terça-feira, 29 de agosto de 2017

Nutrição e adubação para o Mirtilo


Solos

As plantas de mirtilo necessitam de solos com características especiais para apresentar um bom crescimento e produção. Devido a sua distinta exigência nutricional, muitas práticas de adubação que são comuns à maioria das espécies frutíferas não são indicadas para o mirtilo. Para que apresente boas produções, o mirtilo deve ser cultivado em solos muito ácidos, com pH em água entre 4 e 5,5, arenosos, franco-arenosos ou argilosos não muito profundos e de baixa fertilidade. Em geral, devido à elevada exigência de água e de oxigenação das raízes, o solo deve apresentar uma boa drenagem, grande retenção de água e ser bastante poroso.
A faixa de pH mais indicada vai de 4,5 a 5,0. Quando o solo apresentar um valor mais elevado que 5,5, o mesmo poderá ser usado para o cultivo do mirtilo, desde que as demais práticas agrícolas estejam otimizadas. Nesse caso, é recomendada a aplicação de enxofre elementar ao solo, com a finalidade de abaixar o pH e, assim, oferecer melhores condições de desenvolvimento das plantas. No entanto, quando este valor se situa acima de 6,0, o abaixamento do pH é difícil e muito oneroso, sendo desaconselhado seu uso para o cultivo comercial do mirtilo. Vários produtores observaram que essa espécie pode ser cultivada, sem problemas aparentes, em solo com pH próximo a 6,0, desde que o mesmo seja rico em matéria orgânica.
O mirtilo apresenta um sistema radicular muito superficial, sendo as raízes muito finas, e sem pêlos radiculares. É muito sensível à compactação e a má drenagem do solo. Por isto devem ser evitados os solos de textura argilosa, dando-se preferência aos bem arejados, que incluem desde os arenosos até os franco-arenosos. Com o objetivo de aumentar a porosidade do solo, é recomendável o uso de matéria orgânica. Do mesmo modo que a aeração, a manutenção de uma adequada umidade no solo é muito importante. Sob condições de déficit hídrico na planta, o mirtilo é uma das poucas frutíferas em que há extração de água dos frutos. Quando isto acontece no final do ciclo vegetativo anual, pode haver menor indução de gemas florais, enquanto que, se ocorrer durante o ciclo, afeta negativamente o crescimento vegetativo. O encharcamento do solo, mesmo que por curtos períodos, em qualquer época do ano, pode ocasionar sérios prejuízos às plantas. O uso de irrigação e a adição de matéria orgânica ao solo são importantes elementos para a obtenção de sucesso. O aumento do teor de matéria orgânica do solo pode ser feito de várias maneiras. Uma delas é por meio do cultivo de coberturas vegetais incorporados ao solo. Pode-se atingir, também, este objetivo por meio da aplicação de estercos ou de compostos ao solo. Como o processo de aumento do teor de matéria orgânica do solo é lento, recomenda-se que seja iniciado, no mínimo, dois anos antes da instalação do pomar.
Quando cultivado em climas úmidos e frios, poderão ser usados solos com menor profundidade. Ao contrário, quando cultivado em locais quentes e secos e se o solo não for muito profundo, as plantas poderão morrer. Durante o verão, é importante que se mantenha o solo úmido superficialmente. Naqueles que apresentem água muito próxima à superfície deve-se confeccionar drenos para eliminar rapidamente o excesso de água. Assim, quando a água é mal manejada, as plantas podem apresentar um pequeno crescimento, com escassa produção de frutas, excesso de ramos secos, levando as plantas à morte. Somente durante o inverno é que o mirtilo suporta o encharcamento do solo.
O máximo crescimento do mirtilo, tanto cultivado em areia, como em solução nutritiva, é obtido com o uso de cerca da metade da concentração de nutrientes usado para as demais espécies frutíferas. As plantas jovens são mais sujeitas a graves danos causados pelo uso de doses excessivas de fertilizantes. O fato do sistema radicular ser muito superficial e a ausência de pêlos radiculares, provavelmente contribuem para esta suscetibilidade. Assim, se recomenda o uso de fertilizantes somente em pomares estabelecidos e brotados, devendo os mesmos serem aplicados a uma distância de 30 a 45 cm do tronco.

Importância dos nutrientes

A extração anual de macronutrientes por uma planta adulta de mirtilo ocorre na seguinte ordem: nitrogênio > cálcio > potássio > fósforo > magnésio. Com relação ao teor foliar de nutrientes, da brotação até a colheita, observa-se uma variação decrescente para o nitrogênio, fósforo e potássio e crescente para o cálcio e magnésio.
Quando a observação das folhas revela características diferentes do normal, pode se suspeitar de uma deficiência nutricional. Tais padrões são mais ou menos específicos para cada nutriente. No entanto, os sintomas carenciais variam de acordo com a espécie, cultivar e fatores ambientais. Lamentavelmente, não são ainda conhecidos os sintomas carenciais para todos os nutrientes e culturas. Por vezes, acontece que os sintomas visuais de dois nutrientes são idênticos.
Sintomas visuais de deficiência e de toxidez são muito úteis no diagnóstico de problemas específicos, embora um diagnóstico preciso pode ser dificultado já que sintomas similares podem ser ocasionados por uma série de estresses ( por exemplo, água, herbicidas, nutrientes, etc ). Quando os sintomas são bem conhecidos, esse método de diagnose nutricional, sem dúvida, é o mais rápido, fácil e barato que se conhece.
Não se recomenda basear o programa de adubação somente na sintomatologia foliar e na aparência dos arbustos, já que a ocorrência de sintomas indica uma severa restrição no fornecimento de nutrientes, estando tanto o crescimento das plantas, como a produção e a qualidade dos frutos seriamente comprometidos. Em cultivos de mirtilo raramente se observam sintomas de deficiência de cálcio, enxofre, cobre, manganês e de zinco.
Com o objetivo de auxiliar os produtores de mirtilo, a seguir, são descritos os sintomas visuais de carência dos nutrientes que ocorrem com mais frequência.
Nitrogênio
É o elemento exigido em maiores quantidades, sendo, provavelmente, a primeira causa de surgimento de clorose nas folhas, por ser um dos componentes da molécula de clorofila. Em muitas situações é o único nutriente cuja aplicação é necessária. A deficiência de nitrogênio se caracteriza pela presença de folhas uniformemente cloróticas, sem mosqueados ou manchas, podendo ocorrer em qualquer época do ano. As folhas mais velhas localizadas na base dos ramos desenvolvem os sintomas antes que as mais novas, devido à alta mobilidade deste nutriente na planta. Se a deficiência se agravar, todas as folhas tornam-se cloróticas, podendo ficar avermelhadas e acarretar uma desfolha prematura das plantas. Quando o suprimento de N é reduzido, as plantas crescem menos, o tamanho dos frutos é menor e há uma menor formação de gemas florais. Deve-se ter cuidado para não se aplicar quantidades além do necessário, pois o excesso ocasiona um vigoroso crescimento, produzindo muitos ramos com folhas grandes e com coloração verde escuro. Plantas que apresentam pequeno crescimento, devido ao estress de água ou por outro motivo, também apresentam maiores teores foliares de N.
Fósforo
A sintomatologia carencial de fósforo não é comum de ocorrer em plantas mantidas a campo. Plantas deficientes neste elemento tem o crescimento paralisado, com as folhas pequenas e com coloração de verde escuro à púrpura, principalmente nas margens e nas pontas. Até o momento não foram observados sintomas devido ao excesso de P. No entanto, teores muito altos de P podem induzir clorose férrica, devido a inibição na absorção do ferro.
Potássio
As folhas de mirtilo com sintomas de deficiência de potássio apresentam as bordas queimadas, enroladas e com pontos necróticos. Normalmente, a deficiência se manifesta primeiramente nas folhas mais velhas. A deficiência de potássio ocorre com mais freqüência em solos arenosos. As folhas mais novas, localizadas próximas ao topo dos ramos, podem desenvolver uma clorose internerval, semelhante àquela causada pelo ferro.
Magnésio
Os sintomas de deficiência começam a surgir nas folhas mais velhas, localizadas nos ramos novos. A região internerval apresenta clorose ou fica com coloração vermelho vivo, enquanto que as nervuras permanecem verdes. As folhas mais novas e os ponteiros raramente apresentam sintomas.
Ferro
De modo geral, a disponibilidade dos micronutrientes é função do pH do solo. Quando este é alto, os micronutrientes ficam indisponíveis. Após o nitrogênio, o ferro é o nutriente que apresenta sintomatologia carencial com mais freqüência. A deficiência faz com que o tecido entre as nervuras apresente coloração verde claro ou amarelo bronze. Difere dos sintomas de deficiência de magnésio, já que em casos de deficiência devida ao ferro as nervuras principais e as secundárias permanecem verdes. Normalmente, os sintomas aparecem primeiro nas folhas mais novas. Nas plantas com carência deste nutriente, o crescimento dos ramos e o tamanho das folhas são menores.

Recomendações de adubação fosfatada e potássica de pré-plantio

Amostragem do solo
As amostras de solo podem ser coletadas em qualquer época do ano. No entanto, para que o produtor tenha conhecimento do pH do solo e da necessidade de fertilizantes, em tempo hábil, esta deverá ser realizada, no mínimo, quatro meses antes do plantio das mudas e deverá ser representativa da área. Para tanto, é necessária a coleta de várias subamostras, em diversos pontos de uma mesma área homogênea. O primeiro passo para se proceder a amostragem do solo consiste em dividir a área em porções homogêneas, considerando-se o tipo de solo, a topografia, a textura, a cor, o grau de erosão, a profundidade, a cobertura vegetal, a drenagem, entre outros aspectos. No entanto, se uma área for homogênea quanto a todos os fatores acima citados, existindo, entretanto, uma porção já adubada esta deverá ser amostrada em separado. A área abrangida por cada amostra é função da homogeneidade do solo. Normalmente, o número de subamostras se situa ao redor de 10 a 15. Na tomada de amostra pelo sistema de amostragem composta, cada área deve ser toda percorrida, caminhando-se em ziguezague e coletando-se, ao acaso, subamostras que, após, são reunidas, e homogeneizadas, retirando-se cerca de 500g de solo para serem enviados ao laboratório. Os procedimentos de amostragem do solo são os recomendados pela Comissão de Química e Fertilidade do Solo - RS/SC (Sociedade, 2004). Como o sistema radicular do mirtilo é muito superficial, deve-se amostrar a camada arável do solo, ou seja, de 17 a 20 cm de profundidade.
Acidificação do solo
Ao se usar enxofre com o propósito de reduzir o pH, o mesmo deverá ser espalhado na superfície do solo (Figura 49), no mínimo com um ano de antecedência e, a seguir incorporado, já que o processo de acidificação é muito lento. Aconselha-se que antes do plantio o pH do solo seja verificado. Se por acaso o valor desejado não for atingido, quantidades adicionais deverão ser aplicadas. Não se tem informações da quantidade de enxofre necessária para abaixar o pH dos nossos solos até determinado valor. No entanto, sabe-se que esta quantidade é dependente da textura do solo, do teor de matéria orgânica, do pH que se deseja atingir e do pH inicial. Assim, relativamente pequenas quantidades são necessárias em solos arenosos, enquanto que nos argilosos e/ou nos ricos em matéria orgânica a necessidade é bem mais elevada. A redução forçada do pH do solo pode trazer consigo a solubilização de alguns micronutrientes e, em conseqüência, se encontrar altos teores nas folhas, os quais nem sempre estão associados com fitotoxidez. O enxofre não deverá ser usado, com este objetivo, em pomares já implantados.
Foto: Luis E. C. Antunes
Figura 1. Aplicação de Enxofre para correção de pH .
Adubação de pré-plantio e de manutenção
Antes da instalação do pomar, a análise de solo é o único método de diagnose disponível para se estimar as necessidades de fósforo (P) e de potássio (K). As quantidades necessárias de P e de K são determinadas na mesma amostra de solo usada para se avaliar o pH.. Os adubos fosfatados e potássicos, usados antes do plantio, devem ser aplicados em toda a área, por ocasião da instalação do pomar, preferentemente a lanço, e incorporados até 20 cm de profundidade. A interpretação dos teores de P e de K extraíveis, adotada pela Rede Oficial de Laboratórios de Análise de Solo e de
Tecido Vegetal - ROLAS - RS e SC é apresentada, respectivamente, nas Tabelas 2 e 3. Os valores de P e K extraíveis do solo são interpretados em cinco faixas. Com relação ao P extraível, foram estabelecidas quatro classes de solos, conforme o teor de argila do solo (Tabela 2). Para o K extraível foram estabelecidas três classes de solos, conforme o valor da CTC (capacidade de troca de cátions a pH 7) (Tabela 3).
Tabela 1. Interpretação dos resultados de análise de solo para fósforo "extraível" (Mehlich) mg/dm³ - para os solos e condições do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.
Interpretação
Classes de solo conforme o teor de argila¹
1
2
3
4
Muito Baixo
< 2,0
< 3,0
< 4,0
< 7,0
Baixo
2,1 – 4,0
3,1 – 6,0
4,1 – 8,0
7,1 – 14,0
Médio
4,1 – 6,0
6,1 – 9,0
8,1 – 2,0
14,1 – 21,0
Alto
6,1 – 12,0
9,1 – 18,0
12,1 – 4,0
21,1 – 42,0
Muito Alto
>12,0
> 18,0
> 24,0
> 42,0
¹Teores de argila: 1= > 60%, 2= 60 a 41%, 3= 40 a 21%, 4= <20 b="">
Fonte: Sociedade (2004).
Tabela 2. Interpretação dos resultados de análise de solo para potássio “extraível” (Mehlich) para os solos e condições do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.
Interpretação do teor de K no solo
CTCpH 7 ( cmolc/dm³)
> 15,0
5,1 – 15,0
< 5,0
------------------ mg de K/dm³ ---------------
Muito Baixo
< 30
< 20
< 15
Baixo
31 – 60
21 – 40
16 – 30
Médio
61 – 90
41 – 60
31 – 45
Alto
90– 180
61 – 120
46 – 90
Muito Alto
>180
> 120
> 90
Fonte: Sociedade (2004).
As quantidades de P 2 O 5 e de K 2 O recomendadas na adubação de pré-plantio para a cultura do mirtilo constam da Tabela 4.
Tabela 3. Recomendação de adubação fosfatada e potássica, de pré-plantio, para a cultura do mirtilo de acordo com a análise de P e de K no solo.
Interpretação do teor de P ou de K no solo
Doses de fósforo (kg P2O5/ha)
Doses de potássio (kg K2O/ha)
Muito Baixo
90
90
Baixo
60
60
Médio
30
30
Alto
0
0
Muito Alto
0
0
Fonte: Sociedade (2004).
Como o mirtilo é cultivado em solos extremamente ácidos, é recomendável que se utilizem os fosfatos naturais com fonte de fósforo. Como esta cultura é extremamente sensível ao cloreto, é recomendável o uso do sulfato de potássio como fonte de K.

Adubação de crescimento e de produção

Durante a fase de crescimento das plantas, que vai desde o plantio das mudas até o início da fase produtiva, recomenda-se usar somente nitrogênio. Supõe-se que o P e o K, fornecidos por intermédio da adubação de pré-plantio, sejam suficientes até o momento em que as plantas entrem em produção.
O nitrogênio não deve ser fornecido na forma de nitrato, já que tem se mostrado tóxico ao mirtilo. A forma preferida é a amoniacal, com a vantagem adicional de abaixar ou manter o pH baixo em pomares estabelecidos. Se o pH em água do solo for menor que 5,0 a uréia é a fonte de N mais indicada. Ao contrário, se for maior que este valor, deve ser usado o N amoniacal, com a vantagem de ser mais acidificante do solo que a ureia.
Como o mirtilo apresenta uma alta suscetibilidade à toxidez por fertilizantes, recomenda-se fracionar a dose anual em, pelo menos, duas parcelas. As doses recomendadas, bem como as épocas, constam na Tabela 5. O adubo nitrogenado deve ser distribuído ao redor das plantas, formando uma coroa distanciada de 30 a 40 cm do tronco.
A primeira aplicação de fertilizante nitrogenado deve ser realizada por ocasião da abertura das gemas florais e a segunda deve coincidir com o período da plena floração. Se houver necessidade, realizar uma aplicação adicional de N, durante o período de desenvolvimento dos frutos. Isto pode ser evidenciado pela ocorrência de sintomatologia carencial específica, por meio da observação do crescimento das plantas ou através de análise foliar.
Quando for usado “mulch”, dobrar a quantidade de nitrogênio, com o objetivo de reduzir a relação C/N do material e, assim, acelerar sua decomposição. Visando, principalmente, melhorar a retenção de água pelo solo e aumentar sua porosidade, aplicar em toda área do pomar 16 a 24 t/ha de esterco de gado bovino ou 10 a 12 t/ha de esterco de galinha.
Tabela 4. Recomendação de adubação nitrogenada, de crescimento e de produção, para o mirtilo.
Ano
Doses de nitrogênio (g de N/planta)
1ª aplicação
2ª aplicação
5,0
5,0
7,5
7,5
7,5
7,5
10,0
10,0
15,0
15,0
17,5
17,5
22,5
22,5
27,5
27,5
9° em diante
30,0
30,0
Fonte: Sociedade (2004).
Quando as plantas estiverem em plena produção, os nutrientes e as quantidades a serem aplicadas devem resultar de uma análise conjunta dos seguintes parâmetros: análise foliar, análise periódica do solo, idade das plantas, crescimento vegetativo, adubações anteriores, produções obtidas e espaçamento.
O teor de N nas folhas deve ser mantido entre 1,80 e 2,10% para que se obtenha um ótimo crescimento e uma boa produção, com frutas de qualidade. O teor foliar de N, freqüentemente, é mais elevado em anos de produção elevada.
Assim como ocorre com as demais fruteiras temperadas, a exigência do mirtilo em P é muito baixa, sendo suficiente a aplicação em pré-plantio. Uma nova aplicação somente deverá ser feita quando o teor foliar estiver abaixo de 0,08%.
Quando o teor foliar de K estiver abaixo de 0,31%, é indicativo da necessidade de aplicação de K no solo. As frutas do mirtilo acumulam quantidades consideráveis de K, de modo que o teor foliar é sempre menor quando os arbustos têm grande quantidade de frutas e vice-versa. Assim, para a interpretação do estado nutricional das plantas em K deve-se considerar tanto o teor foliar como a carga de frutas.
Quando for recomendado o uso de adubos potássicos, estes devem ser aplicados ao solo em qualquer época do ciclo vegetativo.
Com o objetivo de se aumentar a eficiência do uso dos fertilizantes, recomenda-se aplicar os adubos quando o solo não estiver seco e incorporá-los logo após a aplicação, principalmente os nitrogenados.

Análise foliar

Metodologia de coleta de amostras de folhas
Um programa de nutrição para pomares de mirtilo em produção deve ser baseado na análise foliar. Assim, à partir do 2º ou 3º ano a análise foliar é o indicador mais confiável na determinação da situação nutricional das plantas. Através dela é possível diagnosticar com precisão problemas nutricionais os quais são difíceis de serem identificados pela análise de solo ou pela observação das plantas. Como a análise foliar é um método preventivo, os produtores dispõem de ferramentas para identificar e corrigir problemas nutricionais ocultos, antes que o crescimento das plantas e a produção de frutos sejam comprometidos. Para a realização da análise foliar do mirtilo, devem ser colhidas folhas completas - lâmina foliar com o pecíolo - (Figura 50), na segunda quinzena de novembro. De cada dez arbustos, coletar cinco folhas plenamente desenvolvidas, localizadas no 5º ou 6º nó, contado a partir da extremidade dos ramos frutíferos jovens. Cada amostra deve ser composta de 80 a 100 folhas, podendo representar um grupo de plantas ou um pomar, conforme a homogeneidade. Em pomares com mais de 100 plantas, porém homogêneas, deve-se coletar quatro folhas por planta em 25 plantas distribuídas aleatoriamente e representativas da área. Cada amostra relaciona-se a uma condição nutricional. Assim, folhas com sintomas de deficiência nutricional não devem ser misturadas com folhas de plantas sadias. Cada amostra deve ser constituída de folhas de plantas adultas, da mesma idade e da mesma cultivar. As folhas que compõem a amostra devem estar livres de doenças e de danos causados por insetos, e não devem entrar em contato com embalagens usadas de defensivos, fertilizantes, etc. A amostra deve ser acondicionada em saco de papel pardo perfurado e enviada ao laboratório o mais rápido possível. Caso o tempo previsto para a chegada da amostra ao laboratório seja superior a dois dias, sugere-se fazer uma prévia secagem ao sol, sem retirar as folhas do saco, até que elas se tornem quebradiças. Se a análise foliar for realizada com o objetivo de esclarecer um problema nutricional, devem ser colhidas duas amostras, em qualquer época do ciclo vegetativo, sendo uma de plantas que apresentem os sintomas e uma outra de plantas aparentemente sadias.

Interpretação dos teores foliares de macro e de micronutrientes
Para a interpretação dos resultados da análise foliar do mirtilo deve ser consultada a Tabela 6.
Tabela 5. Interpretação dos resultados de análise foliar do mirtilo.
Faixa de interpretação
Macronutrientes(%)
N
P
K
Ca
Mg
Insuficiente
< 1,50
< 0,08
< 0,31
< 0,13
< 0,08
Abaixo do normal
1,50 – 1,79
0,08 – 0,11
0,31 –0,34
0,13 – 0,39
0,08 – 0,11
Normal
1,80 – 2,10
0,12 – 0,40
0,35 – 0,65
0,40 – 0,80
0,12 – 0,25
Acima do normal
2,11 – 2,50
0,41 – 0,80
0,66 – 0,95
0,81 – 1,00
0,26 – 0,45
Excesso
> 2,50
>0,80
> 0,95
>1,00
> 0,45
Fonte: Sociedade (2004).



sábado, 26 de agosto de 2017

Instalação e manejo do pomar de Mirtilo


As mudas, antes de serem transplantadas para o campo, devem sofrer um processo de aclimatização (Figura 38), pois ventos e o sol direto podem provocar queimaduras nas mesmas. Se o transplante for realizado no verão, para as condições do Rio Grande do Sul, haverá necessidade de complementação de água no solo, na forma de irrigação, uma vez que neste a maior estiagem no Estado. Por este motivo, pode-se optar por plantar as mudas no campo, quando estas tiverem um ano e meio, no período de inverno, ou seja, junho e agosto, época de chuvas no Sul.
Foto: Luis E. C. Antunes
Figura 1.  Mudas de mirtilo com um ano de idade de `Briteblue`, já aclimatizadas.
Satisfeitas as exigências quanto à localização, clima e solo da área do pomar, e de posse de mudas de alta qualidade, podemos proceder a implantação do pomar.
Deve-se dar preferência a mudas vigorosas e bem enraizadas (Figura 39). Após a correção da fertilidade do solo em toda a área, de acordo com as recomendações para a cultura, devem ser abertas covas para plantio da muda, as quais devem ter no mínimo 30 x 30 x 30 cm. De acordo com a topografia da área, o pomar poderá ser implantado em camalhões dispostos em curvas com declividade variando de 0,6 a 0,8 % ou em linhas reta, se a declividade assim o permitir.
Foto: Luis E. C. Antunes
Figura 2.  Aspecto de uma muda de mirtilo vigorosa e com equilíbrio entre o sistema radicular e parte aérea.
Em função da polinização entomófila ser extremamente importante para a frutificação efetiva do mirtilo, áreas sujeitas à incidência de ventos devem ser evitadas. Se esta condição não pode ser atendida na propriedade, devem ser plantadas espécies de porte alto para formação de quebra-ventos no perímetro do pomar (Figura 40).
Foto: César B. Gomes
Figura 3. Pomar de mirtilo plantado em linhas retas sobre camalhão, e sob proteção de quebra-vento
O espaçamento para mirtilo varia de 3 a 4 metros entre as linhas de plantio e de 1 a 1,5 metro entre as plantas, variações estas em função da topografia, do tipo de terreno, do regime pluvial, da disponibilidade e do tipo de maquinário e do hábito de crescimento da cultivar a ser plantada (Figura 41).
Fotos: Luis E. C. Antunes
Figura 4. Porte de plantas de mirtilo, Clímax e Powderblue. (Embrapa EECascata).
Ao retirar a muda dos sacos plásticos, deve-se tomar o cuidado de não desfazer o torrão; entretanto, devem ser retiradas as raízes excedentes (poda de raízes) e fazer uma leve descompactação do torrão, para facilitar a emissão de novas raízes e a rápida colonização do solo. Nos dois primeiros anos, após o plantio da muda, se constrói a estrutura produtiva da planta. Nesse período, busca-se a formação de brotações vigorosas e de ramos (hastes lenhosas) suficiente para suportar as produções futuras. A planta de mirtilo possui uma fase juvenil extremamente curta, apresentando produção de flores e frutos desde a fase de muda. Entretanto, toda flor ou fruto, na planta jovem, devem ser eliminados, em detrimento das brotações, visando fortalecer os ramos em formação (Figura 42).
Foto: Luis E. C. Antunes
Figura 5. Eliminação de flores em plantas com idade inferior a 3 anos.
O princípio da poda de mirtilo consiste em equilibrar a parte área da planta, com o desenvolvimento das raízes e a produção de frutos. Grande quantidade de ramos resultará em grande produção de frutos, mas de qualidade inferior, e a médio prazo os ramos assim formados perderão a capacidade de emitir folhas, tornando-se débeis. Ramos fortes darão boas produções; ramos finos e mal formados, não produzirão frutos de qualidade. Portanto, a poda tem a função de redistribuir a carga da planta, visando regularizar a produção e também favorecer a emissão de brotações vigorosas. A poda também deve objetivar abertura do centro da planta. As plantas do tipo "rabbiteye" necessitam de menos poda que as do grupo "highbush", uma vez que são vigorosas e suportam grandes cargas de frutos (Santos e Raseira, 2002); entretanto, intervenções devem ser realizadas. Na poda de formação devem-se eliminar as ramificações finas e débeis abaixo dos 30 cm de altura da copa. Priorizam-se três a quatro ramos mais vigorosos na 1ª estação. No inverno seguinte esses ramos são podados a 40-50 cm de altura, para formação de 3 a 4 pernadas (ramos primários). Sobre estas se concentrará a produção do ano seguinte. Os ramos primários podem permanecer por até 6 anos, quando serão substituídos. Formada a estrutura da plantas, nos anos seguintes, a poda consiste em remover ramos doentes, fracos ou inseridos muito baixo nas hastes principais, Hastes muito altas podem ser cortadas em até 1/3 do seu tamanho. Ramos fracos devem ser despontados até um bom ramo lateral jovem. O número de hastes deve ser entre quatro e seis, sendo uma ou duas para substituição e as demais para produção. Após os dois primeiros anos de formação da estrutura da planta, inicia a fase de produção comercial dos frutos. As intervenções de poda serão realizadas no inverno (poda seca) e no verão (poda verde). Na poda de inverno prioriza-se a eliminação de galhos secos e de ramos mal localizados, principalmente aqueles que se desenvolvem para o interior da copa (Figura 43). Diferente de outras espécies, como por exemplo, o pessegueiro, não se deve despontar os ramos da planta nesta fase, uma vez que as gemas de flor se concentram nas ultimas seis a oito gemas terminais.
Fotos: Luis E. C. Antunes
Figura 6.  Plantas de mirtilo no período de dormência vegetativa, aptas a poda seca ou de inverno.
Nestas gemas há formação apenas de flores, sendo que gemas vegetativas estão concentradas abaixo destas. Durante a formação dos frutos, há também o desenvolvimento destas gemas (Figura 44). Na poda de verão, após a colheita, são eliminados os ramos que produziram frutos, pois os mesmos tendem a secar, e também são selecionadas as brotações mais vigorosas desenvolvidas durante a fase de crescimento (Figura 45 e 48). Portanto, faz-se uma poda de limpeza, de raleio de ramos e de varas oriundas de gemas das raízes ou da base do tronco das plantas, cuja finalidade é o arejamento da planta e fortalecimento de ramificações para próxima safra.
Foto: Luis E. C. Antunes
Figura 7. Gemas apicais em flor e gemas da base do ramo em
inicio de desenvolvimento vegetativo
Ramos envelhecidos, com mais de 5 anos, devem ser eliminados totalmente, a partir da base ou logo acima de uma brotação vigorosa. Durante o desenvolvimento da planta devem se formar, a partir de lançamentos novos, estruturas que irão substituir os ramos mais velhos.
Fotos: Luis E. C. Antunes
Figura 8. Planta com ramificações velhas e mal localizadas (Embrapa EECascata).
Foto: Luis E. C. Antunes
Figura 9.  Condução de plantas de `Bluebelle` com revigoramento de
lançamentos (Embrapa EECascata).
Foto: César B. Gomes
Figura 10.  Ramo terminal em produção.
Foto: César B. Gomes
Figura 11.  Eliminação do ramo de produção em pós-colheita, acima de um ramo vigoroso da estação de crescimento vigente.


quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Propagação do Mirtilo (Blueberry)

Propagação

A propagação desta espécie pode se dar através de sementes (propagação sexuada) ou por enxertia ou estaquia (propagação assexuada). A forma mais utilizada de propagação do mirtilo é a estaquia. Mirtilo do tipo highbush é, geralmente, multiplicado por enraizamento de estacas lenhosas, retiradas durante o período de repouso hibernal. Estas são preparadas em estacas de 15 a 20 cm ou podem ser retiradas e conservadas em câmara fria e, posteriormente, preparadas e colocadas em canteiros (Figura 23 e 24) com leito aquecido. A temperatura do substrato deve ser de 18 a 21 ºC.
Foto: Luis E. C. Antunes
Figura 1. Estaqueamento de estacas lenhosas de mirtilo.
Foto: Luis E. C. Antunes


Figura 2. Inicio de brotação de estacas lenhosas de mirtilo
Para as cultivares do grupo rabbiteye, mais indicadas às condições do Rio Grande do Sul, os melhores resultados são obtidos com estacas herbáceas (Santos e Raseira, 2002). Por ser retiradas da planta em estado mais tenro (herbáceo), o ambiente de enraizamento tem que possuir controle de temperatura e, principalmente, da umidade relativa. Assim, a estrutura normalmente utilizada é a casa plástica (ou de vegetação) com sistema de nebulização intermitente (mist), o qual é acionado em intervalos de 10 minutos por 30 segundos ininterruptos. À medida que as raízes adventícias v ao se formando este intervalo entre o acionamento do sistema pode ser aumentado.
As estacas herbáceas podem ser retiradas durante todo o ciclo vegetativo, embora maior porcentagem de enraizamento seja obtida quando são preparadas na primavera. As plantas matrizes devem apresentar bom estado fitossanitário e representarem fielmente a variedade que as originou. O estado nutricional da planta matriz também é fator importante para o sucesso da propagação, uma vez que plantas com deficiência mineral produzem material vegetal de má qualidade.
Foto: Luis E. C. Antunes
Figura 3. Aspecto das estacas herbáceas de mirtilo, tipo
rabbiteye, com apenas as duas folhas superiores
(Santos e Raseira, 2002).
Foto: Luis E. C. Antunes
Figura 4. Detalhe das estacas em substrato constituído por
areia de granulometria media(Santos e Raseira, 2002).
Retirados os lançamentos da estação de crescimento, os ramos ou varas devem ser mantidos com a base em água, para evitar que se desidratem. Para serem submetidos ao processo de enraizamento, os ramos devem ser preparados em estacas de 10 a 15 cm de comprimento. Deve-se manter de duas a três folhas superiores e eliminar as folhas basais (Figura 25 e 26). A permanência das folhas superiores é importantíssima, uma vez que estas serão uma das fontes reguladoras de crescimento, como as auxinas, facilitadores da formação de raízes adventícias da estaca (Figura 27).
Foto: Luis E. C. Antunes
Figura 5. Estacas enraizadas, sendo apenas as três primeiras da esquerda paraa direita, aptas a serem transplantadas para saquinhos ou recipientesindividuais contendo solo e areia. (Santos e Raseira, 2002).
Recomenda-se a realização de lesão na base da estaca, uma vez que esta irá expor o lenho à ação do regulador de crescimento. Após a preparação das estacas, estas devem ter sua base mergulhada numa solução alcoólica de ácido indolbutirico (IBA) ou ácido naftalenoacético (ANA). O uso do regulador de crescimento na base das estacas, antes do plantio, facilita o enraizamento. As concentrações podem variar de espécies para espécie e de variedade para variedade, assim como entre as marcas comerciais, mas geralmente utilizam-se 2.500 ppm, por 10 segundos. Após, as estacas devem ser enterradas, em um terço do seu comprimento, em substrato que possa ser facilmente drenado. É importante que o ambiente e a parte superior da estaca sejam mantidos úmidos, através das nebulização, mas o substrato não pode estar demasiadamente encharcado. O substrato normalmente utilizado é composto por areia grossa de rio. Tem-se a opção de colocar, no fundo da caixa, brita, para facilitar a drenagem. Outros materiais podem ser utilizados, como serragem decomposta, perlita, vermiculita e mistura entre eles, entre outros matérias. Esta fase é uma das mais críticas do processo de propagação. Dos 30 a 45 após a estaquia, inicia o desenvolvimento das raízes adventícias. Após 90 a 120 dias, faz-se o transplante das estacas enraizadas para sacos plásticos contendo substrato apropriado (Figura 28,29,30 e 31). Vários são os substratos que poderiam ser utilizados, mas especial atenção deve ser dada ao pH das misturas, uma vez que o mirtilo é uma planta que se desenvolve melhor em solos ácidos e suas mudas não são diferentes. Uma das alternativas de substrato é uma mistura de 40% de solo, 40% de esterco bem curtido e 20% de vermiculita ou casca de arroz carbonizada, outra seria mistura 1:1:1 composta por solo (de preferência ácido), areia e esterco curtido.
Foto: Luis E. C. Antunes
Figura 6. Retirada de estaca enraizada em substrato composto por areia.
Foto: Luis E. C. Antunes
Figura 7. Transplante da estaca com o máximo de "torrão" na volta das raízes.
Foto: Luis E. C. Antunes
Figura 8 Após a colocação da estaca enraizada completam-se os sacos com
substrato.
Foto: Luis E. C. Antunes
Figura 9. Leve compressão do solo para retirada de bolhas de ar junto às raízes.
Foto: Luis E. C. Antunes
Figura 10. Ambiente protegido para o desenvolvimento da muda.
Foto: Luis E. C. Antunes
Figura 11. Tipo de estufim para o desenvolvimento inicial das mudas de mirtilo.
Deve-se atentar para o fato de que alguns tipos de compostos adquiridos no comercio possuem pH acima de 7,0. Se a mistura apresenta pH maior de que 6,5, pode-se adicionar 1,5 Kg de enxofre elementar por tonelada de substrato misturando bem e incubando a mistura por 180 dias, até a redução deste. Os substratos preparados, independente da composição, devem sofrer um processo de desinfestação, para evitar contaminação do sistema radicular por fungos ou nematóides, e inativar sementes de plantas invasoras.
Transplantadas para sacos de solo as estacas enraizadas devem permanecer em ambiente protegido (Figura 19 e 20), pois a proteção da muda neste período é fundamental. Os sacos plásticos devem ter de preferência maior comprimento do que largura (15 x 10cm), de maneira a facilitar o desenvolvimento radicular em profundidade e melhorar a qualidade da muda formada.
Este transplante geralmente é realizado no final de verão e início de outono e o transplante definitivo para o campo ocorrerá a partir do próximo verão, quando as mudas terão, então, um ano de idade (Figura 34 e 35).
Foto: Luis E. C. Antunes
Figura 12. Muda de um ano de mirtilo.
Foto: Luis E. C. Antunes
Figura 13 Muda com um ano de idade de `Aliceblue`
O produtor também pode adquirir mudas produzidas através da cultura de tecidos vegetal. Com esta técnica, pode-se produzir um número bastante grande de mudas a partir de um único explante. Estas mudas, normalmente, são comercializadas em tubetes (Figura 36). Tais plantas não devem ser levadas diretamente a campo, pois, além de novas, são muito tenras e sensíveis às variações ambientais.
Fotos: Luis E. C. Antunes
Figura 14. Mudas de Georgiagem, oriundas da cultura de tecidos vegetais.
É recomendável que o produtor repique estas mudas para sacolas ou vasos com maior capacidade, com substrato adequado, para que a planta possa se desenvolver rapidamente, formando um sistema radicular e parte área equilibrada.
Fotos: Luis E. C. Antunes
Figura 15. Desenvolvimento de plantas de Georgiagem, com 4 meses de plantio, em 7 diferentes substratos.