sábado, 9 de dezembro de 2017

Como substituir a copa do cajueiro


A substituição de copa é uma prática utilizada em algumas espécies perenes, geralmente frutíferas. Ela consiste na remoção de quase toda a parte aérea da planta por meio de um corte na base do tronco. Devido a esse corte, novas brotações surgem no tronco, onde é realizada a enxertia de propágulos (borbulhas) provenientes de outra planta, geralmente plantas matrizes com características genéticas superiores.
A substituição de copas na cultura do cajueiro tem como objetivos principais o rejuvenescimento do pomar e a substituição de um genótipo (clone, principalmente). O exemplo mais característico dessa prática na cultura é transformar um pomar antigo de cajueiro-comum em um novo pomar de cajueiro-anão (também denominado cajueiro-anão-precoce). Também se consegue a substituição de plantas jovens com má formação de copa e/ou com produção abaixo do esperado por uma nova copa produtiva.
Os exemplos práticos mostram que, quando bem planejada, a prática pode permitir ganhos mais rápidos e a menor custo do que com a implantação de um novo pomar. Porém, é importante avaliar cuidadosamente o estado geral do pomar a ser trabalhado, com simulações dos rendimentos esperados e a relação custo/benefício, antes da decisão de realizar a substituição de copas de um pomar.
No geral, a prática de substituição de copa possibilita obter uniformidade e aumento da produtividade do pomar em relação à situação anterior, devido aos seguintes fatores: a) substituição das plantas improdutivas por plantas clonais de alta produção; b) redução do porte das plantas, principalmente na troca do cajueiro-comum pelo cajueiro-anão; c) menor custo em relação à implantação de um novo pomar, dispensando várias práticas como abertura e preparo de covas, obtenção de mudas e necessidade de irrigação; d) rejuvenescimento das plantas; e) possibilidade, nos primeiros anos, de consorciar o pomar com culturas anuais e bienais de porte baixo.

Quando realizar a substituição de copa?

A prática é recomendada quando o pomar não está correspondendo ao esperado (Figura 1), principalmente em termos de produção. Em pomares cujas plantas são oriundas de sementes (pé-franco), observa-se alta desuniformidade entre elas, principalmente quanto ao porte e produção. Assim, a prática da substituição de copa permitirá um acréscimo substancial na uniformidade do pomar. Além disso, quando o produtor decide trabalhar com outro clone de cajueiro, a substituição de copas se torna uma opção interessante em curto prazo.

Quais são os cuidados para a realização da substituição de copa?

Para o sucesso da substituição de copas no cajueiro, algumas premissas devem ser consideradas:
1.  Idade das plantas. Quanto mais jovens as plantas, maior o percentual de sucesso da operação, sendo observados maiores êxitos em pomares com até 15 anos de implantação e em plantas com até 1,10 metros de perímetro de tronco (Figura 1). A partir dos 16 anos e até os 25 anos de idade, verifica-se redução gradual no percentual de sucesso (Tabela 1). Em plantas com mais de 25 anos, a perda dos enxertos começa a ser mais significativa, e os custos operacionais aumentam, sendo recomendada uma análise criteriosa de custo/benefício de todo o processo como base para a tomada de decisão.
Fotos: Levi de Moura Barros
Figura 1. Pomar novo apto à prática da substituição de copas, uma vez que as plantas apresentam copa não ideal (tipo eucalipto ou castanheira) para produção de frutos (à esquerda). Planta recém-brotada após a prática da substituição de copas em um pequeno pomar (à direita).
Tabela 1. Taxa de sobrevivência das plantas cortadas em função da idade. Pacajus, CE, 2010.
Idade (anos)Plantas sobreviventes (%)(1)
5100,0
1599,2
2587,8
3570,4
4567,9
(1)Plantas que emitiram pelo menos uma brotação após o corte.
Fonte: Rossetti e Montenegro, 2012.
2.  Sanidade das plantas. Quanto menos problemas fitossanitários (pragas e doenças) na área, maior o percentual de sucesso da operação. A prática não deve ser feita em pomares com resinose ou completamente atacados pela bronca-do-tronco. Nesses casos, é mais seguro proceder à erradicação completa das plantas e formação de um novo pomar utilizando um clone resistente.
3.  Vigor das plantas. Caso as plantas não sejam bem conformadas e bem desenvolvidas, deve ser feita avaliação antes da decisão sobre adotar a prática de substituição de copa ou a renovação completa do pomar. Pomares com plantas muito fora do padrão de desenvolvimento para a idade podem não levar ao sucesso esperado com a técnica. Também nesse caso, é mais indicada a renovação completa do pomar.

Quais as formas de fazer a substituição de copas do cajueiro?

A prática pode ser feita em função da dimensão da área do pomar, da capacidade de investimento e da decisão do produtor. Seguem abaixo os principais passos para a prática:
a)   Substituição seletiva das plantas. Identificadas as plantas com características indesejáveis, realiza-se a operação de substituição, deixando-se as demais plantas no pomar (Figura 2).
Fotos: Levi de Moura Barros
Figura 2. Substituição de copas de forma seletiva das plantas.
b)   Substituição em fileiras alternadas. Estratégia adotada para manter uma parte da área em produção quando da substituição total (Figura 3). No ano seguinte, é feita a substituição das outras filas.
Foto: Levi de Moura Barros
Figura 3. Substituição de copa em fileiras alternadas.
c)  Substituição total das plantas. Todas as plantas do pomar são substituídas.
Foto: Afrânio Arley Teles Montenegro
Figura 4. Substituição de copa em toda a área.
Cada alternativa tem vantagens e desvantagens que devem ser analisadas antes da execução, para que a escolha atenda às conveniências de quem vai realizar a operação.

Como fazer a substituição de copas em cajueiro?

A substituição de copas é feita de acordo com os seguintes passos:
1.  Planejamento da enxertia: Deve ser feito um planejamento em função da quantidade de plantas a serem trabalhadas, para que haja sincronia entre a disponibilidade de borbulhas (provenientes de ramos com flores) com as brotações em estado de aptidão para a enxertia. O corte das plantas adultas deve ser iniciado de 3 a 4 meses antes do início da floração das plantas matrizes (fornecedoras de borbulhas), para garantir que as novas brotações estejam no ponto de enxertia na época da disponibilidade de propágulos (julho a outubro).
2.  Corte do tronco. Realizado com motosserra, a cerca de 40 cm da superfície do solo. O corte é feito em bisel (inclinado) para evitar acúmulo de água, que pode acelerar o apodrecimento do tronco e favorecer a proliferação de fungos e/ou insetos (Figura 5).
3.  Seleção de brotações para a enxertia. É feita bem antes da enxertia, e tem o objetivo de reduzir a competição entre as novas emissões. Devem ser mantidas as brotações mais vigorosas e, se possível, distribuídas simetricamente ao redor do tronco (Figura 5).
Foto: Afrânio Arley Teles Montenegro
Figura 5. Corte do tronco a 40 cm do solo e em forma de bisel. Após alguns dias, surgem as novas brotações.
4.  Número de brotações para a enxertia. Recomenda-se a manutenção de até seis brotações nas plantas mais velhas e até quatro nas mais jovens (Figura 6).
Foto: Afrânio Arley Teles Montenegro
Figura 6. Brotações selecionadas para a enxertia.
A quantidade, a velocidade de brotação e o vigor dos brotos em plantas jovens são maiores que em plantas mais velhas. Como exemplo, plantas com 20 a 30 anos emitem brotações 30 dias após o decepamento, enquanto as plantas com 3 anos brotam intensamente já aos 10 dias após o corte.
5.  Enxertia. É realizada a enxertia por borbulhia em placa, por ser a que apresenta o maior rendimento em condições de campo (a pleno sol). Semelhantemente à enxertia realizada em mudas, abre-se uma “janela” no caule do broto e fixa-se, justapondo, a borbulha nessa janela. Logo em seguida, passa-se uma fita plástica sobre a região da enxertia para pressionar o contato da placa com a janela. Não há necessidade de cobertura do enxerto.
Aos 15 dias da operação, deve-se retirar com cuidado a fita de enxertia, para que não ocorra estrangulamento dos rebentos (Figura 7). Evitar ferimentos nessa operação para não favorecer o desenvolvimento de fungos.
Foto: Afrânio Arley Teles Montenegro
Figura 7. Fita de enxertia que deve ser retirada 30 dias após a enxertia.
6.  Época da enxertia. Deve ser feita no período do florescimento das plantas doadoras (matrizes) de borbulhas, que naturalmente ocorre a partir de junho para os cajueiros do tipo anão.
7.  Quantos enxertos devem permanecer. Todos os enxertos devem permanecer para a formação da nova copa (Figura 8). Porém, se apenas um sobreviver, será o suficiente.
Fotos: Afrânio Arley Teles Montenegro
Figura 8. Plantas com diferentes números de enxertos após a substituição de copa.
8.  O que fazer se não houver sucesso na enxertia. Havendo disponibilidade de propágulos, repetir a operação nos mesmos ramos quantas vezes for necessário, desde que as condições dos ramos permitam. Em plantas mais velhas, a enxertia nem sempre é bem sucedida na primeira vez.
9.  Quais são os cuidados necessários para a prática de substituição de copas?
Os cuidados a serem tomados na substituição de copas são, no geral, os mesmos dedicados ao pomar, como:
  • Manutenção da área das plantas matrizes (fornecedoras de borbulhas) o mais livre possível de doenças e pragas.
  • No caso de os propágulos serem adquiridos de outro local, verificar o estado fitossanitário das matrizes de onde o material será retirado e acondicionar corretamente o material propagativo a ser transportado. Os propágulos (ramos) devem ser agrupados em pequenos feixes de 5 a 6 unidades para que não forme, dentro das embalagens, microclima que provoque danos às gemas intumescidas.
  • Fazer assepsia nos instrumentos utilizados no corte, enxertia, pós-enxertia e retirada da fita ao redor do enxerto.
  • Após o corte, o tronco da planta deverá ser pincelado com fungicida à base de oxicloreto de cobre (3,0 g do produto comercial/litro de água).
  • Retirar a madeira após o corte das plantas adultas o mais rápido possível do local.
  • Os ramos que contêm as borbulhas devem ser embalados, preferencialmente em papel-alumínio e estratificados em vermiculita umedecida na proporção de 9:1 (v:v), com água destilada.
  • Quanto mais rápido for o tempo entre a retirada dos ramos fornecedores de borbulhas e a prática da enxertia,serão as chances de sucesso da prática.
Após obter o número ideal dos enxertos que devem permanecer para a formação da copa, deve ser feita a desbrota dos ramos cujos enxertos não pegaram. A partir daí, convém fazer uma vistoria sistemática para retirar os novos ramos (ramos não enxertados) que normalmente continuam surgindo ao redor do tronco decepado, para evitar o desenvolvimento de ramos não enxertados.