segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Produção, mercado e aspectos econômicos do Mamão

INTRODUÇÃO  

Brasil, segundo maior produtor mundial de mamão, responde por 16% desta produção (FAO, 2013). Observa- se uma grande faixa contínua produtora próxima ao litoral, entre Linhares (ES) e Porto Seguro (BA), porém com progressiva migração para o interior do continente. Minas Gerais é o quinto produtor (IBGE, 2013), com produção crescente principalmente pelo município de Jaíba, que aumentou seu fornecimento à Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp) em 45 vezes, entre 2008 e 2012. Enquanto a maior parte das cargas chega à Ceagesp com os frutos a granel, na carroceria dos caminhões, os produtores das novas áreas colhem frutos mais maduros, classificam e embalam na origem. Essa colheita de frutos maduros só é possível se o mamão for comercializado em embalagens, já que se torna mais macio e sujeito a danos. Como se trata de um fruto climatérico, mas com reduzido acúmulo de açúcares após colhido, o sabor final do fruto colhido maduro será muito melhor. Uma vez que esta superioridade em qualidade esteja associada a uma marca ou embalagem, há tendência de o consumidor dar preferência a esse produto, o que poderá ser um diferencial para esses produtores.

PRODUÇÃO

De acordo com os dados de produção coletados pela Food and Agriculture Organization of the United Nations (FAO, 2013), em 2011, o mundo produziu 11,84 milhões de toneladas de mamão, em 421,5 mil hectares. O Brasil detém a segunda co- locação, com produção de 1,85 milhão de toneladas, ou 15,7% da produção mundial, em 35,5 mil hectares (Quadro 1). O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2011) registrou que a produção brasileira de mamão foi de 1,85 milhão de toneladas, com predomínio na Bahia (928 mil toneladas) e Espírito Santo (560 mil toneladas) (Quadro 2). O que se observa é a existência de uma grande faixa contínua produtora de mamão, próxima aos litorais capixaba e baiano, que vai das proximidades de Linhares, ES, até Porto Seguro, BA.Minas Gerais é o quinto produtor de mamão, com apenas 2,42% da produção nacional em 2011 (Quadro 2), porém crescente. Naquele momento, o município de Jaíba foi o maior produtor, com 16,7% da produção do Estado (Quadro 3). O fornecimento de mamão pelo município de Jaíba à Ceagesp passou de 232 t, em 2008, para 10.541 t, em 2012 (Gráfico 1), sendo 8.505 t de mamão do grupo Formosa (CEAGESP, 2013).

COMERCIALIZAÇÃO

A comercialização dos mamões no Entreposto Terminal de São Paulo (ETSP), da Ceagesp, retrata o mercado brasileiro de mamão. Todas as notas fiscais recolhidas nas portarias do ETSP tornam-se a fonte de dados do Sistema de Informação e Estatísticas de Mercado (Siem), da Seção de Economia e Desenvolvimento (Sedes), que registrou, em 2012, no ETSP, a comercialização de 56,4 mil toneladas de mamão do grupo Formosa e de 86,9 mil toneladas do grupo Solo, conhecido popularmente como Havaí, Havaiano ou Papaia. Houve queda do fornecimento dessa fruta, de 168,3 mil toneladas, em 2011, para 143,3 mil toneladas, em 2012 (CEAGESP, 2013). Confrontando com os dados de produção do IBGE, estima-se que o ETSP comercialize, aproximadamente, 9,7% da produção brasileira de mamão, participação relativa que vem caindo pouco a pouco ao longo dos últimos anos. O que se constata no entreposto é certa estabilidade no volume do grupo Solo e um crescimento do Formosa. Desde 2007, primeiro ano de funcionamento do Siem, o volume comercializado de mamão do grupo Solo sempre ficou próximo a 90 mil toneladas e o do Formosa passou de 52 mil toneladas, em 2007, para quase 64 mil, em 2010, caindo para 56, em 2012. De acordo com o ranking de 2012 da Ceagesp, o mamão é a terceira fruta em volume comercializado, perdendo apenas para a laranja e a maçã, e a quinta em volume financeiro, movimentando 20 milhões de reais, em 2012.

Para o grupo Solo, a Bahia é a grande fornecedora para o ETSP, com 70% do volume total em 2012; o Espírito Santo vem logo a seguir com 26%, e o restante é distribuído entre vários Estados. Uma característica marcante da comercialização no ETSP é a preferência pela ‘Sunrise’ e suas variações como a ‘BS’ (Benedito So- ares), em detrimento da ‘Golden’. Apesar de a ‘Golden’ ter melhor resistência pós- colheita e menor ocorrência de manchas fisiológicas, o sabor da ‘Sunrise’ é muito superior, e grande parte dos varejistas paulistanos, como feirantes, hortifrutis e ambulantes, que possuem contato muito próximo com o consumidor, constatam que este rejeita a ‘Golden’, pela maior firmeza e menor conteúdo de açúcares da polpa.

Na comercialização de mamão do grupo Formosa, há uma inversão com o Espírito Santo como principal abastecedor, com 22,67 mil toneladas ou 40,2% do total, e a Bahia participou com 15,7 toneladas ou 27,8%. Os envios capixabas saem quase todos dos municípios de Pinheiros, São Mateus e Montanha. É no grupo Formosa que se observa rápida mudança do modelo de comercialização do mamão. Em 2012, 132 municípios enviaram mamões Formosa ao ETSP, mas os dez maiores foram responsáveis por 69% do total. No Quadro 4, observa-se um grande crescimento na produção dos municípios do Oeste Baia- no, de Baraúna no Rio Grande do Norte e de Jaíba no Norte de Minas, município que não registrou nenhuma entrada em 2007, e em 2012, enviou 8.505 toneladas. Ao mesmo tempo, constata-se queda no envio de mamão por Montanha, ES. Os produtores desses municípios emergentes na produção de mamão Formosa trabalham de maneira totalmente distinta da maioria dos produtores capixabas.

EMBALAGENS E TRANSPORTE

Enquanto a maior parte das cargas do Espírito Santo chega à Ceagesp com os fru- tos a granel, na carroceria dos caminhões, os produtores das novas áreas colhem frutos mais maduros, classificam e em- balam na origem. Muitos utilizam caixas de papelão ondulado, bastante atrativas, caixas de plástico sanitizáveis (Fig. 1A), ou mesmo caixas de madeira com frutos protegidos por papel (Fig. 1B), ou por rede de poliuretano, etiquetados com a marca do produtor (Fig. 1A). É sabido que o fruto do mamoeiro, por ser climatérico, é capaz de amadurecer a partir do momento em que as sementes estão negras. No entanto, se o fruto permanecer no mamoeiro continuará o acúmulo de açúcares e o sabor final do fruto maduro será muito melhor. Esta colheita de frutos mantidos na planta por mais tempo só é possível se forem comercializa- dos em embalagens, já que se tornam mais macios e sujeitos a danos, o que inviabiliza o transporte a granel.

O arcaico sistema de transporte a gra- nel exige colheita de frutos ainda com a casca totalmente verde e polpa bem firme, portanto, quando ainda acumulam menor quantidade de açúcares. Estes frutos terão sabor pouco pronunciado, quando maduros. Já aqueles colhidos mais maduros e que começam a mudar a coloração, tendo pelo menos duas listras amarelas, são muito mais saborosos quando totalmente maduros e, sendo identificados com marca, são reconhecidos como produto superior pelos varejistas e consumidores. Dessa forma, concluem que vale mais adquirir um produto que, apesar de bem mais caro, é ca- paz de proporcionar muito mais satisfação. Em geral, os mamões embalados na origem conseguem valor de venda entre 50% e 100% acima dos que chegam a granel e são embalados no entreposto. Esta é uma tendência geral para o mercado de frutas e hortaliças, e quem embala na origem vem ganhando terreno rapidamente.

Um caminhão de mamão Formosa a granel demora mais de seis horas para ser descarregado, ocupando espaço no entreposto, e são normais perdas da carga próximas de 20%. A descarga de mamão Formosa é, sem dúvida, a maior geradora de lixo no ETSP.

No grupo Solo, o domínio é quase que total dos municípios baianos e capixabas da faixa litorânea do norte do Espírito Santo e extremo sul da Bahia (Quadro 5). Vários produtores dessa região, alguns também atacadistas no ETSP, estão começando a trabalhar com embalagens de papelão ondulado do mesmo modo que os produtores de Formosa do Oeste Baiano e do Rio Grande do Norte.

Figura 1 - Frutos embalados em caixas procedentes da Brasnica - Janaúba, MG

NOTA: Figura 1A - Frutos embalados em caixas de plástico e protegidos com rede de poliuretano. Figura 1B - Frutos embalados em caixas de madeira e protegidos com papel.

QUALIDADE DO MAMÃO

A observação diária do mercado indica que os produtores de frutas e hortaliças de maior sucesso são os que criam uma marca e a associam com alta qualidade. E, sem dúvida, um ótimo sabor e a adequação ao uso são as principais caracte- rísticas qualitativas e as mais importantes para todos os tipos de consumidores (ABBOT,1999). Nenhum consumidor deseja consumir fruta ou hortaliça colhida precocemente ou tardiamente, ainda ácida ou já passada, seca ou fibrosa. Quando o consumidor associa uma marca, selo ou embalagem a um produto de ótimo sabor, este torna-se predileto. O fruto com esse padrão de qualidade, colhido no momen- to certo, e embalado, comporta outros cuidados adicionais. Uma vez que serão associados a uma marca, e a embalagem permite colheita de frutos maduros, muitos produtores estão investindo em casas de embalagem, onde são lavados (Fig. 2A), classificados e embalados (Fig. 2B), e, posteriormente, transporta- dos em caminhões frigorificados.

A parcela mais informada da população tem grande preocupação com a segurança dos alimentos, no que se refere a resíduos de agrotóxicos e contamina- ções por microrganismos causadores de doenças. Alguns consumidores exigem também condições sociais e ambientais de produção totalmente dentro da conformidade. A Produção Integrada de Mamão (PI Mamão) é um ótimo caminho para atender a estes anseios dos consumidores.

Constata-se que os produtores de frutas e hortaliças bem-sucedidos no mercado interno atendem a alguns requisitos:

a) conhecimento das características qualitativas responsáveis por melhor aceitação pelo consumidor final e pelo mercado atacadista. De acordo com levantamentos feitos pelo Instituto Brasileiro de Qualidade em Horticultura (HORTIBRASIL, 2011), os fatores mais importantes para a melhor aceitação do consumidor de mamão são: em primeiro lugar, o óti- mo sabor, com adequado conteúdo de açúcares, bom aspecto de casca e boa durabilidade na pós-colheita. O consumidor não aceita perder frutas por doenças como antracnose e as podridões-de-pedúnculo;

b) plantio em região com características climáticas adequadas e adoção de sistema de produção que resulte em frutos com padrão de qualidade desejado;

c) associação do nome do produtor ou de sua marca a um produto de alta qualidade. É importante que os compradores do varejo e os consumido- res tenham referência para voltar ao produto de alta qualidade, como já acontece com as grandes marcas da indústria. Para isso, o produtor ou comerciante necessita lançar mão de embalagens diferenciadas, como caixas com impressões atraentes e embalagens individuais para os frutos, de modo que o consumidor possa associar o visual à alta qualidade, principalmente em termos de sabor;

d) dispor de um sistema de informação que permita visualizar constante- mente as diferenças de preços de diversas qualidades de produto e de base para negociações mais justas e que a melhor qualidade possa ser grande variação das suas caracte- rísticas qualitativas e outros valores que podem ser adicionados, como, por exemplo, o tipo de sistema de produção, não podem ser consideradas commodities. A formação dos preços de comercialização não pode ser explicada unicamente pela oferta e demanda. Muitas vezes, em um único dia de comercialização, ocorre grande diferença no preço de produtos da mesma variedade e ta- manho, determinada pela qualidade entre estes;

e) ter um agente confiável no mercado de destino, que seja responsável por passar ao produtor informações precisas sobre o andamento da comercialização.

A determinação dos preços finais de comercialização do mamão é uma complexa combinação de oferta, demanda, cultivar, tamanho do fruto, qualidade e apresentação do produto

Figura 2 - Frutos em casas de embalagem na Brasnica - Janaúba, MG

NOTA: Figura 2A - Frutos lavados. Figura 2B - Frutos classificados e embalados.



quinta-feira, 12 de agosto de 2021

Tutoramento das Pitayas


 Tutoramento das mudas 

Mouco ([200-?]) define o tutoramento como a condução do caule da planta para um crescimento vertical, de forma a evitar a ação danosa dos ventos na instalação da mudas. Segundo Bacher (2010), no caso das pitaias, o procedimento pode ser realizado com mourões de madeira tratada, postes de concreto e até caules de frutíferas (ex. tangerineiras, laranjeiras, etc.) que depois de serem podados podem ser usados para tutoramento. 

Pode ser utilizado um tutor para cada 1 ou 2 mudas, espaçadas 3 metros entre elas e 4 metros as ruas. Quando plantada para fins domésticos, a pitaia pode ser plantada em caules de árvores, de preferência de porte baixo para não dificultar na hora da colheita. Alguns produtores utilizam quadros de madeira fixados no ápice dos mourões para um melhor tutoramento. Apesar de aumentar um pouco mais o trabalho, apresenta melhores resultados (BACHER, 2010). 

Por sem uma planta trepadeira, Moreira et al. (2012) explica que o tutoramento da muda da pitaia deve ser feito com um mourão de aproximadamente 1,80 m de altura. Além disso, é recomendável que na extremidade desse mourão coloque-se uma trave ou qualquer outro tipo de suporte para sustentação das brotações produtivas. Para facilitar o crescimento da planta, e o sentido do mourão, é recomendado fazer a amarração com barbante no mourão. 


No Brasil, os usos mais comuns são de mourões de madeira (Figura 4) ou concreto.

A pitaia é encontrada em florestas tropicais da América Latina em condições de “meia sombra”, ou seja, em condições de sub-bosque. Alguns autores (CAVALCANTE, 2008; MORITZ, 2012; SILVA, 2014) apontam que o sombreamento é necessário para evitar que os ramos sofram danos causados pela insolação direta e para proporcionar uma maior taxa de frutificação. Essa recomendação para a região Sul do Brasil é bastante incipiente e deve ser melhor estudada, especialmente por estar localizada distante da Linha do Equador.

Apesar disso, a necessidade de tutoramento, aliada ao possível sombreamento parcial, apresenta potencialidades no cultivo da pitaia, como em sistemas agroflorestais (SAFs) com tutores vivos. 

Cultivo da pitaia em tutores vivos


O manejo da copa das plantas que podem servir de tutoramento propicia a abertura dos galhos e uma maior incidência de radiação solar, sendo possível utilizar os resíduos das podas como adubação ao redor das plantas de pitaia. Isso garante uma boa cobertura do solo, a decomposição e a incorporação de matéria orgânica e um favorecimento aos microrganismos edáficos, promovendo assim uma ciclagem de nutrientes em um sistema que pode ser considerado sustentável.

É recomendada a condução das mudas de pitaia em haste única, o que contribui para o seu rápido desenvolvimento (MARQUES, 2008). Essa forma de condução pode ser feita eliminando-se as brotações laterais por meio de podas,

deixando-se apenas as brotações mais bem localizadas no sentido vertical. Esses ramos podados podem ser utilizados para propagação de novas mudas.

Após atingirem a altura para abertura da copa, previamente definido de acordo com o tutoramento e a condução (Figura 4), deve-se favorecer o surgimento das brotações laterais, as quais originarão os frutos, pelo arqueamento dos ramos.

Figura 4. Tutoramento de pitaia com mourões de madeira.





quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Adubação da Pitaya

Os solos que oferecem melhores condições para o desenvolvimento das plantas possuem pH entre 5,5 e 6,5, são não compactados, ricos em matéria orgânica, bem drenados e de textura bem solta (LIMA, 2013). A adubação orgânica confere boas respostas ao solo e às plantas, especialmente pela liberação lenta de nutrientes e incorporação de matéria orgânica no sistema, melhorando as qualidades químicas, físicas e biológicas, evitando também a lixiviação de nutrientes e a salinização do solo. Além disso, a utilização de fontes alternativas de nutrientes pode minimizar os custos com boas perspectivas de produtividade para a pitaia (MARQUES et al., 2012).

Em um estudo conduzido por Cavalcante (2008), concluiu-se que o fornecimento de 20L cova-1 de esterco bovino promove um crescimento da parte aérea em função do melhor desenvolvimento do sistema radicular.

Após o plantio, pode-se utilizar essa quantidade de esterco nas fases de desenvolvimento e frutificação da cultura.

Essa prática de adubação orgânica pelo uso de esterco contribui para a incorporação de matéria orgânica no solo em diferentes momentos, favorecendo as condições biológicas do solo e a absorção de nutrientes pelas raízes da planta, especialmente por estas terem característica fasciculada e de desenvolvimento em pequenas profundidades.

Por ser uma planta que apresenta hábito escandente, a pitaia necessita de tutoramento (SILVA, 2014), o que pode ser feito de diversas formas. Conforme Lima (2013), podem ser usados mourões de madeira, postes de concreto e até caules de outras plantas (Figura 3), que podem ser usados depois de podados.

Abertura da Cova.

A abertura das covas pode ser feita com sulcador, broca mecânica ou manualmente, quando o número de plantas é pequeno, com dimensão mínima de 60 x 60 x 60 cm. Na abertura manual da cova, tradicional na região Sul de Minas, deve obedecer à separação do solo da superfície e do fundo da cova (Figura7). O preparo da cova deve anteceder o plantio, com no mínimo 60 dias.

Preparo das covas

A adubação deve ser feita obedecendo aos resultados da análise de solo e às necessidades da cultura. Para assegurar um bom desenvolvimento da planta, recomenda-se a utilização de matéria orgânica (20 L de esterco de curral), calcário dolomítico (500 g) e adubação química com 300g de superfosfato simples e micronutrientes (50g de FTE BR 12) por cova.

Deve-se, no enchimento da cova, inverter a ordem de retirada do solo e misturar a terra de superfície com a adubação orgânica e o calcário (Figura 8). Depois do fechamento da cova, deve ser colocada uma estaca para demarcação do centro de cova para o futuro plantio, após 60 dias.