quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Clima para o Mamoeiro

 

Resumo - O cultivo do mamoeiro é uma das principais atividades na cadeia nacional de produção de frutas, sendo importante base econômica em várias regiões produtoras.

Para obter alta produtividade e gerar emprego e renda, é fundamental atentar às exigências edafoclimáticas dessa cultura. A planta é oriunda de regiões tropicais, e, com isso, a insolação, a temperatura e a umidade, nas medidas certas, estimuladas por latitude, altitude e precipitação pluviométrica, favorecem o crescimento, a floração e a produção de frutos. Porém, condições extremas – insuficiência ou excessiva ação desses fatores climáticos – são deletérios ao cultivo, na medida em que minimizam a capacidade produtiva da planta. Esta, pela sua morfologia, em especial a ausência de um caule lenhoso e a presença de folhas largas, está sujeita à ação de ventos fortes, sendo necessária a disposição de quebra-ventos. O solo deve ter boa porosidade, capacidade de retenção de água e de nutrientes. Pela sensibilidade das raízes ao excesso de umidade, devem-se evitar solos com camadas adensadas ou compactadas e, se necessário, dispor o plantio em camalhões.

Palavras-chave: Mamão. Carica papaya. Clima tropical. Produção de frutos. Fatores climáticos.

O mamoeiro é uma planta tipicamente tropical e pode adaptar-se ao clima subtropical e produzir em climas temperados.

Portanto, em todo o território brasileiro existem regiões em condições favoráveis ao seu cultivo, para que obtenha um bom desenvolvimento das plantas e produza frutos de qualidade. Dentre essas condições, citam-se: implantação da cultura em áreas ensolaradas e com altas temperaturas, baixas altitudes, precipitações pluviais bem distribuídas e pouco sujeitas a ventos fortes. O solo também merece atenção especial. Deve-se dar prioridade aos solos férteis e bem drenados.

TEMPERATURA

A cultura do mamoeiro está difundida em regiões que apresentam clima tropical e pluviosidade elevada, sendo também cultivada comercialmente em algumas regiões de clima subtropical até latitudes de 32º norte ou sul.

Por ser uma planta tipicamente tropical, o mamoeiro apresenta crescimento regular e produz frutos de boa qualidade em regiões de alta insolação.

A temperatura média ideal para essa cultura situa-se entre 22 ºC e 28 ºC, com a média anual ótima para o desenvolvimento da cultura em torno dos 25 ºC. O desenvolvimento da cultura, sobretudo a formação de flores e de frutos, é influenciado por esse fator climático.Quando há temperaturas médias acima de 30 ºC, o mamoeiro apresenta distúrbios fisiológicos, com redução na fotossíntese, alterações na polinização e na fecundação das flores, com consequente redução na produção de frutos. Em locais com temperatura média entre 18 ºC e 21 ºC, há sensível prejuízo na produção, maturação lenta dos frutos e redução no conteúdo de açúcares, tornando-os menos saborosos, com polpa insípida e de coloração pálida ao estudarem o efeito da temperatura do ar e de diferentes lâminas de irrigação (8%, 48%, 80%, 112% e 152% da evapotranspiração de referência (ETo)) no índice de floração e no pegamento de frutos do mamoeiro, em Cruz das Almas, BA, concluíram que a irrigação reduz os efeitos negativos das altas temperaturas na floração do mamoeiro.

Esses autores verificaram que a lâmina equivalente à reposição de 152% da ETo foi suficiente para garantir a floração em condições de temperatura acima de 28 ºC e umidade relativa (UR) de 60%, situação esta crítica para a floração do mamoeiro.

A temperatura média inferior a 15 ºC é inadequada para o cultivo do mamoeiro.

Em locais de maior altitude e/ou mais frios, há maior incidência de formação de frutos defeituosos, conhecidos como carpeloides ou “cara-de-gato” Além disso, o mamoeiro perde a maioria de suas folhas, restando apenas as terminais, seus frutos ficam expostos à queimadura do sol e tornam-se inaproveitáveis para a comercialização.

ALTITUDE

O cultivo do mamoeiro é favorecido em altitudes de até 200 m, embora a planta produza bem em locais mais elevados e com temperaturas mais baixas. Nessas condições, o vigor da planta e a qualidade dos frutos são inferiores aos dos mamoeiros produzidos nas regiões mais quentes. A temperatura, estimulada pelo efeito da altitude, exerce influência no desenvolvimento da cultura, sobretudo na formação de flores e de frutos. 

A formação de flores imperfeitas está relacionada com fatores genéticos, afetados por fatores ambientais. As plantas hermafroditas são sensíveis às pequenas variações ambientais. Aqueles locais com maior altitude e menor temperatura mínima favorecem a produção de frutos carpeloides.

Da mesma forma, condições de alta umidade, altos teores de nitrogênio (N) e de água no solo propiciam mudança no sexo das flores, de hermafroditas para femininas, produzindo frutos de baixo valor comercial.

PLUVIOSIDADE

Por ser um fruto muito rico em água, o mamoeiro exige, tanto no período de crescimento, quanto no período de produção, um bom suprimento hídrico no solo, sendo necessárias precipitações não inferiores a 1.200 mm anuais. As precipitações variáveis de 1.800 a 2.000 mm anuais e bem distribuídas são consideradas ideais para o bom desenvolvimento da cultura, devendo, se necessário, considerar a suplementação de água mediante irrigação.

A exigência de umidade para o mamoeiro varia de acordo com a idade das plantas. Por apresentarem rápido crescimento vegetativo, as plantas mais novas necessitam de mais umidade. Já aquelas mais velhas requerem menos umidade, por apresentarem crescimento vegetativo mais lento e por possuírem sistema radicular mais extenso, o que favorece a absorção da umidade disponível a uma maior profundidade do solo.

O mamoeiro consome em média 18 litros de água por dia, em evapotranspiração de, aproximadamente, 3,5 mm/dia em regiões sem precipitação bem distribuída e/ou com longos períodos de estiagem, o mamoeiro deve ser irrigado, visando maior produção e escalonamento da colheita. Há necessidade de suplementação hídrica, por meio de irrigações complementares às chuvas, em locais com precipitações mensais inferiores a 100-150 mm.

A cultura do mamão é sensível tanto ao excesso quanto à falta de água. O excesso afeta o desenvolvimento do mamoeiro, causando o apodrecimento das raízes, e, com isso, a morte destas em 48 horas. Por outro lado, a deficiência hídrica reduz o crescimento das plantas e, se ocorrer no período de floração, favorece a produção de flores masculinas e estéreis, além de induzir à formação de novas folhas nas axilas de onde deveriam sair os frutos, paralisando, assim, a frutificação, com consequente diminuição da produção.

UMIDADE RELATIVA

A UR do ar, entre 60% e 85%, é a mais favorável ao desenvolvimento dessa planta acima do limite anteriormente indicado, associada ao excesso de chuva, prejudica a fertilização e fixação dos frutos, além de diminuir a sua qualidade.

As doenças do mamoeiro constituem outro fator a ser considerado, quando as plantas são cultivadas com excesso de umidade. Destaca-se a antracnose, doença favorecida por temperaturas próximas a 28 ºC e UR superior a 95%, enquanto a varíola ou a pinta-preta desenvolve-se com maior frequência de chuvas.

VENTO

O mamoeiro é muito sensível a ventos frios. A morfologia da planta, considerando características como folhas largas, caule herbáceo e alto, carregado de frutos pesados, torna-a vulnerável à ação de ventos fortes. Tais ventos promovem fendilhamento e queda das folhas, reduzindo a área foliar da planta e, consequentemente, a capacidade fotossintética, além de expor os frutos aos raios solares, sujeitando-os a queimaduras. Os ventos, se mais fortes, elevam a queda de flores e frutos, principalmente nas plantas em fase de produção. Para minimizar tal efeito é necessário o plantio de quebra-ventos.



segunda-feira, 27 de setembro de 2021

VARIEDADES DE MAMÃO


 

VARIEDADES

Como a maioria das sementes das variedades utilizadas nas regiões produtoras de mamão é proveniente de frutos de polinização livre, sem controle efetivo da polinização, as cultivares sofrem variações em suas descendências, causando descaracterização desses genótipos e comprometendo a qualidade das lavouras.

Conforme o tamanho e a origem dos frutos, os mamoeiros ginoico-andromonoicos (hermafroditas) podem ser classificados em dois grupos distintos: o grupo Solo e o grupo Formosa. As variedades do grupo Solo são representadas por linhagens, enquanto os genótipos comerciais do grupo Formosa correspondem a híbridos F1.

Apesar das vantagens inerentes ao cultivo do mamoeiro, foi somente a partir de 1973 que a cultura  retomou sua importância econômica para o Brasil, em virtude da introdução de híbridos F1 do grupo Formosa e, principalmente, de linhagens do grupo Solo, notadamente nos estados do Pará, Espírito Santo e Bahia. Esse material teve rápida aceitação pelos consumidores e, por apresentar características que se adaptam às exigências do mercado internacional, abriu novo e importante mercado externo para o Brasil (DANTAS et al., 2011).

Genótipos do grupo Solo

As variedades do grupo Solo ‘Improved Sunrise Solo Line 72/12’, ‘Baixinho de Santa Amália’, ‘Taiwan’, ‘Kapoho Solo’, ‘Waimanalo’ e ‘Higgins’ já foram amplamente plantadas no Brasil. Atualmente, a maior concentração de plantios tem sido com as variedades Sunrise Solo e Golden:

a) ‘Sunrise Solo’: inicia a floração aos três ou quatro meses de idade, com altura de inserção das primeiras flores que variam de 70 a 80 cm. Planta precoce, inicia a produção oito a dez meses após o plantio, com produtividade média de 45 t/ha/ano. Frutos de casca lisa e firme, com polpa vermelho-alaranjada, de boa qualidade, de tamanho pequeno, com peso médio de 500 g, piriforme a ovalado e cavidade interna estrelada;

b) ‘Golden’: possui frutos hermafroditos, piriformes, de polpa rosa salmão, cavidade interna estrelada (Fig. 2), casca lisa, tamanho uniforme, com peso médio de 450 g e excelente aspecto visual. No estádio verde, apresenta cor da casca verde mais claro (Fig. 3) que a variedade Sunrise Solo. Tem boa aceitação no mercado internacional, porém com teor de sólidos solúveis dos frutos e produtividade inferiores aos do ‘Sunrise Solo’.

Como as lavouras de mamoeiro são de polinização livre e a produção de sementes para os plantios é feita por meio de seleção de plantas, com características superiores dentro das áreas de produção comercial, os produtores rurais e as empresas de produção de sementes, que fazem esse trabalho de seleção, na região Norte do Espírito Santo, vão denominando essas seleções, conforme a localização da propriedade, o nome do produtor rural, entre outros.

Por isso, estão disponíveis no mercado de sementes das seleções: ‘Sunrise Solo BS’, ‘Golden THB’ e ‘Aliança Solo’, as quais apresentam bom desenvolvimento vegetativo e qualidade de frutos que atendem às exigências do mercado consumidor.

Figura 2 - Aspecto da polpa e formato da cavidade interna de frutos de mamoeiro ‘Golden’

Figura 3 - Frutos de mamoeiro ‘Golden’ em condições de comercialização

Genótipos do grupo

Formosa

Os genótipos do grupo Formosa apresentam frutos de peso médio de 800 a 1.100 g. Dentre os híbridos comerciais esse grupo, o mais cultivado no Brasil é  ‘Tainung 1’, importado de Kaohsiung Taiwan), por US$ 3,500 a 4,000/kg da semente. O custo alto da semente incentiva s produtores brasileiros a utilizarem as próprias sementes dos híbridos nas gerações 2, F3, F4 etc., o que leva à perda das Características do híbrido original, produzindo frutos com qualidade inferior e fora o padrão comercial (COSTA; PACOVA, 2003), como a seguir: a) ‘Tainung 1’: plantas relativamente ais altas. Os frutos são alongados, as plantas hermafroditas Fig. 4) e oblongo-obovados (redondo-Angados), nas femininas. or da polpa vermelho laranjada.

O peso dos frutos varia de 900 a .100 g, tem ótimo sabor, possui oa durabilidade e resistência ao transporte. Plantas vigorosas, com altura média aos oito meses após o plantio de 1,65 m. Textura firme e 0,8 ºBrix. Com uma produtividade édia em torno de 180 t/ha/ano, em grande aceitação no mercado interno;

b) ‘Calimosa’ (Uenf/Caliman 01): primeiro híbrido nacional de mamão, om plantas que atingem altura Media de 2 m. Frutos com peso édio de 1.250 g; polpa vermelho alaranjada.

Fruto de formato

ovoide, casca fina, com polpa de roma intermediário, com elevada uniformidade e padrão de frutos. Plantas vigorosas, com altura média os oito meses após o plantio de ,76 m. Textura firme e 12 ºBrix. Boa produtividade, em torno de 30 t/ha/ano;

c) ‘Rubi Incaper 511’: frutos com boas características comerciais (Fig. 5), omo peso, tamanho, consistência da polpa, com cor e sabor, similares o ‘Tainung 1’. Peso médio de .500 g, polpa vermelho-alaranjada, Gossa, com espessura média de  cm, o que proporciona bom aproveitamento os frutos. Textura firme e 10,2 °Brix. Plantas vigorosas, com altura média aos oito meses após  plantio de 1,64 m (Fig. 6). Boa produtividade, se bem conduzida, a Variedade pode render 170 t/ha/ano.

A grande vantagem é a possibilidade e reutilização das sementes da própria lavoura em até três novos plantios, o que reduz a dependência de utilização de sementes importadas.

Figura 4 - Fruto originário de flor hermafrodita de ‘ Tainung 1’

Figura 5 - Fruto da variedade Rubi Incaper 511

Figura 6 - Variedade Rubi Incaper 511 aos oito meses após o plantio




terça-feira, 7 de setembro de 2021

BOTÂNICA DO MAMOEIRO


 

ASPECTOS TAXONÔMICOS

O mamoeiro (Carica papaya L.) representa uma espécie isolada, que divergiu dos seus parentes próximos há, aproximadamente, 25 milhões de anos. Admite-se que seu centro de origem seja o noroeste da América do Sul, onde se originam também outros gêneros da família Caricaceae, concentrados principalmente na vertente oriental dos Andes, com diversidade genética máxima na Bacia Amazônica Superior. O mamoeiro é caracterizado como uma planta tipicamente tropical (BADILLO, 1971).

A espécie Carica papaya L. pertence à classe Dicotyledoneae, subclasse Archichlamydeae, ordem Violales, subordem Caricineae, família Caricaceae e gênero Carica (BADILLO, 1971). A diferenciação das espécies da família Caricaceae baseia-se na variabilidade genética das folhas, inflorescências, flores, frutos e sementes. Segundo Storey (1941), o genoma básico do gênero Carica é n = 9 cromossomos, ou 2n = 18, para a fase diploide.

A família Caricaceae abrange os gêneros Carica, Horovitzia, Jarilla, Jaracatia, Vasconcellea e Cylicomorpha, cuja distribuição é anfi-Atlântica, com duas espécies na África Tropical e, 33, na América Central e na América do Sul (DROOGENBROECK et al., 2002; CARVALHO; RENNER, 2012). Dois gêneros são monotipos Carica (C. papaya) e Horovitzia (H. cnidoscoloides), endêmico no México. As oito espécies do gênero Jacaratia ocorrem do sul do Brasil ao México, e as três do gênero Jarilla são arbustos perenes presentes no México e na Guatemala. O gênero Vasconcellea compõe-se de 20 espécies, sendo 19 arbóreas ou arbustivas e uma trepadeira (CARVALHO; RENNER, 2012), originárias do continente americano. Já as duas espécies do gênero Cylicomorpha são árvores de grande porte, C. solmsii nativa na África Ocidental e C. parviflora, na África Oriental (DROOGENBROECK et al., 2004).

O gênero Vasconcellea é o mais importante em recursos genéticos, pois possui resistência a doenças. Por outro lado, a espécie C. papaya, única conhecida comercialmente, não apresenta tanta resistência a doenças (OLIVEIRA; DANTAS; CASTELLEN, 2007). Estuda-se a resistência a doenças, especialmente às viroses, como o vírus-do-mosaico-do-mamoeiro, que visa incorporar genes de resistência ao germoplasma de C. papaya.

Características botânicas e comerciais, da planta e dos frutos, importantes para a cultura do mamão, podem ser aproveitadas, seja em métodos que utilizam autopolinizações, uma vez que estas comprovadamente não levam à perda de vigor, seja em hibridações entre genótipos pré-selecionados (variedades e linhagens), seguidas de seleção, autofecundação e retrocruzamentos (STOREY, 1941), utilizando-se, também, a biotecnologia. O melhoramento genético pode contribuir para aumentar a produtividade e a qualidade de frutos e, atender às exigências dos mercados, nacional e internacional, incrementar a rentabilidade do produtor e seu nível socioeconômico.

Flor Feminina e Flor Hermafrodita