segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Produção de mudas de Framboesa


Em se tratando de mudas certificadas de framboeseira, essas podem ser produzidas a partir de segmentos de raiz, enraizamento de estacas e cultura in vitro de tecidos (ALARCÓN, 2004), devendo-se, sempre, utilizar material genético indexado e caracterizado geneticamente, e substrato isento de patógenos e de propágulos de plantas daninhas.

A propagação por segmentos de raiz é um método rápido e de baixo custo, por meio do qual raízes de diâmetro aproximado de um lápis e comprimento de 8 cm a 10 cm são plantadas, inicialmente, em canteiros contendo areia esterilizada. Após o desenvolvimento da parte aérea são transplantadas em sacolas plásticas contendo substrato para completar a formação das mudas (UNIVERSITY OF GEORGIA, 2006).


A propagação por estacas herbáceas também pode ser utilizada. Nos meses de maio a julho, podem-se enraizar estacas herbáceas de 15 cm a 20 cm em local sombreado, completando-se a formação das mudas em recipientes maiores que contenham substrato (RASEIRA et al., 2004). Silva et al. (2012) tiveram melhores resultados com estacas caulinares do que com radiculares, não tendo ocorrido a necessidade de utilização de tratamento com ácido indolbutírico (AIB), sendo o processo de mergulhia superior ao de alporquia.


A micropropagação de framboeseira in vitro por meio de cultura de tecidos vem sendo realizada comercialmente em larga escala na Itália e nos Estados Unidos há bastante tempo (DEBNATH, 2003). Essa técnica é empregada com sucesso na propagação de diversas fruteiras, em função de possibilitar a produção massal de mudas sadias a partir de um pequeno volume de material genético, em curto período de tempo e pequeno espaço físico (GRATTAPAGLIA; MACHADO, 1998).

Na literatura internacional, existem vários trabalhos sobre propagação in vitro de framboeseira (VERTESY, 1979; ANDERSON, 1980; PYOTT; CONVERSE, 1981; WELANDER, 1987; SOBCZYKIEWICZ, 1992; GONZALES et al., 2000; DEBNATH, 2003; DEBNATH, 2004; dentre outros). Há 18 anos, a Embrapa Clima Temperado iniciou uma série de atividades de pesquisa relacionadas à produção de mudas de framboeseira por meio de cultura de tecidos, as quais foram intensificadas nos últimos anos, em função do aumento da demanda por mudas. Anualmente, vários técnicos de laboratório de empresas públicas e privadas de micropropagação são treinados na Embrapa Clima Temperado, com o intuito de fomentar a produção de mudas por meio dessa metodologia. Dessa forma, tem-se obtido mudas de alta qualidade de várias cultivares, para disponibilização ao setor produtivo de diferentes estados brasileiros e para outros centros de pesquisa.

Com base em recentes resultados de pesquisa obtidos na Embrapa Clima Temperado, as etapas otimizadas de um sistema para produção de mudas de framboeseira por cultura de tecidos são descritas a seguir:


Pré-tratamento das plantas

Antes da coleta dos explantes, as plantas matrizes devem ser tratadas com soluções fungicida e bactericida, quinzenalmente, por pelo menos três vezes, para a minimização das contaminações durante o cultivo in vitro.

Época de coleta

As brotações devem ser coletadas nos períodos de desenvolvimento vegetativo intenso das plantas matrizes.

Fontes de explante

Devem-se utilizar explantes provenientes de plantas básicas ou matrizes adequadamente caracterizadas e indexadas.

Termoterapia

A termoterapia é um procedimento prévio à cultura de meristemas, que aumenta a probabilidade de obtenção de explantes livres de vírus. Torna-se necessária quando não se dispõe de plantas matrizes indexadas das cultivares desejadas.
Para a termoterapia, utilizam-se, geralmente, plantas de 5 cm a 10 cm de altura desenvolvidas em sacolas plásticas contendo substrato. Essas plantas podem ser obtidas a partir de brotação de raízes removidas de plantas-mãe no período de inverno.
O tratamento térmico deve ser realizado cultivando-se as plantas doadoras de explantes em câmara incubadora à temperatura de 37-39 ºC, com fotoperíodo de 16 horas de luz de intensidade próxima a 20.000 lux, por cinco a oito semanas.


Indexação

A avaliação do êxito do processo de remoção dos vírus de framboeseira por meio de termoterapia e cultivo de meristemas pode ser feita mediante indexagem biológica com plantas indicadoras por enxertia ou inoculação mecânica; testes sorológicos (ELISA), quando existe disponibilidade de antissoros; e moleculares (RT-PCR), nos casos em que se conheça as sequências do genoma viral para embasar a síntese de iniciadores.
Em se tratando da indexagem biológica, os resultados podem ser observados de quatro a seis semanas nas seguintes combinações vírus/fitoplasma e planta indicadora: complexo Raspberry Common Mosaic Virus (vírus do mosaico comum da framboesa) e Rubus occidentalisBlack Raspberry Necrosis Virus (vírus da necrose da framboesa preta) e Rubus occidentalisRaspberry Leaf Mottle Virus (vírus do mosqueado da framboesa) e Rubus idaeus ‘Malling Landmark’ ou R. occidentalisRaspberry Leaf Spot Virus (vírus da mancha foliar da framboesa) e Rubus idaeus‘Norfolk Giant’, ‘Baumforth’s Seedling B’ ou ‘Klon Bonn’; e Raspberry Bushy Dwarf Virus (vírus do nanismo arbustivo da framboesa) e Rubus idaeus ‘Norfolk Giant’. Após 12 meses, podem ser observados os resultados da indexagem de Rubus Stunt Phytoplasma (fitoplasma do nanismo em Rubus) em Rubus idaeus ‘Norfolk Giant’ ou ‘Zeva2’, e em 6 a 8 semanas do vírus Raspberry Vein Chlorosis (vírus da clorose das nervuras de framboesa) em Rubus idaeus ‘Baumforth’s Seedling B’.

Plantas de framboeseira também podem ser indexadas em relação ao Black Raspberry Necrosis Virus (vírus da necrose da framboesa preta) e Raspberry Bushy Dwarf Virus (vírus do nanismo arbustivo da framboesa) por transmissão mecânica, utilizando-se a planta indicadora Chenopodium quinoa.
Martin (2004) atualizou procedimentos sorológicos, moleculares e biológicos para a detecção de viroses e fitoplasmas em framboeseira. No entanto, o diagnóstico ainda se apoia substancialmente na indexagem biológica. Na última década, aumentou substancialmente o conhecimento sobre vírus de Rubus spp. Novas espécies de vírus foram descritas e reconhecidas, e estabeleceu-se, solidamente em bases moleculares e sorológicas, o diagnóstico de um grande número de agentes patogênicos virais.


Tamanho dos explantes

Em média, os explantes devem ser coletados com 1,5 cm de comprimento, correspondendo aos ponteiros das plantas. Em seguida, devem ser acondicionados em papel toalha umedecido ou em béquer contendo água destilada e esterilizada, sempre ao abrigo da luz. As cultivares devem ser adequadamente identificadas.

Desinfestação dos explantes

Esta etapa deve ser realizada em laboratório. Inicialmente, os explantes devem ser lavados em água corrente. Em seguida, devem ser desinfestados, mergulhando-os completamente em soluções à base de álcool 70%, por 15 segundos, e de hipoclorito de sódio 1%, por 10 minutos. Finalmente, sob condições assépticas, no interior de câmara de fluxo laminar, deve-se proceder à lavagem dos explantes com água destilada autoclavada, por três vezes, para a completa remoção dos resíduos de cloro.

Extração de meristemas

A cultura de meristemas é realizada para otimizar a eliminação de viroses, viroides e micoplasmas durante a cultura in vitro de tecidos, fundamentando-se no fato de que o tecido meristemático é praticamente livre desses patógenos, principalmente em plantas de crescimento rápido.
A extração dos meristemas deve ser realizada no interior de câmara de fluxo laminar, com auxílio de pinça e bisturi, utilizando lupa estereoscópica. Os meristemas extraídos devem apresentar tamanho próximo a 0,1 mm, podendo-se utilizar explantes maiores no caso do material vegetal ser proveniente de plantas básicas ou matrizes. Explantes menores são muito difíceis de serem extraídos e apresentam baixa porcentagem de pegamento. Explantes maiores aumentam os riscos de contaminação por fungos e bactérias. Após a extração, os meristemas devem ser introduzidos em meio de cultura o mais rápido possível, para se minimizar os riscos de contaminação e dessecamento.

Estabelecimento in vitro

Meio de cultura
Macronutrientes e micronutrientes do meio MS (MURASHIGE; SKOOG, 1962) suplementado com 1 mg L-1 de BAP (6-benzilaminopurina), 0,01 mg L-1 de ANA (ácido naftalenoacético) e 0,1 mg L-1 de AG3 (ácido giberélico), acrescido com 0,5 mg L-1 de tiamina, 0,5 mg L-1 de piridoxina, 0,5 mg L-1 de ácido nicotínico, 2 mg L-1 de glicina, 30 g L-1 de sacarose, 100 mg L-1 de myo-inositol e 7 g L-1 de ágar. O pH do meio de cultura deve ser ajustado para 5,8 antes da autoclavagem. A composição do meio MS é descrita na Tabela 1.
Tipos de frasco
A introdução in vitro dos explantes deve ser feita em recipientes individuais, pois o risco de contaminação nessa fase é bastante elevado. Recomenda-se utilizar tubos de ensaio de 15 mm de diâmetro por 150 mm de altura, contendo 6 mL de meio de cultura.
Condições de autoclavagem
São as seguintes: 121 °C, a 1,5 atm, por 15 minutos.
Duração do cultivo
Quarenta dias
Condições de cultura
Cultivo no escuro, nas primeiras 48 horas, para minimizar a oxidação dos explantes. Nos 38 dias restantes do subcultivo, recomenda-se utilizar intensidade luminosa de 20 µE m-² s-¹, temperatura de 25 ºC ± 2 ºC e fotoperíodo de 16 horas.

Multiplicação

Meio de cultura
Macronutrientes, micronutrientes e vitaminas do meio MS suplementado com 0,8 mg L-1 de BAP, 15 mg L-1 de sulfato de ferro, 30 g L-1 de sacarose e 7 g L-1 de ágar. O pH do meio de cultura deve ser ajustado para 5,8 antes da autoclavagem.
Tipos de frasco
Vários tamanhos e formatos de frasco de vidro ou de plástico podem ser utilizados. Um dos tamanhos recomendados é o de 60 mm de diâmetro por 140 mm de altura. Deve-se buscar equilíbrio em relação ao tamanho do frasco, sabendo-se que os frascos maiores comportam maior número de plântulas, sendo mais econômicos; porém, apresentam maior risco de contaminação. A quantidade de meio de cultura por frasco varia em função de seu tamanho. No frasco recomendado, deve-se utilizar 40 mL de meio de cultura.
Condições de autoclavagem
São as seguintes: 121 °C, a 1,5 atm, por 15 minutos.
Condições de cultura
Cultivo sob intensidade luminosa de 20 µE m-² s-¹, temperatura de 25 ºC ± 2 ºC e fotoperíodo de 16 horas.
Tipo e tamanho dos explantes
A repicagem deve proporcionar explantes com tamanho de 2 mm a 3 mm, contendo de duas a três gemas.
Número de subcultivos
Recomenda-se a realização de seis subculturas de 25-30 dias (cada uma), embora normalmente não sejam relatados variantes somaclonais em framboeseira (HOEPFNERET et al., 1996).
Sistemas alternativos
Com a finalidade de reduzir custos durante a fase de cultivo in vitro, alguns autores recomendam o uso parcial ou total de iluminação natural na sala de cultivo (KODYM; ZAPATA-ARIAS, 1999), a substituição da sacarose por açúcar cristal e do ágar por amido de batata ou de milho (KODYM; ZAPATA-ARIAS, 2001). Erig e Schuch (2005) sugerem o uso de luz verde, proporcionada por filtros coloridos de acetato celulose, em substituição à luz branca proporcionada pelas lâmpadas fluorescentes brancas-frias, para aumentar a taxa de multiplicação dos explantes.
Eficiência do sistema
Espera-se obter por volta de 750 plântulas por meristema após seis subcultivos de 25-30 dias.

Enraizamento in vitro

Meio de cultura
Metade da concentração de sais do meio MS, micronutrientes e vitaminas do MS, suplementado com 0,1 mg L-1 ANA, 30 g L-1 de sacarose e 7 g L-1 de ágar, sem adição de reguladores de crescimento, sendo o pH do meio de cultura ajustado para 5,8, antes da autoclavagem.
Tipos de frasco, condições de autoclavagem e de cultura
Idem ao item `Multiplicação in vitro`.
Tipo e tamanho dos explantes
A repicagem deve ser conduzida de forma a proporcionar a individualização das plântulas, que serão dispostas no meio de cultura para alongar e emitir raízes. O tamanho mínimo dos explantes para essa fase é de 1 cm de altura.
Qualidade esperada
Plântulas adequadamente alongadas e enraizadas com altura maior do que 2 cm, raízes curtas e abundantes, após 25 dias de cultivo.
Eficiência do sistema
Nas condições descritas, pode-se obter quase 100% de plântulas enraizadas.

Transplantio em casa de vegetação

Terminada a fase de enraizamento in vitro, as plântulas devem ser removidas dos frascos, lavadas e, cuidadosamente separadas umas das outras. Em seguida, devem ser classificadas por tamanho e transplantadas para recipientes, contendo substrato com características químicas e físicas favoráveis ao desenvolvimento das plantas. Bandejas plásticas ou de isopor, ou ainda saquinhos de polietileno de diferentes tamanhos podem ser utilizados como recipientes. O substrato deve ser isento de patógenos e de propágulos de plantas daninhas, podendo ser adquirido de empresas especializadas ou produzido no próprio viveiro, a partir de casca de arroz carbonizada, casca de pinos, serragem, vermiculita, perlita, turfa, dentre outros materiais.
As mudas em formação devem ser dispostas sobre bancadas de, no mínimo, 30 cm de altura em relação ao solo, sendo mantidas em ambiente protegido. Recomenda-se que o local seja coberto com filme de polietileno transparente ou outro material, para evitar a entrada de água das chuvas, e que possua lateral revestida com tela antiafídica, para impedir a entrada de vetores de doenças.

Aclimatização


A passagem das plantas do ambiente in vitro, que apresenta alta umidade relativa do ar, completa assepsia e iluminação, temperatura e fotoperíodo controlados, para a condição ex vitro deve ser gradual. Isso é conseguido por meio da disposição das plantas no interior de um túnel plástico, com luminosidade, temperatura (20-28 oC) e irrigação controladas, simulando a condição do laboratório. Em seguida, deve-se proceder à remoção gradual do plástico, de forma a permitir que as plantas passem do estado heterotrófico, no qual dependiam de um suprimento externo de energia, no caso a sacarose, para o estado autotrófico, em que se faz necessária a realização de fotossíntese para sobreviver (GRATTAPAGLIA; MACHADO, 1990).

As plântulas de framboeseira são de fácil aclimatização, quando comparadas às de outras espécies frutíferas. Por isso, pode-se obter uma porcentagem de pegamento de 85% a 90%.

Formação das mudas

Nutrição
Durante e após a fase de aclimatização, as mudas devem ser fertilizadas, semanalmente, com solução nutritiva composta por nitrogênio, fósforo e potássio (fórmula 10:10:10).
Irrigação
Deve ser realizada diariamente, em função da necessidade das plantas e da umidade no substrato.
Controle de pragas
Deve ser preventivo, por meio do uso de fungicidas, inseticidas e acaricidas.

Padrão de comercialização

Em média, nas condições citadas, as mudas tornam-se aptas ao transplantio no campo a partir de 90 dias do início da aclimatização, quando apresentam tamanho mínimo de 10 cm. As mudas certificadas têm tolerância zero para mistura varietal, plantas atípicas e presença de patógenos da cultura.

Eficiência do sistema

O sistema de produção de mudas de framboeseira in vitro por cultura de tecidos descritos é bastante eficiente. Embora possa ser utilizado para todas as cultivares de framboeseira, a eficiência apresenta pequenas variações em função da cultivar (OLIVEIRA et al., 2010). Em média, obtém-se 675 mudas por explante inicial por ciclo de propagação, ou seja, em um prazo total de dez meses da extração do meristema até as mudas estarem aptas ao plantio.

Controle de qualidade


Como as plantas básicas e matrizes estão sujeitas à recontaminação e os métodos de cultura de meristemas e de termoterapia não são completamente eficientes, recomenda-se o monitoramento da presença de patógenos, ao final do processo de produção das mudas (SPIEGEL, 1998).

A indexação para viroses pode ser realizada pelo método da enxertia de tecido da muda a ser testada em espécies sensíveis. Testes sorológicos, como o ELISA, e moleculares, como a PCR, também podem ser utilizados na indexação de plantas de framboeseira.
A ocorrência de misturas de cultivares em pomares é um dos problemas da fruticultura, causando dificuldades no planejamento e na operacionalização dos tratos culturais e da colheita. Muita atenção e cuidado devem ser tomados durante o ciclo de multiplicação de mudas nos laboratórios de micropropagação, pois um único frasco fora de sua posição na sala de cultivo resultará em milhares de mudas misturadas.
Como é praticamente impossível diferenciar cultivares de framboeseira no estádio in vitro e durante a aclimatização, o monitoramento da fidelidade genética pode ser realizado por meio de marcadores morfológicos durante o desenvolvimento das mudas no pomar. Em casos especiais, podem ser utilizados marcadores moleculares, tais como o Random Amplified Polymorphic DNA (RAPD), Restriction Fragment Length Polymorphism (RFLP), Simple Sequence Repeats (SSR) e Amplified Fragment Length Polymorphism (AFLP) (FERREIRA; GRATTAPAGLIA, 1998).

Na Embrapa Clima Temperado, já foram produzidas milhares de mudas de framboeseira, utilizando o presente protocolo, não tendo sido identificadas plantas com características morfológicas que pudessem ser consideradas distintas do padrão original das cultivares. Evidentemente, a ausência de plantas atípicas deve ser confirmada em campo, principalmente após a frutificação, pois as mutações mais frequentes em fruteiras ocorrem na arquitetura das plantas e nas características dos frutos (ISRAELIET et al., 1991; KAUSHAL et al., 2004). O fato de o sistema de propagação proposto não passar pela fase de calo, utilizar baixas doses de reguladores de crescimento e, principalmente, número reduzido de subcultivos, contribui para a minimização do surgimento de variantes somaclonais (SWARTZ et al., 1981; OLIVEIRA et al., 2000; KAUSHAL et al., 2004).

Análise de viabilidade econômica

As cultivares de framboeseira são bastante responsivas in vitro, apresentando taxas de multiplicação superiores às de outras espécies frutíferas, tais como as da bananeira e do abacaxizeiro, para as quais também existem empresas de produção de mudas micropropagadas estabelecidas no mercado. Em média, independentemente da cultivar, utilizando o presente protocolo são obtidas taxas de multiplicação próximas a 5,0 após o terceiro subcultivo.
Basicamente, para produzir mudas por meio de cultura in vitro de tecidos é necessário infraestrutura física para o laboratório e casas de vegetação, equipamentos, vidraria, reagentes e mão de obra treinada. Esta última representa de 40% a 70% do custo de produção (OLIVEIRA, 1998).
O custo de produção das mudas micropropagadas é variável em função da escala de produção, do nível tecnológico empregado, da remuneração local paga à mão de obra, da distância do laboratório aos centros fornecedores de insumos e equipamentos, da qualidade das estruturas do laboratório e da casa de vegetação e das estratégias utilizadas para a minimização de despesas, tais como iluminação natural, uso de açúcar cristal em vez de sacarose, uso de amido de batata ou de milho no lugar de ágar, dentre outras. A instalação do laboratório na zona rural também contribui para a redução do custo de produção, pois a energia elétrica é subsidiada e a mão de obra normalmente menos onerosa.
Como vários fatores estão envolvidos, o custo de produção da muda apresenta uma grande variação. Em termos médios, considerando-se um laboratório com capacidade de produção de 100 mil mudas de framboeseira por ano, nas condições do Estado do Rio Grande do Sul, pode-se estimar um custo de produção de aproximadamente R$ 2,50 a R$ 3,00 por muda. Atualmente, as mudas de framboeseira estão sendo vendidas entre R$ 3,00 e R$ 4,00 cada, havendo muita procura em função, principalmente, do preço da fruta no mercado. Desta forma, a atividade apresenta-se como uma oportunidade atraente de investimento. Nesse aspecto, recomenda-se que o viveirista também utilize a estrutura do laboratório para a produção de mudas e matrizes de outras espécies, tais como abacaxizeiro, amoreira-preta, bananeira, batata, flores, mirtilo, dentre outras, visando maximizar o uso dos meios de produção e aumentar a competitividade.

Como fazer mudas de Framboesa
Nome científico: Rubus idaeus
Origem: centro norte da Europa, Ásia.
Família: Rosáceas.
Características gerais:
– A framboesa é uma planta arbustiva, cujos ramos espinhosos formam grandes moitas.
– Os frutos granulosos, semelhantes a amoras, delicados, suculentos, de sabor levemente ácido. Ocorrem nas extremidades dos ramos, numa coloração que varia do amarelo ao negro, passando pelo vermelho, ricos em vitamina C.
– A planta se torna mais produtiva em áreas de verão ameno, e temperaturas menores que sete graus, por mais de 250 horas, no inverno.
– Portanto, trata-se de uma planta adequada para a região sul do Brasil, e regiões montanhosas, onde o clima é propício para sua cultura e produtividade.
Propagação:
A propagação pode ser feita por estaquia de ramos maduros, e por mudas que brotam de suas raízes superficiais.
Pelo método da estaquia:
– Aproveitar a poda de inverno (hibernal), que deverá acontecer entre maio e julho de cada ano, para cortar as estacas com 15 a 20 centímetros de comprimento, que devem ser enterradas em pequenos feixes, em locais sombreados e com boa umidade.
– Depois das estacas brotadas, devem ser arrancadas e levadas para seus locais definitivos.
– Plantar as estacas a uma distância aproximada de 30 centímetros uma da outra, embaixo da linha da espaldeira.
– As plantinhas deverão receber tutores de bambus ou, qualquer outro material disponível, onde serão amarradas para  serem conduzidas até o topo da espaldeira.
Espaldeira:
– A espaldeira funcionará como suporte das plantas e deverá ser construída da forma mais simples possível: Dois mourões (palanques) que deverão ser fincados, um em cada extremidade da espaldeira,  em seguida, colocar um fio de arame liso bem esticado, ligando um mourão ao outro, a uma altura de 1,20 metros, do solo.
– Os tutores deverão ser fincados no chão junto à cova da nova planta, cuja extremidade superior deverá ser amarrada, fixando-a ao fio de arme.
– Distancia entre as espaldeiras: aproximadamente 3,0 metros.
Solo:
– Na época da plantação das estacas brotadas, em seus locais definitivos, aplicar três litros de esterco animal bem curtido junto com 40 gramas de superfosfato simples, em cada cova.
– A framboeseira pode ser plantada em terrenos planos ou encostas, bem drenados.
– Adapta-se perfeitamente a solos de textura média, ricos em matéria orgânica e com pH variando entre  5,0 a 5,5.
– Níveis pluviométricos em torno de 700 a 900 milímetros.
 Produção:
A frutificação ocorrerá depois de um ano e meio após as mudas transplantadas em seus locais definitivos.
Utilização:
O fruto poderá ser ingerido in natura ou na produção de geléias caseiras.
Na industrialização, transformados em polpa congelada, sucos, iogurtes, sorvetes, gelatinas, etc.
Tratos culturais:
– Deverá processar a poda após o período de produção.
– Desbastar a planta retirando todos os galhos que produziram frutos.
– Conduzir a nova brotação até o fio de arame, com novos tutores, pois a próxima colheita será produzida nesses novos rebentos formados durante o ano.
– Após a poda fazer nova adubação de cobertura com 3 litros por planta, de esterco animal bem curtido, misturado ao adubo superfosfato simples.




quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Cultivares e Propagação da Framboesa



Cultivares

A maioria das cultivares de framboeseira são originárias de cruzamentos entre Rubus idaeus var. VulgatusArrhen, originária da Europa, e R. idaeus var. Strigosus Michx., originária da América do Norte e Ásia, tendo sido acrescentados genes das espécies R. occidentalis L., R. Cockburnianus Hemls., R. Biflorus Buch., R. Kuntzeanus Hemls., R. Parvifolius Hemls., R. pungens oldhamii (Mig.) Maxim., R. arcticus L., R. stellatusSm. E R.odoratus L. (DAUBENY, 1996).
No Brasil, as principais cultivares utilizadas são:
  • `Heritage`: originária de Geneva, Estado de Nova York, Estados Unidos, resultante do cruzamento entre as cultivares (Milton x Cuthbert) e Durham, realizado na Universidade de Cornell, em 1969. Trata-se da cultivar de framboeseira de maior distribuição no mundo, tendo sido, por muitos anos, a principal cultivar dos Estados Unidos e, atualmente, a de maior área plantada no Chile. Por isso, tem sido utilizada como parental em vários programas de melhoramento. As plantas de `Heritage` são de elevado porte (1,5 m a 2,1 m), eretas e muito vigorosas, perfilhando com facilidade. A cultivar é suscetível ao afídeo vetor do vírus do mosaico da framboeseira. É do tipo remontante (primocane). Os frutos são cônicos, de tamanho médio, vermelhos, firmes, de qualidade regular e maturação tardia, indicados para a comercialização tanto na forma in natura quanto congelada. A cultivar desenvolve-se adequadamente em diferentes tipos de solo; no entanto, exige mais de 600 horas anuais de frio hibernal (< 7,2 oC) para frutificação. Por essa razão, no Brasil, vem sendo cultivada somente nas regiões da Alta Mantiqueira (Campos do Jordão e Gonçalves), de Vacaria e de Caxias do Sul (JOUBLANET et al., 2002; PLAZA, 2003; CORNELL UNIVERSITY, 2006b; RASEIRA et al., 2004; NOURSE, 2006).
  • `Autumn Bliss`: originária de East Malling, Inglaterra, resultante de vários cruzamentos realizados em 1974, entre as espécies R. strigosusR. arcticus e R. occidentalis, e as cultivares Malling Landmark, Malling Promise, Lloyd George, Pyne`s Royal e Norfolk Giant. Em geral, a `Autumn Bliss` é mais produtiva e seus frutos são maiores e de melhor sabor do que os da cultivar Heritage, porém não são tão firmes. A produção ocorre nas hastes primárias, que são moderadamente numerosas e glabras, com muitos espinhos. A cultivar é menos exigente em horas de frio do que a `Heritage`, podendo ser cultivada em solos de média fertilidade, mas que apresentem boa drenagem. Trata-se de uma cultivar remontante, como a `Heritage`, porém de produção precoce, resistente a afídeos vetores do vírus do mosaico da framboeseira e suscetível ao vírus do nanismo arbustivo de Rubus. A `Autumn Bliss` tem apresentado bom desempenho produtivo no sul de Minas Gerais e na região de Caxias do Sul (OLMOS, 2000; JOUBLANET et al., 2002; RASEIRA et al., 2004; MICHIGAN STATE UNIVERSITY, 2006).
  • `Batum`: planta com hábito de crescimento semelhante a `Autumn Bliss`. Cultivar também do tipo remontante, com frutas de coloração vermelho e de formato oval. Apresenta baixa exigência em horas de frio, tendo apresentado boa adaptação no sul de Minas Gerais (RASEIRA et al., 2004). Desconhece-se a origem.
  • `Dormanred`: foi obtida por cruzamento entre Rubus parvifolius e a cultivar Dorsett, realizado em 1949, na Estação Experimental da Universidade de Mississipi, Estados Unidos (BROOKS; OLMO, 1997). Suas hastes são prostradas, necessitando ser amarradas à espaldeira. Foi testada em Pelotas, RS, e tem boa adaptação. O sabor das frutas é doce-ácido, predominando a acidez. As frutas têm ótima aparência, apresentando cor vermelha brilhosa. São excelentes para a elaboração de geleias e doces caseiros. Segundo Brooks e Olmo (1997), as plantas da cultivar Dorman red são produtivas e tolerantes às altas temperaturas de verão.
  • `Scepter`: originária de College Park, Madison, Estados Unidos, resultante do cruzamento entre as cultivares September e Durham. As plantas são muito vigorosas, tolerantes a variações de temperatura durante o inverno. A frutificação ocorre nas hastes primárias, com produção de frutos grandes, de coloração vermelho-média e moderadamente macios (BROOKS; OLMO, 1997; RASEIRA et al., 2004).
  • `Southland`: originária de Raleigh, Carolina do Norte, Estados Unidos, resultante de cruzamento realizado em 1953, entre as seleções N.C. 237 e Md. S420-5. As plantas são vigorosas, multiplicam-se com facilidade e necessitam de solos férteis e de boa drenagem, em razão de serem sensíveis à asfixia das raízes. A cultivar é resistente à mancha da folha, oídio e mancha do caule. Apresenta baixa exigência em frio, tendo sido obtidas produções satisfatórias em regiões do País com cerca de 300 horas de frio. As frutas são de tamanho médio, de coloração vermelho-clara, forma cônica, simétrica, firmes e de sabor levemente ácido (RASEIRA et al., 2004).
Várias outras cultivares, de diferentes procedências, apresentam potencialidade de cultivo no Brasil, destacando-se aquelas originárias de regiões com invernos amenos. Nos países de clima temperado, estão sendo conduzidos vários programas de melhoramento genético de framboeseira, tendo sido frequente a disponibilização de novas cultivares. A grande maioria dessas cultivares está protegida por patentes, sendo necessário o pagamento de royalties para o acesso dos produtores a esses materiais genéticos. Dentre essas cultivares, destacam-se: Amity, Anne, Cascade Bounty, Cascade Dawn, Cascade Delight, Caroline, Chemainus, Chilliwack, Chinook, Cowichan, Coho, Cumberland, Durham, Encore, Eskimalt, FallRed, Huron, Illini Hardy, Jaclyn, Kiwigold, Lauren, Malahat, Meeker, Moutere, Munger, Nectar, Prelude, Royalty, Ruby, Titan, Willamette (CORNELL UNIVERSITY, 2006a; NOURSE, 2006).
Há também programas de melhoramento genético conduzidos por empresas privadas, cujas cultivares são disponibilizadas somente a seus fornecedores. É o caso da cultivar Maravilha, de excepcional qualidade e alta produtividade.

Propagação

A muda é um dos principais insumos do sistema de produção de fruteiras, pois, com mudas sadias, pode-se reduzir o uso de defensivos químicos (BETTI et al., 2000). Além disso, a muda consiste no ponto de partida para a obtenção de um melhor nível de resposta a qualquer tecnologia empregada no pomar (OLIVEIRA et al., 2004). A renovação ou a formação de novos pomares de framboeseira tem sido frequentemente realizada, utilizando hastes enraizadas de pomares mais antigos, o que não consiste na melhor prática do ponto de vista fitossanitário. Segundo Nickel (2003), a infestação de viroses nos pomares estabelecidos no País pode ser considerada elevada, conforme sugeriram testes biológicos realizados na Embrapa Uva e Vinho (Bento Gonçalves, RS) em amostras da região. Segundo o autor, essa suposição decorre do fato de que a maioria das cultivares de pequenas frutas foram introduzidas no Brasil antes da década de 1980, quando não havia programas de limpeza clonal e de certificação nos países de origem desses materiais, os quais são propagados vegetativamente. A propagação de framboeseira por meio de sementes também não é recomendada, em função da variabilidade genética decorrente do processo de segregação genética (INFOAGRO, 2006). Visando trabalhar com o conceito de prevenção de pragas e de doenças, como medida de redução de custos e otimização da produtividade e da qualidade dos frutos, o pomar deve ser formado utilizando mudas certificadas, que são as que oferecem melhor qualidade genética, fitotécnica e fitossanitária.




segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Manejo da Cultura da Framboesa


As framboeseiras desenvolvem-se melhor em solos profundos, bem drenados, com boa capacidade de retenção de água, pH ligeiramente ácido (em torno de 5,5) e conteúdo de matéria-orgânica superior a 3%. Preferem áreas bem iluminadas, protegidas em relação a ventos, com boa circulação de ar, precipitação anual de 700 mm a 900 mm, verões frescos e invernos moderados. Requerem frio hibernal, com nível de exigência dependente da cultivar (FERNANDEZ et al., 2006; INFOAGRO, 2006).
Em geral, as plantas iniciam a produção um ano e meio após o plantio das mudas. A frutificação ocorre nos meses de novembro a fevereiro e, nas cultivares remontantes, também nos meses de outono, ou seja, março a maio (RASEIRA et al., 2004). A maioria das cultivares de framboeseira apresenta flores completas e se autopolinizam com facilidade. No entanto, as abelhas e o vento também contribuem no processo de polinização (UNIVERSITY OF GEORGIA, 2006).
Os frutos de framboesa apresentam de 10 mm a 20 mm de diâmetro, com sabor variando de doce a ligeiramente ácido e aroma bastante peculiar. Botanicamente, os frutos são do tipo agregado (INFOAGRO, 2006). A coloração dos frutos é um dos parâmetros utilizados na classificação das framboesas, havendo as vermelhas, pretas, roxas e amarelas (FERNANDEZ et al., 2006). As framboesas amarelas são resultantes de mutação das pretas ou das vermelhas, enquanto as roxas de cruzamentos entre as pretas e vermelhas (DEMCHAK, 2005). Os frutos não são climatéricos, devendo ser colhidos no momento em que atingem a maturação completa. São altamente perecíveis, conservando-se por, no máximo, quatro dias, sob condições de 0 ºC e umidade relativa de 90% a 95% (RASEIRA et al., 2004). Além disso, são extremamente frágeis ao transporte, o qual deve ser feito com máximo cuidado para aumentar a vida de prateleira (PLAZA, 2003).

Plantio

Em relação à escolha da área para plantio, deve-se, ainda, evitar locais onde se cultivaram solanáceas nos últimos cinco anos, principalmente batata, tomate e pimentão, em função de apresentarem alguns patógenos em comum, tais como nematoides e fungos de solo (UNIVERSITY OF GEORGIA, 2006). O sistema radicular é fasciculado, com raízes delgadas e superficiais, que se desenvolvem lateralmente, consistindo na parte perene da planta. A cada ano, a planta emite numerosas hastes chamadas de rebentos, inicialmente herbáceos, mas que se lignificam no decorrer do verão (INFOAGRO, 2006).

Espaçamento, condução e poda

O espaçamento recomendado para a implantação do pomar de framboeseira é de 0,30 m entre plantas e de 1,5 m a 2,5 m entre linhas, dependendo do sistema de condução a ser adotado (RASEIRA et al., 2004). No Chile, a densidade de plantio recomendada é em torno de 10 mil plantas por hectare (PLAZA, 2003).
Em função do hábito de crescimento da framboeseira, torna-se necessária a implantação de um sistema para condução/sustentação das plantas. O sistema mais utilizado é o de espaldeira simples, também podendo ser empregado o de postes em T ou Y (FERNANDEZ et al., 2006).
Quanto ao manejo da cultura, deve-se dar atenção especial à poda e ao desbaste de hastes. Desta forma, as hastes que já frutificaram devem ser eliminadas anualmente; o desponte (poda verde) das hastes do ano com mais de 1,10 m de altura também deve ser realizado; e, para garantir frutos de maior tamanho, devem ser selecionadas de cinco a seis hastes por planta por ano. Além disso, recomenda-se renovar o pomar, em média, a cada quatro anos, para evitar que a concorrência entre hastes prejudique a produtividade e a qualidade dos frutos (RASEIRA et al., 2004; INFOAGRO, 2006). No período pós-dormência, enquanto as hastes do crescimento anterior florescem, novas hastes brotam das gemas da raiz. Essas hastes são as responsáveis pela produção do novo ciclo (novo ano), mas, no caso de cultivares remontantes, essas hastes também produzirão a safra de outono, do mesmo ciclo e após a colheita serão despontadas e preparadas para a safra de primavera/verão seguintes.

Principais pragas e doenças

Várias doenças têm causado prejuízos aos pomares de framboeseira, destacando-se o mofo-cinzento ou podridão-do-fruto (Botrytis cinerea), podridão-do-colo (Phytophthora infestans), antracnose (Elsinoe veneta/Sphaceloma necator), sarna (Cladosporium sp.), requeima-dos-brotos (Dydimella aplanatta), ferrugem-amarela (Phragmidium rubi-idaei), ferrugem-tardia-das-folhas (Puccinia strumamericanum), oídio (Sphaerotheca macularis), mancha-das-folhas (Cilindrosporium rubi), podridão-das-raízes (Phytophthorasp. e Fusarium sp.) e galha-da-coroa e dos galha-dos-ramos (Agrobacterium tumefaciens e A. rubi) (RASEIRA et al., 2004; SANHUEZA, 2004). Além dos danos causados por fungos e por bactérias, as viroses têm provocado problemas sérios na cultura da framboeseira.
As viroses mais importantes da framboeseira são as mesmas que causam prejuízos em amoreira-preta, em razão de ambas pertencerem ao gênero Rubus, que possui 740 espécies descritas, divididas em 15 subgêneros provenientes de várias partes do mundo (HUMMER, 1996). Mais de 30 doenças virais e assemelhadas são relatadas infectando a cultura da framboeseira, as quais podem ser classificadas em três grupos de vírus: transmissíveis pelo pólen, por nematoides e por pulgões (CONVERSE, 1987). Deve-se considerar, no entanto, que a principal forma de transmissão ocorre por meio de material propagativo contaminado.
Segundo Nickel (2003), podem-se destacar os seguintes vírus transmitidos por pulgões: vírus da necrose da amoreira-preta (BRNV), vírus da mancha amarela foliar de Rubus (RYNV), vírus da mancha foliar deRubus (RLSV), vírus do mosqueado de Rubus (RLMV) e vírus da clorose da nervura da amoreira-preta (RVCV); transmitida por pólen: vírus do nanismo arbustivo de Rubus (RBDV); e transmitidas por nematoides: mosaico de Arabis (ArMV), vírus da mancha anelar latente do morangueiro (SLRSV), vírus da mancha anelar de Rubus (RpRSV) e vírus do anel negro do tomate (TBRV). Em função das formas de transmissão das viroses, deriva-se a relevância de produzir as mudas em ambiente protegido contra o ataque de vetores alados. Dentro do grupo das viroses transmitidas por pulgões, destaca-se o mosaico das amoras, principal doença viral da framboeseira, a qual é causada por um complexo de até quatro vírus. Nos Estados Unidos, o mosaico das amoras é causado por vírus da necrose da amoreira-preta (BRNV) (não classificado) e por vírus da mancha amarela foliar de Rubus (RYNV). Na Europa, a doença é causada por RYNV e vírus do mosqueado de Rubus (RLMV). Entretanto, os sintomas são intensificados quando ocorre uma combinação entre BRNV ou BRNV e vírus da mancha foliar de Rubus (RLSV). Nos EUA, ainda ocorre o vírus do enrolamento da folha (RLCV) e, na Europa, o vírus da clorose das nervuras (RVCV). O complexo viral do mosaico é formado por componentes termosensíveis e termotolerantes, enquanto o RVCV é termoestável e de difícil remoção somente por termoterapia. Desta forma, a necessidade de se conhecer previamente o estado fitossanitário das cultivares para subsidiar as decisões de limpeza viral.
Entre os vírus transmissíveis por nematoides, destacam-se o vírus da mancha anelar latente do morangueiro (SLRSV), mosaico de Arabis (ArMV) e vírus da mancha anelar de Rubus (RpRSV) também facilmente transmissíveis mecanicamente para plantas indicadoras herbáceas, tais como o Chenopodium quinoa e a Petunia hybrida. Quanto aos vírus transmitidos por pólen, o vírus do nanismo arbustivo deRubus (RBDV) destaca-se por ser o de maior ocorrência no mundo. Nas duas recentes décadas foram feitos substanciais avanços na caracterização molecular dos vírus de Rubus. Vários vírus novos foram descritos e as relações com seus vetores estão sendo estudadas. Os vetores de vírus de Rubus spp. conhecidos incluem pulgões, moscas-brancas, ácaros, nematoides e tripes. Atualmente estão disponíveis métodos de diagnóstico por RT-PCR em tempo real para a maioria dos vírus que infectam Rubus (MARTIN et al., 2013).
Além das viroses, fitoplasmas também ocorrem em framboeseira. Estes organismos também são transmissíveis por enxertia e são disseminados, geralmente, por cigarrinhas.
 Os principais danos econômicos causados pelas viroses na framboeseira relacionam-se à redução da produção e da qualidade dos frutos (aborto de frutícolas, redução de firmeza, tamanho e peso), redução da longevidade das plantas e, consequentemente, da rentabilidade do investimento (NICKEL, 2003). Jones (1980) verificou reduções de 22% no número de frutos, de 25% no comprimento total dos ramos e de 18% no peso médio dos frutos, ao comparar plantas sadias e infectadas por BRNV e RBDV.
Em relação às pragas da framboeseira, as principais são: afídeos e nematoides, os quais, além dos danos diretos, são vetores de várias viroses; larva das raízes (Naupactus xanthographus); cochonilha branca (Aulacaspis rosae); e tripes das flores (Frankliniella sp.) (RASEIRA et al., 2004; INFOAGRO, 2006).



quarta-feira, 20 de setembro de 2017

O Cultivo da Framboesa



A framboeseira é uma espécie frutífera ainda pouco cultivada no Brasil, cuja produção anual é de apenas 150 toneladas em uma área que não ultrapassa 50 hectares. Esses dados foram levantados junto a produtores e extensionistas, já que não existem estatísticas oficiais.
Os fruticultores têm manifestado interesse no cultivo dessa espécie do grupo das pequenas frutas, cuja demanda tem aumentado significativamente no País e, principalmente, no exterior, motivada por suas propriedades nutracêuticas associadas à prevenção de doenças e à longevidade. Há mais de uma década, a Embrapa Clima Temperado vem introduzindo, multiplicando e avaliando o desempenho produtivo de cultivares de framboeseira. Mais recentemente, a Embrapa Uva e Vinho iniciou uma série de pesquisas sobre a cultura, atualmente destacando-se nas áreas de monitoramento de doenças e indexação de matrizes e de mudas. A muda é um dos principais insumos do sistema de produção, sendo o ponto de partida para a obtenção de melhor resposta a qualquer tecnologia empregada no processo produtivo. Nesse aspecto, as mudas certificadas são as que oferecem maior garantia de qualidade genética, fitossanitária e fitotécnica, aumentando as chances de sucesso do empreendimento agrícola.
A presente publicação aborda o conjunto de tecnologias disponíveis sobre a produção de mudas de framboeseira, as quais estão em consonância com as normas de certificação vigentes. Além disso, são apresentados dados sobre as principais cultivares recomendadas no Brasil, relativos às suas exigências edafoclimáticas, potencial de produção e qualidade dos frutos. Espera-se, com isso, potencializar a produção de framboesa no Brasil e, ao mesmo tempo, contribuir para a diversificação da matriz produtiva.

A framboeseira (Rubus ideaus L.) é uma espécie do grupo das pequenas frutas ainda pouco cultivada no Brasil, sendo considerada uma alternativa de renda, principalmente para a pequena propriedade familiar das regiões de clima temperado. Trata-se de uma cultura de baixo custo de implantação, grande demanda por mão de obra, facilmente conduzida em sistema orgânico de produção e que apresenta alta rentabilidade por hectare (POLTRONIERI, 2003).
A produção de framboesa pode ser destinada tanto ao mercado de frutas frescas quanto à fabricação de polpa congelada, purês, conservas, geleias, sucos e concentrados para sorvetes e iogurtes (VENDRÚSCULO, 2004). O mercado nacional e internacional encontra-se em expansão, motivado pelas propriedades nutracêuticas dessa fruta, que se enquadra no grupo dos alimentos funcionais, ou seja, aqueles que, além de nutrir, têm ação comprovada na prevenção e/ou na cura de doenças. Segundo Salgado (2003), a framboesa é rica em vitamina C, betacaroteno e compostos fenólicos. Dentre os compostos fenólicos presentes, destacam-se os flavonoides, os quais se ligam a açúcares, formando complexos chamados de glicosídeos, que apresentam ação antioxidante, anticancerígena e anti-inflamatória, além de atuarem como retardadores do envelhecimento.
A produção mundial de framboesa é de aproximadamente 415 mil toneladas, sendo a Rússia a maior produtora, seguida pela Sérvia, Montenegro, Estados Unidos e Polônia (UNIVERSITY OF GEORGIA, 2006). Na América Latina, segundo Plaza (2003), o Chile se destaca, com produção anual de 30 mil toneladas, cultivadas em cerca de 5 mil ha, possuindo alta tecnologia de produção e logística de exportação para os principais mercados mundiais. Nos últimos anos, os plantios de framboeseira têm aumentando significativamente na Argentina e no Uruguai. Não existem dados mais recentes.
A produção de framboesa no Brasil iniciou-se com a chegada dos imigrantes alemães, que a cultivavam nos quintais de suas colônias, visando consumo familiar (PAGOT, 2004). A produção comercial ocorreu pela primeira vez em Campos do Jordão, Estado de São Paulo, em função de, na década de 1950, o Barão e Baronesa Von Leithner, terem introduzido o material para cultivo em sua fazenda, onde constituíram a empresa agroindustrial Alto da Boa Vista, que fabricava geleias, xaropes e uma bebida destilada de framboesa (FARIA, 2010). Mais tarde, foram realizados plantios nas regiões de Vacaria e de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, e no Sul de Minas Gerais (PAGOT, 2004). Não existem dados precisos e atuais sobre a cultura da framboeseira no Brasil, porém, com base nos dados divulgados porPagot e Hoffmann (2003), Faria (2010) e pelo IBGE (2012), estima-se que a área plantada seja de aproximadamente 50 ha, com produção anual de 150 toneladas e receita direta de R$ 500 mil. O mercado interno, assim como o internacional, tem se expandido nos últimos anos, sendo frequentes as importações de frutos de framboesa, principalmente do Chile, na forma congelada, para abastecimento das indústrias brasileiras.
Os principais fatores limitantes à expansão da cultura da framboeseira no Brasil referem-se à sensibilidade da planta e dos frutos à alta pluviometria e à alta umidade relativa do ar, alta suscetibilidade a fungos e a viroses, e exigência de frio hibernal para frutificação (PAGOT; HOFFMANN, 2003; INFOAGRO, 2006). Esses fatores restringem a área produtora a regiões de altitude elevada nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Minas Gerais.
As produtividades dos plantios de framboeseira no País são extremamente variáveis, sendo as maiores obtidas na região de Vacaria (5,6 t ha-1) (EMATER, 2004). No entanto, segundo Plaza (2003), a produção de um pomar adequadamente manejado pode chegar a 16 t ha-1. Esses dados demonstram a necessidade de se aperfeiçoar o sistema de produção adotado no País, o que somente será possível mediante a realização de pesquisas nas áreas de seleção e melhoramento genético, otimização do sistema de produção de mudas e manejo fitotécnico da cultura.




domingo, 17 de setembro de 2017

Coeficientes técnicos para a produção de Mirtilo


Por envolver consumidores de diversos segmentos econômicos, o mirtilo atinge valores interessantes no mercado externo, representando uma boa alternativa para a cadeia produtiva de regiões ainda com pouca tradição na sua comercialização, como a América do Sul. Dados registrados pela Organização Mundial de Agricultura e Alimentação das Nações Unidas (FAO) indicam que nos últimos 40 anos a produção mundial de mirtilo aumentou 7 vezes. No mesmo período, a área cultivada teve um acréscimo ao redor de 15 vezes. Nos últimos 11 anos, esses números praticamente duplicaram, passando de 105 mil toneladas em 1992 para 207 mil toneladas em 2002. O crescente interesse dos consumidores norte-americanos, europeus e asiáticos tem pressionado os tradicionais produtores mundiais a aumentarem a oferta do fruto, somado a novos empreendedores, entre eles o Chile, a Argentina e, mais recentemente, o Brasil. Os Estados Unidos detêm 50% da produção mundial do fruto, seguidos pelo Canadá, com 33%, e pelo continente europeu com 16%, cabendo ao restante do mundo apenas 1% de participação no volume produzido em 2002. É também nos Estados Unidos onde se encontram os maiores índices de consumo. Os norte-americanos importam cerca de 82% da produção do restante do mundo. Embora seja o maior produtor de mirtilo, o país não é auto-suficiente e, exceto nos meses de maio, junho e julho (período de safra), depende diretamente do abastecimento canadense, chileno, neozelandês e argentino. O crescente interesse dos consumidores norte-americanos, europeus e asiáticos tem pressionado os tradicionais produtores mundiais e os novos empreendedores a aumentar a oferta do fruto, entre eles o Chie, a Argentina e, mais recentemente, Uruguai e Brasil. Quanto aos países da América do Sul, cabe destacar a participação do Chile, que produz cerca de 7.500 t/ano, sendo o representante deste grupo que mais produz e mais exporta para o mercado norte-americano, concentrando seu abastecimento entre os meses de janeiro e abril. Outro país que merece destaque é a Argentina, que ingressou no mercado externo de mirtilo há pouco tempo, mas já apresenta números relevantes no abastecimento mundial da fruta. A primeira exportação argentina ocorreu em 1994 para o Reino Unido, mas somente em 1997 o país começou sua incursão pelo mercado norte-americano. Produzindo hoje cerca de 380 t/ano, 74% dessa produção é destinada ao abastecimento dos Estados Unidos entre os meses de outubro e dezembro. O quadro produtivo atual, no Brasil, está estimado em cerca de 60 toneladas, concentradas nas cidades de Vacaria e Lavras do Sul no Rio Grande do Sul, e Campos do Jordão em São Paulo, totalizando uma área de 12 ha em produção comercial. Para o ano de 2004, projeta-se um incremento de 15 ha de área plantada, o que poderá praticamente duplicar a produção. Para os próximos cinco anos, a empresa Nice Blueberries na cidade de Itá (RS) projeta aumentar a área explorada em 100 ha o que, definitivamente deixa claro o interesse brasileiro em inserir-se neste promissor mercado. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Fruticultura (IBRAF), em 2002 o Brasil exportou cerca de quatro toneladas de mirtilo, o que representou uma receita de US$ 24.000,00 aos produtores e divisas para o Brasil. Trata-se de um número pouco significativo, face ao potencial natural que o País oferece para a produção comercial. Porém, em vista das previsões otimistas, novos investidores surgirão, preenchendo a fatia do mercado interno, ainda não explorado com o produto nacional e, principalmente, o mercado internacional, facilitado pela política cambial ora praticada no Brasil.

Coeficientes de produção

A cultura do mirtilo explorada com fins comerciais, no Brasil, é recente e carece de informações econômicas, capazes de registro, como custo de produção, vida útil de um pomar, produtividade média durante a vida útil, etc. Na Tabela 8 discriminam-se as operações que compõem o sistema de produção explorado comercialmente no País e seus coeficientes técnicos.
Tabela 1. Coeficientes técnicos para a produção de Mirtilo (por hectare)
Especificação
Unidade
Quantidade
Implantação
Produção
1. Insumos
 
 
 
Mudas
muda
2.200
--
Sulfato de amônia
kg
--
200
Sulfato de potássio
kg
150
--
Superfosfato triplo
kg
216
60*
Mangueira (irrigação por gotejo)**
m
3.300
--
Formicida
kg
4
--
Cumbuca (100 gr)
Un.
60.000
--
Caixas de papelão
Un.
6.000
--
2. Preparo do solo e plantio
 
 
 
Roçada mecânica (3x)
H/M
0,5
0,5
Aração mecânica (1x)
H/M
0,5
--
Gradagem mecânica
H/M
0,5
--
Marcação e nivelamento
D/H
2
--
Coveamento e plantio
D/H
3
--
3. Tratos culturais
 
 
 
Capina mecânica (3x)
D/H
1
1
Capina manual (3x)
D/H
3
3
Aplicação de adubo (cobertura)
D/H
3
6
Aplicação de formicida
D/H
2
2
Poda verde
D/H
2
4
Poda de inverno
D/H
--
5
Irrigação
D/H
10
15
4. Colheita (***)
 
 
 
Colheita manual
D/H
--
15
Transporte interno
D/H
10
40
Embalagem
D/H
--
20
(*) Dependendo da análise foliar
(**) Moto bomba 3 a 5 cv/uma mangueira de 2"
(***) 3 t/ha no primeiro ano de produção; 6 t/ha nos anos seguintes.
Fonte: Embrapa Clima Temperado