A implantação de um guaranazal exige planejamento inicial, levando-se em consideração fatores que vão desde a escolha da área até a pós-colheita, passando pelos tratos culturais, com o objetivo de se ter em mão todas as técnicas que, quando somadas, irão resultar na expressão de toda a capacidade produtiva do guaranazeiro.
Clima e solo
O guaranazeiro se desenvolve adequadamente em locais com temperatura média anual de 23 ºC a 28 ºC e precipitação pluviométrica de 1.500 a 3.000 mm/ano, com um período de seca definido, fator este que aparentemente induz o florescimento da planta. Essas condições são encontradas na Amazônia, no sul da Bahia e norte do Mato Grosso, onde a cultura se desenvolve satisfatoriamente.
A planta do guaraná tem sido cultivada em solos profundos e bem drenados, sem pedregosidade, e com textura variando de média a argilosa. O terreno pode ser plano, se bem drenado, ou levemente inclinado, uma vez que o guaranazeiro morre ao menor sinal de acúmulo de água na região de seu sistema radicular. Locais com declividade elevada devem ser evitados, já que podem ocorrer problemas com erosão.
Clones recomendados
Em 1999, foi realizada, pela Embrapa Amazônia Ocidental, a primeira recomendação oficial de clones de guaranazeiro, com o lançamento dos clones BRS Amazonas e BRS Maués. A partir do ano 2000, outros dez clones, cujas características morfológicas e agronômicas encontram-se nas Tabelas 1 e 2, foram lançados para cultivo no Amazonas. Esses clones deverão contribuir para o aumento da produtividade e rentabilidade da cultura na região.
Tabela 1. Características
morfológicas e agronômicas dos clones de guaranazeiro recomendados para plantio
no Amazonas.
Nome
Cor dos frutos
Tipo de ramos
Reação à antracnose
Número de colheita/ano
Produtividade*
BRS-Amazonas
Amarelo-avermelhada
Curto
Resistente
5
1,5
BRS-CG648
Vermelho-amarelada
Curto
Resistente
3
1,0
BRS-CG612
Amarelo-avermelhada
Médio
Resistente
3
1,1
BRS-CG882
Vermelho-amarelada
Médio
Resistente
4
1,1
BRS-CG611
Vermelho-amarelada
Longo
Resistente
4
1,4
BRS-Maués
Alaranjada
Longo
Resistente
4
1,5
*Expresso em kg/planta/ano de
sementes secas. Valores médios obtidos de cinco colheitas a partir do 3° ano do
plantio.
Fonte: Embrapa Amazônia Ocidental,
2005.
As principais vantagens desses clones em relação às plantas tradicionais, originadas de sementes, são: a) redução no tempo de formação da muda, que é de aproximadamente sete meses, enquanto a muda de sementes demora pelo menos 12 meses; b) resistência dos clones à antracnose; c) produtividade até dez vezes maior do que a média das plantas tradicionais; d) precocidade para o início da produção, que é, em média, de dois anos, contra quatro anos das plantas de sementes; e e) sobrevivência das plantas oriundas de estacas, no campo, após quatro anos do plantio superior a 95%, enquanto nos plantios provenientes de sementes apenas 20% dos indivíduos sobrevivem. Todos esses fatores têm como consequência o menor custo de implantação e condução da cultura e maior retorno financeiro.
Tabela 2. Características
morfológicas e agronômicas dos clones de guaranazeiro recomendados para o
Estado do Amazonas, em regiões onde a antracnose não apresenta prevalência.
Nome
Cor dos frutos
Tipo de ramos
Número de colheitas/ano
Produtividade*
BRS-CG372
Vermelho-amarelada
Curto
3
1,5
BRS-CG189
Vermelho-amarelada
Médio
3
1,0
BRS-CG505
Vermelho-amarelada
Médio
5
1,1
BRS-CG610
Vermelho-amarelada
Médio
3
1,1
BRS-CG850
Amarelo-alaranjada
Médio
4
1,3
BRS-CG608
Amarelo-avermelhada
Longo
4
1,3
*Expresso em kg/planta/ano de
sementes secas. Valores médios obtidos de cinco colheitas a partir do 3° ano do
plantio.
Em razão dos custos e da conservação do ambiente, deve-se escolher áreas anteriormente cultivadas ou de capoeiras para o plantio do guaranazeiro, evitando-se locais de matas virgens. No preparo de áreas já abertas, como pastagens degradadas, recomenda-se inicialmente uma aração ou escarificação do solo, para prevenir e corrigir problemas de compactação. Caso isso não seja possível, deve-se abrir covas maiores, para proporcionar a expansão do sistema radicular da planta no início de seu desenvolvimento.
Para o preparo de áreas de capoeira, faz-se a broca, retirando-se inicialmente cipós, arbustos e árvores com caule de aproximadamente 20 cm de diâmetro. Depois, faz-se a derrubada manual ou mecanizada das árvores de maior porte, com exceção daquelas protegidas por lei, como a castanheira e o mogno. Terminada a fase de derrubada, fazem-se aceiros com pelo menos 2 m de largura ao redor de toda a área, preparando-a para a queima da vegetação. As restrições legais, assim como as devidas licenças para o uso da queimada, devem ser obtidas nos órgãos responsáveis. No Amazonas, essa operação deve ser realizada de julho a outubro, período que apresenta menor intensidade de chuvas, o que facilita a queima da vegetação.
Práticas de conservação devem ser adotadas para manutenção e melhoria da qualidade do solo. Essas práticas variam de acordo com o tipo de solo, com a declividade do terreno e precipitação local. Em áreas declivosas, recomenda-se a construção de terraços e o plantio em nível. O dimensionamento dos terraços deverá ser orientado por um técnico.
Para as condições edafoclimáticas do Amazonas é de vital importância a cobertura vegetal do solo para evitar a sua degradação. O plantio de culturas intercalares nos três primeiros anos é recomendado. Outra alternativa é o uso das próprias plantas daninhas (Figura 1) como cobertura do solo, desde que seu manejo seja feito corretamente, de maneira a não interferir no desenvolvimento do guaranazeiro.
Foto: Murilo Arruda
Figura 1. Plantas do clone BRS- CG611 aos 18 meses após o plantio em área de capoeira.
Espaçamento, demarcação da área e preparo da cova
O espaçamento recomendado para o guaranazeiro é o de 5 m nas entrelinhas e 5 m entre plantas, totalizando 400 covas por hectare. A área deverá ser inicialmente demarcada com piquetes nos locais onde ficarão os centros das covas. Os piquetes devem ser de madeira, de preferência verde, para evitar a infestação de cupins, que poderão atacar a muda quando de seu plantio. A alternativa é o plantio em sulcos, com pelo menos 40 cm de profundidade, diminuindo os custos de implantação em propriedades que possam ter acesso a máquinas. A abertura e a adubação das covas ou sulcos deverão ser feitas pelo menos 30 dias antes do plantio das mudas.
Para a abertura da cova, quando feita manualmente, raspam-se cerca de 5 cm da terra superficial (solo mais escuro, rico em matéria orgânica) em volta do piquete, num raio de aproximadamente um metro, deixando-a separada. Em seguida, abre-se a cova com pelo menos 40 cm x 40 cm x 40 cm de largura, comprimento e profundidade, respectivamente, deixando-se ao lado, em um único ponto, o solo dela retirado. No solo mais escuro, deixado separado, adicionam-se 150 g de superfosfato simples e pelo menos 10 litros de esterco de gado ou 4 litros de esterco de aves curtido. Mistura-se bem e preenche-se a cova (Figura 2). Caso a quantidade da mistura não seja suficiente para encher a cova totalmente, pode-se utilizar, para completá-la, o solo que foi retirado da cova. O nível do solo da cova nunca deverá ficar abaixo do nível do solo da área, para não haver acúmulo de água. Após o preparo da cova, recoloca-se o piquete em seu centro para permitir que o local exato de plantio seja encontrado.
Fotos: Murilo Arruda
Figura 2. Cova aberta (A), adubação do solo de preenchimento da cova (B) e fechamento da cova (C).
Plantio
O plantio das mudas deverá ser feito no período chuvoso (janeiro a março), de preferência em dias nublados e com temperatura amena. Retira-se o piquete da cova e abre-se um buraco, com a ferramenta "boca de lobo", com tamanho suficiente para conter o volume de terra da muda e profundidade adequada, em que o nível superior do torrão coincida com o nível do solo. Caso seja necessário, deve-se colocar ou retirar terra da abertura até que se consiga a altura ideal. O saco plástico deve ser retirado com cuidado para não desmanchar o torrão de terra da muda, o que poderia danificar as raízes. Após colocar a muda na cova, preenchem-se os espaços vazios com terra, comprimindo-a com um espeque de madeira (Figura 3), a fim de evitar que fiquem bolsas de ar em torno da muda. Ao final do plantio, recomenda-se colocar o solo ao redor de cada muda, para evitar o aparecimento de "bacias" e acúmulo de água.
Fotos: Murilo Arruda
Figura 3. Abertura da cova para o plantio, 30 dias após o seu preparo (A e B); retirada do saco plástico, evitando danos às raízes (C e D); plantio da muda (E); leve compactação do solo ao redor da muda para retirada de bolhas de ar em excesso (F).
Sombreamento
Imediatamente após o plantio e nos meses seguintes, as mudas devem permanecer protegidas do sol, para evitar a sua desidratação e morte.
Assim, recomenda-se cobri-las com folhas de palmeira, utilizando-se três pedaços de aproximadamente um metro. As folhas de palmeira devem ser cortadas em bisel e fincadas firmemente no terreno, sendo colocadas com a parte mais fina da nervura central para baixo, para facilitar o escoamento da água (Figura 4). Um dos pedaços deve ser colocado na direção do nascente e os outros dois, na direção do poente, dado que o sol da tarde é mais agressivo à planta.
Fotos: Murilo Arruda
Figura 4. Muda de guaranazeiro protegida com folhas de palmeira.
As estacas devem ser retiradas de plantas matrizes selecionadas, provenientes de jardins clonais. Essas matrizes devem apresentar bom vigor vegetativo, ausência de sintomas de deficiências nutricionais e/ou ataque de pragas e doenças (Figura 1).
Foto: Murilo R. de Arruda
Figura 1. Planta matriz de guaranazeiro.
Recomenda-se coletar as estacas no período de lançamento dos ramos, que, no Estado do Amazonas, ocorre nos meses de março a maio. Essa atividade deve ser feita preferencialmente nas primeiras horas da manhã (5h - 7h), para diminuir a perda de água do material a ser propagado.
As estacas devem ser retiradas de ramos novos, herbáceos, porém não lignificados, lançados no ano da coleta, descartando-se a extremidade verdoenga (Figura 2A). Esse tipo de ramo apresenta melhor índice de enraizamento e gera mudas mais vigorosas. O tamanho das estacas é variável de acordo com o comprimento dos entrenós nos ramos. As estacas devem possuir uma gema e um par de folíolos cortados ao meio (Figura 2B) e devem ser cortadas em bisel, 2 cm a 3 cm acima da gema, para evitar ressecamento. O número de estacas a ser coletado em cada planta varia de acordo com a idade, o vigor e o ortete. Após a coleta, as estacas deverão ser umedecidas e acondicionadas preferencialmente em caixas de isopor, para o transporte. Nessas condições, permanecerão viáveis por até 30 horas.
Fotos: Firmino José N. Filho
Figura 2. Ramo herbáceo (A) e detalhe de uma estaca padrão (B).
Preparo do indutor de enraizamento
O fitormônio (ácido indol-3-butírico) deve ser aplicado, por via seca, na concentração de 2 mil ppm. Para se obter essa concentração, mistura-se 5 g do fitormônio com 2.400 g de talco inerte ou industrial. Para uma mistura bem homogênea, recomenda-se utilizar saco plástico resistente, com capacidade para 10 kg, no qual serão colocados o fitormônio e o talco. Depois, infla-se o saco, a fim de se obter uma câmara de ar, e, em seguida, agita-se por no mínimo 20 minutos. Com essa mistura é possível tratar cerca de 30 mil estacas. O tratamento faz-se tocando a base das estacas na mistura de fitormônio com talco (Figura 3 ).
Foto: Firmino José N. Filho
Figura 3. Estaca de guaranazeiro sendo tratada com fitormônio.
Plantio das estacas
Com o auxílio de um pedaço de madeira roliço e pontiagudo, com diâmetro semelhante ao das estacas, abre-se um orifício no centro dos sacos, a uma profundidade de 3 cm a 5 cm, para facilitar o plantio da estaca. Após o tratamento com o fitormônio, a estaca deve ser enterrada no saco cerca de 1/3 do seu tamanho, pressionando ao seu redor para fixá-la ao substrato (Figura 4). Em seguida, faz-se a rega para melhor ajustá-la ao substrato.
Foto: Firmino José N. Filho
Figura 4. Plantio das estacas em sacos plásticos.
Manutenção das mudas no viveiro
As estacas plantadas nos sacos devem permanecer no viveiro, com sombreamento de 50%, por um período de 7 a 9 meses. É importante, nos 90 primeiros dias, manter os folíolos das estacas sempre umedecidos, através da nebulização intermitente, uma vez que sem esse cuidado, em aproximadamente duas horas, todas as estacas que foram postas para enraizar podem ser perdidas por desidratação.
A irrigação das mudas no viveiro, dos 90 dias até a época de plantio, deve ser realizada de acordo com as condições climáticas. Na ausência de chuvas, as mudas deverão receber regas diárias, via sistema de irrigação ou manualmente.
Adubação das mudas
A adubação deverá ser feita diretamente no substrato, utilizando-se a seguinte mistura: 200 g de ureia + 200 g de cloreto de potássio, diluídos em 20 litros de água, preparada imediatamente antes do uso. A solução deve ser aplicada a cada 30 dias, na quantidade de 25 mL por planta, antes da irrigação. Essa adubação deverá ser suspensa 30 dias antes do plantio definitivo das mudas no campo.
Controle de plantas invasoras
Recomenda-se retirar periodicamente as plantas invasoras dos sacos, para evitar concorrência por água e nutrientes com as mudas de guaranazeiro.
Controle de pragas no viveiro
A principal praga que afeta as mudas do guaranazeiro na fase de viveiro é o tripes, que causa queda e deformações nas folhas. O viveirista deverá fazer inspeções semanais para verificar a presença de tripes. Quando for observado tripes no viveiro, um dos seguintes inseticidas deverá ser aplicado: acephate 75% (40 g do produto comercial em 20 L de água) ou deltametrina 25% (10 mL do produto comercial em 20 L de água). As aplicações deverão ser efetuadas em intervalos regulares de 20 dias. Esses produtos ainda não estão registrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) para a cultura do guaranazeiro.
Controle de doenças
As mudas com sintomas de antracnose ou superbrotamento devem ser descartadas.
Seleção das mudas para plantio
O número de folhas tem sido o fator indicativo para seleção de mudas de guaraná para o plantio definitivo. Com base na legislação em vigor, considera-se que a muda de guaraná propagada por estacas estará apta ao plantio quando apresentar pelo menos duas folhas compostas, completamente desenvolvidas e vigorosas.
Transporte das mudas para o local definitivo
No transporte, as mudas deverão estar protegidas do vento, para evitar a desidratação. Choques também devem ser evitados, prevenindo danos ao sistema radicular.
O guaranazeiro (Paullinia cupana var. sorbilis) é um importante e tradicional cultivo no Estado do Amazonas. É uma planta genuinamente brasileira de grande importância econômica e social, especialmente na região Amazônica. Esta importância é evidenciada na demanda de sementes pelas indústrias de bebidas, para atender ao promissor mercado de refrigerantes e energéticos, tanto o nacional como o internacional. Por estes motivos, a Embrapa Amazônia Ocidental, considerando a necessidade de geração e transferência de tecnologias para o cultivo do guaranazeiro, tem fortalecido as atividades de pesquisa, buscando selecionar materiais genéticos de alta produtividade e resistentes a pragas e doenças, bem como identificar práticas de manejo e tratos culturais que permitirão melhorar o desempenho da cultura, preservando o meio ambiente e aumentando a renda do produtor rural.
A Embrapa Amazônia Ocidental realizou um painel no Município de Maués (AM), no dia 28 de setembro de 2005, com a participação de profissionais de campo e agricultores, diretamente envolvidos na cadeia produtiva do guaranazeiro, para colher os subsídios necessários à validação deste documento.
Esta publicação contém informações sobre as tecnologias geradas para a cultura do guaranazeiro, visando diminuir os gargalos tecnológicos existentes no agronegócio do guaraná.
O Brasil, em termos comerciais, é o único produtor de guaraná do mundo. No Estado do Amazonas, o guaranazeiro é uma cultura plantada tanto por grandes como por pequenos produtores. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2003, o estado produziu 779 toneladas de sementes secas de guaraná em 5.178 hectares, com produtividade média de 150 kg de sementes secas por hectare, menor que a média do Brasil, que foi de 298 kg/ha.
Essa produtividade é baixa quando comparada com as obtidas de clones lançados pela Embrapa, que produzem pelo menos 400 kg/ha/ano de sementes secas. As razões apontadas para essa baixa produtividade são: a não utilização de mudas de clones selecionados, o plantio de variedades tradicionais não melhoradas, a idade avançada dos guaranazais, a alta incidência de pragas e doenças e a falta de tratos culturais adequados.
Atualmente quase toda a produção brasileira de guaraná é consumida no mercado interno, sendo pequena a quantidade exportada para outros países. Estima-se que, da demanda nacional de sementes de guaraná, pelo menos 70% seja absorvida pelos fabricantes de refrigerantes, enquanto o restante é comercializado na forma de xarope, bastão, pó, extrato e outras formas.
A muda de citros, assim como de uma série de outras frutíferas, é composta pela combinação de uma cultivar porta-enxerto com uma cultivar copa, sendo exigidos critérios específicos em relação à formação dos porta-enxertos e das mudas propriamente ditas.
Formação de porta-enxertos
Em se tratando de mudas certificadas, os porta-enxertos devem ser produzidos no interior de ambiente protegido, nas condições descritas anteriormente, a partir de sementes de plantas matrizes ou de sementeiras certificadas. Carvalho et al. (2000) recomendam que sejam indexadas para viroses e declínio a cada cinco anos, e anualmente para CVC, antes da retirada das sementes.
Os porta-enxertos podem ser adquiridos de terceiros ou serem produzidos no próprio viveiro. Normalmente, os viveiristas têm optado por produzir seus próprios porta-enxertos. Nos casos de compra de porta-enxertos, o viveirista deve obter documento tipo nota fiscal ou fatura, que comprove a procedência do material, especificando a origem, cultivar e quantidade de porta-enxertos adquiridos (BRASIL, 2013).
Geralmente, a produção de porta-enxertos tem sido realizada no mesmo telado utilizado para a produção das mudas. Visando uniformizar os tratos culturais e utilizar condições de temperatura e de umidade mais favoráveis à germinação e ao desenvolvimento inicial das plântulas, alguns viveiristas têm produzido os porta-enxertos em telados separados das mudas enxertadas.
Cultivares de porta-enxerto
Os porta-enxertos recomendados para o Rio Grande do Sul são: Trifoliata, limoeiro ‘Cravo’, limoeiro ‘Volkameriano’, laranjeira ‘Caipira’, citrumeleiro ‘Swingle’, tangerineira ‘Cleópatra’, tangerineira ‘Sunki’, tangeleiro ‘Orlando’, citrangeiro ‘Troyer’, citrangeiro ‘Carrizo’ e laranjeira ‘Azeda’ (CESM, 1998). Segundo essas normas, a laranjeira ‘Azeda’ somente deve ser utilizada como porta-enxerto de limoeiros verdadeiros. Somente as cultivares registradas no Registro Nacional de Cultivares (RNC), do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), podem ser utilizadas como porta-enxerto. As recomendações de cultivares estabelecidas pelas secretarias estaduais de agricultura também devem ser seguidas.
O porta-enxerto mais utilizado no Rio Grande do Sul é o Trifoliata, principalmente por sua tolerância ao frio e à gomose de Phytophthora e por induzir a produção de frutas de ótima qualidade, embora apresente menor vigor em relação a outras cultivares, como o limoeiro ‘Cravo’, o que atrasa a formação das mudas e o início da produção de frutos (OLIVEIRA et al., 2008).
Recipientes para semeadura
Os porta-enxertos podem ser semeados em tubetes plásticos, bandejas ou embalagens definitivas. Os tubetes de 50 cm3, em forma cônica, com quatro a seis estrias longitudinais, são os recipientes mais utilizados (Figura 1), pela facilidade de manipulação, permitindo a distribuição das plântulas em lotes homogêneos, e por proporcionarem uma melhor circulação de ar entre as plântulas (JOAQUIM, 1997). Nesse tipo de recipiente, as raízes crescem em direção ao orifício basal, havendo a morte do meristema da raiz pivotante com consequente emissão de raízes secundárias. Os tubetes devem ser dispostos em bandejas plásticas perfuradas, as quais devem ser mantidas suspensas sobre cabos, com esticadores ou telas metálicas galvanizadas, fixados sobre mourões de madeira ou cimento (CARVALHO, 1998). Por outro lado, a formação de porta-enxertos em canteiros com seu posterior transplantio sob a forma de raiz nua podada permite melhor seleção de plantas sem defeito na formação das raízes.
Foto: Roberto Pedroso de Oliveira.
Figura 1. Porta-enxertos de citros produzidos em tubetes cônicos de 50 cm3 dispostos em bandejas plásticas perfuradas.
Após o uso, os tubetes, as bandejas e os canteiros devem ser desinfestados via tratamento térmico ou com produtos químicos, como o hipoclorito de sódio a 1% (FEICHTENBERGER, 1998).
Substratos para semeadura
O substrato deve apresentar propriedades físicas e químicas adequadas para o desenvolvimento das plantas, sendo as físicas determinantes por serem de difícil correção. O substrato deve ser leve para facilitar o manuseio e o transporte, apresentar boa porosidade, drenagem e capacidade de retenção de água, ser suficientemente consistente para fixar as plantas, isento de patógenos de solo, não conter sementes ou propágulos de plantas daninhas, não conter componentes de fácil decomposição, possuir composição uniforme para facilitar o manejo das plantas e apresentar um custo compatível com a atividade (OLIVEIRA et al., 2011a).
Segundo as normas e padrões da CESM (1998), o substrato deve estar isento dos fungos Armillaria sp., Phytophthora spp., Rhizoctonia solani, Rosellinea sp. e Sclerotinia sp. e dos nematoides Meloidogyne spp., Pratylenchus spp. e Tylenchulus semipenetrans, devendo ser analisado em laboratório credenciado pela entidade certificadora e fiscalizadora estadual.
Conhecendo as propriedades de um substrato ideal, o viveirista pode optar pela produção própria ou aquisição junto a empresas especializadas, analisando sempre a qualidade, o custo e a facilidade de obtenção. Deve-se acrescentar que a Instrução Normativa no 48, de 24 de setembro de 2013, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, proíbe o uso de solo na composição do substrato (BRASIL, 2013).
A desinfestação dos componentes do substrato pode ser feita por solarização em coletor solar ou em sacos plásticos transparentes. A desinfestação química com fumigantes e a térmica por autoclavagem (110-120ºC) não são recomendadas por prejudicarem o desenvolvimento da microflora benéfica do substrato (FEICHTENBERGER, 1998).
A maioria dos viveiros de citros tem utilizado substratos comerciais à base de casca de pínus, palha de arroz, serragem, bagacilho de cana, vermiculita, perlita, argila expandida, húmus ou turfa (JOAQUIM, 1997; GRAF, 1999; OLIVEIRA et al., 2011a).
Cada substrato exige um manejo diferente, desde a fertilização até a irrigação, em função de propriedades específicas. Por isso, é muito importante trabalhar com um mesmo substrato, o qual, obrigatoriamente, tem que apresentar lotes uniformes.
Antes da distribuição nos recipientes, recomenda-se que seja realizada a análise de fertilidade do substrato, seguida de correção química. Esta é essencial para maximizar o desenvolvimento das plantas. Nessa fase, normalmente, é necessário acrescentar nitrogênio, fósforo e cálcio ao substrato. O fósforo deve ser adicionado antes da semeadura, enquanto que os demais nutrientes podem ser aplicados em cobertura, por meio de formulações de liberação lenta, ou semanalmente via fertirrigação.
A salinização do substrato é um dos problemas mais frequentes no cultivo de plantas em recipientes. Por isso, deve-se tomar bastante cuidado com a aplicação de fertilizantes em excesso. A toxidez por sais provoca necrose de folhas, desidratação, redução do crescimento e até mesmo a morte de plantas (JOAQUIM, 1997). A correção do nível de sais pode ser feita lixiviando-os por meio de irrigação ligeiramente acima da quantidade necessária.
Semeadura
Primeiramente, as sementes devem ser submetidas a tratamento térmico a 52 ºC por 10 minutos (CESM, 1998). Alguns viveiristas têm retirado o tegumento externo das sementes com a finalidade de melhorar a sanidade, acelerar e uniformizar a germinação (Figura 2), embora seja uma atividade bastante trabalhosa (OLIVEIRA; SCIVITTARO, 2007). A semeadura pode ser feita utilizando-se de uma a três sementes por tubete, dependendo da cultivar e da porcentagem de germinação do lote de sementes. Recomenda-se utilizar a profundidade de 2 cm a 3 cm.
Foto: Roberto Pedroso de Oliveira.
Figura 2. Remoção do tegumento externo de sementes do porta-enxerto de citros Poncirus trifoliata.
Irrigação
Durante a germinação e o desenvolvimento inicial dos porta-enxertos, a irrigação deve ser feita manualmente ou por meio de aspersores, de forma a não descobrir as sementes.
A água de irrigação deve ser tratada com cloro ativo ou ser proveniente de poço artesiano. No caso de tratamento da água, recomenda-se a adição de cloro na concentração de 3 a 5 mg L-1 (CARVALHO, 1998). Nessa concentração, ocorre a inativação dos zoósporos de Phytophthora (FEICHTENBERGER, 1998). Deve-se tomar cuidado para não utilizar uma concentração excessiva de cloro, o que pode causar toxidez às plantas. No caso da utilização de água de poço artesiano, deve-se avaliar a presença e a quantidade de sais.
Condução dos porta-enxertos
A área do viveiro deve ser livre de detritos vegetais, inclusive aqueles decorrentes do processo de produção das próprias mudas. Os porta-enxertos devem ser conduzidos em haste única, sendo realizada desbrota semanal. Normalmente, as plantas atípicas e de crescimento debilitado apresentam natureza híbrida, devendo ser eliminadas. A taxa de ocorrência destes híbridos depende da espécie do porta-enxerto, sendo inversamente proporcional a sua taxa de poliembrionia. Para facilitar o manejo, as plantas de cada cultivar devem ser separadas em lotes mais homogêneos, normalmente aos 70-80 dias da semeadura (OLIVEIRA et al., 2001).
Recipiente definitivo
O recipiente definitivo das mudas deve apresentar dimensões mínimas de 10 cm de largura por 30 cm de altura (CESM, 1998). Esse recipiente desempenha um papel determinante no desenvolvimento do sistema radicular das mudas, influindo na formação e na configuração das raízes.
No caso de mudas de citros, os recipientes podem ser de plástico rígido ou de polietileno. Os vasos de plástico rígido são comercialmente denominados de citrovasos ou citropotes. Possuem a vantagem de apresentar estrias longitudinais, como os tubetes, para direcionar o crescimento das raízes para o fundo do recipiente, evitando o seu enovelamento. A suspensão dos vasos em bancadas é essencial para esse comportamento das raízes. Os vasos de plástico rígido apresentam um custo maior do que os de polietileno; porém, são reutilizáveis.
Os recipientes de polietileno, também chamados de sacos plásticos, apresentam um custo menor, não ocupam espaço quando vazios e são descartáveis, não havendo necessidade de retorno, realização de lavagens e riscos de contaminação com patógenos de outras áreas. Porém, podem rasgar com certa facilidade e estão sujeitos à ocorrência de enovelamento de raízes, devido às superfícies lisas do recipiente, principalmente se houver atraso no plantio das mudas (CARVALHO, 1998; GRAF, 1999).
Com relação ao substrato, valem as mesmas observações efetuadas na fase de semeadura e de desenvolvimento inicial dos porta-enxertos.
Transplantio
Dependendo da cultivar, do substrato e das condições de cultivo, os porta-enxertos apresentam 10 cm a 15 cm de altura, após três a cinco meses de cultivo, estando aptos a ser transplantados para os recipientes definitivos, onde será completada a formação das mudas.
Por ocasião do transplantio, deve-se evitar o enovelamento de raízes na região do colo das plantas, o que diminui o vigor dos porta-enxertos. O transplantio das plantas pode ser feito com o torrão, de forma a não lesionar o sistema radicular, evitando a interrupção do crescimento dos porta-enxertos, ou por meio de raiz nua, o que permite podar as raízes e eliminar as enoveladas.
Formação das mudas
Enxertia
Dependendo da cultivar e das condições de cultivo, os porta-enxertos estão aptos para a enxertia entre três e seis meses após o transplantio.
Para a produção de mudas certificadas, as borbulhas devem ser obtidas de plantas matrizes ou de borbulheiras certificadas, cultivadas em ambiente protegido e inspecionadas, periodicamente, com relação a mutações e à sanidade, principalmente quanto à clorose variegada dos citros, cancro cítrico, HLB, tristeza e outras viroses. O viveirista deve possuir um comprovante de origem das borbulhas, que pode ser uma nota fiscal ou fatura, que especifique a origem, a espécie, a cultivar e a quantidade de material adquirido.
As borbulhas são fornecidas em ramos chamados de porta-borbulhas. Trata-se de ramos desfolhados de aproximadamente 30 cm a 40 cm, contendo borbulhas maduras (Figura 3).
Foto: Roberto Pedroso de Oliveira.
Figura 3. Ramos porta-borbulhas de citros.
A enxertia deve ser realizada à altura de 10 cm a 20 cm a partir do colo da planta para a maioria das cultivares. Somente para os limoeiros verdadeiros e para a limeira ácida ‘Tahiti’, e quando a muda for destinada a plantio com colheita mecanizada, a altura da enxertia deve ser entre 20 cm e 40 cm (BRASIL, 2013). Para a enxertia, devem ser retiradas as folhas e os espinhos do colo do porta-enxerto. Esta operação deve ser realizada no dia da enxertia, pois, caso realizada anteriormente, dificulta o desprendimento da casca. O aumento progressivo da irrigação nos dias que antecedem a enxertia é recomendado para melhorar o desprendimento da casca. A enxertia deve ser feita por borbulhia, em ‘T’ normal ou invertido, sendo fixada com fita plástica normal ou degradável (Figura 4).
Foto: Roberto Pedroso de Oliveira.
Figura 4. Mudas enxertadas de citros.
Cultivares-copa
Desde 1998, a Secretaria da Agricultura e Abastecimento do Rio Grande do Sul elegeu as seguintes cultivares-copa de citros para plantio no estado: laranjeiras ‘Bahia’, ‘Baianinha’, ‘do Céu’ (‘Lima’), ‘Folha Murcha’, ‘Franck’, ‘Hamlin’, ‘Monte Parnaso’, ‘Natal’, ‘Pêra’, ‘Tobias’, ‘Caiana’, ‘Valência’ e ‘Westin’; tangerineiras ‘Clementina’, ‘Cravo’, ‘Comum’ (‘Mexeriqueira do Rio’ ou ‘Caí’), ‘Satsuma Okitsu’, ‘Montenegrina’ e ‘Ponkan’; limoeiro verdadeiro ‘Siciliano’; limeira ácida ‘Tahiti’; limeira verde ‘Piracicaba’; e híbridos ‘Murcott’, ‘Lee’ e ‘Ellendale’. Além dessas cultivares, a Embrapa Clima Temperado recomenda, atualmente, as laranjeiras ‘Navelina’, ‘Navelate’, ‘Lane Late’, ‘Cara Cara’, ‘Salustiana’, ‘Valência Late’, ‘Midknight’, ‘Delta Seedless’, ‘Newhall’, ‘Lue Gim Gong’, ‘Shamouti’ e ‘BRS Tarocco do Pampa’; as tangerineiras ‘Owari’, ‘Rainha’, ‘Marisol’ e ‘Clemenules’; o limoeiro verdadeiro ‘Fino’; o limoeiro híbrido ‘Meyer’; os pomeleiros ‘Marsh Seedless’, ‘Star Ruby’, ‘Ruby Red’ e ‘Flame’; e os híbridos ‘Nova’, ‘Minneola’, ‘Fremont’ e ‘Ortanique’. Outras cultivares estão em fase de avaliação e recomendação para o estado.
Adubação e irrigação
A formulação dos adubos e a frequência de adubação variam em função da cultivar e da composição do substrato. De uma forma geral, Carvalho (1998) recomenda a aplicação semanal, via água de irrigação, de nitrato de potássio, nitrocálcio ou de fosfato monoamônico, na proporção de 2 g a 4 g por planta, e a aplicação foliar de nitrogênio, zinco, manganês, boro e ferro quinzenalmente, juntamente com os tratamentos fitossanitários. No entanto, para uma adubação equilibrada, recomenda-se o monitoramento do estado nutricional das plantas por meio de análise foliar e do substrato, procedendo-se às correções em cobertura, via água de irrigação ou da forma convencional, de acordo com a necessidade de nutrientes.
A irrigação pode ser feita manualmente, por aspersão ou de forma localizada em cada recipiente. A irrigação localizada por gotejo, vaso a vaso, é vantajosa para a produção de mudas sadias, por evitar a umidade excessiva no tronco, ramos e folhas e a lavagem de defensivos, além de possibilitar a adição de fertilizantes solúveis. As desvantagens desse sistema referem-se ao maior custo e ao encharcamento de alguns recipientes, devido ao consumo diferenciado de água pelas plantas em diferentes fases de desenvolvimento e em função da espécie de porta-enxerto.
Controle de pragas e de doenças
O manejo de pragas e de doenças deve ser preventivo e rigoroso, evitando prejuízos à qualidade e ao desenvolvimento das mudas. Devem-se realizar pulverizações com combinações de produtos de ação inseticida, acaricida e fungicida, alternando os princípios ativos para evitar a proliferação de patógenos e de pragas resistentes (OLIVEIRA et al., 2001).
A tela do ambiente protegido controla a entrada da maioria dos insetos-praga e dos vetores de doenças. Porém, fungos e ácaros podem entrar pelos orifícios da tela e algumas espécies de cigarrinhas, pulgões, cochonilhas e insetos adultos de minador pela própria porta do telado. Por isso, além das pulverizações preventivas, o viveiro deve ser inspecionado permanentemente, procedendo-se, caso necessário, ao controle químico adicional com produtos específicos para a praga ou patógeno encontrado.
O uso de armadilhas amarelas com cola adesiva na antecâmara e no interior do telado é essencial para o monitoramento e controle de insetos, principalmente de cigarrinhas, que são atraídas por essa coloração.
Condução do enxerto e formação da muda
A remoção do fitilho não degradável deve ser realizada 15 a 20 dias após a enxertia, quando se verifica o pegamento. Caso este não ocorra, pode-se enxertar novamente no lado oposto do caule, cinco dias após o corte do fitilho. Para forçar a brotação, pode ser feito o encurvamento do porta-enxerto, segurando com uma das mãos a 10 cm acima do enxerto e curvando com a outra a parte superior da planta até prender na base da muda (Figura 5). Outra técnica utilizada para forçar a brotação consiste em efetuar o corte do porta-enxerto 5 cm acima da enxertia, no momento da retirada do fitilho. O pedaço de ramo remanescente deve ser cortado 15 dias antes da expedição das mudas (SEMPIONATO et al., 1997). A região do corte deve ser tratada com pasta cúprica. Uma única brotação deve ser conduzida de forma tutorada até o amadurecimento do ramo. O tutoramento pode ser feito com material galvanizado ou não. O tutor deve ser fino, firme e estreito, para evitar lesões no sistema radicular das mudas no momento em que é introduzido no substrato.
Foto: Roberto Pedroso de Oliveira.
Figura 5. Encurvamento do porta-enxerto para forçar a brotação do enxerto.
Em função de redução de custo, no sistema de produção de mudas certificadas em ambiente protegido não são formadas “pernadas” ou ramos laterais, como no sistema a “céu aberto”. Por isso, as plantas permanecem por menos tempo nos recipientes, minimizando o risco de enovelamento do sistema radicular. Desta forma, as mudas são produzidas e comercializadas em haste única, sendo chamadas de muda vareta, pavio ou palito (Figura 6).
A haste principal da muda vareta deve ser podada a 30-50 cm de altura para as tangerineiras e a 50-60 cm para as laranjeiras, limeiras ácidas e limoeiros verdadeiros, medidos a partir do colo da planta, devendo apresentar tecido já amadurecido.
Foto: Roberto Pedroso de Oliveira.
Figura 6. Muda de citros tipo vareta, pavio ou palito, sem pernadas.
Para facilitar a identificação e evitar a troca de materiais, recomenda-se a utilização de um código de cores para as cultivares-copa e porta-enxerto, com aplicação de tinta na região abaixo e acima do ponto de enxertia (CATI, 1998).
Nas condições climáticas do Estado de São Paulo, utilizando o porta-enxerto limoeiro ‘Cravo’, a muda de haste única fica pronta para o plantio em 10-12 meses após a semeadura (CARVALHO, 1998). Considerando a ocorrência de temperaturas médias menores no Rio Grande do Sul e o uso do porta-enxerto ‘Trifoliata’, espera-se um atraso de até 12 meses no processo de formação das mudas, dependendo do nível de climatização do telado.
A idade máxima das mudas de haste única para plantio é de 24 meses após a semeadura dos porta-enxertos quando se tratar de mudas com interenxertia ou oriundas do porta-enxerto ‘Trifoliata’ e de seus híbridos (BRASIL, 2013). Nos demais casos, a idade máxima das mudas é de 18 meses. Este critério é fundamental para evitar o enovelamento das raízes.
De forma geral, as mudas tipo palito, produzidas em ambiente protegido, apresentam pegamento e vigor superiores às mudas produzidas em viveiros a “céu aberto”, em virtude principalmente da qualidade do sistema radicular (Figura 7).
Foto: Roberto Pedroso de Oliveira.
Figura 7. Qualidade do sistema radicular de muda de citros produzida em citrovasos.
Após a retirada de cada lote de mudas do viveiro, deve-se realizar a desinfestação dos pisos, paredes e bancadas com hipoclorito de sódio a 5% ou formaldeído a 1% (FEICHTENBERGER, 1998).
Condenação de viveiros
Determinados patógenos e plantas daninhas são extremamente danosos aos citros, muitas vezes inviabilizando a produção. Por isso, as mudas devem ser isentas desses organismos.
O viveiro deve ser condenado pela simples ocorrência, em qualquer uma das mudas, dos fungos Phytophthora spp., Rhizoctonia solani, Sclerotinia sp. e Armillaria sp., dos procariotos Xanthomonas campetris pv. citri, Xylella fastidiosa, Candidatus liberobacter e Spiroplasma citri, dos nematoides Meloidogyne spp., Pratylenchus spp. e Tylenchulus semipenetrans, das plantas daninhas Cyperus rotundus(tiririca) e Cynodon dactilon (grama-seda) e dos vírus, viroides e micoplasmas patogênicos aos citros (CESM, 1998). O diagnóstico de infecções por bactérias, fungos, nematoides, vírus, viroides e micoplasmas deve ser feito por laboratório credenciado.
Padrão de qualidade das mudas certificadas
O enxerto e o porta-enxerto devem constituir uma haste única, ereta e vertical, tolerando-se um desvio de, no máximo, 15 graus. A diferença entre os diâmetros do enxerto e do porta-enxerto deve ser menor ou igual a 5 mm, medidos 5 cm acima e abaixo do ponto de enxertia para todas as cultivares, exceto de tangerineiras, quando a tolerância é de 1 cm. As mudas certificadas devem apresentar um diâmetro mínimo de 0,5 cm, 5 cm acima do ponto de enxertia, devendo a haste ser podada com 30 cm a 60 cm a partir do colo da planta (BRASIL, 2013).
As mudas devem apresentar sistema radicular bem desenvolvido, com raiz principal reta com pelo menos 20 cm de comprimento, sem raízes enoveladas, retorcidas ou quebradas. As mudas não devem apresentar ramos quebrados ou lascados, devendo possuir tecido amadurecido, ramos íntegros e corte cicatrizado do porta-enxerto (CESM, 1998). Tolera-se apenas 5% das mudas com raízes defeituosas (BRASIL, 2013); caso contrário, o lote deve ser condenado.
Após o recebimento de parecer favorável nas inspeções de pós-semeadura, pós-transplantio, pós-enxertia e de liberação, e das análises laboratoriais, a muda ou lote de mudas aprovados pela entidade certificadora receberão as etiquetas e o certificado de garantia, podendo ser comercializadas.
As mudas devem receber etiquetas, nas quais devem constar o nome e o número de registro do produtor, o endereço do viveiro e a identificação das cultivares porta-enxerto e copa utilizadas.
Armazenamento e transporte
As mudas certificadas poderão ser armazenadas fora do viveiro, em bancadas com altura mínima de 30 cm do solo, por um período não superior a 15 dias, devendo permanecer protegidas do ataque de insetos vetores em áreas de incidência de CVC e de tristeza (CESM, 1998).
Os caminhões utilizados para o transporte das mudas devem ser lavados e desinfestados com amônia quaternária antes do carregamento. Estes devem ser preferencialmente fechados ou cobertos com tela com malha antiafídica.
Controle de qualidade
Independentemente das inspeções oficiais, os viveiristas devem realizar um controle próprio para aprimorar a qualidade das mudas. É aconselhável a realização de inspeções visuais e de análises laboratoriais periódicas para os principais patógenos durante todo o processo de produção, para que, no caso de ser encontrado algum patógeno, o lote seja eliminado antes do final do ciclo e de forma a não contaminar os demais.
Para o diagnóstico de patógenos do gênero Phytophthora e de nematoides nocivos aos citros, deve-se amostrar pelo menos 10 mudas por lote de mil plantas. As amostras devem ser retiradas em fases distintas de desenvolvimento das mudas. Na primeira, antes do transplantio dos porta-enxertos, deve-se coletar amostras do substrato, que será utilizado no enchimento dos recipientes definitivos, e amostras de substrato e de radicelas dos tubetes onde se encontram os porta-enxertos prontos para transplantio. Caso seja detectado algum patógeno, o lote de substrato ou de porta-enxertos deve ser eliminado, evitando os custos de enchimento dos recipientes definitivos. Na fase final, 20 dias antes da expedição das mudas, devem-se coletar amostras de substrato e radicelas a uma profundidade de 20 cm do colo das plantas. Para isto, pode-se utilizar amostradores semelhantes aos utilizados para a amostragem de sementes ou de solo, porém de tamanho menor. Durante a coleta das amostras, deve-se evitar lesões nas radicelas, devendo o equipamento amostrador ser desinfestado com álcool hidratado a cada mudança de lote. O viveirista também pode realizar amostragens intermediárias caso deseje maior segurança.
Para o diagnóstico da bactéria Xylella fastidiosa, causadora da clorose variegada dos citros, devem ser amostrados lotes de mil plantas, coletando-se, no mínimo, 20 folhas de cada lote. Deve-se retirar uma folha por muda, escolhida aleatoriamente dentro do lote. Esta amostragem deve ser realizada somente na fase final de produção das mudas, sendo escolhidas as folhas maduras de coloração verde-oliva.
A realização de testes para o cancro cítrico e para a mancha-preta em laboratórios credenciados também é recomendada (BORGES et al., 2000), enquanto que para a bactéria causadora do HLB é obrigatória.