve ser conservada com suficiente umidade e temperatura em torno de 2 a 7°C, pode-se misturar uma substância inerte, ligeiramente úmida, como, por exemplo, a areia.
A estratificação é o tratamento que se submetem as sementes, durante o armazenamento, sem que se perca o poder germinativo. É feita com o objetivo de acelerar a maturação das mesmas, favorecendo a germinação daquelas que têm o tegumento espesso e relativamente impermeável. Os caroços de pêssego estratificados devem permanecer em locais frescos, enterrados ou em câmaras frias, a temperaturas que variam de 0 a 10°C, e o período de estratificação varia entre 30 e 100 dias.
Sementeira
O preparo da sementeira começa pela aração do solo, retirada de pedras, restos de vegetais e o preparo do solo através do uso de enxadas rotativas, normalmente acopladas a microtratores.
A largura do canteiro normalmente é, em torno, de 1,20m e 10m de comprimento e ficam distanciados de aproximadamente 25cm uns dos outros. A semeadura pode ser feita a lanço ou em linha, observando-se que a semente deve ficar a uma profundidade de, aproximadamente, 3 vezes o seu diâmetro.
Época de semeadura
A semeadura pode ser feita diretamente no solo ou em embalagens apropriadas. Nas espécies que não necessitam estratificação, a semeadura é feita logo após a coleta, como acontece com as plantas cítricas e a nogueira-pecan. No caso do pessegueiro, a semeadura é feita após 2 a 3 meses de estratificação, sendo que 1 kg de caroços tem aproximadamente 400 sementes, quando bem conduzidas, podem chegar até 70-80% de germinação. Nas condições do agricultor, a germinação está em torno de 20%. Atualmente, os produtores de mudas de pessegueiro estão realizando a semeadura dos caroços diretamente no viveiro, tal fato, embora tenha algumas desvantagens, como uma maior área para controle de ervas daninhas, para irrigação, além de necessitar de um maior número de caroços, facilita o desenvolvimento da muda, pois ela não sofre o estresse causado pela repicagem. Outra vantagem obtida pela eliminação da repicagem é a menor exigência de mão-de-obra, visto que esta operação é bastante demorada e coincide com o arranquio e embalagem das mudas do ano anterior.
Em plantas cítricas, em função de restrições por doenças transmitidas por insetos, todo o sistema de produção de mudas é feito em telado, desde a semeadura até a muda pronta.
Viveiro
Quando as mudas tiverem tamanho adequado, o que é variável com a espécie, elas devem ser repicadas para o viveiro, por exemplo, para mudas de pessegueiro, os cotilédones são mantidos junto com a mudinha por ocasião do transplante, com 5 a 10cm de altura, pois os mesmos são fonte de reservas alimentares, muito importantes nesta fase inicial de desenvolvimento.
No viveiro, as mudinhas são plantadas a uma distância de 0,15 x 1,20m; 0,15 x 0,30 x 1,20m. Durante a repicagem, a irrigação é indispensável para favorecer o pegamento.
Quando as mudas são destinadas à obtenção de porta-enxertos, devem ser conduzidas em haste única. As mudas também podem ser produzidas em sacos plásticos, torrão ou vasos.
Neste caso, todas as operações podem ser realizadas com a muda dentro da embalagem, permitindo, assim, um ganho maior de tempo na obtenção da muda.
2.5.2 Partes vegetativas
Em muitos casos, o porta-enxerto é obtido a partir de partes vegetativas, como é o caso da macieira em que o porta-enxerto é obtido por mergulhia de cepa; em outras situações as mudas são obtidas diretamente de estacas, como é o caso das videiras americanas, figueira, marmeleiro, entre outras.
Estaquia
A estaquia é um processo muito simples, que pode ser utilizado para a produção de porta-enxertos ou diretamente da muda, dispensando a utilização da enxertia. Entretanto, a utilização da estaquia é limitada à capacidade de formar raízes das espécies e/ou cultivares utilizadas.
O tamanho e o tipo de estaca a ser utilizada (Figuras 2 e 3) fica na dependência da maior ou menor facilidade de enraizamento.
Geralmente a estaquia é realizada no período de inverno, pois a sua utilização no verão requer instalações com sistemas de nebulização intermitente (Figura 4), como casas de vegetação, sombrites e telados. O espaçamento das estacas no viveiro é semelhante ao das mudas, ou seja, 0,15 x 1,20m.
No período de inverno são utilizadas estacas lenhosas de aproximadamente 30cm de comprimento.
O uso de auxinas na base da estaca contribui para aumentar o enraizamento. Por exemplo, a aplicação de uma solução de ácido indolbutírico (AIB) na concentração de 2g L-1, por cinco segundo aumenta de forma significativa o percentual de estacas enraizadas.
Diferentes tipos de estacas lenhosas. Foto: José Carlos Fachinello.
Estacas com folha, comprimento de 12 cm, utilizada durante o período vegetativo
da planta. Foto: José Carlos Fachinello
Estufas com nebulização intermitente utilizadas para o enraizamento de estacas
com folhas. Foto: José Carlos Fachinello
Mergulhia
No processo de mergulhia (Figuras 5 a 9), a muda a ser formada só é separada da planta-mãe após ter formado um sistema radicular próprio. Existem diversas formas de propagar plantas por mergulhia, porém as mais utilizadas são a mergulhia contínua e a mergulhia de cepa, muito utilizada na cultura da macieira e pereira para obtenção de portaenxertos clonais.
Mergulhia simples normal
Mergulhia contínua chinesa
Mergulhia chinesa serpenteada
Mergulhia de cepa
Mergulhia aérea ou alporquia.
Órgãos especializados
Em fruticultura, a obtenção de mudas através de estruturas especializadas está restrito a alguns casos, como o morangueiro, cujas mudas são obtidas por estolões, a bananeira por rizomas e o abacaxizeiro por rebentos.
Estolões utilizados na propagação do morangueiro
Rebentos utilizados na propagação da amoreira-preta
Enxertia
A enxertia é o principal método de obtenção de mudas para formação de pomares comerciais, e pode ser utilizado para a maioria das plantas frutíferas.
A enxertia é realizada quando os porta-enxertos, obtidos através de sementes ou partes vegetativas, atingirem o diâmetro de um lápis ou mais e é realizada a uma altura de 5 a 25cm do solo.
As espécies de folhas caducas geralmente são enxertadas em duas épocas, inverno e primavera/verão. Já a maioria das espécies de folhas persistentes são enxertadas na primavera/verão.
Obtenção de borbulhas ou garfos
A obtenção de borbulhas ou garfos deve ser feita tomando-se alguns cuidados básicos, entre eles:
- Utilizar plantas livres de doenças, principalmente de vírus;
- Ser representante típico da cultivar;
- Tenha alta produtividade e frutas de boa qualidade;
- No caso de existirem vetores que transmitem doenças, as plantas matrizes devem estar protegidas em telados.
Enxertia de borbulhia em T normal.
Enxertia de borbulhia em T invertido.
Enxertia de borbulhia de gema com lenho.
Enxertia de garfagem em fenda cheia em videira.
Enxertia de garfagem em fenda dupla ou inglês complicado.
Forçamento da brotação do enxerto
Para favorecer a brotação do enxerto pode-se realizar alguns procedimentos, entre eles:
- Curvamento ou dobra do porta-enxerto, 5 a 15cm acima do ponto de enxertia;
- Corte total do porta-enxerto, 5 a 15cm do ponto de enxertia;
- Decapitação total do porta-enxerto no ponto de enxertia;
- Decapitação parcial do porta-enxerto.
Dobra do porta-enxerto de pessegueiro para forçamento da brotação
Condução da muda
Em locais sujeitos à ocorrência de ventos fortes, pode-se colocar tutores nas mudas, com o fim de evitar o deslocamento do enxerto. Elimina-se as brotações laterais, procurandose dar à muda uma formação em haste única ou deixando-se os ramos básicos na altura adequada.
2.5.3 Práticas culturais no viveiro
Durante a permanência da muda no viveiro, são necessárias realizações de adubações freqüentes, aplicação de matéria orgânica, irrigação, capinas, controle de doenças e pragas, desbastes, toaletes, entre outras.
2.6 Transplante
Transplante é a retirada da muda do viveiro para o local definitivo.
A época de realização do transplante está ligada à biologia da planta e ao tipo de muda utilizada. Para mudas de plantas de folhas caducas que, geralmente, são comercializadas na forma de raiz nua, o transplante é feito no período de inverno, o que coincide com a menor atividade fisiológica. Já as plantas de folhas persistentes, normalmente comercializadas na forma de torrão, o transplante pode ser realizado em qualquer época do ano, porém realiza se, de preferência, no início da atividade vegetativa.
Quando as mudas forem levadas para locais distantes, devem ser embaladas de acordo com a legislação e, se transportadas no mesmo dia, devem ser mantidas em locais sombreados.
No arranquio das mudas, deve-se ter o cuidado para não danificar o sistema radicular e a haste principal.
2.6.1 Tratamento da muda, embalagem e identificação
As mudas, depois de desplantadas, deverão ter sua haste reduzida a uma determinada altura (50cm, no caso do pessegueiro); as raízes também são separadas, obedecendo as normas do Ministério da Agricultura. Devem ser protegidas do meio ambiente para evitar desidratação.
As mudas de raiz nua podem ter seu sistema radicular mergulhado numa mistura de argila (barro), podendo-se adicionar cobre 2% + fungicida sistêmico à argila. Esta prática é denominada de aboboragem. As mudas tratadas poderão ser reunidas em feixes, embaladas com palha e identificadas (espécie, cultivar e porta-enxerto) para serem comercializadas.
A parte aérea de mudas de plantas de clima temperado também poderão receber tratamento para superação da dormência (frio ou aplicação de produtos químicos). Em mudas de macieira, o armazenamento a temperaturas de 4°C durante 45 dias proporciona mudas de excelente qualidade e com brotação uniforme.
As mudas também podem ser desplantadas com uma porção de solo, chamada de torrão, desta forma elas podem ser comercializadas sem maiores problemas de desidratação da parte aérea e do sistema radicular.
2.7 Viveirista
Todo viveirista deverá estar registrado no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento - MAPA) como produtor de mudas e/ou comerciante, conforme Lei 10.711/2003 e Decreto 5.153/2004.
Toda muda deverá ser comercializada dentro de padrões estabelecidos para a espécie, de acordo com normas elaboradas pelo MAPA ou pelas comissões estaduais para produção de mudas fiscalizadas ou certificadas.
A muda fiscalizada é a que mantém todas as características necessárias a uma boa muda com relação à sanidade e vigor, porém não possui autenticidade quanto a sua origem genética, o que a distingue da muda certificada.
Toda pessoa física ou jurídica que pretenda produzir material de propagação e/ou mudas fiscalizadas deverá requerer anualmente o seu credenciamento na Entidade Fiscalizadora ou Certificadora, mediante a apresentação dos seguintes documentos:
a) Requerimento solicitando credenciamento;
b) Comprovante de registro de produtor de mudas junto ao MAPA.;
c) Termo de compromisso do Responsável Técnico;
d) Projeto técnico de produção de muda fiscalizada ou certificada, com croqui de localização da propriedade, da área destinada ao viveiro e/ou campo de plantas matrizes; e
e) Compromisso de produzir mais de 10.000 mudas fiscalizadas de duas ou mais espécies ou, no caso do morangueiro, mais de 200.000 mudas.
O Brasil possui condições ecológicas para produzir uma gama de frutas tropicais,subtropicais e temperadas e situações especiais que permitem que possamos produzir o ano todo. Apesar de todas estas condições favoráveis, o Brasil ainda importa várias frutas que poderiam ser produzidas aqui, entre elas se destacam a pêra, uva para mesa e passas, ameixas, quivi, cerejas e maçã na entre safra. Os nossos principais fornecedores são a Argentina, o Chile e o Uruguai.
No Rio Grande do Sul, a situação não é diferente somos tradicionais importadores de frutas de outros países e/ou estados. Mesmo no caso das plantas cítricas, o Estado só consegue atender 60% do consumo nas épocas de maior demanda e tem dificuldade de abastecer e fornecer a matéria-prima para suprir as três indústrias concentradoras de sucos nele instaladas.
Portanto a área de laranjas necessitaria ser ampliada, já que os cerca de 28.000ha são insuficientes para atender a demanda. No caso da frutas tropicais, o maior volume vem de outros Estados, mesmo assim o RS possui microclimas que podem produzir mangas, bananas, maracujá, abacaxi entre outras. O Estado produz quantidade suficientes de uva para vinhos, pêssego para mesa e conserva, ameixa, maçã, figo, goiaba, e esta ampliando a área de quivi na Serra Gaúcha e plantas cítricas sem sementes na Metade Sul.
A fruticultura é uma atividade que utiliza grande quantidade de mão de obra e atende a necessidade de viabilizar as pequenas propriedades e a fixação do homem no meio rural. Para tanto, é necessário o incentivo e o estabelecimento de parcerias com os setores de produção e comercialização, envolvendo setores públicos e privados para que os produtores possam produzir para o mercado interno, buscar novos mercados e aproveitar os excedentes nas agroindústrias.
Dispõe-se de tecnologias e material genético apropriados para produzir nas diferentes condições de clima e solo do Brasil. Não bastam só as potencialidades, são necessários incentivos e políticas que permitam um planejamento a médio e longo prazo, já que os pomares necessitam de, no mínimo, 2 anos para iniciar a produção e os investimentos iniciais costumam serem elevados e o retorno só ocorre depois do 6 da implantação do pomar.
É necessário que, ao par da produção, todo o setor esteja de olhos abertos para as tendências mundiais, onde o consumidor não pode ser desconsiderado e a busca de produtos diferenciados através da produção orgânica e integrada de frutas (PIF) e que podem representar dividendos adicionais para o setor de produção e comercialização.
Em países europeus, asiáticos e mesmo nos Estados Unidos, a fruticultura se caracteriza por ser uma atividade rentável e que utiliza com vantagens a produção integrada, buscando produtos de qualidade, minimizando riscos ao homem e ao ambiente.
No Brasil, a Produção Integrada de Frutas (PIF) está sendo utilizadas por produtores de frutas de diversas regiões, principalmente naquelas áreas destinadas à exportação, como é o caso da maçã, melão, manga, uva, mamão, entre outras.
O consumo de frutas visando os aspectos funcionais e/ou nutracêuticos também é um fator que pode contribuir para a elevação do consumo e, consequentemente, o aumento das áreas plantadas de diversas frutas, inclusive frutas nativas das mais diferentes regiões do Brasil.
1.2 Importância da fruticultura
O cultivo de plantas frutíferas se caracteriza por apresentar aspectos importantes nocontexto sócio-econômico de um país, tais como:
a) Utilização intensiva de mão-de-obra;
b) Possibilita um grande rendimento por área, sendo por isso uma ótima alternativa para pequenas propriedades rurais;
c) Possibilita o desenvolvimento de agroindústrias, tanto de pequeno quanto de grande porte
d) Contribui para a diminuição das importações;
e) Possibilita aumento nas divisas com as exportações;
f) As frutas são de importância fundamental como complemento alimentar, sendo fontestaminas, sais-mnerais, proteínas e fibras indispensáveis ao bom funcionamento do organismo humano, entre outras.
Na Tabela 3 é mostrado o valor nutricional das principais frutas consumidas no Brasil.
1.3 Conceitos
A fruticultura pode ser conceituada como sendo o conjunto de técnicas e práticas aplicadas adequadamente com o objetivo de explorar plantas que produzam frutas comestíveis, comercialmente. Segundo Tamaro (1936), fruticultura é a arte de cultivar racionalmente as plantas frutíferas.
Além do conceito de fruticultura, o conceito de fruta e fruto também é variável conforme o autor. Segundo Ferreira (1993), fruta é a designação comum às frutas, pseudofrutos e infrutescências comestíveis, com sabor adocicado. Já o fruto é o órgão gerado pelos vegetais floríferos, e que conduz a semente, portanto resulta do desenvolvimento do ovário depois da fecundação. Para facilitar a leitura, no decorrer de todos os capítulos, será adotado o termo fruta.
1.4 Classificação das plantas frutíferas
A maioria dos frutos é o resultado do desenvolvimento do ovário da flor após a fecundação, originando, assim, as sementes. Algumas frutas, porém, resultam do amadurecimento do ovário mesmo sem fecundação, produzindo frutos partenocárpicos, como é o caso da banana, do abacaxi e de algumas cultivares de uvas e citros.
Na Tabela 4 são apresentadas as principais espécies frutíferas cultivadas com o respectivo nome científico, nome da família e sub-família
As plantas frutíferas podem ser classificadas de diferentes formas, as principais são quanto ao clima, hábito de vegetativo e tipo de fruto.
1.4.1 Quanto ao clima
a) Frutíferas de clima temperado - as principais características apresentadas por essas plantas são:
- Hábito caducifólio;
- Um único surto de crescimento;
- Necessidade de frio com temperaturas £ 7,2°C, para superação do estádio de repouso vegetativo;
- Maior resistência às baixas temperaturas;
- Necessidade de temperatura média anual entre 5 e 15°C para crescimento e desenvolvimento.
As principais plantas frutíferas de clima temperado são pessegueiro, macieira, pereira, videira, ameixeira, marmeleiro, quivi, cerejeira, nogueira-pecan, entre outras.
b) Frutíferas de clima subtropical - as principais características apresentadas por essas plantas são:
- Nem sempre apresentam hábito caducifólio;
- Mais de um surto de crescimento;
- Menor resistência a baixas temperaturas;
- Pouca necessidade de frio no período de inverno;
- Necessidade de temperatura média anual de 15 a 22°C.
As principais frutíferas de clima subtropical são as plantas cítricas, abacateiro, caqui, jabuticaba, nespereira, entre outras.
c) Frutíferas de clima tropical - as principais características apresentadas por essas plantas são:
- Podem apresentar mais do que um surto de crescimento;
- Apresentam folhas persistentes;
- Não toleram temperaturas baixas;
- Necessidade de temperatura média anual entre 22 e 30°C.
As principais frutíferas de clima tropical são bananeira, cajueiro, abacaxizeiro,
mamoeiro, mangueira, maracujazeiro, coqueiro da bahia, entre outras.
1.4.2 Quanto ao hábito vegetativo
a) Arbóreas - apresentam grande porte e tronco lenhoso. Exemplos: mangueira, abacateiro, nespereira, jaqueira e nogueira-pecan.
b) Arbustivas - apresentam porte médio e caule menos resistentes. Exemplos: figueira, amoreira, mamoeiro e romãzeira.
c) Trepadeiras - apresentam caule sarmentoso e provido de gavinhas. Exemplos: videira, maracujazeiro e quivi.
d) Herbáceas - apresentam porte baixo, rasteiras ou com pseudo-caules. Exemplos: bananeira, morangueiro e abacaxizeiro.
1.4.3 Quanto ao tipo de fruta
a) Frutas com sementes - maçã e pêra
b) Frutas com caroços - pêssego e ameixa
c) Frutas com sementes carnosas - romã
d) Frutas em bagas - uva, groselha e quivi.
e) Frutas em espirídio - citros
f) Frutas agregadas - framboesa
g) Frutas compostas - figo
h) Frutas secas – noz pecan e pistáchio.
i) Frutas tropicais e subtropicais - banana e abacaxi
a) Pomares domésticos ou caseiros - são aqueles pomares que se caracterizam por apresentarem um grande número de espécies e cultivares.
b) Pomares comerciais - são aqueles formados por um pequeno número de espécies e cultivares, há um escalonamento da produção, sendo que esta pode ser destinada à industrialização ou ao consumo “in natura”.
c) Pomares experimentais - são aqueles que apresentam um grande número de espécies e cultivares.
d) Pomares didáticos - são aqueles que apresentam um grande número de espécies e variedades, onde são executadas as práticas corretas e incorretas, pois o fim único é o aprendizado.
1.6 Principais problemas da fruticultura
A fruticultura é uma atividade com características bastante regionalizadas, o que faz com que, em cada região onde ocorre predominância pelo cultivo de uma ou outra espécie, surjam problemas diferentes dos de outras regiões. Existem, no entanto, problemas principais que são geralmente comuns a todas as espécies e regiões, como, por exemplo:
a) Produção de mudas de qualidade, principalmente no que se refere à falta de controle do material utilizada e fiscalização dos produtores, comerciantes, transportadores, entre outros;
b) A comercialização é uma etapa muito pouco eficiente, ocorrendo muitas perdas das frutas antes de chegarem ao consumidor;
c) Falta de transporte, armazenamento, assistência técnica e linhas de crédito compatíveis;
d) Falta de informação e organização dos produtores, principalmente dos pequenos produtores;
e) Baixa renda da população, o que faz com que o consumo per capita de frutas seja muito baixo, no Brasil;
f) Plantio muitas vezes em regiões marginais (Figura 1);
g) Falta de culturas adaptadas às condições locais;
h) Manejo inadequado do solo e da planta;
i) Elevados custos de implantação e produção;
j) Condições climáticas desfavoráveis em muitas regiões produtoras.
Figura 1 – Macieira com brotação irregular devido à falta de frio no período de dormência.
Recentemente, têm-se observado grandes transformações, em nível mundial, em todas as atividades humanas, sejam elas sociais, econômicas, governamentais e, principalmente, na relação com o meio ambiente. Nesse cenário, encontra-se uma agricultura onde ocorre o uso intenso do solo e o emprego maciço de insumos externos (fertilizantes e defensivos), com incentivo da monocultura, o que possibilitou aumento da produção de alimentos. Todavia, esse sistema resultou em maior destruição dos solos (erosão e degradação da matéria orgânica), maior agressividade das plantas daninhas (práticas de monocultivo e pressão de seleção por diversos herbicidas, utilizados em excesso e com o mesmo mecanismo de ação), redução da biodiversidade, maior incidência de doenças e pragas e, conseqüentemente, poluição do meio ambiente.
Reverter esse quadro significa utilizar a terra de forma mais segura do ponto de vista ambiental e do atendimento ao mercado internacional, que em sua quase totalidade, exige certificação quanto à inocuidade alimentar das frutas, entre elas, a goiaba. Portanto, o sistema de exploração agrícola deve buscar produzir alimentos de alta qualidade, mediante o uso de recursos naturais e tecnologias apropriadas, assegurando produção sustentável, com produtos de ótima qualidade nutricional e com preços competitivos.
Com origem na América Tropical, onde vegeta desde o México até o sul do Brasil, a goiabeira (Psidium guajava L.) encontra-se amplamente disseminada por todas as regiões e subtropicais do mundo, tendo como agente disseminador, principalmente o homem. Entretanto, segundo Medina (1988) e Pereira (1995), as condições ideais de desenvolvimento desta cultura são temperaturas entre 23 e 28 oC, precipitação entre 800 e 1.500 mm e umidade relativa do ar de 75%.
O Brasil é o maior produtor mundial de goiaba, sendo os Estados de São Paulo e Pernambuco os principais responsáveis, com 80% da produção nacional (Guedes e Vilela, 1999). Devido à sua importância econômica, a cultura da goiaba, como qualquer outra cultura comercial, deve ser encarada como atividade empresarial. Nesta cultura, buscam-se aumento de produtividade e qualidade final do produto com reduções do custo e do impacto ambiental. Por isso, o controle eficiente das plantas daninhas deverá ser levado em conta devido aos prejuízos causados pelas espécies invasoras, principalmente nos pomares de goiaba em formação, cuja forte concorrência por nutrientes, água, espaço e luz neste estádio de desenvolvimento, resulta em sérios prejuízos à cultura. As plantas daninhas podem ainda ser hospedeiras alternativas de pragas e doenças, interferir em sistemas de irrigação, afetar a colheita, além de dificultar outros tratos culturais e de manejo do pomar. Todavia, a
cobertura do solo entre as fileiras da cultura, com plantas daninhas vivas ou mortas, pode minimizar a erosão do solo, promover a reciclagem de nutrientes, ser hospedeira de inimigos naturais de pragas e, ainda, fornecer matéria orgânica para o solo.
Dessa forma, o objetivo atual de um programa de manejo integrado de plantas daninhas não se baseia em eliminar totalmente todas as espécies invasoras do solo do pomar e sim, em suprimir os efeitos indesejáveis da sua população, de modo que as perdas econômicas não excedam o custo do programa, procurando-se evitar ao máximo, o impacto negativo ao ambiente pelo uso dos herbicidas ou por outros métodos de controle das plantas daninhas.
2. COMPETIÇÃO ENTRE GOIABEIRA E PLANTAS DANINHAS
A goiabeira se estabelece em diferentes ecossistemas, não exigindo grande fertilidade do solo; todavia, para se obterem resultados economicamente satisfatórios, é necessário manter o solo do pomar em adequado nível de fertilidade (Pereira, 1995). O manejo incorreto das plantas daninhas pode, entre outros fatores, acarretar indisponibilidade de nutrientes para a cultura. Em pomares comerciais na região Sudeste do Brasil, principalmente no norte do Rio de Janeiro, verifica-se a predominância de cultivares obtidos por propagação vegetativa, que, com a utilização da poda, da fertilização e da irrigação, tem produzido três safras, a cada dois anos. Nesse caso, a preocupação com tratos culturais é ainda maior, pois a interferência das plantas daninhas pode comprometer seriamente a safra seguinte.
Por se tratar de cultura perene, a goiabeira necessita de recursos disponíveis e condições de obtê-los durante todo o ano; portanto, faz-se necessário, o conhecimento de como as plantas daninhas competem pelos distintos recursos com a cultura nos seus diferentes estádios de desenvolvimento, nas diversas estações do ano.
Segundo Radosevich et al. (1996), o crescimento e o desenvolvimento de uma planta são regidos por fatores ambientais, que influenciam também a competição intra ou interespecífica, sendo estes fatores divididos em “recursos” e “condições”. Os recursos seriam os fatores consumíveis, que podem se esgotar com a alta demanda (água, nutrientes) ou não estar disponíveis para a espécie devido a condições adversas, sendo exemplo a luz para plantas sombreadas e o CO2 para espécies que se saturam rapidamente. Já as condições são fatores considerados não diretamente consumíveis, como pH do solo, temperatura atmosférica e do solo, densidade do solo (nível de compactação) etc., que afetam a obtenção dos recursos naturais.
2.1 Competição pela água disponível
Ao longo da evolução, as espécies não cultivadas alcançaram alto índice de sobrevivência nas mais adversas condições, possibilitando maior vantagem competitiva para a obtenção dos recursos disponíveis, inclusive a água. Em alguns agroecossistemas, especialmente nos trópicos, em dias quentes, é comum plantas de determinada cultura ficarem completamente murchas, enquanto as plantas daninhas permanecem túrgidas, sem qualquer sinal de déficit hídrico. Essa maior capacidade de extrair a água do solo e sua eficiência na utilização, apresentada por diversas espécies de plantas daninhas, podem ser atribuídas à maior taxa de exploração de volume do solo pelo sistema radicular e às características fisiológicas das plantas, como a capacidade de as raízes se ajustarem osmoticamente. Estas características e rotas fotossintéticas diferenciadas tornam estas plantas altamente competitivas pelos recursos do ambiente, água, luz e nutrientes, uma vez que eles estão inter-relacionados.
As raízes da goiabeira podem atingir até quatro metros de profundidade em solos classificados como medianamente compactos e com considerado nível de fertilidade (Howard, 1925). Pelo fato de possuir essa característica, a goiabeira é reportada como tolerante à seca. Todavia, quando submetida à condição de déficit hídrico prolongado, as plantas de goiaba perdem suas folhas, produzindo apenas uma safra por ano. Por esse motivo, acredita-se que a produtividade da goiabeira possa ser reduzida quando esta cultura estiver sob interferência de plantas daninhas em condições de média a pouca disponibilidade de água no solo. A presença de tais espécies - que apresentam a característica de retirar água do solo sob baixos potenciais - desenvolvendo-se no pomar, poderá tornar esse recurso mais escasso para a cultura, afetando de maneira direta a absorção de nutrientes e o crescimento e desenvolvimento desta.
Segundo Procópio (2003), o picão-preto (Bidens pilosa), planta daninha de maior ocorrência no Brasil, é capaz de extrair água do solo a tensões três vezes menor do que a observada para a cultura da soja. Assim, a presença desta e/ou de outras plantas daninhas, com características semelhantes, infestando pomares de goiaba em períodos de déficit hídrico, poderá causar sério problema no crescimento e desenvolvimento da goiabeira.
2.2 Competição por luz
A competição pela luz é influenciada por diversos fatores, o que torna complexo o seu estudo. Características fisiológicas das espécies infestantes, como folhas umbrófilas ou heliófilas, rota fotossintética, temperatura da folha e controle da regulação estomática, interferem de maneira significativa na sua capacidade competitiva com a cultura.
A goiabeira subsiste em condições de meia-sombra, entretanto, cultivares com destino industrial devem ser instalados somente em áreas com boa exposição aos raios solares, em que a capacidade fotossintética é maior e as condições são menos favoráveis à proliferação de pragas e doenças. Rovira (1988) estudou o ciclo de vida produtivo da goiabeira em ambiente tropical, classificando-o em quatro fases: crescimento, entre dez meses e dois anos de idade; plena produção, dos três até cinco anos; produção, dos cinco até oito anos e senilidade, a partir dos nove anos de idade. Com base nessas informações, pode-se inferir que o período em que a goiabeira está mais suscetível à competição pela luz é na fase de crescimento. Neste estádio de desenvolvimento, o não-controle das plantas daninhas poderá resultar no sombreamento das mudas recém-transplantadas ou plantas jovens, implicando sério prejuízo em relação ao crescimento e desenvolvimento da goiabeira. Soubihe Sobrinho (1956) recomenda o transplante das mudas, produzidas a partir de sementes, quando estas estiverem com 25 cm de altura, de preferência na época das chuvas, para obter maior índice de pegamento. No entanto, em tal condição, os cuidados com o manejo das plantas daninhas devem ser constantes, pois a taxa de crescimento daquelas daninhas presentes na área, na maioria dos casos, será maior do que a da
goiabeira, sendo a cultura rapidamente prejudicada.
Também o fato de a goiabeira necessitar de poda de formação e de frutificação, torna essa cultura com menor poder de competição com as plantas daninhas, pela luz. Por esse motivo, espécies infestantes, como Bidens pilosa, Euphorbia heterophylla, Leunurus sibiricus, Nicandra physaloides, Galinsoga sp. e outras, possuem curto ciclo de reprodução, com grande número de propágulos, podem atingir rapidamente a altura da cultura, sombreando a goiabeira recém-transplantada e exercendo forte competição pelos recursos do meio. Outras espécies de plantas daninhas, como a maioria das gramíneas, possuem o metabolismo C4 e, se mal manejadas, dominam a área com facilidade e, conseqüentemente, as goiabeiras, que, por serem jovens e estarem bem espaçadas entre si, são fracas competidoras pela luz nesta fase. Na poda de frutificação, o desleixo da lavoura quanto à infestação de plantas daninhas poderá comprometer a formação dos frutos, pois o sombreamento proporcionado por determinadas espécies impedirá que as folhas da goiabeira atinjam o ótimo da fotossíntese, o que levaria à conversão de pouca energia para formação de fotoassimilados da fonte (folhas) para o dreno (frutos).
2.3 Competição por nutrientes
As plantas daninhas possuem grande capacidade de extrair do ambiente, os elementos essenciais ao seu crescimento e desenvolvimento e, como conseqüência disso, exercem forte competição com as culturas pelos nutrientes disponíveis, os quais, quase sempre estão em quantidades inferiores às necessidades das culturas em nossos solos (Silva et al., 2002). A ordem de limitação dos nutrientes vai depender da sua quantidade inicial no solo e das características fisiológicas particulares de cada espécie infestante, uma vez que cada espécie possui diferenças na exigência nutricional. Além disso, algumas plantas daninhas possuem grande habilidade tanto em extrair quanto em utilizar com eficiênte determinado nutriente.
Quando se trata de analisar a capacidade de uma espécie de planta daninha em competir por nutrientes deve-se considerar, com maior ênfase, a quantidade extraída do solo do que os teores que ela apresenta na sua matéria seca (Silva et al., 2002). Hiroce et al. (1977), trabalhando com goiabeira cultivar IAC-4, plantada no espaçamento de 6 x 5 m (333 plantas ha-1), considerando produtividade média anual de 75 kg de goiabas por planta, observaram que foram extraídos do pomar 32,7; 3,8; 18,2; 2,0 e 4,0 kg ha-1, respectivamente, de N, P, K, Ca e Mg. Estes valores indicam que a goiabeira é mais exigente em nitrogênio e potássio do que em fósforo, na etapa de frutificação.
Segundo Cicerelli (1977), citado por Pitelli (1985), uma planta de apaga-fogo (Alternanthera tenella) pode acumular em torno de 1,3 g de N, até 70 dias após emergência (DAE), com formação de 80,4 g de matéria seca. Considerando uma infestação não muito elevada de A. tenella no goiabal, esta poderá exercer forte competição por nutrientes, se estiver se desenvolvendo próximo às raízes da cultura. Todavia, se esta espécie estiver se desenvolvendo entre as fileiras, poderá ser de grande utilidade para reciclagem de nutrientes e também para prevenção de erosão, pois se caracteriza por ser uma planta rasteira, que promove excelente cobertura verde no solo.
Trabalho semelhante foi realizado por Pereira e Jones (1954), os quais verificaram que plantas de Bidens pilosa, Tagetes minuta e Amaranthus spp. podem chegar a retirar do solo, quantidades de P2O5 cinco vezes superiores àquelas removidas pelo cafeeiro. Também Silva e Ronchi (2003), avaliando a competição entre diversas espécies de plantas daninhas (Bidens pilosa, Richardia brasiliensis, Leonururs sibiricus e Sida rhombifolia) e plantas de café, observaram capacidade muito superior de extração e acúmulo de nutrientes por essas espécies em relação às plantas de café (Quadros 1 e 2). Esses estudos confirmam a importância do manejo dessas plantas em culturas, visando prevenir efeitos negativos (competição) e positivos (reciclagem de nutrientes).
As plantas invasoras, também conhecidas por plantas daninhas ou mato, mas hoje chamadas de plantas espontâneas, competem com a goiabeira, principalmente por água
e nutrientes, podendo prejudicar de maneira significativa o desenvolvimento das plantas (PATHAK et al., 2007). Além disso, as plantas invasoras podem ser hospedeiras
de pragas, doenças e nematoides. Por exemplo, maxixe (Cucumis anguria), apaga-fogo
(Alternanthera tenella), jitirana-cabeluda (Merremia aegyptia) e meloso-da-flor-roxa
(Marsypianthes chamaedrys) são plantas hospedeiras do nematoide-das-galhas (CASTRO
et al., 2007). A jurema-preta (Mimosa tenuiflora) é hospedeira de duas ervas-depassarinho
(Struthanthus vulgaris e Phoradendron sp.), que podem infestar goiabeiras, causando redução no desenvolvimento e na produtividade. Essas e outras invasoras podem dificultar as operações de poda, desbaste e colheita. A corda-de-viola (Ipomoea sp.) e o melão-de-são-caetano (Momordica charantia) também são espécies invasoras, cujos ramos tendem a enrolar-se na goiabeira, deformando a planta e dificultando as operações de adubação, poda de formação e uniformidade de distribuição da água de irrigação, caso o sistema adotado seja o de microaspersão.
No manejo integrado de plantas daninhas, é recomendável recorrer a várias estratégias de controle (manual, mecânico e químico).
A capina ou roçagem manual é indicada para áreas pequenas, enquanto a roçagem mecanizada por meio de roçadeiras portáteis ou mesmo tratorizada é indicada para grandes áreas.
Nos primeiros meses depois do transplantio das mudas, quando as plantas ainda estão em fase de pegamento e as raízes podem ser danificadas, recomendase fazer um coroamento manual ao redor das plantas, utilizando-se, para isso, de uma enxada.
A capina mecanizada pode ser realizada com tração animal ou tratorizada nas entrelinhas da cultura, impedindo que as plantas invasoras se desenvolvam e produzam sementes (COSTA; COSTA, 2003).
A capina química, ou seja, pela utilização de herbicidas, também pode ser feita na cultura da goiaba; no entanto, alguns cuidados são necessários. Recomenda-se que o agricultor procure a assistência técnica, pois a escolha do produto a ser aplicado deve levar em consideração as plantas invasoras presentes na área e o seu nível de infestação.
No início do desenvolvimento das plantas de goiaba, o controle químico deve ser evitado, pois as goiabeiras podem sofrer danos. Por isso, nos primeiros meses, é recomendável que esse tipo de controle seja restrito às entrelinhas.
Utilizar equipamentos adequados é uma garantia de eficiência da aplicação, assim como o de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), evitando, assim, a exposição dos aplicadores aos herbicidas (TÁCIO et al., 2008).
Decorridos aproximadamente 4 anos, o pomar já estará formado e a infestação de plantas invasoras tenderá a ser menor, pois as plantas já conseguirão vencer a competição por água, nutrientes, espaço e luz.
Além disso, o sombreamento causado pelo desenvolvimento das plantas, bem como a deposição de folhas secas sobre o solo reduz a germinação e o desenvolvimento de plantas invasoras.
A fim de evitar que sementes ou outros propágulos de plantas daninhas sejam transportados para áreas novas, recomenda-se, como medidas preventivas, a limpeza de equipamentos – como implementos agrícolas, rodas de tratores e roupas dos operários, se tiverem entrado em áreas infestadas
(CONSTANTIN, 2001).
É importante lembrar que, embora as plantas invasoras possam concorrer por água, nutrientes, espaço e luz, possam també ser reservatórios de pragas e/ou doenças,
elas apresentam alguns benefícios, como: redução da erosão e das perdas de água,
preservação da estrutura do solo, incremento de matéria orgânica e redução da lixiviação e da volatilização dos adubos (MANICA, 2000). Ademais, conforme lembram Altieri et al. (2003), a presença de plantas daninhas no pomar favorece o aumento do número de predadores e parasitoides dos insetos-praga, em decorrência de maior disponibilidade de presas e por serem fontes de néctar e pólen para os inimigos naturais.