sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Botânica do cajueiro


O cajueiro pertence à família Anacardiaceae, que é composta por cerca de 70 gêneros e 700 espécies. Quanto ao gênero, o cajueiro pertence ao Anacardium, constituído por aproximadamente 22 espécies, sendo 21 originárias das Américas do Sul e Central e uma da Malásia. Dessas 22 espécies de cajueiro já relatadas, apenas a espécie Anacardium occidentale L., de origem brasileira, é explorada comercialmente.
Outras espécies de cajueiros também são encontradas no Brasil, destacando-se plantas de porte alto (entre 25 m e 40 m de altura) e médio (entre 4 m e 20 m de altura) na região amazônica; plantas arbustivas de pequeno porte (entre 0,5 m e 12 m de altura) no Planalto Central; e plantas de porte intermediário (de até 20 m de altura) no Sertão nordestino.
Devido à sua dispersão, realizada pelos colonizadores desde o século 16 (entre 1563 e 1578), o cajueiro A. occidentale é encontrado em diversos locais do mundo (entre as latitudes 30°N e 31°S), vegetando e produzindo mesmo em condições ecológicas consideradas insatisfatórias, o que o caracteriza como planta com grande capacidade adaptativa. Apesar de o Brasil ser o seu local de origem, os maiores produtores mundiais de castanha são o Vietnã, a Nigéria e a Índia.
A seguir, serão descritas as principais características do cajueiro:

Sistema radicular

O cajueiro apresenta raízes laterais distribuídas horizontalmente em toda a sua periferia e uma raiz pivotante bifurcada logo abaixo da superfície. Raízes verticais são emitidas ao longo das raízes laterais, principalmente na profundidade entre 15 cm e 50 cm de profundidade. Tanto as raízes mais grossas quanto as mais finas apresentam radicelas (raízes pequenas, sensíveis e quebradiças) responsáveis pela absorção de água e nutrientes. A envergadura do sistema radicular é extensa e se projeta ao longo das linhas de plantio, podendo se entrelaçar com as das plantas vizinhas. No entanto, grande parte da área explorada pelo sistema radicular encontra-se na área de projeção da copa. Os resultados de um estudo, referente ao sistema radicular do cajueiro-anão ‘CCP 09’, com 10 anos de idade, em cultivos irrigado e de sequeiro, mostraram que as plantas irrigadas apresentavam profundidade efetiva das raízes até 60 cm num raio de 1,0 m a partir do caule, enquanto as plantas de sequeiro apresentaram raízes com até 1,0 m de profundidade, num raio de 1,6 m a partir do caule. Foi constatado, ainda, que a concentração preponderante de raízes, em ambos os cultivos, se localizou a uma profundidade de até 25 cm e a uma distância de até 50 cm do caule.

Parte aérea (copa)

O cajueiro é uma planta perene, de ramificação baixa (ramos próximos ao solo), apresentando porte variado. Em função do porte, o cajueiro é classificado em dois tipos, o comum (gigante) e o anão (também denominado como anão-precoce) (Figura 1).
Fotos: Luiz Augusto Lopes Serrano
Figura 1. Cajueiros dos tipos comum (acima) e anão (abaixo) cultivados no Ceará e Piauí, respectivamente. Ambos pertencem à espécie Anacardium occidentale L.

Os cajueiros-comuns são os mais encontrados no Nordeste, pois, além de serem nativos, foram os primeiros a serem explorados comercialmente, sendo propagados quase exclusivamente por sementes. Já o cajueiro-anão é oriundo de seleções fenotípicas de cajueiros-comuns de porte baixo realizadas a partir da década de 1960.
A parte aérea do cajueiro-comum pode atingir até 20 m de altura, sendo, por isso, também chamado de gigante. No entanto, são mais comuns os cajueiros entre 8 m e 15 m de altura, com diâmetro (envergadura) proporcional ou superior à altura. Em regiões de clima seco e com solos arenosos de baixa fertilidade, as plantas tendem a apresentar porte inferior, de tronco atarracado, tortuoso e esgalhado a partir da base, com ramos longos e sinuosos, formando uma copa ampla e irregular.
O cajueiro-anão caracteriza-se pelo porte baixo, raramente ultrapassando os 5 m de altura e 8 m de diâmetro de copa. Possui copa mais compacta e homogênea do que o cajueiro-comum. A partir do segundo ano, a envergadura da copa supera a altura da planta. Os crescimentos vertical e lateral da planta ocorrem de forma contínua até o sexto ano após o plantio, quando, então, começa a ocorrer certa estabilidade em altura e envergadura.
Em ambos os tipos de cajueiro, por a envergadura ser relativamente maior que a altura, a copa natural e considerada adequada (mais produtiva) é aquela com formato de guarda-chuva ou meia-lua (Figura 2).
Fotos: Luiz Augusto Lopes Serrano

Figura 2. Cajueiros dos tipos comum (acima) e anão (abaixo) apresentando copas com o formato guarda-chuva.
Em Pacajus, CE, em cultivo de sequeiro em solo arenoso, cajueiros-anões com 6 anos de idade dos clones ‘CCP 06’, ‘CCP 09’, ‘CCP 76’ e ‘CCP 1001’ apresentaram, em média, alturas de 2,11 m, 2,15 m, 2,68 m e 2,78 m, respectivamente. Quanto ao diâmetro de copa, as respectivas médias foram de 4,52 m; 4,65 m; 4,98 m e 5,03 m.
Plantas de cajueiro com idade acima de 2 anos produzem um exsudado natural no tronco ou nos ramos, denominado goma ou resina. Essa resina, de coloração amarelada ou acastanhada, possui consistência dura e levemente perfumada, tem sabor acre (ácido) e, regularmente, é solúvel em água e insolúvel no álcool e nos demais solventes orgânicos. Essa goma do cajueiro vem apresentando potencial para inúmeras utilidades comerciais.
Folhas
As folhas do cajueiro são simples, inteiras, com pecíolos curtos e sem estípulas (Figura 3). Apresentam limbo coriáceo, espesso, glabro (sem pelos) e brilhante. Quanto à disposição nos ramos, as folhas do cajueiro são alternadas e se apresentam arqueadas, com ângulo externo com o pecíolo maior que 90 graus. Quanto ao formato, normalmente são ovais, apresentando nervuras salientes na face abaxial (página inferior). Entre as nervuras principais, são observados canais reticulados.
Foto: Luiz Augusto Lopes Serrano
Figura 3. Folhas de cajueiro com pecíolo curto e limbo coriáceo e liso.
Após a emergência, as folhas novas apresentam consistência delicada, de coloração variável conforme o genótipo, podendo ser verde-claras ou roxo-avermelhadas, característica relacionada ao teor de tanino (Figura 4). Após duas a três semanas de sua emergência, as folhas maduras tornam-se verde-escuras, com possíveis variações no tom. O tamanho das folhas também varia de acordo com o genótipo.
Fotos: Luiz Augusto Lopes Serrano
Figura 4. Folhas novas de diferentes genótipos de cajueiro apresentando as colorações verde (acima) e arroxeada (abaixo).
Ramos
No cajueiro, observam-se duas fases de crescimento dos ramos: um fluxo vegetativo e um reprodutivo. No fluxo vegetativo, ocorrem dois tipos de ramificações: uma intensiva e a outra extensiva.
A ramificação intensiva (produtiva) caracteriza-se por ramos que crescem entre 25 cm e 30 cm, apresentando uma inflorescência no ápice. Simultaneamente, na mesma ramificação, entre 10 cm e 15 cm do ápice do ramo principal, crescem de 3 a 8 ramos, que podem apresentar outras panículas.
A ramificação extensiva (vegetativa) caracteriza-se por ramos que crescem entre 20 cm e 30 cm, com posterior repouso da gema apical, sem emissão de panícula. Desses ramos, originam-se outros mais que, do mesmo modo, não emitem panículas num prazo de dois a três anos.
A predominância de ramos intensivos (produtivos) é o que caracteriza o formato da copa tipo guarda-chuva da planta de cajueiro, enquanto o inverso propicia plantas com copas esgalhadas e abertas, e com menor produção.

Inflorescência

O cajueiro apresenta inflorescência do tipo panícula, que surge no ápice dos ramos. Essa inflorescência é caracterizada por um cacho terminal com ramificações que vão decrescendo da base para o ápice, apresentando, assim, formato piramidal (Figura 5). O comprimento da panícula, o número de ramificações e a duração das panículas são variáveis tanto entre os tipos de cajueiro (comum e anão) como entre os genótipos de um mesmo tipo.
Fotos: Luiz Augusto Lopes Serrano
Figura 5. Inflorescências de diferentes genótipos de cajueiro.
As panículas atingem o comprimento máximo cerca de 45 dias após seu surgimento, podendo chegar a aproximadamente 30 cm. Normalmente, são observadas de 7 a 9 ramificações.
O número de flores por panícula também varia entre e dentro dos tipos de cajueiro, podendo chegar a até 500 flores por panícula, embora seja mais comum a observância de cerca de 200 flores por panícula. Outro fato que merece destaque é que nem todas as flores da panícula se abrem.
Flores
O cajueiro é uma planta andromonoica, apresentando numa mesma panícula flores hermafroditas (completas) e masculinas (estaminadas) (Figura 6), em quantidades e proporções que variam entre genótipos, plantas e entre panículas de uma mesma planta. Independentemente do sexo, as flores do cajueiro são pentâmeras (com cinco sépalas e cinco pétalas).
Foto: Luiz Augusto Lopes Serrano
Figura 6. Flores masculinas e hermafroditas de cajueiro.
Dos estames presentes na flor, um deles é mais desenvolvido que os demais. As flores masculinas apresentam, além do estame mais desenvolvido, outros estames menores, todos com uma antera e um filete curto. Já as flores hermafroditas possuem, além dos estames menores e de um estame maior, uma estrutura denominada pistilo, geralmente mais comprido que o estame mais desenvolvido. Desse modo, além do gameta masculino (grão de pólen), esse tipo de flor também apresenta o gameta feminino (óvulo), localizado no interior do ovário. Por isso, são essas flores que resultam em frutos.
Algumas variações e anomalias dos componentes florais são frequentemente observadas. Certas flores apresentam arranjo dos estames similar ao das flores masculinas e ao das flores hermafroditas; entretanto, não apresentam o estame mais desenvolvido ou o pistilo, sendo, assim, denominadas anômalas.
A porcentagem de flores hermafroditas numa panícula pode variar de 0,5% até próximo de 25%, mas, normalmente, tanto no cajueiro-comum como no cajueiro-anão, são observados baixos índices de flores perfeitas (inferiores a 10%).
Quando a flor hermafrodita (que origina o fruto) é fecundada, seu pedicelo fica mais largo e com coloração arroxeada (Figura 7). No caso do cajueiro (A. occidentale), esse pedicelo se desenvolve – processo denominado hipertrofia – formando o pedúnculo do caju. Também após a fecundação dos óvulos, o ovário inicia o crescimento, dando origem à castanha, o fruto verdadeiro do cajueiro.
Fotos: Luiz Augusto Lopes Serrano

Figura 7. Pedicelo da flor hermafrodita arroxeado e mais largo que os demais (acima), indicando a ocorrência da fecundação. Após a fecundação, o ovário inicia seu desenvolvimento (ao centro) dando origem à castanha-de-caju (abaixo), o fruto verdadeiro.
Em geral, o percentual de frutos formados em relação à quantidade de flores hermafroditas produzidas é considerado muito baixo, em ambos os tipos de cajueiro.

Fruto

O verdadeiro fruto do cajueiro é a castanha, um aquênio reniforme de cor marrom-acinzentada, composto pelo pericarpo (casca) e pela amêndoa (semente). O pericarpo é constituído por três camadas: epicarpo, mesocarpo e endocarpo (Figura 8).
Foto: Luiz Augusto Lopes Serrano
Figura 8. Castanha-de-caju formada pelo pericarpo (casca) e pela amêndoa (semente).
O pericarpo é constituído pelo endocarpo, mesocarpo e epicarpo.
O epicarpo é a camada mais externa da casca da castanha, enquanto o endocarpo é a camada mais interna. Já o mesocarpo é a camada intermediária da casca, apresentando aspecto esponjoso, cujos alvéolos são preenchidos pelo líquido da casca da castanha (LCC), produto utilizado pelas indústrias químicas.
As castanhas dos clones de cajueiro-anão da Embrapa apresentam peso variando entre 6,7 g (‘CCP 06’) e 12,5 g (‘BRS 265’), enquanto as amêndoas pesam, em média, entre 1,8 g (‘CCP 76’) e 2,7 g (‘BRS 226’). Já o clone de cajueiro-comum ‘BRS 274’, produz castanhas e amêndoas com pesos médios de 16 g e 3,5 g, respectivamente.
O caju, tão popularmente conhecido como fruto, na verdade é o conjunto entre a castanha (fruto verdadeiro) e o pedúnculo (pedicelo da flor que se desenvolveu) (Figura 9).
Foto: Luiz Augusto Lopes Serrano

Figura 9. O popular caju é formado pela castanha (fruto verdadeiro) e pelo pedúnculo (fruto falso).

As plantas de cajueiro-anão tendem a produzir cajus que apresentam pedúnculo grande e castanha pequena, sendo essa relação, em média, de 9:1, isto é, o peso do caju é constituído por, aproximadamente, 90% de pedúnculo e 10% de castanha. Já nas plantas de cajueiro-comum, essa relação é muito variável. O peso médio dos cajus produzidos pelos clones de cajueiro-anão da Embrapa varia entre 87 g (‘CCP 09’) e 155 g (‘BRS 189’).
A coloração dos pedúnculos pode ser nos tons amarelo, laranja ou vermelho, característica variável entre os clones de cajueiro (Figura 10).
Foto: Luiz Augusto Lopes Serrano
Figura 10. O pedúnculo do caju pode apresentar coloração vermelha, amarela ou alaranjada.
Do ponto de vista nutritivo, o caju é considerado fonte de vitamina C, vitaminas do Complexo B e Ferro, e pode ser considerado fonte relevante de compostos antioxidantes, que são necessários para a saúde humana. Por exemplo, pedúnculos maduros dos cajus ‘BRS 265’ e ‘CCP 76’ podem apresentar, em média, teor de vitamina C em torno de 280 mg/100 g de polpa.

Semente

A semente do cajueiro consiste no óvulo da flor desenvolvido após a fecundação, estando localizada no interior da castanha. A semente é dividida em três partes: tegumento (película), embrião e amêndoa. A amêndoa da castanha-de-caju (ACC) é o principal produto econômico do cajueiro em todo o mundo.
A película é um envoltório pouco rígido de tonalidade avermelhada, que tem a função de proteger a semente (amêndoa).
O embrião é formado por duas partes extremas: a radícula, que originará o sistema radicular da nova planta, e o caulículo, responsável por formar as primeiras folhas embrionárias.
A amêndoa é um tecido de reserva, apresentando a função primordial de armazenar nutrientes para serem utilizados no crescimento inicial da nova planta. É composta por dois cotilédones de coloração branco-amarelada, carnosos e ricos em óleo (ácidos graxos insaturados). Durante a germinação da semente, os cotilédones darão origem às duas primeiras folhas da nova planta, cumprindo a função especial de fornecer nutrientes para o desenvolvimento inicial dela.

domingo, 22 de outubro de 2017

Aspectos econômicos da cultura do cajueiro


Histórico

O cajueiro (Anacardium occidentale) é uma planta nativa do nordeste Brasileiro com considerável capacidade adaptativa a solos de baixa fertilidade, a temperaturas elevadas e ao estresse hídrico. Devido a essas características, o cajueiro se tornou uma importante fonte de renda para os estados do Nordeste, principalmente para aqueles que possuem regiões semiáridas. Ademais, por produzir em pleno período seco, na entressafra das culturas anuais, o cajueiro se torna importante para a geração de empregos tanto no campo quanto nas indústrias.
Os primeiros modelos de exploração do cajueiro foram o extrativista e o plantio desorganizado nas propriedades. O extrativismo foi o processo exclusivo de exploração do cajueiro por volta do ano de 1600, apesar de ainda ocorrer nos dias atuais, mas em escala cada vez mais reduzida. O plantio desorganizado era realizado em pomares domésticos e iniciou-se com a crescente valorização dos produtos do cajueiro comercializados pelos colonizadores. Nesse tipo de exploração, também se deu o início dos primeiros tratos culturais, destacando-se a realização esporádica de roçadas em volta das plantas e de podas de limpeza. Esse tipo de exploração disseminou-se em todo o Nordeste, partindo do litoral e penetrando Sertão adentro (LIMA, 1988).
A partir da 2ª Guerra Mundial, surgiu, em 1943, um grande interesse industrial pelo cajueiro devido ao líquido da casca da castanha-de-caju (LCC). Com o fim da guerra, o interesse econômico passou a ser a amêndoa da castanha-de-caju (ACC), iniciando, assim, um crescimento significativo da agroindústria de caju. Na década de 1950, devido à crescente demanda de ACC, deu-se início aos primeiros plantios organizados de cajueiro no Nordeste, mais precisamente no Ceará. Em 1957, o governo do estado promoveu a primeira grande campanha para o plantio de cajueiros, tendo como meta a obtenção de um milhão de cajueiros plantados. A partir de 1968, com a aplicação dos incentivos fiscais do antigo Fundo de Investimentos do Nordeste (FINOR - art. 34/18), para projetos agrícolas, iniciou-se uma nova fase de grandes plantios, concentrados principalmente no Ceará e, em menor escala, Piauí e Rio Grande do Norte (LIMA, 1988). Todas essas grandes plantações comerciais tinham o objetivo de abastecer as primeiras indústrias processadoras de castanha (extração das amêndoas) e as novas indústrias de suco.
A partir de 1983 (Decreto 88.207, de 30/03/1983), o cajueiro também foi incluído nos programas prioritários da política florestal do Governo Federal na região nordestina (LIMA, 1988). Desse modo, em 1986, já existiam cerca de 340 mil hectares de cultura, dos quais 75% localizavam-se nos estados do Piauí, Ceará e Rio Grande do Norte. Paralelamente, também se iniciaram os plantios organizados nas pequenas e médias propriedades, incentivados pelos órgãos públicos estaduais, o que ocorre até os dias atuais nos principais estados produtores.
Devido às várias políticas de incentivo de plantio, tem-se, até os dias atuais, uma expressiva área com cajueiros. Em se tratando de espécies frutíferas no Brasil, essa área só perde para aquela plantada com laranjeiras (IBGE, 2014).
Atualmente, a grande maioria dos pomares explorados racionalmente (cerca de 95%) está localizada em pequenas e médias propriedades (<100 assentamentos="" associa="" comunidades="" em="" es="" grandes="" ha="" isolados="" o="" ou="" pequenas="" planta="" por="" produtores="" representado="" restante="" rurais.="">100 ha), as mesmas das décadas de 1960 e 1980 com cajueiros-comuns de pé-franco, com altas taxas de heterogeneidade entre as plantas e de falhas nos estandes, fato que, aliado à idade elevada, resulta quase sempre em baixa produtividade.

Produtos

Do cajueiro aproveita-se praticamente tudo. O principal produto é a amêndoa da castanha-de-caju (ACC), localizada no interior da castanha, de onde também é extraída a película que reveste a amêndoa, rica em tanino e utilizada na indústria química de tintas e vernizes. Da casca da castanha, extrai-se o líquido da casca de castanha-de-caju (LCC), usado na indústria química e de lubrificantes, curtidores, aditivos, entre outros, sendo o resíduo da casca utilizado como fonte de energia nas indústrias, por meio de sua queima em fornalhas. Já o pedúnculo do caju (pseudofruto) é processado por indústrias ou minifábricas para a obtenção do suco ou da polpa congelada, a ser utilizada na fabricação de sucos, cajuínas e outras bebidas. O pedúnculo também pode ser aproveitado para a fabricação de diversos produtos (principalmente doces) e na alimentação animal, além de que o caju inteiro também é comercializado in natura em feiras e supermercados. Outras partes da planta também são utilizadas, pois os restolhos dos galhos podados, as cascas das árvores e as folhas, por serem fontes de tanino e goma, são aproveitadas na indústria química e na geração de energia (queima).

Aspectos da produção nacional

De acordo com os dados atualizados do IBGE (2015), Conab (2015) e Secex (2014), serão apresentados alguns dados relacionados à cadeia produtiva de caju no Brasil.
A cultura do cajueiro é explorada por aproximadamente 195 mil produtores, sendo que cerca de 75% deles são pequenos produtores, com áreas inferiores a 20 hectares. Na cadeia produtiva do caju, estima-se a geração anual de cerca de 250 mil empregos diretos e indiretos, cuja importância é ainda maior devido à época de maior demanda de mão de obra (colheita) coincidir com a entressafra das culturas anuais de subsistência. Na região produtora de caju no Nordeste brasileiro, encontram-se grandes fábricas e dezenas de minifábricas processadoras de castanha, cuja capacidade atual de beneficiamento gira em torno de 300 mil toneladas de castanhas. Destacam-se também as fábricas e minifábricas processadoras de suco, e as minifábricas de cajuína e doces.
Nos últimos anos, o Ceará vem representando quase 50% do total de castanha-de-caju produzida no Brasil, sendo seguido pelos estados do Rio Grande do Norte (≈22%) e Piauí (≈18%), os quais juntos representam cerca de 90% do total produzido. Os estados da Bahia, Maranhão e Pernambuco complementam quase a totalidade do restante. Quanto aos municípios, em 2013, os maiores produtores de castanha-de-caju foram Beberibe, CE, Macaíba, RN e Cascavel, CE; enquanto os maiores em área colhida foram Beberibe, CE, Serra do Mel, RN, Bela Cruz, CE, Pio IX, PI e Cascavel, CE.
Entre os anos de 1990 e 2012, a área destinada à cajucultura no Brasil passou de 582 mil hectares para 756 mil hectares (Figura 1), um acréscimo de 30%. No entanto, nota-se que, no período entre 2006 a 2012, esse crescimento foi de apenas 6,5%, e, entre 2013 e 2015, constata-se uma redução na área colhida, a qual ficou em torno de 586 mil ha. Essa queda observada na área colhida de caju no Brasil tem forte influência dos elevados índices de mortalidade de plantas na cajucultura localizada na região semiárida do Nordeste e pelo déficit hídrico (precipitações abaixo das médias históricas) entre 2012 e 2015.

Figura 1. Evolução da área com cajueiros colhida no Brasil, período de 1990 a 2015*. (Estimativa). (Dados: IBGE, 2015).
Ressalta-se que, apesar da queda na área colhida nos últimos anos, houve um aumento na diferença entre área colhida e área plantada, indicando uma possível reforma dos pomares na região, pois, só em 2013, a quantidade de área plantada superou em 34 mil hectares a de área colhida. Como exemplo, temos o Estado do Ceará, que desde 2008 vem apresentando um aumento da área cultivada com cajueiro-anão (também conhecido como cajueiro-anão-precoce) e uma redução da área com cajueiro-comum, sinalizando essa possível substituição dos pomares antigos por pomares novos de cajueiros clonais. Em 1990, as áreas com cajueiro-comum no Ceará representavam mais de 98% da área cultivada, enquanto, em 2012, a distribuição ficou de 82% para cajueiro-comum e 18% para cajueiro-anão. Ano após ano, essa substituição de áreas com cajueiros-comuns por cajueiros-anões também vem sendo observada nos estados do Rio Grande do Norte e Piauí.
Em relação à produção de castanha-de-caju, no período entre 1990 e 2011, a produção passou de 107.664 toneladas para 230.785 toneladas (Figura 2), um acréscimo de 114%. Entretanto, a quantidade produzida apresenta um comportamento cíclico, pois, nos anos de 1993, 1998, 2010, 2012 e 2013, a produção foi menor do que a registrada em 1990. Esse tipo de comportamento da produção de castanha-de-caju parece estar diretamente associado com os dados pluviométricos ocorridos na estação chuvosa (janeiro a maio) do ano em questão; contudo, a idade das plantas e o material genético (tipo de cajueiro) certamente estão envolvidos com o grau de sensibilidade ao estresse hídrico. Nos últimos anos, as precipitações foram consideradas normais nos anos de 2008, 2009 e 2011, os quais propiciaram produções acima de 200 mil toneladas, e o inverso foi verificado nos anos de baixa precipitação, 2010 e 2012.

Figura 2. Evolução da quantidade de castanha-de-caju produzida no Brasil, período de 1990 a 2015*. (Estimativa). (Dados: IBGE, 2015).

No geral, a produtividade dos cajueirais segue a mesma tendência da produção, um comportamento cíclico. Em 1990, foi registrada uma produtividade média de 184 kg ha-1 de castanhas e, em 2011, de 301 kg ha-1 (Figura 3), um acréscimo de 63%. No entanto, em 2010, 2012 e 2014, as produtividades foram de 137 kg ha-1, 101 kg ha-1 e 172 kg ha-1 de castanhas, ambas inferiores à obtida em 1990.
Outro fato relevante, observado no Estado do Ceará, é que, nas mesmas condições edafoclimáticas, entre 2008 e 2013, a produtividade média do cajueiro-anão superou de 2 a 3 vezes à de cajueiro-comum, fato que fez a participação do cajueiro-anão saltar, nesse período, de 19% para 41% em relação ao total de castanhas produzidas.

Figura 3. Evolução das produtividades de castanha-de-caju no Brasil e nos principais estados produtores,  período de 1990 a 2015*. (Estimativa). (Dados: IBGE, 2015).

Comercialização

A maioria dos pequenos produtores comercializa suas safras (pedúnculo e castanha) com compradores intermediários (conhecidos como “atravessadores”), que, ao apresentarem maiores volumes, realizam a comercialização com as indústrias. Nesse tipo de comercialização, o atravessador representa determinada importância por estar sempre próximo ao produtor, diminuindo os riscos da não comercialização, mas, por outro lado, o produtor recebe um valor menor pelo produto. Por meio de associações e cooperativas, devido ao aumento do volume de produto a ser comercializado, os pequenos produtores podem aumentar seus ganhos com a cultura, principalmente por conseguir vender a sua mercadoria diretamente com o comprador final (indústrias ou minifábricas).
Na Figura 4, é apresentada a evolução dos preços pagos aos produtores nos últimos meses. Esses valores são aqueles pagos in loco pelo quilograma da castanha-de-caju. Observa-se que, devido às quedas de produção ocorridas entre 2011 e 2014, houve evolução no preço pago pelas castanhas.

Figura 4. Preço médio do quilograma de castanha-de-caju pago ao produtor rural. (Dados: Conab, 2015).

As épocas de comercialização apresentam pequenas variações entre os estados produtores. No Ceará, a colheita e a comercialização do caju se concentram nos meses de outubro e novembro; no Piauí, em setembro e outubro, e, no Rio Grande do Norte, entre setembro e novembro. O Piauí, geralmente, é considerado o estado que inicia a colheita do caju na região.
Considerando a produtividade média brasileira de castanha-de-caju, os preços atuais pagos pelo quilograma de castanha e a elevação do custo de produção, sobretudo da mão de obra, tem-se uma situação em que a rentabilidade oferecida pela cultura não induz a realização de investimentos significativos na manutenção e expansão dos pomares. Estudos técnicos direcionam a resolução desse problema para o melhor aproveitamento do pedúnculo, que, na atualidade, ainda é muito baixo. Ainda hoje, apesar de toda a tecnologia disponível, 75% dos pedúnculos do caju não são aproveitados. Estima-se que apenas 350 mil toneladas de pedúnculos são absorvidas por pequenas empresas que produzem suco de caju, cajuína e doces.
Estudos da Embrapa concluíram que a viabilidade econômica da exploração comercial do cajueiro está ligada à necessidade de intensificar o cultivo de genótipos com carga genética superior (clones), visando à produção e ao aproveitamento tanto da castanha como do pedúnculo (PAULA PESSOA et al., 2000).
Nas microrregiões nordestinas, próximas às fábricas de sucos e cajuínas, constata-se um elevado aproveitamento do pedúnculo quando provenientes dos clones de cajueiro-anão. Nas últimas safras, os preços pagos pela caixa de 20 kg de pedúnculos com ou sem castanha chegaram a até R$40,00, fato que, segundo observações in loco, vem incentivando os produtores a renovarem seus pomares com os clones de cajueiro-anão.
Quanto ao mercado de caju in natura, os principais dados são da Ceagesp. Entre 2009 e 2012, foram comercializados, em média, cerca de 1.250 toneladas anuais de caju in natura, sendo que os preços subiram de R$ 3,83 kg-1, em 2009, para R$ 7,61 kg-1, em 2012, com tendência de alta em 2013. A época de maior oferta ocorre nos meses coincidentes com a safra no Nordeste, entre setembro e novembro, e os melhores preços ocorrem entre abril e maio, época dos primeiros frutos temporãos (Figura 5).

Figura 5. Médias dos volumes (toneladas x 10) e preços (R$ kg-1) do caju in natura comercializado pelo Ceagesp, entre 2009 e 2013.
Fonte: Agrianual, 2014.

Cenário internacional em produção e comercialização

A comercialização internacional de castanha-de-caju tornou-se mais expressiva após a 2ª Guerra Mundial, destacando-se a Índia como o maior produtor mundial, que, em 1965, já produzia acima de 100 mil toneladas de castanhas por ano. Nessa mesma época, também se destacavam Moçambique e Tanzânia.
A partir dos grandes plantios realizados nas décadas de 1960 e 1970 no Brasil, o País produziu, em 1985, cerca de 115 mil toneladas de castanha-de-caju (PAULA PESSOA et al., 1991), enquanto a Índia, maior produtora mundial, produziu 221 mil toneladas. Na África, em função de guerras civis, Moçambique produziu pouco mais de 10 mil toneladas, sendo ultrapassado pela Nigéria e Tanzânia com 32.750 e 25.000 toneladas, respectivamente. Durante toda a década de 1980 até a metade da década de 1990, o Brasil se manteve como o segundo maior produtor mundial de castanha-de-caju, dominando o mercado internacional juntamente com a Índia.
A partir de 1995, entraram no mercado internacional de forma competitiva o Vietnã, a Indonésia e a Costa do Marfim. Do mesmo modo, ocorreu uma eficiente expansão da cajucultura na Nigéria. A Índia, por sua vez, já superava a marca de 320 mil toneladas produzidas anualmente.
No ano 2000, o Brasil ocupava o posto de terceiro maior produtor mundial de castanha-de-caju, ficando atrás da Índia (440 mil toneladas) e Nigéria (176 mil toneladas).
Segundo os dados da FAO (2014), nas safras de 2011 e 2012, as produções mundiais de castanha-de-caju foram de 4,40 milhões e 4,15 milhões de toneladas, respectivamente. Vietnã (28,7% da produção), Nigéria (20%), Índia (16%) e Costa do Marfim (10%) se consolidaram como os maiores produtores mundiais. O Brasil, com sua produção cíclica, foi o quinto maior produtor em 2011 e o décimo maior em 2012. Considerando os mais importantes produtores, essa grande variação entre as safras ocorre somente no Brasil, sendo de 65% a diferença entre 2011 e 2012, enquanto, no Vietnã, Nigéria e Índia, essa variação não ultrapassou 4%. Outro fato importante é que as produtividades médias mundiais em 2011 e 2012 foram de 805 kg ha-1e 781 kg ha-1, valores bem superiores às médias brasileiras de 300 kg ha-1 e 106 kg ha-1.
Quanto à exportação brasileira de castanha-de-caju, temos como principais compradores os Estados Unidos, os Países Baixos e o Canadá. De 2010 a 2013, os Estados Unidos compraram 53% do total exportado; no entanto, houve uma redução de aproximadamente 40% na quantidade adquirida.
Para o Estado do Ceará (maior exportador), as exportações de castanha-de-caju renderam, em 2010, 2011, 2012 e 2013, respectivamente, US$ 182 milhões, US$ 176 milhões, US$ 149 milhões e US$ 110 milhões, passando de primeiro para o terceiro produto da pauta de exportações. Já o mercado do LCC, nesse mesmo período, rendeu uma média de US$ 10 milhões anuais.
No Rio Grande do Norte, a castanha-de-caju é consolidada como o segundo produto de exportação, gerando cerca de US$ 15 milhões entre janeiro e agosto de 2014. Apesar de continuar um dos principais produtos exportados pelo RN, a castanha-de-caju foi o produto que sofreu a maior variação negativa na pauta de exportações da fruticultura. Enquanto, de janeiro a maio de 2013, o estado acumulou US$ 13 milhões em produto exportado, no mesmo período de 2014, esse valor caiu para US$ 9,5 milhões; uma queda de 26%. A seca que impactou o estado de 2012 a 2014 é o principal fator apontado por especialistas para o resultado negativo.
No Piauí, a castanha-de-caju está entre o 10º e 15º lugar na pauta de exportação, gerando cerca de US$ 190 mil entre janeiro e agosto de 2014, valor 52% menor do que o obtido no mesmo período de 2013. Como vimos anteriormente, a seca prolongada vem prejudicando muito a cajucultura piauiense.

Custo de produção

Segundo o levantamento realizado pelo Agrianual (2014), no Município de Pacajus, CE, considerando 204 plantas por hectare e um módulo ideal de 10 ha, para as condições de cultivo intensivo (podas, pulverizações fitossanitárias, controle de plantas daninhas e adubação) em sequeiro, o custo total de implantação e manutenção do pomar durante o primeiro ano gira em torno de R$ 9.500,00. Já, nos anos seguintes, o custo total gira em torno de R$ 4.000,00 a R$ 6.000,00. As receitas iniciam no terceiro ano após o plantio, esperando-se produtividades de 750 kg ha-1 de castanhas e 7.500 kg ha-1 de pedúnculos. A partir do quarto ano, com produtividades médias de pelo menos 1.000 kg ha-1 de castanhas e 10.000 kg ha-1 de pedúnculos, segundo o levantamento, o produtor inicia a obtenção de resultados positivos, isto é, de lucro líquido, recuperando o investimento.
Por outro lado, sabe-se que, na implantação de um pomar, os gastos variam de acordo com o nível tecnológico adotado.
No perfil de baixo nível tecnológico, a mão de obra utilizada na implantação do pomar (preparo da área, marcação e abertura de covas, plantio, coroamento e poda) participa com aproximadamente 88% do gasto total (73 dias de serviço por hectare). Os serviços mecanizados (aração, gradagem e roçagem) participam com 9,5%. Por sua vez, os piquetes e as sementes participam com 2% e 0,5%, respectivamente.
Já no perfil de alto nível tecnológico (tecnologia recomendada pela Embrapa), a necessidade de mão de obra é de 88 dias de serviço por hectare. Esse aumento em relação ao perfil de baixo nível tecnológico é decorrente das práticas adicionais de adubação e de controle de pragas e doenças. Entretanto, a participação da mão de obra no gasto total com a implantação cai para 70%. Nesse perfil, as mudas enxertadas participam com 13%, os serviços mecanizados (aração, gradagem, roçagem e calagem), com 9%, os insumos (calcário, adubos, inseticidas, fungicidas e formicidas), com 7%, e os piquetes, com 1%.
Da mesma forma que na implantação, a composição dos gastos envolvidos na manutenção de um pomar de cajueiro varia bastante com o perfil tecnológico. Entretanto, em qualquer perfil, a mão de obra é o principal componente do gasto total.
No perfil de baixo nível tecnológico, a mão de obra utilizada na manutenção do pomar (coroamento e poda) participa com aproximadamente 69% do gasto total (seis dias de serviço por hectare). Já os serviços mecanizados (roçagem) participam com 31%.
No perfil de alto nível tecnológico, a necessidade de mão de obra passa para 14 dias de serviço por hectare. Esse aumento absoluto em relação ao perfil de baixo nível tecnológico é também decorrente das práticas adicionais de adubação e de controle de pragas e doenças. Entretanto, em termos relativos, a participação da mão de obra no gasto total com a manutenção cai para 48%. Nesse perfil, os insumos (calcário, adubos, inseticidas, fungicidas e formicidas) participam com 34%, e os serviços mecanizados (roçagem e calagem), com 18%.
Com relação à viabilidade econômica, conforme já salientado, há uma grande diversidade de perfis tecnológicos, sendo que geralmente o maior aproveitamento comercial do caju (castanha-de-caju, pedúnculo do caju e caju para consumo in natura) varia com o nível tecnológico utilizado e a estratégia de inserção no mercado. Nessas condições, torna-se difícil indicar viabilidades econômicas dos perfis existentes; no entanto, podem-se considerar as seguintes afirmações:
a) Independentemente do nível tecnológico, com o aproveitamento comercial somente da castanha-de-caju, apenas os pequenos produtores familiares com a produção do pomar já estabilizada obtêm uma receita ou excedente econômico positivo. Com a necessidade de mão de obra sendo suprida pela família, os desembolsos financeiros para a manutenção do pomar são fortemente atenuados. No entanto, é importante advertir que o excedente gerado para a família não possibilita sustentabilidade econômica, mediante a realização de novos investimentos.
b) Para pequenos produtores familiares e, sobretudo, para produtores patronais (que pagam pela mão de obra) apresentarem sustentabilidade econômica, é necessário utilizarem um alto nível tecnológico que lhes possibilite otimizar o aproveitamento comercial da castanha-de-caju, do pedúnculo do caju e/ou do caju para consumo in natura.


segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Cultura do Mirtilo - Blueberry (Parte 3)



Doenças fúngicas
Introdução
A cultura do mirtilo (Vaccinium ashei) vem ganhando destaque como mais uma boa alternativa de renda para a agricultura familiar e empresarial na região Sul do Rio Grande do Sul. A introdução e o cultivo dessas culturas são recentes, mas apresentam um grande potencial de crescimento na região, e também em outras localidades do Estado, despertando muito o interesse dos agricultores que buscam novas alternativas agrícolas. Apesar disso, ainda os estudos sobre as doenças que ocorrem nessa cultura é muito incipiente, tornando necessários trabalhos de levantamento e monitoramento dos problemas fitossanitários, que podem ou poderão causar perdas na produção dessas fruteiras. A melhor estratégia de controle de pragas e doenças está na prevenção, evitando a sua introdução em uma área indene. Como a cultura de mirtilo ainda é pouco difundida no Brasil, o trabalho de prevenção de doenças se torna mais fácil, principalmente daquelas que são disseminados através de material propagativo. O uso do método preventivo contribui muito no controle de doenças, reduzindo o seu custo de produção e os danos por eles causados, aumentando a qualidade do produto final, tanto do ponto de vista visual, como de sabor, além da redução da dependência da aplicação de agrotóxicos, que muitas vezes são necessárias para solucionar os problemas fitossanitários.
Devido aos fatores acima citados, são importantes os estudos sobre as doenças que ocorrem em mirtilo. Durante os anos de 2004 e 2005 foram feitos levantamentos de doenças que ocorrem em mirtilo do Banco de Germoplasma e em unidades demonstrativas de produção que estão sendo instaladas na região Sul do Rio Grande do Sul. A presente publicação relata os fungos que foram encontrados associados à cultura do mirtilo nesse trabalho.
Fungos encontrados em mirtilo
Os principais gêneros de fungos constatados com maior freqüência no trabalho de levantamento realizado nos anos de 2004 a 2005 estão relacionados na Tabela 1. Para esse trabalho foram feitos o diagnóstico direto do material coletado, com suspeita de dano causado por fitopatógeno, ou por posterior isolamento em meio de cultura de BDA. Entre eles, o único que foi detectado, mas que provelmente não causa danos ao mirtilo é o Trichoderma, já que este gênero de fungo está mais associado ao controle biológico de outros fungos fitopatogênicos e é normalmente encontrado na superfície de plantas. Os outros fungos são considerados patógenos de plantas, portanto com potencial para causar danos em mirtilo.
O fungo Pestalotia foi encontrado associado à ramos com necrose superficial. É mais comum em ramos que são usados para estaquia, principalmente quando há uma demora no seu enraizamento, chegando a secá-lo internamente. Ele é descrito com um patógeno secundário (Caruso & Ramsdell, 1995) de frutos nos EUA. Aparentemente em plantas com bom vigor este fungo não seria importante como fitopatógeno.
Associado às flores de mirtilo foram constatados fungos do gênero Botrytis e Trichoderma, mas só o primeiro é importante. A espécie deve ser B. cinerea, fungo que é comum também em outras culturas no Brasil. É considerada uma doença importante no mirtilo, causando sérios prejuízos, pois afeta ramos, flores e frutos (Caruso & Ramsdell, 1995). No presente trabalho foi constatado a ocorrência de Botrytis em flores e ramos de mirtilo (Fig. 2). Devido aos danos que B. cinerea causa em mirtilo, é recomendado o controle preventivo com fungicidas na época da florada e frutificação até a colheita (Yang et al., 2005). Frutos de mirtilo apresentaram doenças causadas por fungos do gênero Colletotrichum e
Aspergillus. Segundo Caruso & Ramsdell (1995), o primeiro é um patógeno primário e o segundo secundário. O Colletotrichum ataca frutos maduros causando o apodrecimento e formando sobre ele acérvulos com esporulação aralanjada, pode afetar ramos também (Michigan State University, 2006). É recomendado eliminação de ramos doentes, podas para melhor aeração da planta, cultivares resistentes e uso de fungicidas na época do florescimento até a pré-colheita. O Aspergillus causa necrose em frutos maduros.
O fungo Sclerotium rolfsii foi encontrado em plantas que tinham aproximadamente um ano e apresentavam necrose na região do colo, o que provavelmente resultou em sintomas de amarelecimento, murcha e posterior morte de plantas. A presença de esclerócios arredondados, semelhantes às sementes de brássicas que indica a infecção da planta por esse fungo. S. rolfsii causa anelamento do colo da planta, o que resulta nos sintomas acima descritos. Esse fungo é muito comum em locais que acumula muita umidade e matéria orgânica e condições de alta temperatura, portanto é importante evitar que isso aconteça. Phytophthora foi detectado em plantas que apresentavam folhas avermelhadas, queda de folhas, causando posteriormente desfolha total e morte de plantas (Fig. 4). A região do colo da planta apresenta um anelamento e a parte interna do tronco e caule próximo a essa região está necrosada, conforme está ilustrado na Figura 4. A espécie de Phytophthora que é relatada como causadora do sintoma acima descrito é P. cinnamomi
(Caruso & Ramsdell, 1995). Solos encharcados, uso de serragem mal curtida, excesso de nitrogênio favorecem o ataque por Phytophthora (Pscheidt, 2005). Segundo este mesmo autor, além do manejo cultural evitando criar condições favoráveis para o estabelecimento do fungo, quando necessário é recomendado o uso de produtos químicos a base de metalaxil, fosetil-Al ou fosfito na folha e no solo.
Conservação pós-colheita
Durante o armazenamento de frutos ocorrem uma série de alterações químicas e físicas, as quais diminuem a qualidade, conduzindo à senescência e morte dos mesmos. Estas mudanças se devem a que os frutos são produtos que, depois de colhidos, continuam vivos, com as funções ativas do metabolismo vegetal, como respiração e transpiração. As alterações podem ser devidas a:
Processos físicos
Em frutos, o processo físico mais importante está relacionado com a transpiração.
Denomina-se transpiração, a perda de água em forma de vapor pelos tecidos. Ocorre porque os frutos contêm entre 85 a 90% de água na sua constituição, isto equivale a uma pressão de vapor interna de água equivalente a 9% de umidade relativa (UR). Assim, se evaporará água desde o interior do fruto até a atmosfera, sempre que a umidade da câmara seja menor que a do fruto. Esta é a principal causa da perda de peso dos frutos durante a pós-colheita. Perdas de peso acima de 3-5% resultam numa aparência pouco atrativa, reduzindo o valor comercial e a qualidade do produto. Existem fatores que condicionam a perda de água. Entre estes se destacam os ambientais (temperatura, umidade relativa, déficit de pressão de vapor do ar e pressão atmosférica) e os biológicos (tamanho, presença de ceras naturais na superfície, espessura da cutícula, danos na superfície, estado de maturação, etc.). Como medida de prevenção para diminuir a perda de água recomenda-se baixar a temperatura, aumentar a umidade relativa e revestir os frutos (modificação da atmosfera com ceras, filmes poliméricos, etc.).
Processos químicos e bioquímicos
O principal processo é a respiração (degradação oxidativa de produtos mais complexos presentes na célula, tais como amido, açúcares e ácidos orgânicos, em moléculas mais simples como dióxido de carbono e água, com liberação de energia). Os frutos após a colheita respiram continuamente, utilizando as reservas armazenadas, consumindo oxigênio e desprendendo gás carbônico. A ausência de respiração pode ser considerada a principal forma de diferenciar a conservação de frutos processados dos frutos in natura. Mais taxas respiratórias significam mais rápida deterioração. Os frutos, segundo o padrão respiratório, são classificados em climatéricos - onde a produção de CO2 e o consumo de O2 diminuem antes da colheita, durante certo tempo, para logo aumentar rapidamente, até um máximo, e, sem seguida diminuir, provocando a morte do fruto; não climatéricos – a taxa respiratória do fruto diminui gradativamente, desde a colheita até que o fruto atinja o estágio final de senescência. A taxa respiratória aumenta à medida que se incrementa a temperatura. De modo geral, quando a temperatura aumenta em 10ºC, a intensidade respiratória aumenta, em média, de duas a três vezes. Acima de 35ºC a intensidade respiratória diminui devido ao um bloqueio no sistema enzimático.
Ação de microrganismos
Fungos e bactérias são os microorganismos mais importantes como agentes causadores de doenças que surgem após a colheita e durante o armazenamento, constituindo-se num dos principais fatores de perdas qualitativas e quantitativas dos frutos. Podem, ainda, infectar os frutos no pomar, e se desenvolverem durante a conservação, ou promover a infecção na própria frigoconservação, em casos de falta de higienização dos equipamentos utilizados para classificação, das embalagens de colheita e das câmaras frias.
Fatores que condicionam a conservação pós-colheita
Considerando os frutos como elementos resultantes da produção agrícola, é evidente que fatores de campo (pré-colheita) tenham influência fundamental na conservação pós- colheita, sendo estes de extrema importância para que o produto apresente potencialidade máxima de armazenamento. Podem ser divididos em:
Fatores do pomar
Grau de maturação do fruto na colheita O grau ótimo de maturação do fruto no momento da colheita é de fundamental importância, pois influencia diretamente na palatabilidade e conseqüente aceitação pelo consumidor, como também o máximo tempo de armazenamento. Assim, frutos colhidos imaturos, ainda que receba manejo adequado de pós-colheita, possuem qualidade comercial e apresentação inferior àquele colhido com grau ótimo de maturação.
Recomenda-se, independentemente da cultivar, que os frutos apresentem as seguintes características químicas e físicas na colheita (Tabela 7).
Colheita Durante todo o processo de colheita, é importante o manejo cuidadoso do fruto. Assim, pequenos danos no fruto, constituem-se em problemas graves durante o armazenamento, pois ferimentos que rompam a casca dos frutos, facilitam o ataque de fungos e aumentam a perda de água, diminuindo a qualidade comercial dos mesmos. Portanto, são necessários alguns cuidados básicos tais como;
- Não provocar qualquer tipo de dano mecânico ao fruto, seja por choque com embalagens, utilização de ferramentas, queda de frutos no chão, colhedores com unhas muito compridas; - Realizar a colheita nas horas mais frescas do dia, colocando as frutas em local protegido do sol (Figura 60); - Não realizar a colheita logo após a ocorrência de chuvas fortes;
- Procurar colher os frutos com o mesmo grau de coloração (frutos com azul intenso uniforme) (Figura 61); - Colher os frutos diretamente na embalagem de comercialização (Figura 62); e
- Não realizar o empilhamento excessivo de caixas. Dependendo da cultivar, a colheita poderá ser realizada em cinco ou seis vezes (repassadas), uma vez que a maturação dos frutos ocorre de modo desuniforme.
Observação: Um bom colhedor (com experiência) colhe cerca de 14,0 kg de mirtilos por dia.
Fig. 1 Estrutura de sombrite, no interior de uma plantação de mirtilo, utilizada para colocar embalagens de colheita.


Fig. 2 A = Mirtilos colhidos no estádio em maturação adequada (epiderme azul uniforme). B = Mirtilos em diferentes estágios de maturação.

Fig. 3 Embalagens utilizadas para comercialização de mirtilos.

Pré-resfriamento
Consiste em uma rápida eliminação do calor ? ?que o fruto possui ao ser colhido. Este processo é realizado antes do armazenamento definitivo do fruto. O objetivo é reduzir rapidamente os processos de respiração e transpiração, constituindo-se na primeira etapa da cadeia de frio. No entanto, para que seja eficaz, deve ser realizado em tempo mínimo (cerca de 4 horas após a colheita). Normalmente, se busca reduzir a temperatura do produto para o mais próximo possível da temperatura de armazenamento, geralmente em torno de 4ºC.
Duas considerações são essenciais para a aplicação desta técnica: a) O período de tempo entre a colheita e o pré-resfriamento do fruto deve ser o menor possível, respeitando, logicamente, as questões de logística. b) A velocidade de pré-resfriamento deve ser a maior possível. Quanto mais rápido se baixa a temperatura de polpa dos frutos, melhores serão os resultados obtidos. A maior ou menor velocidade de esfriamento obtida dependerá de fatores como: sistemas utilizados, tamanho do fruto, facilidade de penetração do meio refrigerante no produto, diferença de temperatura entre o produto e o meio, tipo de refrigerante e sua velocidade de circulação e tipo de embalagem. São recomendados, em geral, dois tipos de sistemas de pré-resfriamento para mirtilos: a) Por água fria ou “hidrocooling" Os frutos são submetidos a imersão em água fria (1- 2ºC) ou transportadas e tratadas através de um túnel onde estão localizadas duchas ou jatos de água. Neste sistema, a transferência de calor é rápida e homogênea e a perda de peso é praticamente nula.
Observação: a água deve ser renovada e desinfestada periodicamente, para evitar problemas fitossanitários por contaminação da água por fungos. b) Por circulação de ar frio ou “forced air cooling”: Neste sistema, o ar frio entra em contato direto com o fruto, proporcionando seu resfriamento. A eficiência deste método dependerá da qualidade de transferência de calor entre ar, embalagem e produto. O contato do ar com o fruto deverá ser facilitado ao máximo. A vantagem deste sistema é que se pode aproveitar toda a infra-estrutura instalada (câmaras). Seu inconveniente é que pode produzir desidratação dos frutos. Para evitar isto, recomenda-se utilizar umidificadores nas câmaras. As alternativas para aplicar este método são:
a) Câmaras ou túnel de pré-refrigeração: a velocidade de circulação do ar poderá ser de 2-5 m/s no pré-resfriamento e de 0,25-0,50 m/s durante o armazenamento do produto.
b) Sistema de ar forçado (pressão de ar): Neste caso, o ar frio é forçado a passar através das embalagens dos frutos.
Armazenamento
Ambiente Os mirtilos são armazenados em condições ambientes (20-25ºC e 65-70% de UR). Geralmente, este tipo de armazenamento é realizado por produtores rurais que têm acesso a câmaras frias, seja de forma comunitária ou não. Os frutos são conservados, durante, no máximo, 10 dias (dependendo da cultivar).
Refrigerado O armazenamento de produtos em câmaras com circulação de ar resfriado, por meio de uma planta de refrigeração, é chamado, comumente, de armazenamento refrigerado. A refrigeração, no armazenamento, tem sido difundida e aplicada, prolongando a comercialização dos frutos. Nos frutos não climatéricos (mirtilo), essa prática simplesmente, acarreta uma diminuição na taxa de deterioração, enquanto que nos climatéricos retarda-se, também, o processo de amadurecimento. O abaixamento da temperatura serve também como complemento para outros métodos de conservação de frutos, tais como o controle ou a modificação da atmosfera, a irradiação e o uso de produtos químicos que, se utilizados isoladamente, muitas vezes não surtem efeitos satisfatórios.
Em atmosfera modificada O termo armazenamento em atmosfera modificada é utilizado quando a composição da atmosfera de armazenamento não é hermeticamente fechada, tal como a utilização de filmes plásticos, onde ocorrem as alterações da composição da atmosfera (oxigênio, nitrogênio, dióxido de carbono, etileno, etc.), voluntária ou involuntariamente. O armazenamento refrigerado (0ºC e 85-90% de UR) de mirtilos, associado à modificação da atmosfera pelo uso de PVC (Cloreto de Polivinila), perfurado e com espessura de 7µ, proporciona a conservação os frutos durante 14 e 30 dias para o consumo in natura e processamento, respectivamente.
Em atmosfera controlada A atmosfera controlada tem os mesmos princípios da modificada, porém difere quanto ao controle dos níveis de CO2 e O2 durante o armazenamento, onde estes devem ser constantemente monitorados e mantidos em valores toleráveis para cada espécie e cultivar. No Brasil, não são comuns relatos de pesquisa sobre o uso de atmosfera controlada na conservação pós-colheita de mirtilos. Ceponis & Cappellini (1985), ao armazenarem mirtilos durante 17 dias (14 dias a 2ºC, mais três dias a 21ºC), com o uso de atmosfera controlada (20% de CO2 e 2% de O2), obtiveram frutos com excelente qualidade comercial, além da redução em 14% na deterioração dos frutos devido, à incidência de doenças fúngicas.
Aspectos econômicos do mirtilo
Por envolver consumidores de diversos segmentos econômicos, o mirtilo atinge valores interessantes no mercado externo, representando uma boa alternativa para a cadeia produtiva de regiões ainda com pouca tradição na sua comercialização, como a América do Sul. Dados registrados pela Organização Mundial de Agricultura e Alimentação das Nações Unidas (FAO) indicam que nos últimos 40 anos a produção mundial de mirtilo aumentou 7 vezes. No mesmo período, a área cultivada teve um acréscimo ao redor de 15 vezes. Nos últimos 1 anos, esses números praticamente duplicaram, passando de 105 mil toneladas em 1992 para 207 mil toneladas em 2002. O crescente interesse dos consumidores norte-americanos, europeus e asiáticos tem pressionado os tradicionais produtores mundiais a aumentarem a oferta do fruto, somado a novos empreendedores, entre eles o Chile, a Argentina e, mais recentemente, o Brasil. Os Estados Unidos detêm
50% da produção mundial do fruto, seguidos pelo Canadá, com 3%, e pelo continente europeu com 16%, cabendo ao restante do mundo apenas 1% de participação no volume produzido em 2002. É também nos Estados Unidos onde se encontram os maiores índices de consumo. Os norte-americanos importam cerca de 82% da produção do restante do mundo. Embora seja o maior produtor de mirtilo, o país não é autosuficiente e, exceto nos meses de maio, junho e julho (período de safra), depende diretamente do abastecimento canadense, chileno, neozelandês e argentino. O crescente interesse dos consumidores norte-americanos, europeus e asiáticos tem pressionado os tradicionais produtores mundiais e os novos empreendedores a aumentar a oferta do fruto, entre eles o Chie, a Argentina e, mais recentemente, Uruguai e Brasil. Quanto aos países da América do Sul, cabe destacar a participação do Chile, que produz cerca de 7.500 t/ano, sendo o representante deste grupo que mais produz e mais exporta para o mercado norte-americano, concentrando seu abastecimento entre os meses de janeiro e abril. Outro país que merece destaque é a Argentina, que ingressou no mercado externo de mirtilo há pouco tempo, mas já apresenta números relevantes no abastecimento mundial da fruta. A primeira exportação argentina ocorreu em 1994 para o Reino Unido, mas somente em 1997 o país começou sua incursão pelo mercado norteamericano. Produzindo hoje cerca de 380 t/ano, 74% dessa produção é destinada ao abastecimento dos Estados Unidos entre os meses de outubro e dezembro. O quadro produtivo atual, no Brasil, está estimado em cerca de 60 toneladas, concentradas nas cidades de Vacaria e Lavras do Sul no Rio Grande do Sul, e Campos do Jordão em São Paulo, totalizando uma área de 12 ha em produção comercial. Para o ano de 2004, projeta-se um incremento de 15 ha de área plantada, o que poderá praticamente duplicar a produção. Para os próximos cinco anos, a empresa Nice Blueberries na cidade de Itá (RS) projeta aumentar a área explorada em 100 ha o que, definitivamente deixa claro o interesse brasileiro em inserir-se neste promissor mercado. Segundo dados do Instituto
Brasileiro de Fruticultura (IBRAF), em 2002 o Brasil exportou cerca de uatro toneladas de mirtilo, o que representou uma receita de US$ 24.0,0 aos produtores e divisas para o Brasil. Trata-se de um número pouco significativo, face ao potencial natural que o País oferece para a produção comercial. Porém, em vista das previsões otimistas, novos investidores surgirão, preenchendo a fatia do mercado interno, ainda não explorado com o produto nacional e, principalmente, o mercado internacional, facilitado pela política cambial ora praticada no Brasil.
Coeficientes de produção
A cultura do mirtilo explorada com fins comerciais, no Brasil, é recente e carece de informações econômicas, capazes de registro, como custo de produção, vida útil de um pomar, produtividade média durante a vida útil, etc. Na Tabela 8 discriminam-se as operações que compõem o sistema de produção explorado comercialmente no País e seus coeficientes técnicos.
Tabela 1. Coeficientes técnicos para a produção de Mirtilo (por hectare)
Quantidade Especificação Unidade Implantação Produção
1. Insumos
Mudas muda 2.200 -- Sulfato de amônia kg -- 200
Sulfato de potássio kg 150 -- Superfosfato triplo kg 216 60*
Mangueira (irrigação por gotejo)** m 3.300 --
Formicida kg 4 --

2. Preparo do solo e plantio
Roçada mecânica (3x) H/M 0,5 0,5 Aração mecânica (1x) H/M 0,5 -- Gradagem mecânica H/M 0,5 --
3. Tratos culturais
Marcação e nivelamento D/H 2 -- Coveamento e plantio D/H 3 -- Capina mecânica (3x) D/H 1 1 Capina manual (3x) D/H 3 3
Aplicação de adubo (cobertura) D/H 3 6 Aplicação de formicida D/H 2 2
Poda verde D/H 2 4
Poda de inverno D/H -- 5
4. Colheita (***)
Irrigação D/H 10 15 Colheita manual D/H -- 15
Transporte interno D/H 10 40 Embalagem D/H -- 20
(*) Dependendo da análise foliar (**) Moto bomba 3 a 5 cv/uma mangueira de 2"
(***) 3 t/ha no primeiro ano de produção; 6 t/ha nos anos seguintes. 

Devido a postagem ser muito extensa, dividiremos a mesma em três partes, deixando os links para as outras partes logo publicaremos.