quarta-feira, 28 de março de 2018

Irrigação na Cultura da Manga


As informações sobre demanda hídrica, profundidade de enraizamento, coeficiente de cultura e eficiência do sistema de irrigação devem ser consideradas para um manejo de irrigação, adubação e indução floral criteriosos. No Submédio do Vale do São Francisco, a época de produção da mangueira é programada com a aplicação de reguladores vegetais e estresse hídrico, o que permite produção e a colheita durante todo o ano. Assim, as informações sobre a morfologia e fisiologia da cultura, de acordo com o sistema de irrigação utilizado e os parâmetros edafoclimáticos da região, são fundamentais para seu manejo correto.

Profundidade de enraizamento

Experimentos conduzidos com a mangueira ‘Tommy Atkins’ cultivada em condições do Submédio do Vale do São Francisco mostraram que a planta apresenta raízes até a profundidade de 2 m, mas com maior presença entre 0,3 m e 1,4 m de profundidade. As raízes também são encontradas ao longo da linha de plantas, o que indica um entrelaçamento das raízes decorrente do hábito de crescimento da cultura no período chuvoso na região (novembro a março) e da presença de emissores de água em toda a extensão da linha de plantas. Na direção vertical, as raízes alcançam a profundidade de 1 m, sendo que 65% das raízes de absorção e 56% das raízes de sustentação estavam até a profundidade de 0,6 m.
Essas informações são muito importantes para o monitoramento da água no solo, que deve ser feito nas profundidades e distâncias do caule onde há maior presença de raízes, as quais, em regiões semiáridas, estão diretamente relacionadas com a distribuição da área molhada. A observação da distribuição do sistema radicular na área a ser irrigada pode ser realizada por meio de abertura de trincheiras. No entanto, um manejo mais criterioso deve considerar a profundidade de 2 m, pois pode haver contribuição de camadas de solo abaixo de 1 m para a quantidade total de água absorvida pelas plantas, principalmente no período de maior necessidade hídrica (maturação dos frutos) e nos meses mais quentes (outubro e novembro). Em solos onde há a contribuição do lençol freático no fluxo ascendente de água do solo, o controle do crescimento vegetativo e programação da indução da floração pode ser mais difícil. Neste caso, torna-se importante o acompanhamento do nível do lençol freático, podendo ser realizado por meio de poços de observação.

Evapotranspiração da cultura e coeficiente de cultura

Os valores médios da evapotranspiração da cultura (ETc) e do coeficiente de cultura (Kc), obtidos durante dois ciclos de produção (novembro a outubro) da mangueira ‘Tommy Atkins’ (novembro 2003 a outubro 2004 e dezembro 2004 a outubro 2005) são apresentados na Tabela 1. O solo da área foi classificado como Latossolo Vermelho-Amarelo e as plantas foram irrigadas por microaspersão, com um emissor por planta e vazão média de 44 L/h, com molhamento de 70% da superfície do solo. O valor máximo encontrado para a ETc diária foi 6,3 mm (2003-2004) e 5,1 mm (2004-2005).
Tabela 1. Evapotranspiração média diária da cultura (ETc, mm/dia) e coeficiente de cultura (Kc) da mangueira (Mangifera indica L.) cv. Tommy Atkins, aos 18 anos de idade, em Petrolina, PE, nos ciclos de produção 2003-2004 e 2004-2005.
Fases fenológicas
ETc (mm/dia)
Kc
Repouso
3,7
0,7
Crescimento vegetativo
3,8
0,8
Maturação dos ramos
3,7
1,0
Indução floral, início da floração
3,4
1,0
Fim da floração e início do crescimento do fruto
3,4
0,9
Crescimento do fruto
3,4
0,9
Maturação
3,6
0,8
Colheita
3,5
0,6
Fonte: Teixeira et al. (2008).
Conhecendo-se a evapotranspiração de referência (ETo, mm) e o Kc, para cada estádio fenológico da cultura, pode-se estimar a ETc de um pomar de mangueiras (ETc = ETo . Kc), e assim determinar a lâmina de irrigação a ser aplicada. Devem ser considerados, também, a eficiência do sistema de irrigação utilizado, a vazão e o número de emissores por planta.
A determinação da lâmina a ser aplicada também pode ser feita com base na umidade atual do solo. Conhecendo-se a força com que o solo retém a água, com a utilização de tensiômetro, pode-se determinar a umidade do solo por meio da curva de retenção de água, e assim calcular a quantidade a ser aplicada para que o solo apresente um valor de umidade desejado. Neste caso, também, a eficiência do sistema de irrigação, vazão, número de emissores por planta, a área molhada e a profundidade do solo a ser umedecida devem ser avaliados.

Manejo da fertirrigação

A fertirrigação é uma das maneiras mais eficientes e econômicas de aplicar fertilizante no cultivo das plantas, principalmente em regiões de climas árido e semiárido, pela necessidade de irrigação. Assim, ao aplicar os fertilizantes em menor quantidade por vez e com maior frequência, pode-se manter um teor de nutrientes no solo nas quantidades exigidas nas diferentes fases do ciclo da cultura, o que aumentará a eficiência do uso de nutrientes pelas plantas e, consequentemente, a sua produtividade.
Quando se prepara uma solução de fertilizantes envolvendo mais de um tipo de fontes de nutrientes, deve-se verificar se há compatibilidade entre eles (Tabela 2), para evitar problemas de entupimentos das tubulações e dos emissores. O cálcio não pode se injetado com outro fertilizante que contém o sulfato, pois podem dar origem a precipitados que entopem os emissores. Esses cuidados devem ser ainda maiores, quando a água usada na irrigação tem pH neutro, ou seja, quando as concentrações de Ca + Mg e de bicarbonatos são maiores que 50 mg/dcm3 e 150 mg/dcm3 (ppm), respectivamente. O ácido fosfórico não pode ser injetado via água de irrigação que contenha mais que 50 mg/dcm3 (ppm) de cálcio e nitrato de cálcio e em água que contenha mais de 5 meq.L-1 de HCO3, pois poderá formar precipitados de fosfato de cálcio.
Tabela 2. Compatibilidade entre os fertilizantes empregados na fertirrigação.
Fertilizante1
UR
NA
SA
NC
NK
CK
SK
FA
MS
MQ
SM
AF
AS
AN
Ureia (UR)

C
C
C
C
C
C
C
C
C
C
C
C
C
Nitrato de Amônio (NA)


C
C
C
C
C
C
C
C
C
C
C
C
Sulfato de Amônio (SA)



I
C
C
SR
C
C
C
C
C
C
C
Nitrato de Cálcio (NC)




C
C
I
I
I
SR
I
I
I
C
Nitrato de Potássio (NK)





C
C
C
C
C
C
C
C
C
Cloreto de Potássio (CK)






SR
C
C
C
C
C
C
C
Sulfato de Potássio (SK)







C
SR
C
SR
C
SR
C
Fosfatos de Amônio MAP e DAP(FA)








I
SR
I
C
C
C
Fe,Zn,Cu Mn Sulfato (MS)









C
C
I
C
C
Fe,Zn,Cu Mn Quelato (MQ)










C
SR
C
I
Sulfato de Magnésio (SM)











C
C
C
Ácido fosfórico (AF)












C
C
Ácido sulfúrico (AS)













C
Ácido nítrico (AN)














1C = compatível; SR = solubilidade reduzida; I = incompatível
Fonte: Villas Bôas et al. (1999).
Os procedimentos adequados para aplicação de fertilizantes via água de irrigação compreendem três etapas distintas. Durante a primeira, deve-se funcionar o sistema de irrigação durante um quarto do tempo de irrigação, para equilibrar hidraulicamente as unidades de rega como um todo. Na segunda etapa, faz-se a injeção dos fertilizantes no sistema de irrigação, utilizando-se equipamentos apropriados. Na terceira, o sistema de irrigação deverá continuar funcionando para complementar o tempo total de irrigação, lavar completamente o sistema de irrigação e carrear os fertilizantes da superfície para camadas mais profundas do solo.
Os fertilizantes para uso em irrigação podem ser agrupados em duas classes: a) fertilizantes "líquidos": abastecidos nos tanques na forma de solução, sem necessidade de tratamento prévio; b) fertilizantes sólidos facilmente solúveis: devem dissolver-se facilmente antes do início da fertirrigação. Esses fertilizantes podem, ainda, ser apresentados na forma simples ou em combinações com dois ou mais elementos.
Para o preparo da solução fertilizante (Tabela 3), deve-se conhecer a solubilidade dos fertilizantes. Sugere-se adotar 75% da solubilidade informada pelo fabricante, uma vez que os fertilizantes contêm níveis variados de impurezas, enquanto a água de irrigação possui composição química bastante distinta. Nas tabelas apresentadas, a solubilidade refere-se a uma temperatura de 20 °C. Como a solubilidade dos fertilizantes aumenta com a elevação da temperatura, recomenda-se utilizar uma menor solubilidade dos fertilizantes para períodos de temperatura inferior a 20 °C.
Tabela 3. Solubilidade dos produtos recomendados para uso via fertirrigação.
Produto
Conteúdo do nutriente
(%)
Solubilidade
(g/l de H2O)
N
P
P2O5
K
K2O

10ºC
20ºC
30ºC
Ureia
46
-
0
-
0
-
450
510
570
Nitrato de Amônia
33,5
-
0
-
0
-
610
660
710
Sulfato de Amônia
20
-
0
-
0
-
420
430
440
Nitrato de Cálcio
15,5
-
0
-
0
26,5 CaO
950
1200
1500
Fosfato mono-Amônio
12
26,6
61
-
0
-
290
370
460
Fosfato mono-Potássio
0
22,6
52
28
34
-
180
230
290
Nitrato de Potássio
13
-
0
38
46
-
210
310
450
Multi K+Mg
12
-
0
35,6
43
2 MgO
230
320
460
Multi K + NPK
12
0,9
2
36,5
44
-
210
330
480
Magnisal (Mg-nitrato)
10,8
-
0
-
0
15,8 MgO
2200
2400
2700
Sulfato de Potássio
0
-
0
41,5
50
0
80
100
110
Fonte: Burt et al. (1995).
A escolha do fertilizante deve ser feita com base nas características de cada produto objetivando-se atender às necessidades dos demais elementos envolvidos no processo, tais como: sistema de irrigação, textura do solo, qualidade da água, custo e exigências nutricionais da planta.
Micronutrientes como Zn, Fe, Cu e Mn podem reagir com sais da água de irrigação e causar precipitação e entupimento dos emissores. Por isso, em muitos casos, esses micronutrientes são aplicados como quelatos, que são facilmente solúveis e causam poucos problemas de precipitação e entupimento. No solo, os micronutrientes quelatizados reagem menos, e por isso apresentam maior mobilidade que os sais.
Na aplicação via irrigação recomendam-se doses pequenas de micronutrientes em irrigação localizada, pois o volume de solo irrigado é pequeno e as dosagens convencionais podem ser fitotóxicas. No caso do boro, em função da facilidade de lixiviação que esse nutriente apresenta, o seu parcelamento é a prática mais recomendada.

A fertirrigação depende da taxa de injeção de fertilizantes, do tempo de irrigação por unidade de rega e dos tipos e doses de fertilizantes por unidade de rega. Devem-se considerar também as cultivares utilizadas e suas respectivas fases fenológicas.
Como regra geral, dependendo da complexidade do desenho do sistema de irrigação com relação à fertirrigação, recomenda-se iniciar o processo com fertilizante potássico, seguido dos fertilizantes nitrogenados, administrando-se a quantidade desses fertilizantes aplicados por unidade de rega, com base no tempo de irrigação. A formação de precipitados na água de irrigação pode contribuir para obstrução das tubulações e emissores do sistema de irrigação, principalmente nas águas com nível de pH acima de 7. A lavagem do sistema de irrigação e os tratamentos químicos são os fatores recomendados para reduzir as obstruções nas partes internas das tubulações e nos emissores do sistema de irrigação. As propriedades que utilizam o ácido fosfórico como fonte de fósforo, devem aplicá-lo no final da fertirrigação, pois o mesmo pode, também, proporcionar a limpeza do sistema de irrigação. Caso seja aplicado mais de um fertilizante por vez, as soluções de cada fertilizante devem ser preparadas em separado, e misturadas na proporção desejada, de acordo com as necessidades nutricionais das plantas.

Uma alternativa para amenizar a complexidade da injeção de fertilizantes, via água de irrigação, é a utilização de adutoras secundárias, paralelas às adutoras das unidades de rega, cuja finalidade é transportar a solução ou mistura concentrada de fertilizante até a entrada da unidade de rega específica. Porém, é necessário que em cada unidade de rega, a injeção da solução contendo fertilizante seja feita nos dois quartos intermediários do tempo de irrigação, pois a permanência do nitrogênio na tubulação, após a fertirrigação, pode favorecer o desenvolvimento de microorganismos que também causam a obstrução dos emissores.

domingo, 18 de março de 2018

Poda na Mangueira (Manga)


A poda na fruticultura é realizada com o objetivo de melhorar a sanidade das plantas, nas práticas culturais, produtividade, qualidade dos frutos e, também, permitir a condução da planta e adequar o formato da copa ao espaçamento escolhido para o pomar. A poda é importante porque melhora a aeração e a entrada de luz no interior da copa e por possibilitar a retirada de partes da planta atacadas por pragas e doenças. Com a poda, é possível, também, controlar a produção, podendo programar a colheita para períodos mais favoráveis à comercialização ou menos favoráveis à incidência de pragas.
Na decisão de uma poda, o vigor e a fertilidade devem ser considerados. O vigor varia em função da posição e inclinação de um ramo na planta; brotos verticais são principalmente lenhosos e não produtivos. Quanto mais severa for a poda de um ramo, maior será seu vigor na brotação. Por isso, a poda curta é indicada para ramos debilitados, e a longa para as vigorosas. A fertilidade está relacionada à tendência das plantas para produzirem flores e frutos, e varia entre cultivares da mesma espécie e entre indivíduos da mesma cultivar. Em geral, observa-se que quanto maior o vigor, menor a fertilidade dos ramos.
O manejo da copa da mangueira é feito pela prática de podas durante a formação do pomar, como também pelas anuais, realizadas durante a fase produtiva da planta (normalmente após a colheita). São práticas nas quais estão incluídas as atividades de limpeza e adequação da copa das plantas ao que foi planejado no estabelecimento do pomar. O material oriundo das podas, no caso de ramos que não tenham apresentado problemas fitossanitários, pode ser colocado nas ruas (entrelinhas do pomar), e depois de secos, serem triturados para uso como cobertura do solo (Figura 1).
Fotos: Mouco, M. A.


Figura 1. a) Restos de poda depositados nas ruas em pomar de mangueira (Mangifera indica L.) cv. Kent; b) como cobertura do solo.
As podas de formação são realizadas com o objetivo de orientar o crescimento dos ramos, quanto ao número, distribuição e tamanho das plantas que deve ser adequado à densidade escolhida para o pomar. Assim, significa formar uma planta com uma arquitetura caracterizada por uma copa com a parte interna aberta e um número adequado de ramos laterais produtivos. Essas características trazem vantagens como a maior iluminação e aeração da copa, facilidade nos tratamentos fitossanitários e obtenção de plantas menos vulneráveis aos ventos fortes.
A poda de formação proporciona à planta uma conformação compatível com o método de exploração e, pela redução do porte da árvore, facilita os tratos culturais, do solo, a proteção contra queimaduras do sol, além de facilitar a colheita dos frutos e possibilitar o aumento da densidade de plantio.                            
Para acelerar a maturação dos ramos das mangueiras, é necessário produzir uma estrutura bem ramificada, o que é possível por meio da poda de formação, despontando os brotos vegetativos no primeiro ou segundo entrenó. A poda de formação consiste em cinco a seis operações para formar uma planta com esqueleto equilibrado e robusto. A primeira poda é feita a uma altura de 60 cm a 80 cm do solo; o corte deve ser feito abaixo do nó, para induzir uma brotação em pontos alternados e proporcionar uma base da copa mais equilibrada. As podas sempre devem ser feitas em local com tecido já lignificado (maduro). Após a brotação, devem ser selecionados três ramos, que formarão a base da copa; os demais ramos devem ser eliminados. Os cortes deverão ser tratados com uma pasta à base de fungicida.
A partir da quarta poda, o corte deverá ser feito acima do nó, em tecido lignificado, quando devem ser selecionados três ramos direcionados para a parte externa da copa; os locais de corte e os ramos devem ser protegidos com tinta látex e fungicida. A poda acima do nó aumenta a possibilidade de brotação de novos ramos em posição adequada à floração, produção e qualidade de frutos, mas a decisão deve considerar, também, o vigor da variedade/planta. Essa fase é atingida pela planta entre 2,5 e 3 anos de idade.

Podas anuais ou de produção

As podas de produção referem-se às realizadas durante a fase produtiva da planta e normalmente são feitas depois da colheita. Nesta prática estão incluídas as atividades de limpeza, levantamento de copa, abertura central, equilíbrio, correção da arquitetura, além da poda lateral e de topo.
Poda de limpeza: Consiste na remoção dos ramos secos e doentes da planta, como também, daqueles com frutificação tardia, e dos restos de colheita. Deve ser realizada rigorosamente uma vez ao ano e tem como objetivos: eliminar material doente ou infectado, especialmente com Fusarium e Lasiodiploidia; obter material produtivo, ou seja, gemas apicais, homogêneas em idade e capacidade produtiva, para produção no ano seguinte, além de material bem localizado em relação à exposição ao sol (necessário para o amadurecimento das gemas e para o colorido dos frutos), como também, dispor de árvores mais baixas e com copa mais adequada aos diversos manejos. Quando a poda pós-colheita/limpeza não é feita, deve-se esperar a brotação espontânea da planta, o que pode atrasar ou inviabilizar a produção do ano seguinte.
Levantamento da copa: Consiste na eliminação dos ramos que estiverem até 0,70 m de altura do solo (Figura 2a). Essa operação ajuda no controle das ervas daninhas e na melhor distribuição da água de irrigação por aspersão; também evita a produção em ramos que possam expor os frutos ao contato com o solo (perda de qualidade).
Abertura central da planta (poda central de iluminação): A poda de abertura central da mangueira consiste em eliminar ramos que tenham um ângulo de inserção com o tronco menor que 45º (Figura 2b). Com isso, consegue-se uma maior iluminação na parte interna da copa. Os ramos de maior diâmetro da planta, que tenham uma parte direcionada para o sol poente, devem ser pincelados com uma solução de água: cal (1:2) logo após a poda, para se evitar rachaduras provocadas pelo sol.
Fotos: Mouco, M. A.



Figura 2. a) Práticas de levantamento de copa e, b) abertura central.
Poda lateral: É a poda que se efetua para manter um espaçamento adequado entre as fileiras de plantas e que vai permitir a passagem de máquinas e veículos, facilitando as pulverizações, tratos culturais, colheita, etc. É comum deixar que a rua entre plantas corresponda a 45% do espaçamento entre fileiras (Figura 3a). Exemplo: um espaçamento de 8 m x 5 m deve ter uma rua com largura de 3,6 m (45%).
Poda de topo: É a poda efetuada para manter a altura da planta num limite adequado à condução do pomar (Figura 3b). Normalmente, considera-se como ideal, uma altura máxima igual a 55% do espaçamento entre fileiras da planta, ou seja, num espaçamento de 8 m x 5 m, a altura máxima da planta deve ser de 4,4 m (55%).
Fotos: Mouco, M. A.



Figura 3. a) Poda lateral. b) poda de topo.
Poda de equilíbrio: É realizada em plantas que já estabilizaram a produção, com a finalidade de balancear o equilíbrio entre a produção de frutos e a folhagem. A estreita relação entre o incremento da folhagem e a produção de frutos, nos primeiros anos da mangueira, vai se modificando com os anos até o ponto em que os novos incrementos da folhagem não contribuem para aumentar a produção de frutos, podendo até comprometê-la. Essas perdas da eficiência produtiva da planta podem ser minimizadas por meio da poda da folhagem.
No primeiro ano, a poda da folhagem limita-se ao raleio de ramos que se localizam ao redor e no centro da copa da planta, e que comprometem a adequada aeração e iluminação (na abertura central da copa, normalmente, esta prática já é feita); o momento mais adequado para esta prática é também imediatamente após a colheita dos frutos. A vegetação dos ramos e os brotos de folhas jovens, que normalmente contêm de três a cinco folhas, também devem ser raleados até ficarem com uma ou duas folhas sadias. Nos anos seguintes, a poda de equilíbrio limita-se ao raleio de folhas que se localizam nos brotos novos, entre 4 e 5 meses antes da floração. Também devem ser eliminados os ramos que afetam o balanço do desenvolvimento da copa das árvores.
Correção da arquitetura
O formato da copa é definido em função do vigor da copa e da densidade escolhida na implantação do pomar. As copas mais comuns têm as formas piramidal ou vaso aberto (taça).
Forma piramidal - Uma vez que a árvore tenha alcançado o espaço disponível, é necessário realizar uma poda de manutenção, que permita conservar o máximo da superfície produtiva. Este tipo de poda é recomendado principalmente para espaçamentos menores e deve ser realizada logo após a colheita, seletivamente, cortando-se os brotos situados na parte alta da árvore até o primeiro nó (abaixo) e eliminando-se todos os brotos verticais.
Forma em vaso aberto - Consiste em abrir espaços no centro da copa, eliminando-se os ramos que tenham um ângulo de inserção menor que 45º com o tronco. Com isso, consegue-se uma melhor iluminação interna e um maior número de ramos na parte mediana da copa.
Intensidade da poda
A intensidade da poda não deve ser a mesma durante o ano, sendo realizada em função da época em que será feita a indução floral. A poda mais severa da mangueira não deve ser praticada quando se deseja a floração da planta fora do período normal, e que coincide com a ocorrência de altas temperaturas e altos índices de precipitação pluvial. Nessa época, são recomendadas podas menos severas e, ainda, aguardar a emissão de dois a três fluxos vegetativos, antes de se aplicar o regulador vegetal para o início do manejo da produção da mangueira.
Desfolha
A desfolha na mangueira é praticada com a finalidade de melhorar a capacidade produtiva da planta e a coloração dos frutos.
Quando a folhagem é abundante, o sombreamento traz como consequência a existência de um material vegetal que atua de forma parasitária e que reduz a possibilidade de acumular reservas para a produção de frutos. A remoção de 15% a 20% da vegetação velha, incluindo ramos, contribui para a melhora significativa na eficiência produtiva. Essa desfolha é feita por meio da poda praticada logo após a colheita. Após a segunda queda de frutos, é conveniente fazer uma desfolha nos ramos produtivos, deixando-se apenas os dois fluxos de folhagem mais próximos da infrutescência.
A desfolha, para melhorar a coloração dos frutos, deve ser feita próxima à fase final da maturação, eliminando-se as folhas que os sombreiam (Figura 4). Essa prática deve ser realizada com bastante cuidado, principalmente na parte da copa direcionada para o poente, pois frutos muito expostos em época de temperaturas elevadas e baixa umidade do ar acabam necessitando de proteção para evitar a queima causada pelo sol, principalmente nos ‘ombros’ dos frutos.
Fotos: Mouco, M. A.



Figura 4. a) Desfolha em mangueira (Mangifera indica L.) `Kent` e, b) `Palmer`, aos 30 dias da colheita. 

Podas para manejo da floração

Eliminação da brotação vegetativa - Quando há ocorrência de brotação vegetativa (Figura 5), próximo à época de aplicação do nitrato para quebrar a dormência da gema, pode-se manter o estresse hídrico para aumentar o grau de maturação do fluxo vegetativo inferior (folhas quebradiças) e, em seguida, podar a vegetação nova e iniciar as pulverizações com nitrato (potássio, cálcio ou amônio) para estimular a brotação das gemas axilares.
Foto: Mouco, M. A.
Figura 5. Brotação vegetativa em mangueiras (Mangifera indica L.) com ramos em fase de maturação e antes do início das induções com nitrato.
Eliminação da inflorescência - Quando se quer eliminar a inflorescência de um ramo sem que haja a imediata emissão de novos brotos florais, deve-se cortá-la, pelo menos, aos 5 cm do nó terminal, no estádio de chumbinho (após a fertilização). Essa prática deve estimular a emissão de brotos vegetativos vigorosos.
A eliminação da floração terminal em algumas cultivares provoca uma segunda emissão de inflorescência axilar, que deve produzir um número menor de frutos abortados. Essa eliminação deve ser feita acima do nó terminal (na base da inflorescência), no início da floração. Essa prática permite retardar a floração por um período curto, até 30 dias.

Poda de renovação e rejuvenescimento

O objetivo das podas de renovação e rejuvenescimento é revitalizar as árvores velhas ou descuidadas, que não apresentam produção abundante, mas com troncos e ramos principais estão sadios. Consiste na eliminação da folhagem e de ramos secundários, deixando-se apenas o esqueleto dos ramos principais. Com isso, brotações vegetativas que formarão a nova copa são estimuladas.

sábado, 10 de março de 2018

Manejo de Floração da Mangueira (Manga)


A possibilidade de produção durante todo o ano é o diferencial de maior interesse na exploração da mangueira nas condições semiáridas. Assim, o manejo adequado da parte aérea sem alterar a atividade metabólica favorece a floração e é o que vem orientando os trabalhos de escalonamento da produção de manga, com o objetivo de atender todos os mercados disponíveis.
O frio e o estresse hídrico são condições naturais que induzem o repouso dos ramos, condição necessária à diferenciação das gemas vegetativas em florais, visando o florescimento, nas condições de clima subtropical e tropical, respectivamente. A ocorrência de temperaturas baixas, nas condições subtropicais, define o período de floração e produção da mangueira.
O primeiro passo no processo de indução floral da mangueira, nas condições semiáridas, é realizado com o objetivo de promover o repouso dos ramos. Nesta região, as práticas para alterar o período de floração e produção incluem o manejo da irrigação. O método consiste na redução gradual da quantidade de água, visando uma maturação mais rápida e uniforme dos ramos. Quando bem conduzido e dependendo do estado nutricional da planta, deve permitir o efeito desejado em 30 a 70 dias. O grande inconveniente deste método é a dependência das condições climáticas (precipitação), o que restringe a produção a um determinado período do ano.
Os trabalhos testando retardantes vegetais, como o paclobutrazol (PBZ), foram iniciados com o objetivo de desenvolver um manejo da floração da cultura, que permitisse a produção de manga em qualquer época do ano. O PBZ regula o crescimento vegetativo da mangueira, por meio da inibição da síntese das giberelinas e a forma de aplicação mais eficiente é feita com a diluição do produto em 1 L ou 2 L de água, que depois é despejado junto ao colo ou na projeção da copa. É importante que a solução seja aplicada uniformemente no solo, sob a copa, pois uma distribuição desuniforme pode trazer como consequência a floração somente em uma parte da copa (Figura 1). Depois da aplicação do regulador vegetal, é necessário que seja feita a irrigação das plantas, pois é a água que leva o produto até as raízes, para ser absorvido pelas plantas e inibir a brotação nas gemas apicais dos ramos. O PBZ deve ser aplicado à planta depois da emissão de, pelo menos, dois fluxos vegetativos, após a poda pós-colheita.
Fotos: Mouco, M. A.
 
Figura 1. Detalhe de uma mangueira (Mangifera indica L.) cv. Tommy Atkins onde o PBZ não foi distribuído uniformemente no solo.

A quantidade de PBZ a ser aplicada em um pomar deve considerar a cultivar, o tamanho das plantas, tipo de solo e método de irrigação, como também o clima durante o manejo da brotação vegetativa visando à floração. Normalmente, a recomendação de 1 g por metro linear de diâmetro de copa pode ser uma referência para plantas da cv. Tommy Atkins, com diâmetro de copa entre 3 m e 5 m. No entanto, esta dose é excessiva para plantas de diâmetro inferior e insuficiente para plantas maiores.
A dose de PBZ é dependente de alguns fatores: o vigor, que é o resultado de características que tornam a planta mais ou menos vegetativa, é favorecido também pelo teor de nitrogênio foliar e pela presença de umidade no solo; a cultivar, que está relacionada com a capacidade de brotação vegetativa, como a ‘Kent’ e a ‘Haden’, e que requerem uma dose de PBZ maior que a ‘Tommy Atkins’, considerada padrão. Por último, o fator resíduo, que pode persistir na planta; oriundo de aplicações anteriores. É comum, depois da poda pós-colheita, utilizar o aspecto dos fluxos vegetativos, para serem comparados com fluxos de plantas testemunhas, que não tiveram aplicação de PBZ. Assim, para o segundo ano de aplicação, dependendo do resultado na floração e do tipo de brotação vegetativa depois da poda pós-colheita (se normal ou compactada), pode-se usar 70% ou 50% da dose de PBZ utilizado na safra anterior.
Em casos nos quais a dose de PBZ utilizada na safra anterior for elevada, tendo provocado emissões de panículas e ramos vegetativos muito compactos, deve-se ter bastante cuidado no ciclo seguinte da planta, recomendando-se: evitar poda drástica da planta na pós-colheita, devendo-se quebrar apenas o ráquis floral; adubação com nitrogênio (pós-colheita); pulverização via foliar com nitrato de potássio + sulfato de zinco; no caso de brotação vegetativa de ramos muito compactos, aguardar a emissão do segundo fluxo, para reinício do manejo do ciclo produtivo.
Uma avaliação dos gastos com o manejo da floração na cultura da mangueira mostra que o PBZ é responsável por cerca de 70% do custo com os produtos utilizados (sem incluir custos com a aplicação). Ainda devem ser considerados os custos ambientais do excesso de PBZ aplicado no solo, e o efeito na compactação das panículas, que acaba onerando mais ainda o manejo com os tratos fitossanitários. É importante o cuidado na definição da dose a ser utilizada tanto no primeiro ano como nos anos subsequentes, sem desconsiderar o resíduo que fica da aplicação na safra anterior.
O sulfato de potássio, no manejo da floração também tem a função de conter a emissão de ramos vegetativos, devendo ser utilizado em duas ou três aplicações, em concentrações que variam de 2% a 2,5%.
Com relação à utilização do etephon no manejo da floração, o objetivo é a liberação de etileno nas plantas, que vai participar no processo de maturação das gemas e promover a floração. É um produto que tem eficiência quando combinado com o manejo da irrigação (estresse hídrico) e/ou PBZ. Deve ser aplicado por meio de pulverizações, em dosagens entre 200 ppm a 300 ppm.
Os nitratos no processo de indução floral têm a função de estimular a brotação depois do período de repouso dos ramos; são aplicados via foliar, por meio de pulverizações, e as doses comumente usadas variam de 2% a 4% para o nitrato de potássio (KNO3), de 1,5% a 2% para o nitrato de cálcio, Ca(NO3)2 e de 1% a 1,5% para o nitrato de amônia (NH4NO3). O número de pulverizações vai depender do índice de brotação que se for obtendo. As pulverizações com nitratos devem ser feitas no início da noite ou na madrugada, quando as condições ambientais favorecem a absorção e minimizam os danos à planta.
A resposta às pulverizações com nitrato vai depender do estado de maturação dos ramos (gemas), cujo processo é obtido por meio do estresse hídrico e/ou uso de reguladores vegetais. Outros fatores, como baixa temperatura na ocasião das pulverizações com nitratos, melhoram o índice de floração. Em período chuvoso, é recomendável um intervalo maior entre as pulverizações, em torno de 15 dias ou mais, pois chuvas intensas levam o produto das folhas para o solo próximo ao sistema radicular da planta, podendo provocar uma brotação vegetativa indesejável.

Floração da mangueira

A floração natural da mangueira no Semiárido brasileiro ocorre com maior intensidade entre junho e agosto. Nesta região, as condições climáticas (entre maio e agosto) são caracterizadas pela ocorrência de temperaturas noturnas inferior a 20 ºC e diurnas inferior a 30 ºC e, também, pela menor quantidade de precipitação pluviométrica.

Floração entre maio e setembro

O manejo artificial de floração da mangueira deve ser definido de acordo com a época do ano. Assim, quando as induções com nitrato estão programadas para o período de maio a setembro, pode-se utilizar tanto a aplicação do PBZ como o manejo da irrigação para induzir o repouso dos ramos vegetativos. No caso de se utilizar somente o manejo da irrigação, deve-se monitorar a lâmina de água, para que não haja amarelecimento e queda das folhas; deve ser iniciada após a emissão de dois fluxos vegetativos (quando o segundo ramo apresentar as folhas imaturas, mas com o limbo completamente expandido) depois da última poda de formação das plantas ou da poda de produção (anual, após a colheita).
Com a redução da irrigação, também é recomendado que sejam feitas duas a três pulverizações, com sulfato de potássio (2% a 2,5%), com intervalo de 12 dias; uma a duas pulverizações com etephon (200 ppm a 300 ppm), com intervalo de 12 dias, devendo-se iniciar após a última pulverização do sulfato de potássio. O tempo entre as pulverizações, tanto do sulfato de potássio como do etephon, vai depender do aspecto das plantas em resposta aos produtos.
Os sinais de produção de etileno pelas plantas são a exsudação de látex das gemas terminais, que ocorre na época de iniciação da inflorescência, e a epinastia das folhas maduras localizadas perto do ápice (Figura 2).
Foto: Medina, V. D.
Figura 2. Mangueiras (Mangifera indica L.) com ramos/ folhas em epinastia (produção de etileno).

Entre as várias funções do etileno, estão a promoção da floração em plantas lenhosas e aceleração de maturação de órgãos das plantas. O uso do etephon como amadurecedor de gemas, quando se trabalha em condições ambientais inadequadas à floração, tem sido uma das principais ferramentas do produtor. Quando as gemas/ramos se apresentarem maduros, as pulverizações com nitrato de potássio, cálcio ou amônio podem ser iniciadas, para o estímulo (indução) de brotação das gemas (Figura 3).
No caso de se utilizar o PBZ, a aplicação deve ser feita na dose de 0,5 g ingrediente ativo por metro de diâmetro de copa, no primeiro ano; a irrigação das plantas deve ser mantida por 30 dias. A partir dos 30 a 40 dias da aplicação do PBZ, são recomendadas duas a três pulverizações com sulfato de potássio, no intervalo de 12 dias. A redução da lâmina de água pode ser iniciada aos 70 dias da aplicação do PBZ. As pulverizações com os nitratos de potássio (3% a 4%), cálcio ou amônio devem começar quando as plantas apresentarem os ramos já maduros, normalmente em epinastia.


Figura 3. Esquema para o manejo da floração da mangueira (Mangifera indica L.) em diferentes épocas do ano (diferentes condições climáticas, temperatura e precipitação).

Floração entre outubro e abril

O manejo da floração de um pomar, quando a indução (quebra do repouso das gemas) está programada para o período mais quente, onde há a ocorrência de temperaturas noturnas e diurnas superiores a 25 °C e 35 °C, respectivamente, e que corresponde ao período de outubro a abril, pode ser conduzido somente com o uso de regulador vegetal, o PBZ.
Depois da aplicação do PBZ (0,7 g ingrediente ativo por metro de diâmetro de copa, em caso de primeiro ano de uso na cultivar Tommy Atkins), a irrigação deve ser mantida por 30 dias, quando se pode iniciar as pulverizações (em torno de três) com sulfato de potássio (intervalo de 12 dias). A redução da lâmina de água pode ser feita depois de 80 dias da aplicação do PBZ. Após a última aplicação com sulfato de potássio, iniciar as pulverizações com o etephon (em torno de duas), com intervalo de 12 dias (Figura 3). As pulverizações com uma das fontes de nitrato devem ser iniciadas quando os ramos se apresentarem maduros e nunca em ramos com menos de 90 dias.

A eficiência dos modelos para o manejo da floração da mangueira vai depender do estado nutricional e fitossanitário do pomar.

Na Figura 4, são apresentadas as diferentes fases no manejo da produção de plantas de mangueira ‘Kent’. O manejo é iniciado com a poda de produção para a retirada de partes atacadas por doenças e pragas além dos restos de colheita, como também, para estimular a brotação vegetativa dos novos ramos que serão preparados para a produção na safra seguinte. Depois da brotação de dois fluxos vegetativos, o PBZ é aplicado; depois de 3 a 4 meses, quando os ramos se encontrarem maduros, as induções com nitrato podem ser realizadas para dar início ao florescimento dos ramos e à produção de frutos.
Fotos: Mouco, M. A.
    
Figura 4. a) Fases do manejo da produção em mangueira (Mangifera indica L.) `Kent`. Poda de produção; b) brotação vegetativa (momento de aplicação do PBZ); c) ramos maduros; d) planta em floração; e) planta em produção.