quinta-feira, 26 de abril de 2018

Mercado para Manga



Atualmente, uma das frutas brasileiras que mais demanda estudos de mercados é a manga. Tanto no mercado doméstico como no mercado internacional, observam-se transformações que exigem dos produtores expressivas mudanças em suas estratégias de comercialização.
No tocante ao mercado externo, o acontecimento que mais atinge a manga brasileira, em decorrência da ampliação do período de oferta do produto pelos países sul-americanos que concorrem com o Brasil, como é o caso do Peru e do Equador, é a diminuição da sua janela de exportação. Considerando-se que tal mercado é extremamente competitivo, a tendência é de redução nos preços e aumento nas exigências de qualidade.
Com referência ao mercado interno, a necessidade de maiores estudos sobre o processo de comercialização da manga está associada ao fato do expressivo crescimento da oferta, que é consequência da entrada em produção de novas áreas de cultivos, tanto nos polos tradicionais de exploração da manga como em novos polos como é o do Norte de Minas.

Mercado Interno

A manga do Brasil tem o mercado interno como a principal fonte de escoamento da produção. Mesmo com o grande incremento observado atualmente, as exportações dessa fruta correspondem a apenas 10,49% do volume total produzido no País. Segundo o IBGE (2014), a produção de manga, em 2012, foi de 1.175.735 toneladas (t) e as exportações foram de 127.000 t. A região Nordeste tem uma participação de 67% nesta produção, com destaque para o Submédio do Vale do São Francisco (Bahia e Pernambuco) e, em menor escala, a mesorregião do Centro-Sul Baiano; o Vale do Rio Açu (Rio Grande do Norte) e o Platô de Neópolis, no Estado de Sergipe (Tabela 1). Outra região produtora de manga é o interior de São Paulo, envolvendo as regiões Oeste (Presidente Prudente), Noroeste (São José do Rio Preto) e Nordeste (Ribeirão Preto).
Tabela 1. Área cultivada e produção de mangueira (Mangifera indica L.) no Brasil, em cada região geográfica (2012).
Região
Área (ha)
Produção (t)
Participação (%)
Nordeste
50.160
782.365
66,54
Sudeste
21.826
377.819
32,14
Sul
687
9.674
0,82
Centro Oeste
311
3.745
0,32
Norte
317
2.132
0,18
Brasil
73.310
1.175.735
100,00
Fonte: IBGE (2014).
No mercado nacional, a manga é comercializada, preponderadamente, na forma in natura, embora também possa ser encontrada nas formas de suco integral e polpa congelada. A polpa pode ser empregada na elaboração de doces, geleias, sucos e néctares, além de poder ser adicionada a sorvetes, misturas de sucos, licores e outros produtos.
O principal objetivo dos produtores de manga no mercado interno é a regularidade na oferta. Para tanto, tem-se realizado a indução floral, principalmente, e da diversificação das variedades plantadas, entre precoces, de meia estação e tardias. O uso da indução floral tem como principal objetivo a comercialização da fruta no período de entressafra do mercado interno, época em que os preços da fruta são mais elevados. No mercado interno, a manga alcança as maiores cotações no primeiro semestre por causa da inexistência de safra na maioria dos polos de produção do País. No mercado do produtor de Juazeiro, BA, a maior central de comercialização de frutas do Nordeste, os preços da manga alcançam a cotação máxima em maio e a mínima em novembro.
Com relação ao desempenho comercial das principais variedades comercializadas no mercado interno, constata-se que, nos últimos anos, está havendo uma mudança significativa de comportamento, com uma ampliação de mercado para a variedade Palmer e consequente redução da variedade Tommy Atkins, que ainda é a líder de mercado. Isto é explicado pelo fato da manga ‘Palmer’ possuir um melhor sabor, mais sólidos solúveis e menor quantidade de fibra que a manga ‘Tommy Atkins’. De acordo com dados fornecidos pela Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), que é a maior central de distribuição de frutas e hortaliças do Hemisfério Sul, de 2008 a 2013 a quantidade anual comercializada da variedade Palmer passou de 33.900 t para 43.500 t. Neste mesmo período, a variedade Tommy Atkins passou de 46.400 t para 51.140 t. Estes valores revelam que neste horizonte temporal, a manga ‘Palmer’ registrou no Ceagesp um incremento de vendas de 28%, enquanto a cultivar Tommy Atkins teve um aumento no volume de vendas de apenas 10% (Figura 1). Tal comportamento indica que, na maior central de distribuição de frutas do País, neste período em análise, a cultivar Palmer ampliou sua fatia de mercado passando de 40,31% para 44,60%, enquanto a cultivar Tommy Atkins reduziu sua participação, passando de 55,20% para 53,30%.


Figura 1. Desempenho comercial das principais cultivares de mangas comercializadas na Ceagesp, no período de 2008 a 2013.
Fonte: Ceagesp, 2014
No tocante aos preços, a variedade Palmer, em todos os meses do ano registra, no mercado interno, cotações de preços superiores às obtidas pela variedade Tommy Atkins. Ainda tomando-se como referência o mercado da Ceagesp, no horizonte temporal de 2008 a 2013, constata-se que em todos os meses do ano é bastante expressiva a diferença de preços entre as duas variedades em análise. Nesta central de distribuição de produtos hortifrutícolas, as menores diferenças de preços foram observadas nos meses de fevereiro e março e as maiores nos meses de julho e outubro (Figura 2). Esta situação de expressivo diferencial de preços, observada ao longo do segundo semestre, período em que a oferta do produto é maior, revela que a qualidade de mangas no mercado tem sido realmente um fator mais determinante que o preço no processo de escolha do produto.



Figura 2. Comportamento dos preços médios mensais das mangas `Tommy Atkins` e `Palmer` comercializadas na Ceasgesp, no período de 2008 a 2013.
Fonte: Ceagesp, 2014.

Mercado Externo

A manga é a fruta tropical mais comercializada no mundo, depois da banana e do abacaxi, ainda que somente se comercialize cerca de 3% da produção mundial. As variedades de maior importância no âmbito do mercado internacional se agrupam em três segmentos: variedades vermelhas – Haden, Tommy Atkins, Kent, Keitt, Edward, e Zill; variedades verdes - Alphonse, Julie e Amélie; variedades amarelas - Ataulfo e Manila.
O consumo mundial de manga vem apresentando um comportamento ascendente ante o incremento da demanda de frutas motivada pela maior preocupação com a saúde e também pelo acelerado processo de envelhecimento da população nos Estados Unidos e da Europa. No caso da União Europeia, o segundo maior mercado importador dessa fruta do mundo e o principal destino das exportações brasileiras, a tendência é de uma demanda crescente pelo produto. Um significativo indicativo deste comportamento pode ser constatado nas grandes redes de supermercados, onde a fruta deixou de ser comercializada no setor destinado a frutas exóticas e passou para o bloco das frutas de consumo correntes, como a maçã, a pera, a uva, a banana e o abacaxi, dentre outras, estando presente nas prateleiras em todos os meses do ano. Entre o período de 2002 a 2013, as importações realizadas pela União Europeia apresentaram um incremento de 81,70%, passando de 139.955 t para 248.868 t. Entretanto, é importante acrescentar que na Europa o consumo per capita da manga ainda é muito baixo.
Em termos de crescimento no comércio mundial de frutas e hortaliças, a manga ocupa o terceiro lugar. Os principais fluxos de comércio internacional de mangas são: América Latina, que abastece ao mercado dos Estados Unidos, Europa e Japão; Ásia, que exporta principalmente para países de sua própria região e para o Oriente Médio; África, que comercializa a maior parte de sua produção no mercado europeu. Cerca de 98% da manga é exportada na forma de fruta fresca, 1% como polpa e 1% como suco.
Com referência ao processo de estacionalidade da oferta de mangas nos grandes mercados internacionais, se constata que entre os meses de abril e setembro existe uma maior oferta do produto e, por consequência, menores preços. Neste período do ano, os países exportadores são os localizados no Hemisfério Norte (México, Paquistão, Índia, Israel, Filipinas, Costa Rica e Guatemala). A partir de setembro até março existe menor oferta e o produto alcança melhores preços. Neste horizonte temporal, o comércio internacional de manga é abastecido majoritariamente pelos países do Hemisfério Sul (África do Sul, Equador, Peru e Brasil). A exceção é Israel, que mesmo estando no Hemisfério Norte envia mangas até novembro (Figura 3).


Figura 3. Estacionalidade da oferta mundial de manga.
Fonte: IICA, 2012
Ainda com relação à sazonalidade da oferta é importante salientar que a região semiárida possui condições ideais de clima para o cultivo irrigado comercial da mangueira. Além disso, essa região também desenvolveu tecnologia que possibilita produzir e exportar manga durante todos os meses do ano. Os volumes exportados, contudo, são diferentes ao longo do ano. Para a União Europeia, o Brasil exporta manga em grandes quantidades entre outubro e dezembro. Entre janeiro e março essas exportações se reduzem e o comportamento decrescente segue até julho. A partir de agosto, as exportações voltam a crescer até atingir o topo entre outubro e dezembro.

Exportações

As exportações mundiais de mangas frescas, no ano de 2012, foram da ordem de 1.300.000 t, cifra que apresenta um incremento de 102%, quando se compara com as exportações do ano 2000. Os principais países exportadores são: Índia, México, Tailândia, Brasil, Paquistão, Peru e Equador (Figura 4).
A Índia, que hoje é o maior país exportador de manga, principalmente da variedade Alphonse, destina a maioria de suas vendas externas para os países de seu entorno, ainda que também envie mangas para as comunidades hindus na Europa e para o Médio Oriente. O México, cuja sazonalidade de oferta se situa entre os meses de abril a setembro (Figura 4), destina 80% de suas exportações para os Estados Unidos. As principais cultivares exportadas são: Tommy Atkins, Kent, Haden, Ataulfo e Keitt.

Figura 4. Distribuição porcentual da exportação mundial de manga em 2012.
Fonte: FAO, 2014
A Tailândia concentra suas exportações de manga entre os meses de junho e julho e da mesma forma que a Índia, tem como principais mercados externos os países do seu entorno, sendo a cultivar Alphonse a mais exportada. O Brasil é o maior produtor e exportador de mangas da América do Sul. A variedade Tommy Atkins responde aproximadamente por 90% das exportações brasileiras dessa fruta. Entretanto, nos principais polos de produção do País ocorre um processo de diversificação de variedades, com destaque para a ‘Palmer’. A manga brasileira tem como principais destinos os mercados da União Europeia e os Estados Unidos.
O Paquistão, que exporta manga entre os meses de junho a agosto, tem como principais clientes os países asiáticos e a União Europeia, onde seu produto é comercializado, principalmente, nos mercados do Reino Unido e da Alemanha, sendo ‘Alphonse’ e ‘Julie’ as principais cultivares comercializadas. O Peru tem como principal mercado importador os Estados Unidos. Exporta as variedades Kent (84%), Haden (11%) e Tommy Atkins (6%). A manga peruana entra no mercado internacional nos meses de novembro a março. O Equador também tem o mercado norte-americano como seu principal importador. As exportações equatorianas ocorrem nos meses de outubro a janeiro, comercializando as variedades Tommy Atkins (65%), Haden (20%) e Kent (15%).

Importações

Os Estados Unidos é o maior importador de mangas, sendo responsável por, aproximadamente, 33% do total das importações mundiais. Tem como principais provedores: México (abril a setembro), Brasil (agosto a dezembro), Peru (dezembro a março) e Equador (novembro a janeiro). O mercado norte-americano de produtos hortifrutícolas está concentrado nas grandes cadeias de supermercados. Estas cadeias, além de possuírem maior poder de negociação de preços, passam a exigir cada vez mais qualidade. O Japão é um mercado extremamente exigente em relação aos aspectos fitossanitários. Abastece-se principalmente pelas Filipinas e, em menor proporção, pelo México, no período de abril a setembro. Nos outros meses do ano, esse mercado fica pouco abastecido. Assim, existe possibilidade de outros países direcionarem suas exportações para o mercado japonês.
A União Europeia é o segundo maior mercado importador de manga. Seu principal país fornecedor é o Brasil (91.288 t), de acordo com dados fornecidos pela Comissão Europeia de Comércio Exterior, demonstrado na Figura 5. Peru (69.428 t), Israel (13.998 t.), Paquistão (11.743 t) e Costa do Marfim (9.768 t) formam o grupo dos cinco países que mais exportam para a União Europeia.


Nota: a exportação de manga norte americana é oriunda de Porto Rico. 

Figura 5. Distribuição em toneladas dos principais países exportadores de manga para a União Europeia, em 2011.
Fonte: Comisión Europea de Comercio Exterior (2012).
O Peru e o Equador são os dois países da América do Sul que mais concorrem com o Brasil por parcelas deste mercado. No Brasil, Peru e Equador, ainda existe uma grande quantidade de área plantada de manga que não entraram na fase de produção plena. Como este mercado é regulado principalmente pela lei da oferta e demanda, o que se espera para o médio prazo é uma redução dos preços internacionais associado com maiores exigências em relação à qualidade dos frutos produzidos.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Colheita e pós-colheita na Mangueira (Manga)


Cuidados antes da colheita

Análise do pomar - O agrônomo ou o técnico agrícola deve fazer uma avaliação da produção de manga no pomar, 15 a 20 dias antes da colheita, verificando-se a aparência dos frutos, maturação e coloração, aproveitando a ocasião para fazer uma estimativa da produtividade.
Índices de colheita - São baseados, em sua maioria, em características relacionadas à forma e aspecto do fruto. A idade do fruto é uma variável bastante segura para avaliar a maturação de mangas. Geralmente, dos 110 aos 120 dias após a floração em cultivares com o ciclo semelhante ao da Tommy Atkins, os frutos encontram-se em ponto de colheita. Quando os frutos destinam-se a mercados distantes, podem ser colhidos com teor de sólidos solúveis totais de 7-8 ºBrix e, para os mercados regionais, com 10 ºBrix.

Colheita

Procedimentos na colheita - Os contentores devem estar limpos, sanitizados com água clorada e em bom estado de conservação. Devem ser colocados ao longo da linha de plantio, à sombra, sem contato com o solo. Colocar os frutos nos contentores, com cuidado, deixando-se um espaço vazio de, pelo menos 10 cm acima dos frutos nos contentores. Isto evita que as frutas se machuquem ou que sejam comprimidas quando se colocar um contentor sobre o outro.
Colheita propriamente dita - Os frutos devem ser colhidos manualmente, usando-se um instrumento de corte ou tesouras de poda sanitizados. Os frutos da parte alta da planta devem ser colhidos com vara de colheita, contento cesta, evitando-se danos por corte. O corte do pedúnculo deve ser feito com pelo menos 3 cm, para evitar vazamento de látex. Acondicionar cuidadosamente os frutos nas caixas para evitar choques ou abrasões. Distribuir os frutos de modo que a última camada não ultrapasse a alça do contentor. Os frutos manchados com látex devem ser enviados para o galpão de embalagem, em contentores separados, para não estragarem os frutos limpos.

Transporte para o galpão de embalagem

Os frutos devem ser transportados em contentores. O técnico deve orientar o motorista do caminhão para transportar os frutos com bastante cuidado, evitando-se alta velocidade, pois nesta etapa ocorrem os maiores problemas de injúrias mecânicas nos frutos.
Os caminhões que estão aguardando o descarregamento devem ser mantidos na sombra.

Operações no galpão de embalagem

Recepção - Cada lote de fruta que chega ao galpão deve ser identificado, com informações sobre a procedência, manejo antes e durante a colheita e a hora de chegada, para que o processo seja realizado por ordem cronológica.
Para conferir o grau de maturação dos frutos nos galpões de embalagem, o método mais utilizado pelos produtores é a observação das mudanças de cor da casca e da polpa dos frutos, resultando em uma escala de maturação que varia de 1 a 5. Assim, se as variações na coloração da casca dos frutos não forem suficientes para o técnico definir o grau de maturação, ele pode passar a observar as variações da cor da polpa, conforme a Figura 1 para a manga ‘Tommy Atkins’ e a Figura 2 para a manga ‘Kent’.
Foto: Assis, J. S. de.
Figura 1. Aspecto externo e interno da manga `Tommy Atkins` em função do grau de maturação.
Foto: Sancho, P.
 
Figura 2.   Aspecto externo e interno da manga `Kent` em função do grau de maturação.
Lavagem - Os contentores devem ser esvaziados manualmente, em água tratada com hipoclorito de sódio ou hipoclorito de cálcio, na concentração de 100 ppm de cloro. Se forem utilizados detergentes, deve-se usar água sem clorar antes do tratamento hidrotérmico, já que os detergentes neutralizam a ação germicida do cloro.
Eliminação de pedúnculo - A eliminação manual ou mecânica do pedúnculo deve ser realizada, sempre que possível, no galpão de embalagem, logo após a lavagem. Após o corte do pedúnculo, imergir os frutos em água contendo 0,4% de hidróxido de cálcio ou outro produto que neutralize o látex exsudado. O tempo de permanência do fruto nesta água não deve ser superior a 3 ou 4 minutos.
Seleção - Os frutos sem valor comercial, imaturos, muito maduros, deformados, apresentando manchas, danos mecânicos ou defeitos nutricionais, devem ser eliminados. Os selecionadores devem estar posicionados comodamente, para que sua atenção não seja desviada e devem ser bem treinados com relação aos critérios e padrões de qualidade exigidos. A seleção por peso pode ser realizada em máquinas selecionadoras simples ou automáticas.
Tratamento para o controle de fungos - Este tratamento é recomendado para a manga destinada à Europa e Canadá. É usado para evitar problemas de podridão. O tratamento é feito mantendo-se as frutas imersas em água a 52 ºC, por 5 minutos. O controle da temperatura e do tempo de imersão deve ser extremamente rigoroso, pois se as condições forem abaixo das recomendadas, não haverá controle, e se forem acima, poderá haver danos na casca.
Tratamento hidrotérmico para o controle de mosca-das-frutas - Este tratamento é aplicado à manga destinada aos Estados Unidos, Japão e Chile. O tratamento hidrotérmico consiste na imersão do fruto em água quente (46,1 ºC) durante 75 minutos (frutos com peso inferior a 425 g) ou 90 minutos (frutos com peso acima de 425 g). Antes de iniciar este tratamento é importante que a temperatura da polpa esteja próxima a 21 ºC, nunca mais baixa, caso contrário poderá haver efeitos negativos sobre a qualidade da polpa. O tratamento deve ser rigoroso, pois o fruto é muito suscetível a alterações na atividade enzimática, velocidade de respiração e ao surgimento de cavidades em torno do pedúnculo. Imediatamente após o tratamento hidrotérmico, o fruto deve ser imerso em água fria, a 21 ºC. Após este tratamento, as mangas devem ser levadas para uma área protegida contra a entrada de qualquer inseto, principalmente mosca-das-frutas. Esta área, chamada "zona limpa", deve ser toda revestida com telas de 25 mesh. As condições exigidas para este tratamento foram estabelecidas pelo Departamento de Agricultura do Governo dos Estados Unidos (USDA).
Aplicação de cera - A formulação mais usada no Brasil é uma emulsão aquosa de grau alimentício à base de cera de carnaúba, que é aplicada em frutos limpos e secos, por meio de bicos de aspersão, à medida que os frutos passam pela esteira transportadora. A secagem é feita em túnel de ar, aquecido a 45 ºC, com o fluxo de ar, em sentido contrário ao dos frutos. Após a secagem, o polimento é feito com escovas de crina. Recentemente, os europeus começaram a aplicar Diretiva 95/2/CE do Parlamento Europeu que trata dos aditivos alimentares, com exceção dos corantes e edulcorantes. Segundo essa diretiva, para o tratamento de superfície de mangas a cera de abelha não é mais recomendada, devendo ser substituída por cera sintética microcristalina.
Embalagem - As exigências básicas do material de embalagem para manga são: proteger contra danos mecânicos; dissipar os produtos da respiração, ou seja, permitir ventilação para evitar acúmulo de gás carbônico e calor; ajustar-se às normas de manejo, tamanho, peso e ser fácil de abrir; ser de custo compatível com o do produto.
A embalagem deve ter conteúdo homogêneo, com frutos da mesma origem, variedade, qualidade e tamanho. A parte visível da embalagem deve ser representativa de todo o conteúdo. Na caixa, devem vir descritos, no mesmo lado, por extenso e de forma legível, a identificação comercial, natureza e origem do produto.
Paletização - A pilha de caixas não deve ultrapassar o limite do pallet e apresentar-se desalinhada. Utiliza-se, geralmente, pallets com 12 caixas na base e 20 na altura. A amarração deve ser feita com fitas para arqueação, colocando-se cantoneiras.
Pré-resfriamento - O pré-resfriamento pode ser realizado em túneis de ar forçado que requerem, aproximadamente, 4 a 6 horas para reduzir a temperatura dos frutos a 10 ºC. A umidade relativa do ar, durante o resfriamento, deve ser mantida em 85-95%, para evitar perda de água nos frutos.

Armazenamento e transporte

O carregamento dos contêineres (capacidade 20 pallets) deve ser feito de forma rápida e em local construído especialmente para este fim. A temperatura ideal está entre 10 ºC e 13 ºC. Durante o transporte é imprescindível a renovação do ar dentro dos contêineres. As condições de higiene do transporte são muito importantes para garantir a sanidade e inocuidade do produto.

Normas de qualidade

As normas de qualidade estabelecem especificações que o produto deve apresentar para ser consumido in natura, focando o mercado externo. As normas são propostas por associações de produtores, de compradores e centrais de abastecimento, enviadas ao Mapa para aprovação.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Normas de Uso Defensivo na Cultura da Manga



No Brasil, a comercialização de produtos fitossanitários vinculada a uma receita agronômica é uma exigência legal e tornou-se obrigatória desde 11 de julho de 1989, data da publicação da Lei Federal nº 7.802. Esta receita deve ser emitida por engenheiros-agrônomos ou florestais habilitados para tal finalidade.
O receituário agronômico tem como fundamentos básicos:
  1. A busca da origem do problema fitossanitário com o objetivo de atingi-lo com o máximo de eficiência e o mínimo de insumos.
  2. Exigir do técnico que o prescreve o conhecimento profissional para que se possa atingir os objetivos a que se propõe.
  3. Impor e assumir toda a responsabilidade profissional em toda a sua amplitude, envolvendo características técnicas e éticas, por meio do instrumento final de todo processo desenvolvido que é a receita agronômica.

Legislação sobre os defensivos agrícolas

O Decreto n° 4.074, de 4 de janeiro de 2002, regulamenta a Lei n° 7.802, de 11 de julho de 1989 e dispõe sobre a pesquisa, a experimentação, a produção, a embalagem e rotulagem, o transporte, o armazenamento, a comercialização, a propaganda comercial, a utilização, a importação, a exportação, o destino final dos resíduos e embalagens, o registro, a classificação, o controle, a inspeção e a fiscalização de defensivos agrícolas, seus componentes e afins.
Pela Lei n° 7.802, o termo agrotóxico e afins é definido como produtos e agentes de processos físicos, químicos ou biológicos, destinados ao uso no setor de produção, no armazenamento e beneficiamento de produtos agrícolas, nas pastagens, na proteção de florestas, nativas ou plantadas, e de outros ecossistemas e de ambientes urbanos, hídricos e industriais, cuja finalidade seja alterar a composição da flora ou da fauna, a fim de preservá-las da ação danosa de seres vivos considerados nocivos, bem como as substâncias e produtos empregados como desfolhantes, dessecantes, estimuladores e inibidores de crescimento.
Com referência às embalagens dos defensivos agrícolas e afins o artigo 44 trata que estas deverão atender aos seguintes requisitos:
  1. Ser projetadas e fabricadas de forma a impedir qualquer vazamento, evaporação, perda ou alteração de seu conteúdo e de modo a facilitar as operações de lavagem, classificação, reutilização, reciclagem e destinação final adequada.
  2. Ser imunes à ação de seu conteúdo ou insuscetíveis de formar com ele combinações nocivas ou perigosas.
  3. Ser resistente em todas as suas partes e satisfazer adequadamente às exigências de sua normal conservação.
  4. Ser providas de lacre ou outro dispositivo externo, que assegure plena condição de verificação visual da inviolabilidade da embalagem.
  5. As embalagens rígidas deverão apresentar, de forma perfeita e irremovível, em local de fácil visualização, exceto na tampa, o nome da empresa titular do registro e advertências quanto ao não reaproveitamento da embalagem.
De acordo com o artigo 84, as responsabilidades administrativa, civil e penal pelos danos causados à saúde das pessoas e ao meio ambiente, em função do descumprimento do disposto na legislação pertinente a defensivos agrícolas, seus componentes e afins, recairão sobre:
  1. O registrante que omitir informações ou fornecê-las incorretamente.
  2. O produtor, quando utilizar defensivos agrícolas, seus componentes e afins em desacordo com as especificações constantes do registro.
  3. O produtor, o comerciante, o usuário, o profissional responsável e o prestador de serviços que apresentar embaraço à fiscalização dos órgãos competentes ou que não promover a destinação final das embalagens vazias de acordo com a legislação.
  4. O profissional que prescrever a utilização de defensivos agrícolas e afins em desacordo com as especificações técnicas.
  5. O comerciante, quando efetuar a venda sem o respectivo receituário, em desacordo com sua prescrição ou com as recomendações do fabricante e dos órgãos registrantes e sanitário-ambientais.
  6. O comerciante, o empregador, o profissional responsável ou prestador de serviços que deixar de promover as medidas necessárias de proteção à saúde ou ao meio ambiente.
  7. O usuário ou o prestador de serviços, quando proceder em desacordo com as recomendações do fabricante ou dos órgãos sanitário-ambientais.
  8. As entidades públicas ou privadas de ensino, assistência técnica e pesquisa, que promoverem atividades de experimentação ou pesquisa de defensivos agrícolas, seus componentes e afins em desacordo com as normas de proteção da saúde pública e do meio ambiente.
A classificação dos defensivos agrícolas quanto ao perigo para quem o manuseia e/ou tem contato de forma direta ou indireta é feita em classes de acordo com a toxicidade dos princípios ativos de cada produto. Essa toxicidade para o homem, geralmente, é expressa na forma da dose média letal (DL50), por via oral e dérmica, representada por miligramas do produto tóxico por quilo de peso vivo, necessários para matar 50% de ratos e outros animais utilizados como testes, conforme apresentado abaixo (Tabela 1).
Tabela 1. Classificação toxicológica de agrotóxicos quanto a periculosidade

Classe
Classificação
DL50 (mg/kg)
Oral
Dérmica
Formulações
Formulações
Líquidas
Sólidas
Líquidas
Sólidas
I
Extremamente tóxico
(vermelha)
< 5
< 20
< 10
< 40
II
Altamente tóxico (amarela)
5 a 50
20 a 200
10 a 100
40 a 400
III
Moderadamente tóxico (azul)
50 a 500
200 a 2000
100 a 1000
400 a 4000
IV
Levemente tóxico
(verde)
> 500
> 2000
> 1000
> 4000
Fonte: OMS.

Cuidados com os equipamentos de aplicação

A regulagem correta e a boa manutenção dos equipamentos de pulverização são cuidados que contribuem para a redução dos riscos. Os equipamentos devem estar sempre em boas condições de uso. Devem ser lavados com água e sabão após cada aplicação. Tanto a revisão como a lavagem do pulverizador deve ser feita longe de crianças, animais, córregos e nascentes. Para que haja um perfeito funcionamento da máquina de pulverizar e para que o manuseio com a mesma minimize os riscos à saúde do aplicador, alguns cuidados fundamentais devem ser tomados, tais como:
  1. Não apresentar vazamentos.
  2. Utilizar bicos apropriados para a cultura e o alvo biológico desejado.
  3. Utilizar filtros de entrada antes do tanque, antes da bomba e dos bicos, no caso de pulverização motorizada.
  4. Uso de agitadores durante a pulverização para que a calda seja mantida homogeneizada e para que haja uniformização na distribuição do produto na planta.
  5. Aferição da pressão de saída da calda pelos bicos por meio do uso do manômetro.

Escolha do agrotóxico

A seleção do agrotóxico a ser utilizado dar-se-á considerando-se alguns parâmetros, tais como:
  1. Utilizar produtos registrados pelo Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento.
  2. Utilizar produtos com eficiência determinada para o alvo a que se deseja controlar.
  3. Conhecer a seletividade, poder residual e grau de toxicidade do princípio ativo.
  4. Conhecer os mecanismos de ação dos produtos, não os associando quando estes forem iguais.
  5. Conhecer a fenologia da cultura, o hábito e o ciclo de desenvolvimento do inseto ou forma afim, pois, estes são fatores determinantes para a utilização de alguns produtos específicos.

Transporte dos defensivos agrícolas

É importante ter conhecimento de todos os aspectos relativos ao transporte dos defensivos agrícolas. Para essa finalidade existe uma legislação que deve ser seguida. Os fornecedores desses produtos estão capacitados para o transporte dos mesmos, por isso, sempre que possível, deve-se utilizar os serviços destas pessoas para o transporte desses insumos.
Caso não seja possível, alguns cuidados deverão ser tomados durante o transporte, tais como: não misturar a carga com medicamentos, alimentos e pessoas; o veículo deve apresentar ótimas condições de deslocamento; não transportar embalagens que apresentem vazamentos; embalagens que sejam sujeitas a ruptura durante o transporte deverão ser protegidas com materiais adequados durante o deslocamento; evitar que o veículo tenha pregos ou parafusos sobressaltantes dentro do espaço onde os insumos serão acondicionados e não estacionar o veículo próximo a residências ou local de aglomeração de pessoas ou animais.
O agricultor deve solicitar a ficha de emergência dos produtos no local de aquisição dos mesmos, pois, é uma obrigação do fabricante ou revendedor fornecê-la. Essa ficha orienta quanto às providências e cuidados em caso de acidentes. Em caso de vazamentos, deve-se conter os defensivos com materiais apropriados e recorrer à polícia rodoviária, bombeiros e fabricante.

Armazenamento dos defensivos agrícolas

Os defensivos agrícolas devem ser armazenados em local com boa ventilação, livre de inundações e distante de residências, instalações para animais ou de locais onde se armazenam alimentos ou rações. Os produtos devem ser devidamente agrupados em prateleiras, por classe de princípio ativo e toxicológica na classe, nunca devem estar em contato direto com o piso e sempre apresentar os rótulos intactos. O depósito deve ficar trancado e sinalizado com uma placa indicativa alertando sobre a presença de material tóxico. Não é recomendável o estoque de produtos além da quantidade para uso a curto prazo (no máximo um ciclo da cultura), um bom planejamento na hora da compra é fundamental. Os restos de produtos devem sempre ser mantidos em suas embalagens originais.

Importância das condições climáticas na pulverização

Dentre os fatores que podem interferir para que não haja uma boa pulverização deve-se destacar: a) os períodos de secas prolongadas, os quais ocasionam o estresse hídrico das plantas, reduzindo a atividade biológica e prejudicando a absorção do produto pelas folhas e partes ativas; b) as chuvas fortes quando ocorridas logo após a pulverização, poderão ocasionar lavagem e arraste do produto das folhas e das áreas de absorção pelas raízes das plantas; c) as temperaturas abaixo de 15 ºC e acima de 30 ºC, assim como umidade relativa do ar abaixo de 55% proporcionam menor absorção do produto pelas plantas; d) a pulverização deve ser evitada enquanto as plantas apresentarem as folhas muito molhadas após chuva ou por causa de orvalho; e) a observação da velocidade e direção do vento é outro fator muito importante para realização de uma boa pulverização. Aplicações de produtos com presença de ventos acima de 10 km/h deverão ser evitadas.

Cuidados durante o preparo da calda e aplicação dos produtos

O preparo da calda deve ser realizado de acordo as recomendações específicas de cada produto (vide bula). Entretanto, de uma forma geral, para a maioria das formulações, realiza-se a adição direta do produto no tanque de pulverização ou por meio de pré-diluição. Nesse último caso, dissolve-se o produto em pequena quantidade de água, agitando-se até a completa homogeneização da suspensão. Em seguida, despeja-se a suspensão no tanque de pulverização que deve conter dois terços do volume de água a ser utilizada. Após essa etapa, completa-se o volume total de água do tanque. Durante esse processo, alguns cuidados são fundamentais, tais como:
  1. Utilização de equipamentos de proteção individual (EPIs).
  2. O preparo da calda deve ser realizado em local sombreado, aberto e que apresente boa ventilação.
  3. As instruções presentes nos rótulos do produto devem ser seguidas corretamente.
  4. Evitar inalação, respingo e contato com os produtos, não desentupir bicos ou orifícios com a boca, assim como, não beber, comer ou fumar durante o manuseio e a aplicação dos produtos.
  5. Evitar a pulverização nas horas mais quentes do dia, contra o vento e em dias de vento forte e chuvosos.
  6. A embalagem deverá ser aberta com cuidado para evitar derramamento do produto.
  7. Fazer a lavagem da embalagem vazia logo após o esvaziamento da mesma, longe de locais que possam ser contaminados e causem riscos à saúde das pessoas.
  8. Verificar o pH da água de pulverização e corrigir, caso necessário, seguindo-se as instruções do fabricante do agrotóxico que será aplicado.
  9. O uso de uma pressão adequada ao objetivo a que se destina a pulverização é fundamental na obtenção de uma distribuição uniforme do produto sobre a planta.
O tamanho das gotas diminuem com o aumento da pressão, portanto, pressão excessiva na bomba causa deriva e perda da calda de pulverização.
Equipamentos de proteção individual (EPIs)
Os EPIs devem ser indicados no receituário agronômico e no rótulo do produto. Os EPIs mais utilizados são: máscaras protetoras, óculos, luvas impermeáveis, chapéu impermeável de abas largas, botas impermeáveis, macacão com mangas compridas e avental impermeável. Alguns cuidados devem ser tomados quanto à aquisição e uso de EPIs, tais como:
  1. Devem possuir certificado de aprovação do Ministério do Trabalho.
  2. Devem ser utilizados em boas condições, de acordo com a recomendação do fabricante e do produto a ser utilizado.
  3. Os filtros das máscaras e respiradores são específicos para defensivos e têm data de validade.
  4. As luvas recomendadas devem ser resistentes aos solventes dos produtos.
  5. A lavagem deve ser feita após cada utilização e por meio do uso de luvas e separadas de roupas da família.
  6. Devem ser mantidos em locais limpos, secos, seguros e distantes de produtos químicos.

Lavagem e descarte das embalagens vazias

Pela legislação em vigor, torna-se obrigatório o recolhimento das embalagens vazias por uma unidade de recebimento autorizada pelos órgãos ambientais. Antes do recolhimento, é obrigatório que o agricultor efetue a tríplice lavagem inutilizando-os com furos nos tipos de embalagens que permitirem esta prática, enquanto as embalagens não laváveis devem permanecer intactas, adequadamente tampadas e sem vazamentos. As embalagens vazias devem ser acondicionadas em saco plástico padronizado que deve ser fornecido pelo revendedor. Dentro do prazo de até 1 ano, essas embalagens deverão ser entregues em um posto de recebimento cadastrado. O agricultor deverá receber um comprovante de entrega que deve ser guardado com a nota fiscal do produto. Caberá ao fabricante ou seu representante legal providenciar o recolhimento de todo o material depositado no posto de recebimento.

Período de carência ou intervalo de segurança

Trata-se do número de dias que deve ser considerado entre a última aplicação e a colheita. O período de carência vem escrito na bula do produto. Este prazo é importante para garantir que o produto vegetal colhido não possua resíduos acima do limite máximo permitido. A produção de produtos agrícolas com resíduo acima do limite máximo permitido pelo Ministério da Saúde (MS) é ilegal, e a colheita poderá ser apreendida e destruída. Além do prejuízo da colheita, o agricultor ainda poderá ser multado e processado.
Geralmente, as recomendações técnicas vigentes quanto à aplicação de defensivos agrícolas dão mais ênfase para orientação de uso dos EPIs durante o preparo da calda e aplicação dos produtos nos cultivos. Todavia, um grande cuidado deve ser considerado quanto ao período de reentrada de pessoas na área após esta ter sido pulverizada. O período de reentrada que compreende o dia da última pulverização até a permissão de entrada de pessoas na área sem riscos de serem contaminadas deve ser respeitado. No entanto, se houver necessidade de entrada de pessoas antes do término do período indicado, essa pessoa deverá utilizar EPI’s da mesma forma que se utiliza durante a aplicação do produto.