domingo, 24 de dezembro de 2017

Doenças do Cajueiro


1-Oídio

O oídio causado pelo fungo Oidium anacardii Noack, até poucos anos atrás, foi considerado uma doença secundária na cajucultura do Brasil, pois os sintomas ocorriam em folhas maduras formando um revestimento ralo, branco-acinzentado e pulverulento nas duas faces das folhas (Figura 1). No entanto, nos últimos anos tem-se verificado uma maior ocorrência da doença, principalmente nas brotações novas e maturis do cajueiro. O oídio tem prejudicado totalmente a produção e a qualidade do pedúnculo. Atualmente, a doença tem sido observada em diferentes clones de cajueiro.
Foto: Marlon Vagner Valentim Martins
Figura 1. Sintomas de oídio na sua forma menos agressiva, comumente encontrada em folhas maduras.
Sintomas
O sintoma clássico do oídio no Brasil é a formação de um revestimento ralo, branco-acinzentado e pulverulento sobre o limbo foliar, assemelhando-se à tonalidade cinza (Figura 2). As folhas adultas são predominantemente as mais atacadas. Nas condições epidêmicas descritas na África, os sintomas não diferem muito dos sintomas clássicos descritos no Brasil; porém, observa-se uma predominância de ataque nos tecidos juvenis, inflorescências, pedúnculos e frutos, causando abortamento de flores, deformações, rachaduras e varíolas nos pedúnculos e frutos. Por essa razão, os danos causados tornam-se muito mais preocupantes, uma vez que tanto o pedúnculo quanto a castanha, que são os principais produtos comercializados, são severamente afetados. Nos botões e flores, o fungo causa uma queima na superfície, podendo ser observada a presença de um aveludado branco (Figura 3). Quando em fase muito avançada, o sintoma se assemelha a uma queima causada pelo frio e, em alguns casos, pode ocorrer deformação desses botões florais (Figura 4). Nos maturis, os sintomas ocorrem principalmente sobre a castanha, visualizando-se o crescimento aveludado do fungo (Figura 5). Nos frutos, não é comum observar o crescimento do fungo, mas as cicatrizes deixadas na superfície revelam o efeito da doença (Figura 6). Os sintomas no pedúnculo são ranhuras e rachaduras na superfície do mesmo. Não se observam sinais do fungo no pedúnculo, mas apenas cicatrizes (Figura 7).
Foto: Marlon Vagner Valentim Martins
Figura 2. Sintomas de oídio em folhas novas do cajueiro, semelhante àquela descrita na África Oriental.
Foto: Marlon Vagner Valentim Martins
Figura 3. Sintomas de oídio nos botões e flores do cajueiro.
Foto: Marlon Vagner Valentim Martins
Figura 4. Deformação dos botões florais ocasionada pelo oídio.
Foto: Marlon Vagner Valentim Martins
Figura 5. Sintoma generalizado do oídio na superfície do maturi.
Foto: Marlon Vagner Valentim Martins
Figura 6. Sintomas de oídio nas castanhas.
Foto: Marlon Vagner Valentim Martins
Figura 7. Rachadura do pedúnculo causada pelo oídio.
Em viveiro, ocorre também a infecção do fungo nas mudas do cajueiro, e os sintomas são observados nas folhas novas prejudicando o desenvolvimento das mudas (Figura 8). Condições de umidade relativa alta e temperaturas amenas (22 ºC a 25 ºC) podem intensificar a reprodução do fungo. Mudas infectadas ficam debilitadas, e, no campo, os sintomas tendem a evoluir (Figura 9).
Foto: Marlon Vagner Valentim Martins
Figura 8. Sintomas de oídio em mudas de cajueiro.
Foto: Marlon Vagner Valentim Martins
Figura 9. Muda de cajueiro em pomar, apresentando os sintomas ocasionados pelo oídio.

Manejo da doença

Em viveiros, é necessário afastar as mudas que estão muito próximas, manejar a irrigação e utilizar fungicida à base de enxofre em pulverizações.
A partir de experimentos, verificou-se que moléculas de enxofre exercem excelente efeito no controle do oídio do cajueiro. O uso do fungicida Kumulus® DF, na dose de 5 gramas do produto comercial por litro de água, é eficiente no controle da doença quando pulverizado nas panículas. São necessárias cerca de três aplicações a intervalo de 15 dias. O enxofre natural pode ser usado com sucesso, quando aplicado preventivamente via povilhadeira.
Pesquisas em andamento utilizando alguns clones de cajueiro-anão têm revelado potencial de resistência.

2-Antracnose

Esta é uma das mais severas doenças do cajueiro no Brasil, seja pela sua ocorrência em todas as regiões produtoras, seja pelo volume de danos econômicos que provoca; causa prejuízos, indistintamente, tanto em pomares diversificados do ponto de vista genético como em campos onde são utilizados clones melhorados. A doença torna-se importante quando as condições climáticas são favoráveis e o cajueiro encontra-se na fase de lançamento foliar ou floral. Perdas de 40% do volume total da produção já foram registradas; entretanto, perdas na qualidade do produto e redução do rendimento industrial podem elevar ainda mais esse percentual.
A doença é causada pelo fungo Colletotrichum gloeosporioides (Penz) Penz. & Sacc e caracteriza-se por lesões numerosas que podem ocorrer em ambas as faces das folhas, ramos, flores, frutos e pedúnculos.
A antracnose é muito severa em tecidos jovens que brotam durante ou imediatamente após o período chuvoso. Quando o período de elevada umidade prolonga-se até o início da frutificação, os danos à produção são bastante significativos.
Esse fungo pode sobreviver em restos de cultura do cajueiro ou em folhas presas à planta. O fungo pode ser disseminado pelo vento ou principalmente pela água da chuva ou da irrigação. A alta umidade relativa do ar e o orvalho que causa o molhamento das folhas são fatores climáticos importantes para a infecção do fungo nos tecidos da planta. A planta pode estar infectada dentro de um período de aproximadamente 2 dias, mas o agricultor só vai visualizar os sintomas dentro de 3 a 5 dias. A partir daí, a intensidade de doença dentro da área pode aumentar e prejudicar toda a brotação nova da planta.
Sintomas
Os sintomas da antracnose no cajueiro são de fácil reconhecimento devido às lesões causadas, sendo mais encontrados em folhas novas.
No início, os sintomas são manchas irregulares e de coloração parda nas folhas novas (Figura 10), tornando-se avermelhadas à medida que as folhas envelhecem (Figura 11).
Em infecções severas, todas as folhas novas ficam retorcidas e deformadas (Figura 12). Nessa situação, parece que houve uma queima nas brotações e, em condições bastante favoráveis, todas as brotações da planta pode expressar esse sintoma. As lesões também podem ocorrer no eixo das inflorescências apresentando coloração marrom-escura, em formato ovalado ou arredondado e, às vezes, com surgimento de goma (Figura 13).
Nas panículas, observam-se lesões da doença sobre extensa superfície, inclusive nos botões e flores (Figura 14).
No maturi, é observado o escurecimento (Figura 15), e nas castanhas e pedúnculos, observam-se lesões escuras, eventualmente arredondadas. As rachaduras causadas pela antracnose (Figura 16) não devem ser confundidas com as provocadas pelo oídio pelo fato de que, quando se trata da antracnose, a lesão rachada fica escura.
À medida que as folhas atingem a maturidade, tornam-se resistentes à antracnose. Os sintomas são visíveis, mas não evoluem como nos tecidos novos (Figura 17). Por isso, a presença de sintomas da antracnose nessas folhas é indicativa de infecções ocorridas anteriormente e não apresentam uma ameaça imediata ao cajueiro.
Foto: Marlon Vagner Valentim Martins
Figura 10. Sintomas de antracnose em brotações novas do cajueiro.
Foto: Marlon Vagner Valentim Martins
Figura 11. Sintomas de antracnose em folhas maduras do cajueiro.
Foto: Marlon Vagner Valentim Martins
Figura 12. Infecção severa de antracnose em brotações novas do cajueiro.
Foto: Marlon Vagner Valentim Martins
Figura 13. Sintomas de antracnose no eixo da inflorescência do cajueiro.
Foto: Marlon Vagner Valentim Martins
Figura 14. Lesões causadas pela antracnose na panícula do cajueiro.
Foto: Marlon Vagner Valentim Martins
Figura 15. Sintoma de antracnose no maturi do cajueiro.
Foto: Marlon Vagner Valentim Martins
Figura 16. Sintoma de antracnose no pedúnculo do caju caracterizado por lesão escura e rachada.
Foto: Marlon Vagner Valentim Martins
Figura 17. Folhas velhas do cajueiro infectadas pelo fungo Colletotrichum gloeosporioides.

Manejo da doença

Além de ocorrer no campo, os sintomas podem ser observados em viveiros produtores de mudas. Assim, o manejo da doença em viveiro não deve ser negligenciado, e ações como aumento do espaçamento entre as mudas, eliminação de folhas doentes, manejo da irrigação e pulverizações com fungicidas registrados podem diminuir a incidência da doença.
Para o manejo da antracnose no campo, algumas recomendações podem ser seguidas, como a eliminação de restos de culturas infectados (por exemplo, poda de limpeza, remoção e destruição de restos culturais) e controle químico preventivo nas brotações novas e inflorescências com oxicloreto de cobre na dose de 4 g de produto comercial por litro de água. Nessas aplicações, é necessário utilizar espalhante adesivo na calda de pulverização. Recomenda-se realizar três aplicações em intervalos semanais.

3-Mofo-preto do cajueiro

O mofo-preto é uma doença de importância crescente no litoral nordestino, principalmente com a expansão da área cultivada com o cajueiro-anão. O fungo Pilgeriella anacardii Arx & Müller é o agente causal do mofo-preto. Os sintomas da doença são caracterizados pelo crescimento do fungo na página inferior da folha, que assume uma forma de feltro, de coloração marrom-escura. A doença ocorre a partir do início do período chuvoso e atinge o ponto mais elevado exatamente ao término desse período, que coincide com o início do lançamento foliar do cajueiro. A doença inicialmente estava restrita ao litoral oeste do Ceará. No entanto, foram constatadas ocorrências ao longo do litoral do Nordeste e na região central do Brasil, como os municípios de Barreiras, BA, e Palmas, TO. No Semiárido, raramente é observada em decorrência da baixa umidade do ar e do baixo volume de chuvas.
Sintomas
O fungo é um parasita obrigatório que penetra via estômatos e cresce somente na página inferior da folha. Inicialmente, se observam lesões pequenas (Figura 18) que evoluem até cobrir completamente a folha, que tende a ficar com uma coloração verde pálida (Figura 19). Ataques severos causam acentuada queda das folhas (Figura 20). Plantas muito atacadas têm sua produtividade significativamente reduzida. Não há registro de que o fungo infecta inflorescência, castanha e pedúnculos. A produção final da planta pode ficar comprometida devido ao ataque do fungo.
Foto: Marlon Vagner Valentim Martins
Figura 18. Sintomas iniciais do mofo-preto nas folhas do cajueiro.
Foto: Marlon Vagner Valentim Martins
Figura 19. Sintoma avançado do mofo-preto nas folhas do cajueiro.
Foto: Marlon Vagner Valentim Martins
Figura 20. Plantas apresentando ataque severo do mofo-preto, intercaladas a outras tratadas com oxicloreto de cobre.

Manejo da doença

O controle do mofo-preto tem sido preconizado pelo uso de fungicidas. O controle químico foi eficiente com os produtos à base de oxicloreto de cobre, que exerce proteção contra a infecção do fungo (Figura 20). As pulverizações devem ser realizadas antes do início da estação chuvosa e preventivamente à chegada da doença nas plantas. No entanto, novos estudos precisam ser conduzidos quanto ao manejo dessa doença no campo.
Além do controle químico, existem evidências que os clones comerciais ‘CCP 06’, ‘BRS 253’, ‘BRS 274’ e ‘BRS 275’ são resistentes ao mofo-preto; porém, mais estudos deverão ser realizados para a seleção de clones de cajueiro-anão com resistência à doença.

4-Resinose

A resinose do cajueiro é uma doença muito importante no semiárido nordestino. Ela foi descrita pela primeira vez no Brasil, no Nordeste, precisamente em Alto Santo, CE. A doença é causada pelo fungo Lasiodiplodia theobromae (Pat.) Griffon, que pode infectar também outras fruteiras tropicais como a mangueira, a ateira, a gravioleira, o coqueiro, a cajazeira, a aceroleira, o sapotizeiro, etc. A doença tem sua importância praticamente restrita à região do Semiárido, onde representa uma ameaça para o cajueiro pelo caráter destrutivo dos sintomas. A disseminação pode se dar pelas sementes, propágulos vegetativos e porta-enxertos, sem sintomas. Essa doença tem sido constatada como muito agressiva na microrregião produtora do sudeste do Piauí e nos estados do Rio Grande do Norte e Tocantins. Nas regiões litorâneas, essa doença ainda não foi encontrada.
Sintomas
Os primeiros sintomas da doença já podem ser detectados logo após o primeiro ano de plantio (Figura 21), e se caracterizam pelo surgimento de lesões escuras nos ramos (Figura 22), que com a sua evolução ficam intumescidas e rachadas (Figura 23), formando cancros pronunciados no tronco e ramos lenhosos, seguidas de intensa exsudação de goma (Figura 24). Sob a casca, observa-se um escurecimento dos tecidos, o qual se estende até atingir a região cortical e o câmbio vascular. Com o avanço da doença, sintomas de deficiências nutricionais, murcha, queda de folhas, morte descendente e seca dos ramos (Figura 25) são observados, até o colapso total da planta (Figura 26). Alta incidência dessa doença na área promove uma redução expressiva no estande das plantas e consequentemente redução acentuada na produtividade da lavoura.
Severas epidemias da resinose foram observadas no semiárido nordestino, principalmente devido à expansão do cultivo do clone susceptível ‘CCP 76’ e o provável estresse hídrico que predispõe as plantas à infecção do fungo. O estresse hídrico e a amplitude térmica (≥8 oC) têm sido apontados como fatores importantes para a ocorrência da doença.
Foto: Marlon Vagner Valentim Martins
Figura 21. Sintoma de resinose em cajueiro com 1 ano de idade.
Foto: Marlon Vagner Valentim Martins
Figura 22. Lesões escuras da resinose no ramo do cajueiro.
Foto: Marlon Vagner Valentim Martins
Figura 23. Ramo de cajueiro intumescido com rachadura na casca causado pela resinose.
Foto: Marlon Vagner Valentim Martins
Figura 24. Cancro no tronco do cajueiro formado pela infecção de Lasiodiplodia theobromae.
Foto: Marlon Vagner Valentim Martins
Figura 25. Morte e seca do ramo do cajueiro causado pela resinose.
Foto: Marlon Vagner Valentim Martins


Figura 26. Amarelecimento e morte do cajueiro infectado por Lasiodiplodia theobromae.

Manejo da doença

O manejo da resinose deve ser realizado de forma integrada por meio de práticas que contribuam para a redução, bem como no atraso da chegada da doença na área. Práticas isoladas não têm apresentado efeito no controle da resinose.
Para o manejo, recomenda-se utilizar mudas produzidas com sementes e propágulos obtidos de plantas sadias, além de desinfestar ferramentas com solução de hipoclorito de sódio (1:1- água:água sanitária) para reduzir a transmissibilidade do fungo durante a execução de poda e limpeza da planta.
Ressalta-se que tem sido observado em algumas propriedades que cirurgias no tronco (remoção dos tecidos atacados) com posterior pincelamento com calda bordalesa, apresentam certo efeito positivo no controle da doença.
Devido à grande dificuldade para conter o avanço da doença no campo pelas práticas sugeridas acima, buscou-se pelo melhoramento genético vegetal obter clones de cajueiro-anão com resistência à resinose. Após seleção em populações submetidas a grande pressão da doença, o clone ‘BRS 226’ foi considerado como resistente. Posteriormente, o clone ‘Embrapa 51` também foi identificado como resistente. Portanto, o plantio desses clones representa uma alternativa para o cultivo do cajueiro na região do semiárido nordestino.

5-Podridão-preta-da-haste (PPH)

Causada também por Lasiodiplodia theobromae (Pat.) Griffon (o mesmo fungo da resinose), a podridão-preta-da-haste foi observada em pomares irrigados de cajueiro no Estado do Ceará, no Município de Beberibe no final da década de 1990. A doença também foi observada no Município de Pio IX, PI, em pomares comerciais de sequeiro, porém em menor severidade. Em outros estados como Bahia, Rio Grande do Norte e Tocantins, também tem sido observada a ocorrência dessa doença. Na região dos municípios de Gurupi e Palmas, TO, o PPH foi relatado como uma doença muito agressiva com reflexos negativos na produção do cajueiro. O surgimento nos últimos anos, em caráter epidêmico, do PPH na microrregião de Barreiras, BA, e Palmas, TO, provocaram significativos danos para a cultura. Tais epidemias foram atribuídas à expansão da cultura em regiões sujeitas às condições climáticas favoráveis ao desenvolvimento do patógeno. As condições de elevada umidade (chuva e umidade relativa do ar) e a temperatura amena durante as noites são tidas como altamente favoráveis ao surgimento e ao progresso da doença.
Sintomas
A doença tem esse nome em resposta aos sintomas expressos pela planta, os quais se caracterizam pelo escurecimento dos tecidos da haste terminal do cajueiro (Figura 27). Em estádios mais avançados, pode ser observada a exsudação de uma goma no broto terminal (Figura 28). O sintoma avança até a necrose total (podridão preta) (Figura 29), queima e seca descendente do ramo, tornando a copa parcialmente destruída pela doença (Figura 30). Plantas com sintomas de PPH apresentam muitas brotações secas sobre toda a planta (Figura 31). O agricultor deve tomar cuidado para não confundir esse sintoma com aquele ocasionado pela broca das pontas do cajueiro (ver Capítulo sobre Pragas do cajueiro).
Foto: Marlon Vagner Valentim Martins
Figura 27. Sintoma inicial da podridão-preta-da-haste no ramo terminal do cajueiro.
Foto: Marlon Vagner Valentim Martins
Figura 28. Exsudação de goma na brotação terminal do cajueiro infectada por Lasiodiplodiatheobromae.
Foto: Marlon Vagner Valentim Martins
Figura 29. Sintoma de necrose no ramo terminal do cajueiro causado por Lasiodiplodia theobromae.
Foto: Marlon Vagner Valentim Martins
Figura 30. Sintoma avançado da podridão-preta-da-haste na copa do cajueiro.
Foto: Marlon Vagner Valentim Martins
Figura 31. Planta de cajueiro-anão (‘CCP 76’) com inúmeros ramos secos provocados pela podridão-preta-da-haste.

Manejo da doença

O manejo da doença tem sido obtido, experimentalmente, por meio da poda dos ramos afetados seguida da aplicação de fungicidas, porém a eficiência desses procedimentos ainda é limitada quando as condições de umidade e temperatura são favoráveis. Novos estudos necessitam ser realizados com moléculas mais modernas existentes hoje no mercado. Quanto à resistência genética, os clones resistentes à resinose também têm se revelado resistentes à PPH.

6-Mancha-de-xanthomonas

Além das doenças fúngicas do cajueiro, tem sido constatado recentemente uma doença causada por uma bactéria. A primeira confirmação ocorreu no Município de Pio IX, PI. A mancha-de-xanthomonas, como é denominada, é causada pela bactéria Xanthomonas campestris pv. mangiferaeindicae. Essa doença pode tornar-se importante em função das alterações climáticas, principalmente em regiões de ventos fortes, úmidas e com temperaturas noturnas mais baixas. A doença também tem sido detectada nos estados do Rio Grande do Norte e Ceará.
A mancha-de-xanthomonas exige água livre em níveis ótimos para que ocorra a infecção. Em viveiro, o excesso de irrigação pode favorecer a ocorrência da doença. No campo, mesmo em épocas mais secas, o orvalho noturno contribui para a infecção pela bactéria.
Sintomas
Os sintomas podem ser observados nas folhas e castanhas. Nas folhas, as manchas são marrom-escuras e, geralmente, se desenvolvem primeiro na nervura central da folha (Figura 32). Em casos mais avançados, distribuem-se também para as nervuras laterais (Figura 33). Com o progresso da doença, as lesões se espalham severamente em todas as direções da folha causando amarelecimento (Figura 34), necrose (morte do tecido) (Figura 35) e queda da folha. A bactéria também tem se revelado muito agressiva em mudas de cajueiro, comprometendo o seu desenvolvimento no campo, fato constatado no Estado do Rio Grande do Norte (Figura 36). A ocorrência dessa doença em mudas de cajueiro mostra também a sua importância no viveiro.
Nos frutos, a doença causa manchas aquosas, encharcadas (semelhantes a uma mancha oleosa) nas castanhas ainda verdes (Figura 37). Essas manchas podem se juntar (coalescer), aumentar de tamanho, escurecer com a evolução da doença e tornar-se deprimidas após a maturação da castanha. As castanhas desenvolvidas, quando atacadas, mostram uma lesão úmida e de coloração cinza-clara (Figura 38).
Foto: Marlon Vagner Valentim Martins
Figura 32. Folha de cajueiro com sintoma da mancha-de-xanthomonas na nervura central.
Foto: Marlon Vagner Valentim Martins
Figura 33. Sintoma da mancha-de-xanthomonas na nervura lateral da folha do cajueiro.
Foto: Marlon Vagner Valentim Martins
Figura 34. Amarelecimento de folha do cajueiro causado pela bactéria Xanthomonas campestris pv. mangiferaeindicae.
Foto: Marlon Vagner Valentim Martins
Figura 35. Sintoma avançado da mancha-de-xanthomonas na folha do cajueiro, causando morte do tecido.
Foto: Marlon Vagner Valentim Martins
Figura 36. Muda de cajueiro em campo infectadas por Xanthomonas campestris pv. mangiferaeindicae.
Foto: Marlon Vagner Valentim Martins
Figura 37. Fruto (castanha) infectado por Xanthomonas campestris pv. mangiferaeindicae.
Foto: Marlon Vagner Valentim Martins
Figura 38. Sintomas da bacteriose em fruto maduro infectado por Xanthomonas campestris pv. mangiferaeindicae.

Manejo da doença

Para o manejo dessa doença em viveiro, recomenda-se aumentar o espaçamento entre as plantas e evitar irrigação por aspersão em caso de incidência da doença. Nesse caso, devem-se eliminar plantas doentes do viveiro e utilizar fungicidas à base de cobre preventivamente. No campo, podem ser empregadas poda de limpeza e pulverizações preventivas semanais com o fungicida oxicloreto de cobre nas épocas mais favoráveis à doença.

7-Mancha-angular

Essa doença, de ocorrência endêmica e secundária para o cajueiro, pode futuramente se tornar problema para as regiões produtoras. Anteriormente conhecida como “cercosporiose”, em função de ser causada pela espécie Cercospora anacardii, é atualmente relatada como causada pelo fungo Septoria anacardii Freire. Essa doença vem crescendo em importância, devido a observações feitas em viveiros e em alguns pomares no Ceará, no Piauí e no Rio Grande do Norte.
Sintomas
Os sintomas ocorrem somente nas folhas e são observados inicialmente em folhas jovens como lesões pequenas e arredondadas (Figura 39) que evoluem para manchas angulares em folhas maduras do cajueiro (Figura 40).
Foto: Marlon Vagner Valentim Martins
Figura 39. Sintomas iniciais da mancha-angular em folha jovem do cajueiro.
Foto: Marlon Vagner Valentim Martins
Figura 40. Lesões angulares causadas pelo fungo em folhas maduras do cajueiro.

Manejo da doença

Nenhuma medida de manejo tem sido ainda preconizada para essa doença, mas acredita-se que medidas utilizadas tanto para a antracnose quanto para o mofo-preto poderiam ter efeito também para essa doença. No entanto, alguns estudos ainda necessitam ser realizados para o conhecimento mais aprofundado da doença.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Custos e Rentabilidade da Ameixeira



Custos e rentabilidade

A composição dos custos e a rentabilidade da produção de ameixas são variáveis de acordo com o custo dos insumos, o nível de tecnologia empregada, a produtividade obtida e o valor alcançado pelo produto no mercado. Como referência, foram estabelecidos os seguintes parâmetros:
  • Sistema de produção com alta tecnologia
  • Ameixas comercializadas "in natura" em atacados (CEASAs) ou diretamente nas feiras, fruteiras e supermercados da região
  • Uso de 556 mudas por hectare (espaçamento 6 x 3 m)
  • Produtividade estimada: Ano 3 - 8 t/ha; Ano 4 - 14 t/ha; Ano 5 ao ano 8 - 18 t/ha (Produtividade média - 16 t/ha)
Nas Tabela 1 a 3, estão apresentados os principais componentes de custo para a implantação e manutenção de um pomar de ameixas européias produzidos conforme o sistema de produção aqui descrito. É importante considerar, entretanto, que estes valores servem como referência, em função dos fatores antes mencionados.

Tabela 1. Coeficientes técnicos e custos de implantação de 1,0 hectare (1º ano - Implantação) de ameixas européias para mesa na região dos Campos de Cima da Serra do Rio Grande do Sul. Bento Gonçalves, 2004.
QuantidadeMão de obra (d/h)Trator + implemento (horas)Total
Serviços
Limpeza do terreno13,51,65,1
Aração1-44
Gradagem1-22
Calagem1-11
Transporte de adubos, mistura e aplicação12-2
Plantio-4-4
Capinas mecânicas28614
Capinas Manuais26,5-6,5
Tratamentos fitossanitários211
Controle de formigas-1,5-1,5
Desbrotas e poda verde-4,2-4,2
Total de dias ou horas-29,715,645,3
Custo diário ou horário (R$)-3024-
Subtotal serviços (R$)891374,41.265,40
UnidadeQuantidadeCusto unitário (R$)Total (R$)
Insumos
MudasUn.55621.112,00
Calcáriot845360
Adubos (P e K)kg1000,770
Uréiakg250,4511,25
Defensivoskg/l525125
Subtotal Insumos1.678,25
TOTAL 1º ANO2.943,65
Fonte: Madail (2004), Agrianual (2003)

Tabela 2. Coeficientes técnicos e custos de implantação de 1,0 hectare (2º ano - Implantação) de ameixas européias para mesa na região dos Campos de Cima da Serra do Rio Grande do Sul. Bento Gonçalves, 2004.
QuantidadeMão de obra (d/h)Trator + implemento (horas)Total
Serviços
Poda e retirada dos ramos14--
Adubação em cobertura11,5--
Capinas mecânicas2-7,5-
Capinas Manuais26,5--
Tratamentos fitossanitários4-4-
Desbrotas e poda verde-4,2--
Total de dias ou horas-16,211,5-
Custo diário ou horário-3024-
Subtotal serviços-486276762
UnidadeQuantidadeCusto unitárioTotal (R$)
Insumos
Adubos (P e K)kg200,714
Uréiakg500,4522,5
Defensivoskg/l1225300
Subtotal Insumos336,5
TOTAL 2º ANO1.098,50
Fonte: Madail (2004), Agrianual (2003)

Tabela 3. Coeficientes técnicos e custos de implantação de 1,0 hectare (3º ano e seguintes - Produção) de ameixas européias para mesa na região dos Campos de Cima da Serra do Rio Grande do Sul. Bento Gonçalves, 2004.
QuantidadeMão de obra (d/h)Trator + implemento (horas)Total
Serviços
Roçadas22,52-
Poda e retirada de ramos116--
Adubação em cobertura12--
Capinas mecânicas22,5-
Capinas manuais112--
Tratamentos fitossanitários3-4,5-
Controle de formigas2411,5-
Colheita, classificação e transporte1306-
Total de dias ou horas-66,526,5-
Custo diário ou horário-3024-
Subtotal serviços1.995,006362.631,00
UnidadeQuantidadeCusto unitárioTotal (R$)
Insumos
Adubos (P e K)kg1750,7122,5
Uréiakg500,4522,5
Defensivoskg/l2025500
Despesas com embalagens e materiais para colheitaUn.4201420
Subtotal Insumos1.065,00
TOTAL 3º ANO E SEGUINTES3.696,00
Fonte: Madail (2004), Agrianual (2003)
Estimativa de rentabilidade
Preço médio pago ao produtor: R$ 1,50/kg
Receita bruta: R$ 24.000,00
Custo de produção (soma dos anos 1, 2 e 3): R$ 7.738,15
Rentabilidade (no 3º ano): R$ 16.261,85




sábado, 16 de dezembro de 2017

Cultivo do Rambutão (Rambutan)



O rambutão é uma fruta de origem asiática cultivada comercialmente nos estados da Bahia e Pará. Na Bahia existem plantios comerciais nos municípios de Una, Ilhéus, Camamu e Ituberá. É uma árvore tropical que atinge 12m de altura, muito ornamental por sua beleza de folhagem, floração e frutificação. Produz um fruto ovóide medindo em média 5 a 6cm de comprimento e 2 a 4cm de largura. A casca apresenta coloração variando de vermelho a amarelo, sendo coberto com espículas lembrando o fruto da mamona. A floração ocorre nas extremidades dos galhos, produzindo cachos com 12 frutos em média. A polpa branca e doce é consumida na forma inatura e o seu sabor lembra a lichia e a uva. A região Sul da Bahia apresenta boas condições de clima e de solos para o seu cultivo de forma econômica.

Clima e Solo

O rambutão adapta-se bem ao clima quente e úmido com precipitações pluviométricas acima de 1.500 mm bem distribuídas durante a maioria dos meses do ano. Os solos mais adequados são os areno-argilosos, profundos, bem drenados, ricos em matéria orgânica e com pH entre 5,5 a 6,0.

Cultivares

A espécie apresenta grande variabilidade genética o que resulta numa grande variação na coloração dos frutos, tamanho e peso do fruto, número e tipo de flor, tamanho e forma da semente. Vários clones se encontram disponíveis no Brasil, entretanto há a necessidade de testar esses materiais nas diversas regiões de cultivo do rambutão, em função dos efeitos inevitáveis do ambiente. Os clones recomendados para plantios comerciais são R134, R156, R162, R167, R170, R191 e R193. As fotos abaixo revelam a grande variação na cor e tamanho dos frutos.

Propagação e Plantio

Em virtude da grande variabilidade genética apresentada pela espécie, não se recomenda a sua propagação através de semente. Tecnicamente é propagado de forma vegetativa através de enxertia, sendo o método de garfagem o mais utilizado. O espaçamento de 8 a 10m entre plantas e as covas devem ter as dimensões de 0.60 x 0.60 x 0.60m em todas as direções. Após a abertura das covas, utilizar matéria orgânica com fertilizante à base de fósforo antes do plantio. O rambutanzeiro não necessita de sombreamento inicial, portanto recomenda-se o consórcio com culturas de ciclo curto ou fruteiras perenes a fim de agregar valor econômico ao cultivo.

Tratos Culturais

A poda é imprescindível na obtenção de plantas baixas e copa compacta a fim de facilitar a colheita. A adubação deverá ser realizada mediante a análise do solo. Na região Sul da Bahia ainda não há registro da presença de pragas e doenças.

Colheita e Rendimento

Na região Sul da Bahia o período de floração tem duas épocas distintas: março a maio e agosto a outubro, razão pela qual a colheita ocorrer duas vezes, março a maio e agosto a outubro. As plantas propagadas de forma vegetativa entram em produção com três anos de plantio. Os frutos amadurecem com três a quatro meses após a floração. Normalmente da floração até a colheita dura em média de 15 a 18 semanas e a principal produção se concentra nos meses de julho a novembro. Uma variação de 4 a 6 semanas pode ocorrer nos períodos de colheita em virtude da localização do plantio e de circunstâncias climáticas. As frutas são colhidas quando a maioria apresenta o vermelho ou o amarelo. No primeiro ano de plantio o rendimento é em média de 1.200 kg, alcançando 15 toneladas com 10 anos de plantio.
A produtividade média dos plantios com mais de 10 anos de idade e tecnicamente bem conduzidos é em média de 15 toneladas por hectare.

Nativo do arquipélago malaio, o nome desta fruta é derivado da palavra malaio que significa “peludo”, e você pode ver porquê. Mas uma vez que o exterior peludo do rambutan é descascado, o fruto tenro, carnoso, delicioso é revelado. Seu sabor é descrito como doce e azedo, muito parecido com uma uva. Embora tenha sua origem no sudeste da Ásia, rambutan foi importado em todo o mundo, e agora é comumente cultivada tão perto de casa como o México e o Havaí.
Rambutans são geralmente comido cru, mas às vezes são cozidos com açúcar e cravo e comido como uma sobremesa.
O rambutan (Rambutão ou rambutã) é uma fruta exótica originaria do sudeste asiático também conhecida como Delícia do Pacífico. É semelhante à Lichia tanto na aparência como no paladar, pois pertencem a mesma família Sapindaceae.
Os frutos são maiores que os da Lichia, suas sementes são menores, possuem casca firme cobertas com pelúcia macia e coloração vermelho carmim. Sua polpa é doce, pouco ácida semelhante à uva podendo ser utilizada em conservas e sucos, aceita também congelamento mantendo as características originais.
O Rambutan é rico em vitamina C, carboidratos, proteínas, cálcio, fósforo, potássio, ferro e niacina. Sua polpa é doce e pouco ácida, semelhante a polpa da uva. O extrato da raiz é utilizado para tratar febre e das folhas para aliviar as dores de cabeça.
A fruta pode ser armazenada na geladeira por até duas semanas e pode ser encontrada no Sacolão Real.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Como substituir a copa do cajueiro


A substituição de copa é uma prática utilizada em algumas espécies perenes, geralmente frutíferas. Ela consiste na remoção de quase toda a parte aérea da planta por meio de um corte na base do tronco. Devido a esse corte, novas brotações surgem no tronco, onde é realizada a enxertia de propágulos (borbulhas) provenientes de outra planta, geralmente plantas matrizes com características genéticas superiores.
A substituição de copas na cultura do cajueiro tem como objetivos principais o rejuvenescimento do pomar e a substituição de um genótipo (clone, principalmente). O exemplo mais característico dessa prática na cultura é transformar um pomar antigo de cajueiro-comum em um novo pomar de cajueiro-anão (também denominado cajueiro-anão-precoce). Também se consegue a substituição de plantas jovens com má formação de copa e/ou com produção abaixo do esperado por uma nova copa produtiva.
Os exemplos práticos mostram que, quando bem planejada, a prática pode permitir ganhos mais rápidos e a menor custo do que com a implantação de um novo pomar. Porém, é importante avaliar cuidadosamente o estado geral do pomar a ser trabalhado, com simulações dos rendimentos esperados e a relação custo/benefício, antes da decisão de realizar a substituição de copas de um pomar.
No geral, a prática de substituição de copa possibilita obter uniformidade e aumento da produtividade do pomar em relação à situação anterior, devido aos seguintes fatores: a) substituição das plantas improdutivas por plantas clonais de alta produção; b) redução do porte das plantas, principalmente na troca do cajueiro-comum pelo cajueiro-anão; c) menor custo em relação à implantação de um novo pomar, dispensando várias práticas como abertura e preparo de covas, obtenção de mudas e necessidade de irrigação; d) rejuvenescimento das plantas; e) possibilidade, nos primeiros anos, de consorciar o pomar com culturas anuais e bienais de porte baixo.

Quando realizar a substituição de copa?

A prática é recomendada quando o pomar não está correspondendo ao esperado (Figura 1), principalmente em termos de produção. Em pomares cujas plantas são oriundas de sementes (pé-franco), observa-se alta desuniformidade entre elas, principalmente quanto ao porte e produção. Assim, a prática da substituição de copa permitirá um acréscimo substancial na uniformidade do pomar. Além disso, quando o produtor decide trabalhar com outro clone de cajueiro, a substituição de copas se torna uma opção interessante em curto prazo.

Quais são os cuidados para a realização da substituição de copa?

Para o sucesso da substituição de copas no cajueiro, algumas premissas devem ser consideradas:
1.  Idade das plantas. Quanto mais jovens as plantas, maior o percentual de sucesso da operação, sendo observados maiores êxitos em pomares com até 15 anos de implantação e em plantas com até 1,10 metros de perímetro de tronco (Figura 1). A partir dos 16 anos e até os 25 anos de idade, verifica-se redução gradual no percentual de sucesso (Tabela 1). Em plantas com mais de 25 anos, a perda dos enxertos começa a ser mais significativa, e os custos operacionais aumentam, sendo recomendada uma análise criteriosa de custo/benefício de todo o processo como base para a tomada de decisão.
Fotos: Levi de Moura Barros
Figura 1. Pomar novo apto à prática da substituição de copas, uma vez que as plantas apresentam copa não ideal (tipo eucalipto ou castanheira) para produção de frutos (à esquerda). Planta recém-brotada após a prática da substituição de copas em um pequeno pomar (à direita).
Tabela 1. Taxa de sobrevivência das plantas cortadas em função da idade. Pacajus, CE, 2010.
Idade (anos)Plantas sobreviventes (%)(1)
5100,0
1599,2
2587,8
3570,4
4567,9
(1)Plantas que emitiram pelo menos uma brotação após o corte.
Fonte: Rossetti e Montenegro, 2012.
2.  Sanidade das plantas. Quanto menos problemas fitossanitários (pragas e doenças) na área, maior o percentual de sucesso da operação. A prática não deve ser feita em pomares com resinose ou completamente atacados pela bronca-do-tronco. Nesses casos, é mais seguro proceder à erradicação completa das plantas e formação de um novo pomar utilizando um clone resistente.
3.  Vigor das plantas. Caso as plantas não sejam bem conformadas e bem desenvolvidas, deve ser feita avaliação antes da decisão sobre adotar a prática de substituição de copa ou a renovação completa do pomar. Pomares com plantas muito fora do padrão de desenvolvimento para a idade podem não levar ao sucesso esperado com a técnica. Também nesse caso, é mais indicada a renovação completa do pomar.

Quais as formas de fazer a substituição de copas do cajueiro?

A prática pode ser feita em função da dimensão da área do pomar, da capacidade de investimento e da decisão do produtor. Seguem abaixo os principais passos para a prática:
a)   Substituição seletiva das plantas. Identificadas as plantas com características indesejáveis, realiza-se a operação de substituição, deixando-se as demais plantas no pomar (Figura 2).
Fotos: Levi de Moura Barros
Figura 2. Substituição de copas de forma seletiva das plantas.
b)   Substituição em fileiras alternadas. Estratégia adotada para manter uma parte da área em produção quando da substituição total (Figura 3). No ano seguinte, é feita a substituição das outras filas.
Foto: Levi de Moura Barros
Figura 3. Substituição de copa em fileiras alternadas.
c)  Substituição total das plantas. Todas as plantas do pomar são substituídas.
Foto: Afrânio Arley Teles Montenegro
Figura 4. Substituição de copa em toda a área.
Cada alternativa tem vantagens e desvantagens que devem ser analisadas antes da execução, para que a escolha atenda às conveniências de quem vai realizar a operação.

Como fazer a substituição de copas em cajueiro?

A substituição de copas é feita de acordo com os seguintes passos:
1.  Planejamento da enxertia: Deve ser feito um planejamento em função da quantidade de plantas a serem trabalhadas, para que haja sincronia entre a disponibilidade de borbulhas (provenientes de ramos com flores) com as brotações em estado de aptidão para a enxertia. O corte das plantas adultas deve ser iniciado de 3 a 4 meses antes do início da floração das plantas matrizes (fornecedoras de borbulhas), para garantir que as novas brotações estejam no ponto de enxertia na época da disponibilidade de propágulos (julho a outubro).
2.  Corte do tronco. Realizado com motosserra, a cerca de 40 cm da superfície do solo. O corte é feito em bisel (inclinado) para evitar acúmulo de água, que pode acelerar o apodrecimento do tronco e favorecer a proliferação de fungos e/ou insetos (Figura 5).
3.  Seleção de brotações para a enxertia. É feita bem antes da enxertia, e tem o objetivo de reduzir a competição entre as novas emissões. Devem ser mantidas as brotações mais vigorosas e, se possível, distribuídas simetricamente ao redor do tronco (Figura 5).
Foto: Afrânio Arley Teles Montenegro
Figura 5. Corte do tronco a 40 cm do solo e em forma de bisel. Após alguns dias, surgem as novas brotações.
4.  Número de brotações para a enxertia. Recomenda-se a manutenção de até seis brotações nas plantas mais velhas e até quatro nas mais jovens (Figura 6).
Foto: Afrânio Arley Teles Montenegro
Figura 6. Brotações selecionadas para a enxertia.
A quantidade, a velocidade de brotação e o vigor dos brotos em plantas jovens são maiores que em plantas mais velhas. Como exemplo, plantas com 20 a 30 anos emitem brotações 30 dias após o decepamento, enquanto as plantas com 3 anos brotam intensamente já aos 10 dias após o corte.
5.  Enxertia. É realizada a enxertia por borbulhia em placa, por ser a que apresenta o maior rendimento em condições de campo (a pleno sol). Semelhantemente à enxertia realizada em mudas, abre-se uma “janela” no caule do broto e fixa-se, justapondo, a borbulha nessa janela. Logo em seguida, passa-se uma fita plástica sobre a região da enxertia para pressionar o contato da placa com a janela. Não há necessidade de cobertura do enxerto.
Aos 15 dias da operação, deve-se retirar com cuidado a fita de enxertia, para que não ocorra estrangulamento dos rebentos (Figura 7). Evitar ferimentos nessa operação para não favorecer o desenvolvimento de fungos.
Foto: Afrânio Arley Teles Montenegro
Figura 7. Fita de enxertia que deve ser retirada 30 dias após a enxertia.
6.  Época da enxertia. Deve ser feita no período do florescimento das plantas doadoras (matrizes) de borbulhas, que naturalmente ocorre a partir de junho para os cajueiros do tipo anão.
7.  Quantos enxertos devem permanecer. Todos os enxertos devem permanecer para a formação da nova copa (Figura 8). Porém, se apenas um sobreviver, será o suficiente.
Fotos: Afrânio Arley Teles Montenegro
Figura 8. Plantas com diferentes números de enxertos após a substituição de copa.
8.  O que fazer se não houver sucesso na enxertia. Havendo disponibilidade de propágulos, repetir a operação nos mesmos ramos quantas vezes for necessário, desde que as condições dos ramos permitam. Em plantas mais velhas, a enxertia nem sempre é bem sucedida na primeira vez.
9.  Quais são os cuidados necessários para a prática de substituição de copas?
Os cuidados a serem tomados na substituição de copas são, no geral, os mesmos dedicados ao pomar, como:
  • Manutenção da área das plantas matrizes (fornecedoras de borbulhas) o mais livre possível de doenças e pragas.
  • No caso de os propágulos serem adquiridos de outro local, verificar o estado fitossanitário das matrizes de onde o material será retirado e acondicionar corretamente o material propagativo a ser transportado. Os propágulos (ramos) devem ser agrupados em pequenos feixes de 5 a 6 unidades para que não forme, dentro das embalagens, microclima que provoque danos às gemas intumescidas.
  • Fazer assepsia nos instrumentos utilizados no corte, enxertia, pós-enxertia e retirada da fita ao redor do enxerto.
  • Após o corte, o tronco da planta deverá ser pincelado com fungicida à base de oxicloreto de cobre (3,0 g do produto comercial/litro de água).
  • Retirar a madeira após o corte das plantas adultas o mais rápido possível do local.
  • Os ramos que contêm as borbulhas devem ser embalados, preferencialmente em papel-alumínio e estratificados em vermiculita umedecida na proporção de 9:1 (v:v), com água destilada.
  • Quanto mais rápido for o tempo entre a retirada dos ramos fornecedores de borbulhas e a prática da enxertia,serão as chances de sucesso da prática.
Após obter o número ideal dos enxertos que devem permanecer para a formação da copa, deve ser feita a desbrota dos ramos cujos enxertos não pegaram. A partir daí, convém fazer uma vistoria sistemática para retirar os novos ramos (ramos não enxertados) que normalmente continuam surgindo ao redor do tronco decepado, para evitar o desenvolvimento de ramos não enxertados.


terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Irrigação da Cultura do cajueiro


A irrigação do cajueiro-anão (também denominado cajueiro-anão-precoce) promove o desenvolvimento e o aumento da produção, em virtude, principalmente, do aumento do número de frutos colhidos e da melhoria da qualidade dos frutos. Além disso, no cultivo irrigado, o período de colheita do cajueiro pode ser ampliado em até cinco meses em relação ao cultivo de sequeiro. Para que a irrigação do cajueiro-anão seja economicamente viável, deve-se explorar comercialmente tanto a castanha quanto o pedúnculo, seja para a industrialização, seja para a comercialização de frutos de mesa para o consumo in natura.
Em regiões semiáridas (com pluviosidade abaixo de 800 mm por ano) a produtividade do cajueiro-anão irrigado (clone ‘CCP 09’) pode superar 4 t/ha de castanha e 40 t/ha de pedúnculo, utilizando-se boas práticas de manejo de irrigação, adubação e controle fitossanitário. Em regiões com maior precipitação pluviométrica, como a região litorânea do Nordeste, a produtividade do cajueiro-anão irrigado varia de 1,5 t/ha a 3,0 t/ha de castanha e de 15 t/ha a 30 t/ha de pedúnculo.
A resposta do cajueiro à irrigação varia dependendo do genótipo. Entre os clones de cajueiro-anão recomendados pela Embrapa e que foram testados sob condições irrigadas (‘CCP 09’, ‘CCP 76’ e ‘CCP 1001’), o clone ‘CCP 09’ é o que apresenta maior produtividade. No entanto, esse clone apresenta alta susceptibilidade à antracnose, exigindo o controle químico em regiões com condições favoráveis para essa enfermidade. O clone ‘CCP 76’, embora menos produtivo que o ‘CCP 09’, apresenta melhor distribuição da produção ao longo do ano. Outros genótipos com bom potencial para o cultivo irrigado são os clones ‘BRS 189’ e ‘BRS 226’, cuja produtividade sob irrigação ainda está sendo avaliada (Figuras 1 a 4).
Foto: Fábio Rodrigues de Miranda
Figura 1. Planta de cajueiro-anão, clone ‘CCP 09’, com 5 anos de idade, em plantio irrigado por gotejamento.
Fotos: Fábio R. Miranda
Figura 2. Planta de cajueiro-anão, clone ‘CCP 76’, com 2 anos de idade, em plantio de sequeiro (à esquerda) e irrigado por microaspersão (à direita).
Fotos: Fábio Rodrigues de Miranda
Figura 3. Planta de cajueiro-anão, clone ‘BRS 226’, com 2 anos de idade, em plantio de sequeiro (à esquerda) e irrigado por microaspersão (à direita).
Foto: Fábio Rodrigues de Miranda
Figura 4. Planta de cajueiro-anão, clone ‘BRS 189’, com 2 anos de idade, em plantio irrigado por microaspersão.

Métodos de irrigação

A irrigação localizada (microaspersão ou gotejamento) é o método mais adaptado no cultivo do cajueiro-anão, tendo em vista a economia de água, energia e mão de obra, a possibilidade de aplicação dos fertilizantes via água de irrigação (fertirrigação) e a redução da incidência de doenças e de plantas daninhas.
Em solos arenosos, os sistemas de irrigação por microaspersão são os mais recomendados na irrigação do cajueiro, por permitirem umedecer um maior volume de solo em relação ao gotejamento, favorecendo uma melhor distribuição do sistema radicular. Por outro lado, o gotejamento tem a vantagem de não molhar os frutos que caem no solo, permitindo colheitas menos frequentes caso o principal produto explorado seja a castanha.

Manejo da Irrigação

Na fase jovem, o cajueiro deve ser irrigado durante todo o período de seca, favorecendo o estabelecimento e o desenvolvimento vegetativo da cultura. Na fase adulta, o cajueiro pode ser irrigado apenas no período entre o início do florescimento e a colheita, sem causar redução na produção e com significativa economia de água, em contraste com a irrigação durante todo o período de seca.
A frequência de irrigação do cajueiro-anão varia de acordo com a capacidade de retenção de água do solo, o volume de solo molhado por planta, o consumo de água das plantas e a fase da cultura (floração, frutificação, etc.). Em média, quando se utiliza irrigação localizada, pode-se considerar um intervalo entre irrigações de 1 a 3 dias em solo arenoso e de 1 a 5 dias em solo argiloso.
A fim de reduzir as perdas de água por evaporação, recomenda-se ajustar o diâmetro molhado dos microaspersores em pomares jovens. No primeiro ano após o plantio, o diâmetro molhado deve ser de 1 m (Figura 5). A partir do segundo ano de cultivo, a área molhada dos microaspersores deve aumentar de acordo com o diâmetro da copa e o desenvolvimento do sistema radicular das plantas. Em pomares adultos, a porcentagem da superfície do solo molhada deve ser de, no mínimo, 30%, ou seja, o diâmetro molhado dos microaspersores deve ser de, no mínimo, 4,5 m.
Foto: Fábio R. Miranda
Figura 5. Planta de cajueiro-anão, clone ‘CCP 76’, com 6 meses de idade, em plantio irrigado por microaspersão.
Para o cálculo da lâmina de irrigação a ser aplicada no cajueiro-anão, podem-se utilizar valores de coeficiente de cultivo (Kc) de 0,55 na fase de crescimento vegetativo e de 0,65 na fase de florescimento e frutificação. Deve-se considerar ainda o coeficiente de redução da evapotranspiração (Kr) em função da fração da superfície do solo coberta pela cultura ou molhada na irrigação. O Kr pode ser calculado dividindo-se a fração da superfície do solo coberta pela cultura ou molhada na irrigação (o que for maior) por 0,85.
A título de exemplo, é mostrado abaixo o cálculo do volume e do tempo de irrigação diária para plantas de cajueiro-anão irrigadas por microaspersão, no 3º ano de cultivo:
-      Espaçamento entre cajueiros: 7 m x 7 m
-      Vazão do microaspersor: 50 L/h
-      Eficiência do sistema de irrigação: 90%
-      Evapotranspiração de referência (ET0): 4,5 mm/d
-      Coeficiente de cultivo (Kc) na fase de frutificação: 0,65
-      Diâmetro médio de copa dos cajueiros: 4 m (área sombreada: 12,6 m2)
-      Fator de cobertura do solo: 12,6 m/ (7 m x 7 m) = 0,26
-      Diâmetro molhado do microaspersor: 3 m (área molhada: 7,1 m2)
-      Fração de área molhada: 7,1 m/ (7 m x 7 m) = 0,14
-      Coeficiente de redução da evapotranspiração (Kr): 0,26 / 0,85 = 0,31
-      Evapotranspiração do cajueiro (ETc): 4,5 mm/d x 0,65 x 0,31 = 0,91 mm/d
-      Volume de irrigação diário: 0,91 mm/d x 7 m x 7 m = 44 L/planta dia
-      Tempo de irrigação diário: 44 L / 50 L/h = 0,88 hora ou 53 minutos
 Tabela 1. Recomendação de irrigação do cajueiro-anão (em litros por planta, por dia) nas regiões produtoras do Ceará e Rio Grande do Norte(1).
Idade do pomar
Volume de água recomendado
(L/planta dia)
1º ano
10 a 20
2º ano
23 a 35
3º ano
35 a 53
4º ano
62 a 90
5º ano
100 a 120
(1) Considerando-se uma evapotranspiração de referência média de 4,5 mm/dia.
Na Tabela 1, são apresentadas recomendações para a irrigação do cajueiro-anão, sob condições climáticas médias das regiões produtoras do Ceará e Rio Grande do Norte, utilizando sistemas de gotejamento ou microaspersão. Os valores apresentados na Tabela 1 são para a irrigação do cajueiro-anão nas fases de crescimento vegetativo (1º ano de cultivo) e de florescimento e frutificação (2º ano em diante), considerando-se que a área molhada pelos emissores é semelhante à área sombreada pela cultura.