segunda-feira, 31 de julho de 2017

Coeficientes técnicos e custos de produção do coco



O conhecimento dos custos de produção e da rentabilidade da cultura é de fundamental importância para auxiliar o agricultor na tomada de decisões em relação à implantação da cultura do coqueiro. A rigor, não há um custo de produção que possa ser generalizado para todas as regiões, devido à desuniformidade das condições de solo, relevo, clima, e dos níveis de manejo adotados, bem como os custos dos insumos nas diversas regiões.
Para realizar a análise dos custos por hectare da cocoicultura irrigada, utiliza-se uma planilha de coeficientes técnicos e os preços dos fatores utilizados na região do empreendimento.
Geralmente, no plantio do coqueiro anão, utiliza-se o espaçamento 7,5m x 7,5m e no coqueiro híbrido 8,5 x 8,5 x 8,5m de preferência, em ambos os casos, utilizando sistemas de irrigação e plantios em triângulo equilátero, no caso de grandes produtores, e em quadrado para médios e pequenos produtores, pois nesse último caso o coqueiral permitiria o consórcio com outros plantios nos primeiros 4 anos e após o 10° ano (Tabela 1).


Tabela 1: Coeficientes técnicos para o plantio e manutenção de um hectare de coqueiro anão irrigado, no Nordeste, utilizando espaçamento 7,5m x 7,5m (em triângulo equilátero) = 205 plantas/ha.




Ano
Ano
Ano
Ano
Ano
Ano
Ano
Ano
Ano
Ano
Discriminação
Unidade
Preço
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10


Unit.
Quantidade

Valor total dos serviços          621      82      125      152      168       182       196      196    196    196

Desmatam. e enleiramento *
H/M-TP
18,00
10









Destoca *
H/M-TP
18,00
8









Gradagem Pesada *
H/M-TP

3









Gradagem  Niveladora *
H/M-TP

2









Aplicação de calcário
H/M-TP
18,00
1









Aração e gradagem*
H/M-TP
18,00
4









Marcação e Piqueteamento
H/D
7,00
2









Abertura de Covas
H/M-TP
18,00
4









Enchimento de covas
H/D
7,00
3









Plantio e replantio + adubação de fundação
H/D
7,00
3









Roçagem das entrelinhas
H/M-TP
18,00
3
3
1
1
1
1
1
1
1
1
Coroamento (6 vezes)
H/D
7,00
2
2
2
1
1
1
1
1
1
1
Aplicação de fertilizantes de cobertura
H/D
7,00
0,5
1,5
2
2
3
3
3
3
3
3
Aplicação de Herbicidas (2 vezes)
H/M-TP
18,00


3
3
3
3
3
3
3
3
Combate a formiga
H/D
7,00
1
1
1
0
0
0
0
0
0
0
Pulverizações mecânicas
H/M-TP
18,00
0
0
1
1,5
2
2
2
2
2
2
Colheita e limpeza da copa
H/D
7,00
0
0
0
2
2
4
6
6
6
6
Transporte interno(frutos e insumos)
H/M-TP
18,00
0
0
0
1
1
1,0
1
1
1
1

Valor total Insumos                   1123     393       730      955       955      955      955     963      963     963   963

Mudas (Plant/Replant)
um
2,5
215
0
0
0
0
0
0
0
0
0
Formicida (isca)
kg
7,0
2
1
1
0
0
0
0
0
0
0
Inseticida (liq.) dipterex
ml
0,019
43
43
43
284
284
284
284
710
710
710
Herbicidas
lit.
15,00


12
12
12
12
12
12
12
12
Calcário dolomítico
t.
62,50
2
0
0
0
0
0
0
0
0
0
Esterco Bovino
T
4,1
4,1
4,1
4,1
6,15
6,15





Torta de mamona
kg
0,41
615
0
0
0
0
0
0
0
0
0
Uréia**
kg
0,35
273
410
547
683
683
683
683
683
683
683
Superfosfato simples**
kg
0,38
182
228
456
683
683
683
683
683
683
683
Cloreto de potássio**
kg
0,44
212
353
495
707
707
707
707
707
707
707
Fungicidas: Benlate
kg
80,00
0
0
1
1
1
1
1
1
1
1
Bendazol
lit.
60,00
0
0
1
1
1
1
1
1
1
1
CUSTOS FIXOS(Valores em RS$)

Valor
Valor
Valor
Valor
Valor
Valor
Valor
Valor
Valor
Valor
Administração


150
100
250
250
250
250
250
250
250
250
Irrigação (Manut./Amort.)
-
-
400
400
400
400
400
400
400
400
400
400
Juros sobre o cap. invest.
8,5%
 s/cap
195
83
128
149
151
152
153
154
154
154
CUSTO TOTAL ANUAL


2488
1058
1.633
1906
1.923
1939
1954
1963
1963
1963
CUSTO TOTAL ACUMULADO


2488
3.546
5.179
7.086
9.010
10.948
12903
14866
16829
18791
Parti. %  dos custos anuais no total acumul(10 anos)
13%
5%
8%
10%
10%
10%
11%
11%
11%
11%













Abreviaturas utizadas












H/M-TE = Horas máquina - Trator Esteira

H/D = Homens Dia

ml =mililitro


H/M-TP = Horas máquina - Trator de Pneus

kg = kilograma


gr = grama



 * Atividades dispensáveis em certos tipos de solos e coberturas vegetais

Considerando as práticas utilizadas pelos produtores de coqueiro anão irrigado na região Nordeste, constata-se que as despesas totais realizadas no ano 1 chegam a representar, aproximadamente, 13% daquele total. No restante dos anos, a participação dos custos anuais, no total acumulado, é crescente variando de 5%, no ano 2, até os 11%, no ano 7, permanecendo neste percentual ate o fim do período.
Para calcular as receitas brutas acumuladas, utilizam-se os preços médios que estão sendo pagos ao produtor de coco na região e as produções acumuladas nos diferentes anos do plantio, considerando a variação dos preços para obter os diferentes níveis de receitas brutas que o produtor poderia conseguir ou deixar de realizar, tendo em vista as oscilações de preços do produto.



terça-feira, 25 de julho de 2017

Comercialização e Mercados do Coco


Aspectos da comercialização e mercados do coco

Manuel Alberto Gutiérrez Cuenca
Para analisar a comercialização do coco no Brasil, é preciso separá-la em dois segmentos de mercado: o de coco-seco e o de coco-verde.  No mercado do coco-seco, o albúmen sólido (polpa) é utilizado para fins culinários na forma in natura, ou industrializado como coco ralado, leite-de-coco e outros derivados. No mercado do coco-verde, a água-de-coco é predominantemente comercializada na forma in natura ou envasada. Em ambos os segmentos, considera-se dois componentes importantes na composição do custo final do produto, o transporte e o acondicionamento da carga, levando em conta, principalmente, a grande distância entre o Nordeste, principal centro produtor e o Sudeste/Sul percorrida por via terrestre onde as perdas devidas ao deslocamento do produto, acondicionado a granel, são elevadas.

Mercado de coco-seco

Estima-se que 35% da produção brasileira de coco-seco destina-se às agroindústrias nordestinas que produzem o coco-ralado e o leite-de-coco para atendimento da demanda das grandes empresas do Sul/Sudeste; 35% é comercializada diretamente  para atender às pequenas e médias indústrias, a exemplo de docerias, padarias, sorveterias, e os 30% restantes ficam no mercado nordestino para atender ao consumo in natura.
O fornecimento de albúmen sólido para as agroindústrias nacionais, advindo das plantações do coqueiro-gigante, tem declinado ao longo dos últimos anos em função da redução da oferta de matéria-prima. Esta redução resulta em grande parte da falta de investimentos para renovação e/ou recuperação dos coqueirais com idade avançada, fator este responsável pela queda da produtividade observada nos últimos anos; e também devido às constantes importações de coco-ralado desidratado dos países asiáticos, que no passado impactaram negativamente a produção nacional.
Mais recentemente, a situação da produção nacional apresentou aparente melhoria, pois, de acordo com o boletim mensal publicado pelo Sindcoco, com base em informações da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério da Indústria e Comercio Exterior, houve no período de outubro de 2014 a março de 2015, uma trajetória descendente nas importações desse produto passando de 1.502.992 kg para 943.488 kg, respectivamente, o que corresponde a uma queda de 59% do total importado. Esta redução, possivelmente, é atribuída à elevação do preço FOB do coco-ralado de $2,04/kg para $ 2,36 /kg em igual período, e também da retração do consumo.  O preço médio de internação, praticado no período, variou de R$ 10,77/kg a R$14,57/kg do coco-ralado desidratado.

Mercado de coco-verde

Nesse mercado, tradicionalmente, o que se comercializa é o fruto inteiro, ainda verde, tendo como gargalos principais, a perecibilidade do produto, a distância do centro consumidor, o grande volume e peso da carga a ser transportada, os custos e os cuidados do transporte e a sazonalidade da oferta, pois, mesmo o coqueiro tendo produção de frutos contínua, durante todos os meses do ano, o volume comercializado, normalmente, se retrai durante os meses mais frios do ano.
O principal mercado para o coco-verde localiza-se nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Distrito Federal, assim como em todo o litoral nordestino. O maior entrave para atingir esses distantes mercados pelos produtores de coco-verde do Nordeste é o alto custo do transporte, devido ao peso do produto (1,5 a 2,0 kg/fruto) e ao grande volume transportado, considerando que um caminhão com capacidade de 18 toneladas transporta apenas 7.000 frutos ocasionando uma perda de capacidade de transporte em torno de cinco toneladas por viagem. Estudo sobre a comercialização do coco em Petrolina, PE, constatou que o custo do frete daquele local até São Paulo em 1997 era de R$ 0,12/fruto. Mais recentemente, segundo informações de produtores sergipanos o custo de transporte de Aracaju a São Paulo, em 2014, gira em torno de R$0,40/fruto.
Com a dinamização do mercado e a expansão da cultura na região Sudeste, a demanda do Sul/Sudeste por água-de-coco começou a ser atendida pela produção local das áreas implantadas, no final dos anos 80 e em toda a década de noventa, com a cultivar de coqueiro-anão-verde, por ser esta mais precoce, mais produtiva (produção média de 150 frutos por planta ano-1) e ter a água com um sabor mais agradável ao gosto do consumidor.
O comércio do coco-verde possui características que afetam diretamente a comercialização, tais como:
  • Perecibilidade do fruto – em pesquisas realizadas junto a vendedores varejistas de coco-verde, constatou-se que as perdas na comercialização chegam a 8% do total de frutos entre a produção e a venda ao consumidor final.
  • Aparência do fruto – fator decisivo para aceitação do consumidor, principalmente, no consumo in natura. As condições a que são submetidos os frutos durante o transporte pode ocasionar manchas escuras na superfície da casca, fazendo o consumidor pensar que o produto não está mais apto para o consumo.
  • Sazonalidade da oferta – mesmo havendo produção de frutos durante todos os meses do ano, o volume comercializado se retrai durante os meses mais frios, entre abril e agosto, aumentando, entre outubro a dezembro, conforme estatísticas da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo - CEAGESP. Pesquisa realizada no estado do Rio de Janeiro mostrou que as estações climáticas definem a intensidade do consumo, sendo de 56% no verão; 19% no outono e primavera; e apenas 6% no inverno. A retração no consumo também é influenciada pelas férias escolares e período de verão no Sudeste do Brasil.
  • Distância entre a área de produção em relação ao centro consumidor – os principais mercados produtores se concentram na região Nordeste, e os consumidores nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Distrito Federal.
  • Cuidados no transporte – o coco-verde é transportado a granel ou no cacho. No primeiro caso, as espiguetas são cortadas evitando-se danos na superfície dos frutos, e consequentes problemas na comercialização.

Canais de comercialização

A margem de lucro obtida pelos diferentes elos da cadeia produtiva é afetada pelos mecanismos de comercialização, pelo grau de intermediação e pelo número de agentes que participam da cadeia produtiva. Apesar do curto período entre a colheita e o consumo, o produto, à exceção do que vai para a indústria, é objeto de até quatro transações comerciais antes de ser entregue ao consumidor, o que eleva consideravelmente o preço final, deixando sempre o produtor com a menor participação e o grande intermediário com a maior porcentagem de lucro. 
A produção de coco no Nordeste depende, em grande parte, dos pequenos e médios produtores, que fazem parte de uma frágil organização na comercialização da produção, o que acarreta alta vulnerabilidade às ações dos intermediários, que no processo são os que retêm o maior percentual da margem de lucro.
Na cadeia produtiva do coco, os pequenos e grandes atacadistas/intermediários são agentes que atuam na comercialização, como compradores e vendedores de coco-verde e coco-seco. Em geral, os pequenos atacadistas/intermediários atuam na sede do município produtor e transportam o coco-seco em pequenos caminhões, e os grandes, ao contrário, atuam nos grandes centros urbanos, tendo como diferencial a capacidade de estocar e transportar grandes volumes, além de maior acesso à informação de preços e demanda do produto no país. Parte da produção intermediada no Nordeste se destina às indústrias processadoras de alimentos da região e o restante ao mercado in natura local e à CEAGESP, maior centro de comercialização do Sudeste brasileiro. Da CEAGESP, o coco-seco in natura é destinado para comercialização nas demais Ceasas dos Estados do Sul/Sudeste/Centro Oeste.
Nas indústrias do Nordeste o coco-seco é processado em leite-de-coco, coco-ralado, farinha-de-coco. Parte destes produtos são comercializados para consumo final, por meio das grandes redes de atacado e varejo do país e a outra parte, à granel, com as grandes indústrias de alimentos do Sudeste.
Na comercialização do coco-verde predomina o mercado do produto in natura por meio das Ceasas, feiras livres, mercados municipais, quiosques, mercearias, e indústrias de grande e pequeno porte de envasamento de água-de-coco.
Participam como agentes importantes nesse elo da cadeia produtiva os trabalhadores envolvidos na armazenagem, limpeza, segurança, transporte (motoristas) etc., que auxiliam ou complementam as atividades das distribuidoras.
Alguns produtores médios e grandes também atuam como intermediários, comprando e concentrando consideráveis quantidades de coco-seco, para posterior revenda a outros intermediários ou diretamente à indústria, se favorecendo da lucratividade obtida na comercialização.
As Ceasas criadas para melhorar a estrutura de comercialização de produtos hortifrutigranjeiros no País não foram capazes de eliminar a forte presença dos intermediários no comércio de coco.

Sazonalidade dos preços do coco-seco e do coco-verde no Brasil

O conhecimento do comportamento sazonal dos preços ao longo do tempo é de fundamental importância para que produtores e demais agentes da cadeia produtiva possam melhor entender a sinalização das forças de mercado, determinantes da oferta e da demanda do produto.
No Nordeste, região fornecedora de mais de 90% do coco-seco comercializado no país, normalmente, a oferta e a demanda de coco-seco diminuem nos meses chuvosos sendo a oferta menor que a demanda, o que faz com que os preços apresentem uma tendência à alta. Nos meses mais secos do ano, a oferta e a demanda melhoram, sendo que a oferta mostra-se levemente superior à demanda, provocando no preço uma tendência à baixa. Com relação ao mercado do coco-verde, considera-se este altamente influenciado pelo consumo in natura. A oferta e a demanda são maiores no período de outubro a março, período coincidente com as férias escolares e maior afluência de turismo no litoral brasileiro, o que provoca uma tendência crescente nos preços. Em contrapartida, a oferta e a demanda diminuem no período de abril a setembro, período das chuvas, e, devido à oferta no período ser maior que a demanda, o produto apresenta preços com tendência decrescente. 
No Sudeste, observa-se na CEAGESP, principal centro de comercialização do país, que a época de melhores preços para o coco-seco ocorre entre junho e outubro, período em que, devido à estação chuvosa, a oferta do produto se retrai na região Nordeste. No mercado paulista, a sazonalidade dos preços do coco-verde apresenta tendência crescente a partir de novembro atingindo seu máximo no mês de março. Em Belo Horizonte, os maiores preços de coco-verde são registrados em fevereiro, que decrescem a seguir, atingindo o valor mínimo em dezembro. Já no mercado do Rio de Janeiro, os preços do coco-verde começam em ascensão no mês de setembro, atingindo seu máximo no mês de março, decrescendo em seguida, chegando ao mínimo em agosto (Tabela 1).

No Centro-Oeste, os preços em Brasília, maior centro de comercialização da região, são em média 20% maiores que no Rio de Janeiro e registram a mesma sazonalidade, atingindo o máximo em fevereiro e o mínimo em agosto (Tabela 2). Essa diferença nos preços de comercialização na Ceasa de Brasília é devida ao fato de os frutos comercializados na Ceasa-Rio terem como origem o próprio estado, além da grande quantidade de fruto verde que chega ao Rio proveniente do Espírito Santo.
O Brasil, apesar de ser um grande produtor de coco-seco e coco-verde, vem realizando historicamente importações de coco-seco ralado desidratado de países asiáticos, fato que tem gerado a queda de preços no mercado nacional em virtude de subsídios que estes países oferecem à cadeia produtiva de coco local. Importações estas que afetam a sazonalidade na oferta e na demanda do produto nacional, prejudicando diretamente os preços recebidos pelos produtores de coco-seco. Exemplo disso ocorreu entre 2005 e 2006, quando o excesso de coco-ralado importado determinou a queda vertiginosa dos preços do coco-seco no mercado doméstico, período em que a unidade do fruto chegou a ser comercializada por menos de R$ 0,20, ou mesmo deixou de ir ao mercado, por falta de comprador, levando prejuízo e descapitalização aos produtores. As importações também podem afetar indiretamente o mercado e os preços do coco-verde, como ocorrido em 1997. Na época, ocorreu redução dos preços do coco-verde, imediatamente após o pico das importações de coco-seco ralado desidratado naquele ano, queda registrada nos dados publicados pela FNP Consultoria & Comércio no Anuário da agricultura brasileira, cuja média anual dos preços por unidade de coco-verde praticada no CEAGESP de US$1,37 em 1995, caiu para US$1,07 e U$ 0,65, em 1996 e 1997, respectivamente. O impacto indireto no preço do coco-verde deve-se ao fato de o produtor do coqueiro-gigante ao ver a demanda e o preço do coco-seco reduzidos no mercado, passa a comercializar frutos colhidos no ponto do coco-verde, ocasionando aumento na oferta desse produto, e consequente redução do preço no mercado.
Acredita-se também que o baixo preço praticado pelos países asiáticos seja outro fator de estimulo às indústrias nacionais a importar o coco-seco ralado desidratado, principalmente da Indonésia (60%), Filipinas (26%) e Vietnã (14%).
Com a criação e aprovação, a partir de 2002, das medidas de salvaguarda para a cultura do coqueiro que estabeleciam cotas de importação do coco-ralado desidratado, esperava-se uma melhoria do preço do coco-seco e, consequentemente, maior estímulo à renovação de coqueirais, situação esta que de fato não ocorreu. Estas medidas vigoraram por dez anos e foram expiradas em 2012.

Perspectivas do mercado de coco-seco no Brasil

Além da utilização do albúmen sólido na indústria alimentícia, abrem-se no mercado nacional e internacional, novas oportunidades para o potencial uso do óleo-de-coco, obtido a partir da copra, em todos os alimentos industrializados para substituição das gorduras-trans, recentemente proibidas nos Estados Unidos, pelos prejuízos que causam à saúde humana (notícia veiculada no Globo News em 16/06/2015), bem como sua utilização em programas de produção de biodiesel e indústrias finas pelo seu alto teor de ácido láurico, o que provocaria um aumento potencial na demanda nacional e internacional de coco-seco.
Para atendimento dessa nova e da atual demanda de matéria-prima, há necessidade de dar um maior dinamismo à cultura no país, com novos investimentos por parte dos produtores e possíveis incentivos dos governos municipais, estaduais e federal no sentido de promover a recuperação e renovação dos coqueirais nordestinos com idade avançada e baixa produtividade. Se essas medidas não forem adotadas, entende-se que o fornecimento de coco-seco produzido no país para atender as demandas do mercado estaria ameaçado, haja vista que a oferta da matéria-prima nacional tem declinado ao longo dos últimos anos em função da redução da produção e produtividade, bem como pela importação de matéria-prima semiprocessada.
Outra potencial ameaça que paira no cenário para a cocoicultura brasileira é a expiração das medidas de salvaguarda do coco em 2012, pois abriram-se novamente as possibilidades para as importações de matéria-prima, principalmente coco-seco ralado desidratado e até de frutos de coco-seco. Com certeza, as indústrias nacionais aproveitarão essa nova abertura de mercado para suprir seus estoques, o que constituiria uma grande ameaça à produção e à sobrevivência dos produtores brasileiros. 
Segundo o Sindicato dos produtores de coco do Brasil, (SINDICOCO), a quantidade importada do coco-seco ralado desidratado, entre os meses de janeiro a outubro de 2014, foi de 20,5 mil toneladas, o que representou cerca de 77% do consumo aparente nacional no período.

Perspectivas do mercado de coco-verde no Brasil

Com a expansão do cultivo do coqueiro-anão irrigado no Brasil, e principalmente para a região Sudeste, tem crescido no país, nos últimos anos, a oferta do coco-verde para atender a crescente demanda desse produto no mercado, a qual tem sido atendida, em parte, pela produção daquela região, com coqueirais implantados no final dos anos 80 e em toda a década de noventa, e o restante pela grande oferta oriunda da região Nordeste.
Embora a demanda atual de água-de-coco esteja sendo atendida pelo mercado de coco in natura e pequenas e médias indústrias, ainda são necessários altos investimentos em pesquisas visando aumentar a durabilidade e a qualidade do produto na prateleira, e possibilitar participação de maior número de empresas na industrialização desse produto. O objetivo seria viabilizar a comercialização do grande potencial produtivo dos novos empreendimentos de campo, que cada vez mais se disseminam nas diversas regiões do Brasil. Pesquisas nessa linha do conhecimento complementariam o estoque de tecnologias de produção geradas pela pesquisa, principalmente na Embrapa e Universidades.
Apesar da existência de uma grande área plantada de coqueiro-anão no Brasil, as indústrias estabelecidas no país têm argumentado ser a oferta da matéria-prima disponível insuficiente para atender a demanda do setor. Essa justificativa, aliada à expiração, em 2012, das medidas de salvaguarda do coqueiro tem motivado, nos últimos anos, um crescimento das importações de água-de-coco concentrada, provenientes das Filipinas, de acordo com o boletim mensal publicado pelo Sindcoco e com base em informações da Secretaria de Comercio Exterior do Ministério da Indústria e Comercio Exterior. Entre outubro de 2014 e março de 2015, foram registrados aumentos de 87% na importação do produto, e no primeiro trimestre de 2015 um aumento de 97% comparado ao mesmo período do ano anterior. Como esse produto importado é diluído numa proporção de um litro do concentrado para dez litros de água, o volume disponibilizado no país passa a ser então dez vezes superior ao total importado.  A concorrência do Brasil com os países asiáticos - maiores produtores do mundo - torna-se-á cada vez mais desigual, em função dos subsídios oferecidos pelos governos daqueles países aos seus produtores, segundo o SINDCOCO.
Apesar dessa ameaça, o mercado de água-de-coco verde apresenta grande perspectiva de crescimento no Brasil e no mundo. O apelo sobre a saúde e o fato de pertencer ao mercado de produtos naturais são fatores sociais que sustentam o crescimento desse setor. Nos Estados Unidos, a água-de-coco já é largamente comercializada, e o mercado europeu apresenta também grande potencial de consumo. O Brasil, pelas suas características de clima, solo e grande extensão de área litorânea, adequadas para o desenvolvimento do coqueiro-anão, entre outras, apresenta um grande potencial produtivo, o que tem estimulado grandes empreendimentos a investir no país com vistas a suprir, em curto prazo, o aumento de demanda a ser criado nos próximos anos.
Dados informais levantados pela agroindústria do coco apontam para um mercado potencial de 560 milhões de litros/ano para suprir o mercado interno, cujo consumo é de, aproximadamente, 350 milhões de litros de água-de-coco/ano, e, desse volume, 300 milhões consumidos na forma in natura. Trata-se de um nicho de mercado muito promissor, competindo inclusive com as bebidas do tipo isotônico, entre outras, devido às suas propriedades funcionais. O desenvolvimento tecnológico de processamento e embalagens que permitam manter as características nutricionais e o sabor da água-de-coco característico tem sido largamente estudado. Estima-se que, somente em 2010, o crescimento nas vendas de água-de-coco embalada em caixinhas Tetra Pak atingiu, aproximadamente, 18% do setor.



quarta-feira, 12 de julho de 2017

Colheita e pós-colheita do coco (coqueiro)



Colheita
Na maioria dos países onde o coqueiro é cultivado, os frutos são utilizados para produção de copra, que se constitui no albúmen sólido desidratado a 6% de umidade, empregado na extração de óleo. No Brasil, o coqueiro é tradicionalmente cultivado para a produção do coco seco, utilizando-se a variedade gigante para a produção do albúmen sólido, normalmente comercializado in natura e/ou na forma de produto industrializado como leite de coco, coco ralado, farinha de coco entre outros. O albúmen líquido, conhecido como água de coco, é obtido de coqueiros da variedade anão, consumido como fruto in natura, ou ainda sendo engarrafado nas indústrias ou pequenos estabelecimentos de forma artesanal.
O ponto de colheita é determinado de acordo com a sua finalidade, sendo realizada normalmente em dois estádios de maturação, de acordo com o mercado a que se destina, conforme se observa na Figura 1A. Os frutos verdes destinados ao mercado de água de coco devem ser colhidos com, aproximadamente, seis a sete meses de idade, período em que se inicia a formação do albúmen sólido. Nesta fase, além do maior rendimento da água, o sabor é mais agradável, tendo, portanto, a preferência do consumidor. Frutos com cinco meses ou idade superior a sete meses apresentam alterações de sabor, devendo ser realizadas somente em condições especiais. A água proveniente de frutos com idade em torno de cinco meses, apresenta sabor menos agradável (menores teores de glicose e frutose e menor ºBrix), enquanto na dos frutos com oito meses de idade, já ocorrem quedas nos teores de glicose e frutose, e aumento no teor de sacarose e de gordura, ocasionando um sabor rançoso à água de coco.
Quando o objetivo é atender ao mercado de coco seco, os frutos devem ser colhidos na fase de plena maturação, alcançada com 11 a 12 meses de idade, quando o albúmen sólido se encontra totalmente formado. Estes frutos apresentam cor castanha, com manchas verdes e pardas irregulares, com peso inferior ao coco verde (Figura 1B)
Fotos: Carlos Roberto Martins
Figura 1. Ponto de colheita ideal para coco verde destinado ao consumo de água (A) e de coco seco destinado a processamento industrial (B).
No caso do coco verde, os cachos são colhidos com frutos nas idades de seis e sete meses; estão normalmente localizados nas folhas 17 a 19 na época do verão (época seca com temperaturas elevadas) e 18 a 20 na época do inverno (época de chuva com temperaturas mais amenas), respectivamente. Isto porque o intervalo de abertura das inflorescências do coqueiro é menor no verão (Ex. anão-intervalo médio de 18,4 dias) em relação ao período do inverno (Ex. anão-intervalo médio de 23,9 dias).
A colheita das cultivares do coqueiro-anão e dos híbridos inicia-se a partir do 3° ou 4º ano de plantio, podendo ser realizada a cada 20-35 dias. Para o coqueiro gigante, que é uma variedade rústica, de fase vegetativa longa, a colheita acontece entre o 5º e o 7º ano, ou mesmo 10 anos após o plantio, a depender das condições locais e do sistema de produção utilizado.
Em plantios de coqueiro anão, as plantas são mais precoces, e no início da fase produtiva apresentam baixo porte, facilitando a colheita manual dos cachos de coco, cortando-se o pedúnculo com o auxílio de um facão. Em plantas maiores, os frutos são colhidos por dois operadores, utilizando-se duas varas: uma com um gancho na extremidade para segurar o cacho e evitar a sua queda, e outra contendo uma lâmina para cortar o pedúnculo do cacho. Em algumas propriedades, se utilizam escadas para facilitar o acesso ao cacho na copa da planta, e/ou uma corda contendo um gancho na extremidade para segurar e descer o mesmo utilizando como suporte as folhas do coqueiro. Deve-se evitar o impacto do fruto verde sobre o solo, tendo em vista os problemas relacionados com a rachadura do seu endocarpo, comprometendo assim a qualidade da água de coco. (Figura 2).
Foto: Carlos Roberto Martins

Figura 2. Rachadura do fruto decorrente da queda durante o processo de colheita.
Em plantas mais altas, a colheita passa a ser feita com o auxílio de três operários de campo, uma vez que há necessidade de sustentar o cacho, cortar o pedúnculo, e segurar a corda que permite a descida do mesmo até o chão sem causar impacto sobre o solo. O operador responsável em sustentar a corda utiliza o próprio estipe do coqueiro como suporte para reduzir o esforço desprendido, posicionando-se no lado oposto ao cacho a ser colhido (Figuras 3).
Foto: Carlos Roberto Martins
Figura 3. Operários rurais realizando a colheita de coco verde, responsáveis pela sustentação, corte e descida do cacho.
Em função das dificuldades e do aumento de custos para a colheita do coco verde, observados a partir do 15° ao 16° ano de idade, em consequência do crescimento das plantas, o produtor tem optado por fazer a renovação antecipada do coqueiral, realizando o plantio de uma nova muda entre dois coqueiros adultos na mesma linha, aproveitando assim o sistema de irrigação instalado, conforme observado na Figura 3. Neste método, ocorre um retardamento de aproximadamente um ano na precocidade de produção das plantas jovens, que passam a produzir a partir do quarto ano de idade em média. Deve-se considerar, no entanto, que a produção obtida neste período constitui-se numa alternativa economicamente viável ao produtor, uma vez que além da receita adicional, as plantas jovens apresentam alta capacidade de recuperação após a eliminação dos coqueiros antigos.
De acordo com informações colhidas entre produtores de coco verde do perímetro irrigado do platô de Neópolis /Se, para que se obtenha um rendimento de colheita de 28.000 cocos/dia, quantidade esta correspondente a quatro caminhões transportando em média 7.000 frutos cada, são necessários aproximadamente 27 homens/dia distribuídos nas seguintes operações: colheita (9 h/d), poda dos cachos (3 h/dia) , contagem dos frutos (2 h/dia), transporte para carreta (7 h/dia) e posteriormente para o caminhão (6 h/dia). Considerando-se uma produção média anual de 180 frutos/planta/ano, distribuída em 12 colheitas mensais e uma população de 205 planta/ha, teríamos um rendimento de, aproximadamente, 15 frutos/planta, correspondente a 3075 frutos/ha/colheita. Com base nestes cálculos, a área necessária para realizar a colheita de 28.000 cocos equivaleria a 9,1 ha. Este rendimento é obtido quando o pagamento é realizado por produção, o que resultaria em uma média de 1037 frutos colhidos/homem/dia. No caso da colheita mecanizada, existem atualmente adaptações ao trator que permitem a elevação de dois colhedores até a copa da planta. Este sistema, além de apresentar custos mais elevados e menor rendimento da colheita, apresenta a dificuldade de realizar a poda dos cachos na própria carreta. Novos sistemas estão sendo desenvolvidos no sentido de reduzir custos e aumentar o rendimento da colheita, evitando assim a substituição precoce de plantas em plena fase produtiva.
Nas áreas tradicionais de plantio do coqueiro da variedade gigante, a colheita do coco-seco é, normalmente, realizada manualmente, onde o operário utiliza “peias” para escalar o estipe do coqueiro até alcançar a copa da planta. Com o auxílio de um facão, é possível colher, em média, três cachos em intervalo de, aproximadamente, 90 dias. Neste caso, o impacto da queda do cacho sobre o solo não provoca as rachaduras observadas no caso do coco-verde. Neste sistema, um homem pode colher, em média, 100 plantas /dia enquanto que no descascamento o rendimento estimado é de 1.200 a 1.300 frutos/homem/dia.
Em plantios comerciais onde são plantados coqueiros híbridos, a colheita pode ser realizada com varas com uma lâmina na extremidade, em função do menor porte das plantas. À medida que estes coqueiros alcançam maior altura, aumentam as dificuldades de colheita, e, neste caso, a tendência é que estes plantios sejam renovados, considerando-se a inviabilidade de realização da colheita manual como ainda ocorre nos pequenos plantios localizados no Nordeste. Em alguns países produtores, é comum a realização da coleta após a queda do fruto, que ocorre normalmente quando este alcança a maturação completa.

Manuseio pós-colheita

Após a colheita, os cachos de coco verde devem ser deixados à sombra até o momento do transporte para o galpão, ou levados diretamente para os caminhões que farão a distribuição do produto no mercado. Antes de serem transportados, e independentemente do mercado a que se destinam, os cachos passam por uma toalete no campo para a retirada de frutos pequenos e fora do padrão e os danificados por pragas e doenças. Nesta oportunidade, eliminam-se também as espiguetas do cacho, evitando-se assim que provoquem ferimento e manchas dos frutos durante o transporte. Os cachos devem ser retirados do pomar com o auxílio de carretas tracionadas por trator ou animal.
Os frutos do coco verde são comercializados por unidade, podendo ser transportado a granel ou presos aos cachos, situação esta que permite maior conservação do fruto à temperatura ambiente.  Alguns compradores da região Sul exigem que os frutos sejam retirados dos cachos e acondicionados em sacos trançados de polipropileno de 20 kg.
A qualidade da água é extremamente afetada pelo tempo decorrente entre a colheita e o consumo final. É recomendado o transporte do fruto em caminhões do tipo baú, e de preferência refrigerado. Entretanto, como isso ainda não é possível, o transporte é realizado em caminhões cobertos com lona. Alguns cuidados são necessários para prolongar a vida útil dos frutos, tais como:
  • Os cachos de coco-verde devem ser manuseados com cuidado e o transporte efetuado o mais rápido possível, em veículos cobertos com lonas de cor clara de forma a reduzir a temperatura. Tendo em vista que a pressão da água de coco situa-se em torno de cinco atm, a temperatura elevada é considerada prejudicial à manutenção da sua qualidade, favorecendo o aparecimento de rachaduras na casca.
  • Deve-se forrar o caminhão com palha ou serragem para evitar danos mecânicos aos frutos das camadas inferiores.
  • Não sendo possível o transporte logo após a colheita, recomenda-se que os cachos sejam armazenados em galpão fresco, bem arejado e seco por, no máximo, dois dias.
  • Se o mercado exigir o fruto a granel por unidade, proceder à retirada dos frutos do cacho com o auxílio de uma tesoura de poda, tomando o cuidado para não arrancar o pedúnculo e o cálice floral, estruturas que formam uma proteção natural contra a entrada de fungos e bactérias que deterioram a água.
  • Recomenda-se que os frutos cheguem ao distribuidor no prazo máximo de três dias após a colheita.
Na maioria das vezes, o fruto exige armazenamento no local de consumo, em virtude da própria característica de regionalização da cultura e de peculiaridades do consumo da água de coco (ao natural ou industrializada). Ao chegarem ao distribuidor ou à unidade de processamento, os frutos deverão passar por uma inspeção, para a retirada de frutos passados, rachados e com lesões causadas por ácaros, fungos e em início de deterioração, e devem ser armazenados ainda nos cachos, em galpões telados, com boa ventilação, evitando-se a exposição aos raios solares e a temperaturas elevadas.
Quando armazenados acima de 20 ºC, o coco-verde deve ser consumido ou processado no período máximo de 10 a 15 dias após a colheita. Quando armazenados em câmara refrigerada a 12 ºC, esse período pode ser prolongado por mais oito dias, após o qual se iniciam os processos de deterioração que comprometem a qualidade sensorial, principalmente, a acidez da água. É importante ressaltar que o armazenamento refrigerado provoca o aparecimento de danos, que normalmente dependem da temperatura utilizada, tempo de exposição, ponto de maturação e da cultivar. Nos frutos destinados ao consumo in natura, os danos manifestam-se pelo amarelecimento e escurecimento da casca, em temperaturas abaixo de 12 ºC.
O armazenamento em atmosfera modificada também pode ser utilizado em casos específicos com filme de PVC 15 µm de espessura e armazenado a 12 ºC, podendo suportar até 30 dias de conservação. Além disso, pode diminuir os sintomas causados pela exposição ao frio.
No caso do coco seco, os frutos colhidos devem ser armazenados em galpão arejado e ventilado, e transportados em caminhões protegidos por lona para evitar rachaduras do endocarpo em decorrência das altas temperaturas.