terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Manejo do Solo na Cultura da Manga



Manejo do Solo

O principal propósito do manejo do solo na cultura da mangueira é proporcionar alternativas de produção que infiram a sustentabilidade e que minimizem o impacto ambiental, aproveitando conhecimentos, experiências e recursos locais, tendo como base a reciclagem da matéria orgânica e as técnicas de produção compatíveis com o ambiente, utilizando-se os recursos naturais tais como água, solo, energia e biodiversidade como forma de garantir o equilíbrio biológico.
Para estabelecer um sistema de manejo, a proteção e uso do solo devem se basear, primeiramente, no seu potencial produtivo. Para um manejo adequado do solo é necessário considerar suas propriedades físicas (aeração, retenção de água, compactação, estruturação), químicas (reação do solo, disponibilidade de nutrientes e interações entre estes) e biológicas (teor de matéria orgânica, respiração, carbono e nitrogênio da biomassa microbiana, taxa de colonização e tipo de microrganismos).
Independentemente do tipo do sistema de produção de manga, é importante observar os aspectos edafoambientais (insolação, altitude, precipitação e distribuição das chuvas). No Submédio do Vale do São Francisco, o cultivo da mangueira é realizado em áreas irrigadas e o período de frutificação é determinado pelo uso de indutores florais. As técnicas de manejo da cultura são altamente especializadas.
Em relação aos aspectos edáficos é importante levar em consideração a granulometria, estrutura, densidade, teor de matéria orgânica, drenagem, impedimentos à mecanização e profundidade do solo.
Para o desenvolvimento da mangueira, a profundidade do solo (horizontes A + B) é de grande importância. Esta é a profundidade efetiva que consiste na camada do solo que vai ser explorado pelo sistema radicular, traduzindo-se em volume de solo com água e/ou nutrientes que as raízes da mangueira terão disponíveis. Aliando à profundidade do solo, o sistema radicular das plantas deve ter condições de explorá-lo, significando que se houver algum impedimento químico ou físico, as raízes não conseguem explorar satisfatoriamente esse substrato. Alguns impedimentos podem ser eliminados por meio do manejo adequado do solo como promover a subsolagem, quando este estiver compactado; calagem no caso de solos ácidos; incorporação de leguminosas, quando o teor de matéria orgânica estiver muito baixo; a drenagem, quando apresentar restrições relativas à presença de sais, etc.
Com ênfase no manejo ecológico, algumas medidas de condução da área podem ser adotadas, tais como uso de rochas naturais moídas como calcário e o fosfato natural para melhorar a fertilidade. Plantio e incorporação de leguminosas (coquetéis vegetais) que aumentem o teor de matéria orgânica, melhorando a estrutura do solo e, também, contribuindo para o aumento de cargas dependentes de pH. Vale ressaltar que, como nos solos do Submédio do Vale do São Francisco são, na maioria, cauliniticos/oxídicos, o aumento de cargas provenientes da incorporação de matéria orgânica pode resultar em aumento nos pontos de carga para a retenção/troca de nutrientes com o sistema radicular da mangueira. A ausência de pontos de carga faz com que os nutrientes adicionados ao solo sejam lixiviados a grandes profundidades, principalmente em solos de textura arenosa, como alguns que ocorrem no Submédio do Vale o São Francisco.
A mangueira cresce bem em qualquer solo, desde que não sejam encharcados, alcalinos, rochosos, extremamente rasos ou demasiado pobre. Adapta-se melhor em solos profundos, moderadamente férteis e bem drenados. Prospera igualmente bem em solos leves e pesados se as outras condições forem favoráveis.
De modo geral, as exigências edáficas para o cultivo da mangueira são solos de fertilidade e textura média, profundos e permeáveis. Entretanto, no Submédio do Vale do São Francisco solos de textura arenosa até muito argilosa são bastante explorados com a cultura, tais como Neossolos Quartzarênicos, Argissolos, Latossolos e Vertissolos. Entre estes, os solos ligeiramente ácidos e com pH variando de 5,5 a 6,8 são os mais interessantes.
As áreas de solos arenosos cultivados com manga têm apresentado produtividade elevada e permitido um manejo eficiente da irrigação. Além disso, requerem menor custo de implantação do pomar, por não apresentarem problemas de drenagem. No entanto, por causa da textura arenosa, necessitam da adição de matéria orgânica para aumentar a capacidade de retenção de água e nutrientes, bem como melhorar a estabilidade estrutural do solo. Os solos com impedimentos físicos, tais como adensamentos genéticos, caso dos Argissolos, comuns na região do Submédio do Vale do São Francisco, devem ser trabalhados (escarificações, subsolagem, etc.) na época de implantação do pomar, pois influenciam na distribuição e absorção de água e dos nutrientes.
Em área cultivada com mangueira, estudos demonstraram que houve aumento nos teores de Ca (62% a 130%), Mg (50% a 250%), K (37% a 90%) e P (200% a 433%) e nos valores de pH (4% a 29%), CTC (13% a 25%) e V (31% a 102%), e redução nos teores de Al (40% a 83%) nas três camadas em relação aos do solo virgem, em decorrência das calagens e adubações realizadas. Em relação à matéria orgânica, também houve acréscimos nos seus teores nas três camadas do solo, na área sob a copa (9% a 35%) e nas duas primeiras camadas do solo da área entre as filas de plantas (11% a 21%). A Ds diminuiu apenas nas duas primeiras camadas do solo da área entre as mangueiras.
Constata-se que, nas áreas sob a copa, os incrementos foram maiores que na área entre as linhas de plantas. A melhoria observada nas características do solo nesta área sinaliza o aproveitamento de todo o material proveniente da poda para fazer uma cobertura morta entre as filas de plantas do pomar ou compostar.
Nas áreas com mangueiras cultivadas sobre Neossolos Quartzarênicos, verifica-se que praticamente todas as características químicas foram melhoradas com o cultivo, evidenciando a capacidade dos Neossolos serem melhorados quanto à sua fertilidade com o cultivo sustentável, como é o caso da agricultura orgânica.

Seleção da área e preparo do solo

Levando-se em consideração as práticas agronômicas e a necessidade de escoamento da produção, as áreas onde serão implantados os pomares devem ser selecionadas considerando-se o relevo e as vias de acesso. No Submédio do Vale do São Francisco, em solos de textura arenosa, como os Neossolos Quartzarênicos, faz-se a limpeza da área por meio do destocamento e roçagem da vegetação, 3 a 4 meses antes do plantio, sem o uso da aração e da gradagem. Normalmente, são abertos berços que são adubados com fertilização química ou orgânica, onde são plantadas as mudas.
Após a limpeza, deve-se realizar uma amostragem do solo para a avaliação da fertilidade, que pode ser coletada na profundidade de 0-20 cm e 20-40 cm, ou ainda em maiores profundidades, quando necessário. Em solos de textura argilosa ou muito argilosa executa-se, após o destocamento e roçagem, a gradagem a uma profundidade variável de 20 cm a 30 cm, dependendo do tipo de disco utilizado. Nos solos que apresentam adensamento genético como no caso dos Argissolos do Submédio do Vale do São Francisco, pode-se realizar subsolagem para romper a camada adensada.
As operações de aração, gradagem leve e/ou pesada, ou qualquer outra com o objetivo de preparar o solo, deverão ser definidas em função das condições da área a ser preparada.
Aração - Caso seja necessário, fazer uma aração a uma profundidade de 30-40 cm, objetivando, principalmente, a incorporação dos restos culturais, rompimento da camada de impedimento, eliminação de ervas daninhas, entre outras.
Gradagem - É recomendada uma gradagem leve, gradagem pesada ou subsolagem. Após a aração, no caso de haver sido aplicado calcário, deve ser feita uma gradagem cruzada com a operação anterior (aração, gradagem pesada ou subsolagem).

Cobertura do solo e adubação verde

Outra prática que vem sendo estudada para a região é a utilização de várias espécies vegetais consorciadas entre as mangueiras. Essa mistura é conhecida como coquetel vegetal (leguminosas, gramíneas e oleaginosas) e tem a finalidade de servir como adubo verde e cobertura morta. As espécies vegetais são semeadas em conjunto (misturadas) e quando atingem o estádio de pleno florescimento são cortadas para a produção de material orgânico para manejo de solo.
Na tentativa de fornecer informações sobre as espécies vegetais que podem ser utilizadas para a cobertura do solo e adubação verde nos Perímetros Irrigados, a Embrapa Semiárido vem conduzindo, desde 2004, estudos com coquetéis vegetais para o manejo de solo em sistema de cultivo orgânico de manga (Figura 1). Os coquetéis vegetais são constituídos pelas seguintes espécies em diferentes proporções: leguminosas - calopogônio (Calopogonium mucunoide), Crotalaria junceaCrotalaria spectabilis, feijão-de-porco (Canavalia ensiformes (L.) DC.), guandu (Cajanus cajan L.), lab-lab (Dolichos lablab L.), mucuna-preta (Mucuna aterrima Piper & Tracy), mucuna-cinza (Mucuna conchinchinensis (Lour.) A. Chev.); não-leguminosas: gergelim (Sesamum indicum L.), girassol (Helianthus annuus L.), mamona (Ricinus communis L.), milheto (Penissetum americanum L.) e sorgo (Sorghum vulgare Pers.). Neste estudo, concluiu-se que todas as espécies estudadas apresentaram desenvolvimento vegetativo e nutricional favorável às condições ambientais do Semiárido.
Fotos: Petrere V. G.


Figura 1. Leguminosas cultivadas na entrelinha.
A utilização de coquetéis vegetais associados ao não revolvimento do solo pode ser uma estratégia de manejo de solo viável para o Semiárido brasileiro. Para monitorar a evolução dos sistemas de manejo, procura-se estabelecer indicadores de qualidade do solo. A matéria orgânica do solo, considerada como um dos indicadores de sua qualidade e, consequentemente, dos sistemas de manejo empregados, tem sido muito utilizada nos estudos desenvolvidos com o objetivo de avaliar, direta ou indiretamente, as condições químicas, biológicas e físicas do sistema solo. A matéria orgânica do solo é sensível às diferentes práticas de manejo agrícola.
Comprovando a melhoria da qualidade do solo em sistemas que empregam coquetéis vegetais, observou-se que a utilização destes nas entrelinhas da mangueira aumenta teor de matéria orgânica, nitrogênio e fósforo, além de diminuir a densidade e a resistência à penetração das raízes. Essas alterações podem se deslocar em profundidade promovendo melhorias nas características físicas químicas e biológicas do solo.
A utilização de compostos orgânicos na adubação da cultura da mangueira também pode trazer benefícios nas características físicas, químicas e biológicas do solo. O composto orgânico é o produto final da decomposição aeróbia de resíduos vegetais e animais. Para a produção do composto, utiliza-se uma fonte de matéria-prima rica em carbono (resto de poda de mangueira, capins, bagaço de coco e outros) e uma outra fonte rica em nitrogênio como estercos de animais (caprinos, ovinos e bovinos) e restos de leguminosas.
O processo de compostagem permite a ciclagem desses resíduos e sua desinfecção contra insetos, fungos, bactérias, plantas espontâneas e compostos indesejáveis. A escolha da combinação das matérias-primas é importante para a maior eficiência da compostagem. A relação carbono/nitrogênio (C/N) inicial ótima é de 25-35:1 e pode ser atingida por meio do uso aproximado de 75% de restos vegetais variados e 25% de esterco. Esses resíduos, vegetais e animais, são dispostos em camadas alternadas formando uma leira ou monte de dimensões e formatos variados (Figura 2). O composto orgânico altera as propriedades físicas, químicas e biológicas do solo, fornecendo nutrientes e carbono mais estabilizado. O composto pode ser feito com diferentes matérias-primas, porém, após estabilizado, deve-se fazer uma análise química, utilizando-se como extratores água e ácido, e, assim, verificar as concentrações de nutrientes prontamente e potencialmente disponíveis.
Na formação dos berços para receber as mudas de mangueira podem ser adicionados até 5 L de composto. Após o plantio, distribui-se o composto na área correspondente à projeção da copa de acordo com a recomendação do programa de adubação.
Foto: Petrere V. G.
Figura 2. Elaboração da pilha de composto.



sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Clima para a Mangueira (Manga)


Exigências climáticas

A manga é reconhecida como o fruto fresco mais consumido em todo o mundo. As árvores com menos de 10 anos de idade podem florescer e frutificar regularmente a cada ano. O florescimento é fortemente afetado pelo clima. A umidade do ar estimula o desenvolvimento das flores, e as chuvas são desfavoráveis nesta fase. Portanto, um período seco durante o ano é essencial para o sucesso dos pomares em cultivo comercial. A melhor condição de umidade, para condições de sequeiro, se verifica em áreas com índices pluviométricos entre 750 mm e 2.500 mm durante um período relativamente curto de 4 meses, seguidos de 8 meses sem chuvas.
As regiões áridas e semiáridas são favoráveis ao cultivo da mangueira irrigada, principalmente por proporcionarem a exposição dos frutos a elevados níveis de radiação solar, deixando-os com coloração intensa e relativamente livres de doenças. Porém, embora esta radiação absorvida pela folhagem favoreça o crescimento vegetativo, as folhas situadas no interior do dossel recebem baixos níveis, reduzindo a disponibilidade de carboidratos, afetando o desenvolvimento dos frutos e a produção final. Dessa forma, a prática da poda torna-se um trato cultural de grande importância e pode ser realizada de acordo com a localização do pomar e a necessidade de penetração de luz no interior do dossel.
Tanto a temperatura do ar como a velocidade do vento são importantes no processo da evapotranspiração. O ar quente próximo à superfície rugosa da folhagem transfere energia, aumentando o fluxo do vapor d’água dos pomares para a atmosfera. Desta forma, o consumo hídrico da cultura depende, em grande parte, da turbulência do ar, que, por sua vez, é afetada pela rugosidade das árvores altas e da arquitetura das mesmas. Fortes ventos durante a frutificação causam a queda prematura de frutos.
A temperatura do ar também é importante na fotossíntese, atuando em enzimas responsáveis pelas reações bioquímicas. A faixa térmica considerada ideal para este processo varia de 24 ºC a 30 ºC. Valores acima de 48 ºC são prejudiciais à produtividade. Baixos valores são também desfavoráveis e, quando estão próximos de 0 ºC, podem ocorrer danos severos e até a morte de plantas. A produção de matéria seca é afetada por baixos valores de temperatura, pois resultam em redução das copas. Ar muito frio ou muito quente é desfavorável para a formação do grão de pólen, afetando a polinização e, consequentemente, a produção de frutos pequenos, sem valor comercial.
A umidade do ar é também importante, pois altos valores são favoráveis à ocorrência de doenças fúngicas, e quando são associados com temperaturas do ar também elevadas, a produção de mangas é afetada. Os valores baixos da umidade do ar favorecem o processo de transferência de água para a atmosfera quando a cultura está sob boas condições de umidade do solo.
Pomares de mangueiras em regiões semiáridas são cultivados sob baixos índices pluviométricos e alta demanda evapotranspiratória, tornando a irrigação necessária à produção comercial. Os cultivos irrigados consomem uma grande quantidade de água; uma consequência dos altos níveis de radiação solar. As plantas são resistentes a baixos níveis de umidade do solo, porque o sistema radicular atinge grandes profundidades. Entretanto, mesmo com a capacidade de sobreviver a 8 meses sem chuvas em condições de sequeiro, a existência de um longo período de estiagem sem ocorrência de ascensão capilar pode causar estresse hídrico, afetando a produtividade da mangueira.

Potencial agroclimático da região semiárida do Submédio do Vale do São Francisco para o cultivo da mangueira

Condições ideais de clima para a exploração comercial da mangueira sob irrigação são encontradas na região semiárida do Submédio do Vale do São Francisco, onde os pomares são extensivamente cultivados. Sistemas de irrigação localizada, como os sistemas por microaspersão e gotejamento fornecem a flexibilidade adequada para o atendimento aos requerimentos hídricos da cultura.
Na Figura 1, são apresentados o comportamento médio da radiação solar global (RG), temperatura do ar (Ta), umidade relativa do ar (UR), velocidade do vento (V) nos polos produtores de mangas de Petrolina, PE e Juazeiro, BA, da região semiárida do Submédio do Vale do São Francisco.
Os maiores valores de RG são registrados no mês de outubro, com valores em torno de 21 MJ m-2 dia-1, enquanto os menores ocorrem no mês de junho, em torno de 14,5 MJ m-2 dia-1; em Petrolina, PE. Em juazeiro, BA, os valores são ligeiramente mais elevados por causa da maior nebulosidade.


Figura 1. Variações médias mensais: radiação solar global (RG), temperatura do ar (Ta), umidade relativa do ar (UR) e velocidade do vento (V) nos polos produtores de mangas de Petrolina, PE e Juazeiro, BA, durante o período de 1965 a 2008.
Com relação à Ta, em Petrolina, PE, as normais mensais variam de 23,8 ºC a 27,8 ºC e, em Juazeiro, BA, de 24,3 ºC a 28,5 ºC. Constata-se uma pequena variabilidade ao longo do ano, decorrente da proximidade da região ao Equador terrestre, sendo julho o mês mais frio e novembro, o mês mais quente. Os meses mais úmidos correspondem àqueles do período chuvoso. Nesse período, em Petrolina, PE, a UR varia, em média, de 68% a 73%, e em Juazeiro, BA, de 64% a 67%. Menores valores são encontrados nos meses de setembro a novembro, com médias de 58% em Petrolina, PE e 56% em Juazeiro, BA, para este trimestre mais quente do ano. O mês mais úmido é o de abril, que corresponde ao fim do período chuvoso, e os mais secos são outubro e novembro, correspondendo ao final do período com pouca ou nenhuma chuva.
Os valores mais elevados da velocidade do vento (V) ocorrem no período seco, entre os meses de agosto e outubro, em torno de 3 m s-1 em Petrolina, PE e 3,2 m s-1 em Juazeiro, BA. Os menores valores são observados no período chuvoso (janeiro a abril), apresentando médias de 1,7 m s-1 e 1,9 m s-1, em Petrolina, PE, e Juazeiro, BA, respectivamente.

Utilização de parâmetros agrometeorológicos para quantificar o consumo hídrico em pomares de mangueira

Para o manejo racional da irrigação, a utilização de parâmetros agrometeorológicos na determinação dos requerimentos hídricos apresenta-se como uma ferramenta crucial para os produtores de manga.
O processo físico no qual a água é transferida do pomar de mangueira para a atmosfera se refere à evapotranspiração atual da cultura (ET). Este fluxo ocorre através dos estômatos como transpiração (T) e diretamente da superfície do solo como evaporação (E). A maior parte da água extraída do solo pelas raízes é transferida por T. Os estádios fenológicos, as condições ambientais, o manejo cultural e os sistemas de irrigação devem ser considerados quando se acessa as proporções de T e E.
Considerando-se a aplicação de métodos agrometeorológicos na cultura da mangueira irrigada, devem ser feitas distinções entre a evapotranspiração de referência (ETo), a evapotranspiração potencial (ETP) e a ET. A ETo é a taxa evapotranspiratória de uma superfície de referência, geralmente a de um gramado, com características específicas, sem deficiência hídrica. A ETP pode ser definida como o fluxo de água dos pomares cultivados em áreas grandes com ótimas condições de umidade do solo, excelente manejo e condições ambientais, atingindo ótimas produções de manga para uma dada condição climática. Já a ET envolve todas as situações do pomar. Por causa das condições reais de manejo em que normalmente se encontram os cultivos, considerando-se todas as fases fenológicas, a ET é geralmente inferior à ETP.
Os elementos representativos do balanço hídrico nos polos produtores de manga Petrolina, PE, e Juazeiro, BA, na região do Submédio do Vale do São Francisco são apresentados na Figura 2. Estes parâmetros são muito importantes para a estimativa do requerimento hídrico no manejo e dimensionamento dos sistemas de irrigação.

Figura 2. Médias dos totais mensais de precipitação (P) e das médias diárias de evapotranspiração de referência calculada pelo método de Penman-Monteith (ET0) nos polos produtores de mangas de Petrolina, PE e Juazeiro, BA, durante o período de 1965 a 2008.


A precipitação pluvial é o parâmetro meteorológico de maior variabilidade espacial e temporal na região semiárida do Brasil. Nos últimos 40 anos, em Petrolina, PE, o total anual médio é da ordem de 550 mm, enquanto em Juazeiro, BA, é de 540 mm. O período chuvoso concentra-se entre os meses de novembro e abril, com 90% do total anual. A quadra chuvosa, de janeiro a abril, contribui com 68% deste total, destacando-se o mês de março e o de agosto como o mais e o menos chuvoso, com totais médios na ordem de 128 mm e 4 mm, em Petrolina, PE, e de 133 mm e 2 mm em Juazeiro, BA, respectivamente.
A ET0 apresenta totais anuais médios de 1.660 mm e 1.640 mm em Petrolina, PE, e Juazeiro, BA, respectivamente, sendo a variação ao longo do ano similar à da radiação solar global. Os meses de maior demanda atmosférica coincidem com aqueles mais secos em ambos os polos produtores de mangas. Pela magnitude dos parâmetros hídricos apresentados na Figura 2, percebe-se a necessidade da irrigação para suprir a deficiência hídrica nos períodos secos do ano. Para o manejo racional da irrigação, há a necessidade de se estimar a ET ao longo dos estádios fenológicos dos mangueirais, tanto pelos problemas das deficiências hídricas como dos excessos de aplicação de água.
A capacidade de se estimar a ET por meios agrometeorológicos é de extrema importância para o manejo de água na cultura da mangueira, bem como dos recursos hídricos em geral, quando se considera uma bacia hidrográfica com demanda de grande quantidade de pomares irrigados, pois esta estimativa descreve o consumo desses pomares que substituem a vegetação natural da bacia. O conhecimento do consumo hídrico é uma informação essencial para o planejamento da irrigação, para o regulamento dos direitos hídricos, alocação de água e estudos hidrológicos.
Parâmetros agrometeorológicos, características dos pomares, manejo e aspectos ambientais são fatores que afetam a ET, além da cobertura do solo, da densidade dos plantios, da arquitetura das árvores, do microclima e da umidade do solo. As práticas culturais e o tipo de irrigação podem alterar o microclima, afetando as proporções de T e E. De um lado, o efeito da umidade do solo se manifesta principalmente pelo deficit hídrico e tipo de solo. Por outro lado, muita água resulta em solo encharcado que pode danificar as raízes e limitar o fluxo hídrico pela inibição da respiração.
Pelo fato de a mangueira possuir raízes profundas, as medições de ET por lisímetros de pesagem ou pelo balanço hídrico no solo são difíceis de serem realizadas. Com a utilização destes métodos, há consideráveis incertezas relacionadas com as medições da profundidade de solo envolvida na retirada da água pelas raízes, na percolação, no escoamento superficial e na ascensão capilar.
As medições separadas de T e E compondo a ET da mangueira, podem ser realizadas por diferentes métodos, todos eles apresentando vantagens e desvantagens. Os métodos agrometeorológicos para as medições de ET baseados no balanço de energia não têm estas limitações e associados a dados de evapotranspiração de referência, geram os valores de coeficiente de cultivo (Kc).
O Kc médio da mangueira foi de 0,91. Considerando-se a Figura 2 e um ciclo de 1 ano, e os valores médios anuais de ETo, tem-se um consumo hídrico anual médio de 1.500 mm em Petrolina, PE, e 1.490 mm em Juazeiro, BA (Kc x ET0). Os valores médios de Kc foram relacionados com os graus-dia (temperatura basal: Tb = 10 ºC) para o mesmo período (Figura 3), incorporando-se, assim, os efeitos da temperatura do ar nos diferentes estágios do ciclo produtivo dos pomares de mangueira. Esta relação torna-se importante na estimativa do consumo hídrico, visto que os efeitos do aquecimento térmico decorrentes das mudanças climáticas estão alterando o comportamento das fases fenológicas da cultura na região. Alguns estudos sobre os impactos das mudanças climáticas no Semiárido, segundo os cenários do Relatório do Painel Intergovernamental em Mudanças Climáticas (IPCC) indicam que a temperatura pode aumentar de 2 ºC a 5 ºC no Nordeste até o final do século 21. Reduções de 10-15% nas precipitações também estão previstas para as próximas décadas.

Figura 3. Variação estacional das médias diárias do coeficiente de cultura (Kc) da mangueira (Mangifera indica L), cv. Tommy Atkins, como uma função dos graus-dia (GD) em Petrolina, PE, Brasil.
Considerando-se os polos produtores de manga Petrolina, PE, e Juazeiro, BA, o primeiro apresenta, em média, maior consumo hídrico pelos pomares como consequência de maiores taxas de evapotranspiração decorrentes da radiação solar mais elevada ao longo do ano, o que deve ser levado em consideração nas possíveis condições de restrição de água no futuro em que se almeja uma eficiência do uso da água.

Um dos maiores problemas das regiões semi-áridas é a irregularidade das chuvas, aliada à ocorrência de temperaturas elevadas, ocasionando grandes taxas de deficiência hídrica. O clima da região que compreende o pólo Petrolina-PE/Juazeiro-BA é do tipo BSwh’, segundo a classificação de Köeppen. Abaixo são apresentados os parâmetros climáticos considerados importantes para o cultivo comercial da cultura da mangueira.

Radiação solar

A radiação solar absorvida pela cultura da mangueira, interfere no seu ciclo vegetativo e no período de desenvolvimento do fruto, sendo de grande importância para o crescimento, floração e frutificação, daí a importância do manejo cultural, principalmente, em plantios muito adensados. Em decorrência do hábito de crescimento vigoroso da árvore, existe, geralmente, uma porcentagem relativamente alta de folhas sombreadas, em comparação com folhas ensolaradas. Dessa forma, grande parte das folhas localizadas no interior da copa recebe baixos níveis de luz, diminuindo a disponibilidade de carboidratos provocando, consequentemente, reduções no crescimento e produção. Uma maior penetração da luz na copa, como resultado da realização da poda, pode provocar um aumento significativo na produção e melhoria na coloração dos frutos. Uma maior intensidade de radiação solar incidente promove maiores teores de açúcar e de ácido ascórbico nos frutos. O aumento da quantidade desse ácido tem sido observado em frutos de várias espécies vegetais, expostos diretamente à luz do Sol, durante os estágios de desenvolvimento, e em plantas que crescem sob altas intensidades de radiação solar.

Temperatura do ar

A temperatura do ar atua no processo de evapotranspiração, devido ao fato de que a radiação solar absorvida pela atmosfera e o calor emitido pela superfície cultivada, elevam a temperatura do ar. O ar aquecido próximo às plantas, transfere energia para a cultura na forma de fluxo de calor sensível, aumentando as taxas evapotranspiratórias. Além disso, a temperatura interfere na atividade fotossintética das plantas, por que este fenômeno envolve reações bioquímicas, cujos catalisadores, as enzimas, são dependentes da temperatura para expressar sua atividade máxima. A faixa de temperatura considerada ideal para o cultivo da mangueira situa-se entre 24ºC a 30ºC, sendo que valores acima de 48ºC limitam a produção. Valores baixos também são limitantes e quando próximos a 0ºC por poucas horas, provocam danos severos ou morte das plantas. A distribuição de matéria seca na mangueira é também influenciada pela temperatura. A partição de matéria seca para as raízes é maior sob condições de baixa temperatura, resultando na redução do crescimento da parte aérea. Com o aumento da temperatura, a parte aérea é mais favorecida, culminando em maior crescimento dos ramos e das folhas. A temperatura  influencia de forma significativa a seqüência do desenvolvimento das gemas da mangueira. Na região do Vale do Rio São Francisco, tem sido observado que temperaturas dia/noite de 30oC/25oC, estimulam o crescimento vegetativo, enquanto a combinação 28oC/18oC, que ocorre com mais freqüência entre os meses de maio a agosto promove intensa floração. A frutificação e o pegamento dos frutos também são afetados pela temperatura. Temperaturas  muito baixas ou elevadas prejudicam a formação do grão de pólen, reduzindo sua viabilidade, alem de provocar,  altas taxas de partenocarpia (frutos que se desenvolvem sem o embrião), originando frutos pequenos e sem valor comercial.
De maneira geral, não havendo excesso de precipitação pluvial, quanto mais elevada for a temperatura da região, dentro dos limites críticos de cultivo, maior será a concentração de açúcar e menor a acidez  nos frutos, favorecendo a qualidade. 

Umidade do ar

A umidade do ar durante o ciclo da cultura da mangueira é muito importante, por favorecer o surgimento de doenças fúngicas. Quando altos valores de umidade relativa estão associados a temperaturas elevadas, ocorre uma maior incidência dessas doenças, provocando danos econômicos, podendo, inclusive, inviabilizar a produção comercial de frutos. A concentração de vapor d’água da atmosfera também condiciona a perda de água pelas plantas e consequentemente, o processo de evapotranspiração. A diferença entre a pressão do vapor d’água, entre a cultura e o ar vizinho, é um fator determinante para esse processo. Assim, cultivos bem irrigados em regiões semi-áridas, como no caso do Submédio São Francisco, consomem grandes quantidades de água, em virtude da abundância de energia solar e do poder dissecante da atmosfera. Em regiões úmidas, a elevada umidade do ar reduz a demanda evapotranspiratória. Em tais circunstâncias, o ar encontra-se próximo ao ponto de saturação, causando, portanto, um menor consumo hídrico da cultura do que nas regiões áridas. 

Velocidade do vento

Existem poucos estudos com relação ao efeito do vento sobre o comportamento da mangueira no Vale do Rio São Francisco, existindo divergências quanto ao efeito sobre o crescimento das plantas, produção e da importância da utilização de quebra ventos. A velocidade do vento é outro parâmetro importante no processo de evapotranspiração. A remoção do vapor d’água depende, em grande parte, do vento e da turbulência do ar. Nesse processo, o ar acima da cultura vai se tornando gradativamente saturado com vapor d’água e se não há reposição de ar seco, a evapotranspiração da cultura decresce.

Precipitação pluviométrica

Em termos de exigências hídricas, a mangueira é muito resistente à seca, graças ao seu sistema radicular que é capaz de atingir grandes profundidades, sobrevivendo até 8 meses sem chuvas, nas regiões onde não é irrigada. As regiões de cultivo incluem áreas onde a ocorrência de baixas precipitações e alta demanda evapotranspiratória, impõem o fornecimento de água através da irrigação. Nessas condições, mesmo irrigada, a mangueira sofre um certo grau de estresse hídrico. O excesso de chuvas, por outro lado, combinado com temperaturas elevadas, torna a cultura muito suscetível a doenças fúngicas e pragas, sendo conveniente que não ocorram precipitações durante todo o período vegetativo. A cultura porém apresenta tolerância à iinundação. Um período seco precedendo o florescimento favorece a produção, porém, a cultura requer umidade edáfica  do início da frutificação à maturação, o que também influencia na promoção de novo crescimento vegetativo. Portanto, em regiões com baixas taxas de precipitações pluviométricas é recomendável a irrigação com base nos requerimentos de água da cultura. 

Potencial climático da região do submédio São Francisco

Nas Figuras 1 a 5 é apresentado o comportamento climático do pólo produtor de manga Petrolina-Juazeiro.  Os maiores valores de radiação solar global são registrados no mês de outubro, com  528 cal/cm2/dia e 495 cal/cm2/dia para Petrolina e Juazeiro, respectivamente. Os menores valores são registrados no mês de junho, com 363 cal/cm2/dia e 351 cal/cm2/dia em Petrolina e Juazeiro, respectivamente (Fig. 1). 
Com relação à temperatura do ar, em Petrolina, as normais mensais apresentam variações médias de 24,2ºC a 28,2ºC e em Juazeiro de 24,5ºC a 28,6ºC. Constata-se uma pequena variabilidade interanual, devida à proximidade da região em relação ao equador terrestre,  sendo julho o mês mais frio e  novembro o mês mais quente do ano (Fig. 2).Os meses mais úmidos correspondem àqueles do período chuvoso. Nesse período, em Petrolina a umidade relativa do ar varia em média de 66% a 71,5% e em Juazeiro de 61% a 65%.  Menores valores acontecem nos meses de setembro e outubro, abaixo de 55% em Petrolina e de 51,5% em Juazeiro, coincidindo com os meses mais quentes do ano. Nestes locais o mês mais úmido é o de abril que corresponde ao fim do período chuvoso e, o mais seco é o de outubro, correspondendo ao final do período seco (Fig. 3).A Figura 4 mostra o comportamento médio anual da velocidade do vento a 2,0 m de altura em relação à superfície do solo. Os valores mais elevados ocorrem no período seco, entre os meses de agosto a outubro, chegando a 256 km/dia em Petrolina e 300 km/dia em Juazeiro, no mês de setembro. Os menores valores ocorrem no período chuvoso apresentando valores médios de 139 km/dia e 164,3 km/dia respectivamente em Petrolina e Juazeiro. 
A precipitação pluvial, apresentada na Figura 5, é o elemento meteorológico de maior variabilidade espacial e temporal. Nos últimos 30 anos, em Petrolina, o total anual médio é da ordem de 567 mm, enquanto que em Juazeiro é de 542 mm . O período chuvoso concentra-se entre os meses de novembro e abril, com 90% do total anual. A quadra chuvosa, de janeiro a abril, contribui com 68% do total anual, destacando-se o mês de março e o de agosto como o mais e o menos  chuvoso,  com totais médios de 136,2 mm e 4,8 mm, respectivamente, em Petrolina e de 139,6 mm e 1,7 mm   em Juazeiro.

 
Fig. 1. Radiação solar global em Bebedouro - Petrolina-PE(Rbeb) e Mandacaru - Juazeiro-BA (Rmand).

Fig. 2. Temperatura média do ar em Bebedouro - Petrolina-PE (Rbeb) e Mandacaru - Juazeiro-BA (Rmand).


Fig. 3. Umidade relativa média do ar em Bebedouro - Petrolina-PE (Rbeb) (URbeb) e Mandacaru - Juazeiro-BA (URmand).



Fig. 4. Velocidade média do vento  (2m) em Bebedouro - Petrolina-PE (Vbeb) e Mandacaru - Juazeiro-BA (Vmand)


 
Fig. 5. Precipitação pluviométrica em Bebedouro (Pbeb) e Mandacaru (Pmand).





terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Cultivo da Mangueira (Manga)



A mangicultura irrigada no Semiárido brasileiro responde por 77% da produção de mangas do Brasil e por mais de 90% da exportação nacional da fruta. É importante mencionar que o potencial de aumento para as exportações de manga do País, nos próximos 10 anos, é estimado em 80%, segundo estudos recentes do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Socioeconomia

Introdução

A exploração da manga no Brasil, historicamente, foi feita em moldes extensivos, sendo comum o plantio em áreas esparsas, nos quintais e fundos de vales das pequenas propriedades, formando bosques subespontâneos, e tradicionalmente cultivados nas diversas localidades. O cultivo da mangueira no Brasil pode ser dividido em duas fases: a primeira, com os plantios de forma extensiva, com variedades locais e poucas tecnologias; e a segunda caracterizada pelo elevado nível tecnológico como irrigação, indução floral e uso variedades melhoradas.
A expansão da mangicultura ocorreu inicialmente no Estado de São Paulo, de onde foram difundidas as novas variedades para o restante do País, e nos polos de agricultura irrigada do Nordeste, onde a incorporação de plantios tecnificados, principalmente no Vale do Submédio do Vale do São Francisco (Bahia, Pernambuco) e outras áreas irrigadas como as dos vales do Jaguaribe, Açu-Mossoró, Parnaíba e Platô de Neópolis (Ceará, Rio Grande do Norte, Piauí e Sergipe, respectivamente), além da região do Norte de Minas Gerais. Portanto, é na região semiárida onde foram instalados vários empreendimentos, com plantios comerciais de variedades demandadas pelo mercado externo. Em todas essas áreas, o cultivo da manga chamada “tipo exportação” entrou em fase de franca expansão, tendo como base as cultivares Tommy Atkins, Palmer, Kent, Haden, Keitt, entre outras.
A mangicultura na região semiárida se destaca no cenário nacional, não apenas pela expansão da área cultivada e do volume de produção, mas, principalmente, pelos altos rendimentos alcançados e qualidade da manga produzida. Seguindo as tendências de consumo do mercado mundial de suprimento de frutas frescas, os agricultores da região focam, atualmente, a produção de manga de acordo com as normas de controle de segurança preconizadas pelas legislações nacional e internacional.
Os atuais requerimentos dos mercados impõem um novo padrão de qualidade dos alimentos. Assim, os fornecedores estão considerando, cada vez mais, a preocupação dos consumidores com a procedência dos produtos, o que engloba formas de produção e certificação, além de aspectos como ética e responsabilidade social e ambiental. Nesse sentido, há uma tendência para o crescimento da produção de manga certificada e de regulação da cadeia de produção.

O cultivo da manga no Brasil e no Semiárido

No Brasil, a manga é cultivada em todas as regiões fisiográficas. O processo de expansão dessa cultura no País se intensificou nos anos 1980 e 1990, continuando a partir dos anos 2000, entretanto, em um ritmo bem menor que nas décadas anteriores, com alguns anos, inclusive, apontando decremento de produção.
Na Tabela 1 observa-se o desempenho da mangicultura no País entre os anos 2004 e 2013, e verifica-se que o incremento da área colhida é atribuído ao crescimento da cultura na região Nordeste. No período em questão, as demais regiões apresentaram redução da área colhida, notadamente o Norte e o Centro-Oeste, enquanto no Nordeste foi observado um crescimento de, aproximadamente, 21,5% (IBGE, 2014).
Quanto ao desempenho produtivo da mangicultura no Nordeste, ainda é importante ressaltar que a mesma é realizada em todos os estados da região, principalmente em áreas irrigadas do Semiárido, que apresentam excelentes condições para o desenvolvimento da cultura e a obtenção de elevada produtividade e qualidade de frutos. As principais áreas produtoras de manga estão localizadas nos estados da Bahia e Pernambuco que, em conjunto, respondem por mais de 72% da área cultivada de manga na região Nordeste.
A produção brasileira de manga, segundo os dados da Produção Agrícola Municipal (PAM), do IBGE, apresentou um crescimento da produção da ordem de 9,50% no período de 2004 a 2013. De 2004, ano em que foram colhidas 949.610 toneladas de manga, até 2007, houve tendência crescente de aumento de produção dessa fruta no País. Entretanto, em 2008, a produção brasileira de manga sofreu um recuo da ordem 9,2% e entre 2009 até 2010, um período de estagnação da oferta, que somente voltou a registrar resultados crescentes em 2011. No ano de 2012, a produção sofreu um pequeno declínio e, em 2013, já se observa um leve crescimento da quantidade colhida e comercializada dessa fruta (IBGE, 2014).
No Nordeste, destacam-se duas áreas produtoras, a Mesorregião do Sudoeste Baiano, onde fica o Município de Livramento do Brumado, e o Submédio do Vale do São Francisco, onde estão localizados os municípios de Petrolina, em Pernambuco, e Juazeiro, na Bahia. A última é considerada o mais importante polo de produção de frutas irrigada no Brasil, onde a manga é a mais importante cultura em termos de área cultivada, com grande parte da produção voltada ao mercado externo e ao interno mais exigente. Favorecida pela potencialidade dos recursos naturais e pelos investimentos públicos e privados nos projetos de irrigação, nessa região houve uma grande expansão no plantio e na produção de manga. Para se ter uma ideia do bom desempenho produtivo da mangicultura no Submédio do Vale do São Francisco, basta observar que, no período de 2004 a 2013, tanto em área de produção quanto em volume comercializado de fruto, essa zona de produção registrou um comportamento muito superior ao observado no País, com a área colhida apresentando um incremento de 49% e a quantidade de fruto comercializado um aumento de 70%.

A importância econômica e social do cultivo da mangueira no Submédio do Vale do São Francisco

A cultura da manga tem especial importância econômica e social, uma vez que envolve um grande volume anual de negócios voltados para os mercados interno e externo e se destaca entre as culturas irrigadas da região como a que, embora não apresente um elevado coeficiente de geração de empregos diretos, quando comparado com outras fruteiras, confere oportunidades de ocupação que se traduzem em empregos indiretos.
Das frutas produzidas no Submédio do Vale do São Francisco, a manga e a uva são as mais exportadas. O volume das exportações proporcionado pela mangicultura nessa região, no ano de 2013, foi da ordem de 115.044 toneladas, envolvendo cerca de 130 milhões de dólares que correspondem, respectivamente, a 94% e 89% do volume e do valor das exportações brasileira de manga (Tabela 3).
A especialização da região na produção de manga teve seu impulso inicial na perspectiva de ocupação do mercado externo, mas o mercado nacional ainda absorve a maior parcela da produção. O crescimento do mercado externo da manga não acompanhou o ritmo da rápida expansão das áreas cultivadas e o consequente crescimento da produção, com reflexo direto sobre a evolução dos seus preços no mercado internacional. A existência de um mercado interno de grande dimensão confere ao setor uma relativa autonomia na organização do processo de produção.
A complementaridade do mercado doméstico tem uma grande importância para as atividades exportadoras, seja como amortizador das instabilidades do mercado internacional, seja absorvendo os produtos que não atendem aos critérios de qualidade exigidos pelo mercado externo. Além da função complementar ao mercado externo, determinando, inclusive, a economia de escala que a atividade exportadora exige, estima-se que o mercado interno absorveu cerca de 1 milhão de toneladas de manga, cifra que corresponde a aproximadamente 60 % da produção do Submédio do Vale do São Francisco em 2013.
A produção de manga voltada para o mercado de produtos de qualidade passa a exigir, cada vez mais, novas tecnologias, mão de obra qualificada e serviços especializados, tanto no processo produtivo, quanto nas atividades pós-colheita (embalagem, empacotamento e classificação). Todo esse processo tem sido acompanhado por mudanças caracterizadas por um conjunto de inovações, na organização da produção e do trabalho, dando origem às diversas formas de relações contratuais, que se manifestam sob forma de prestação de serviços. Esta dinâmica passou a envolver um grande contingente de trabalhadores qualificados, um número significativo de técnicos e firmas, entre outros profissionais especializados, vinculados a essas empresas ou prestando serviços por conta própria. Trata-se de novos atores sociais, que ao lado dos fruticultores, devem ser considerados como essenciais ao setor produtivo.
Cabe ressaltar que a mangueira é cultivada por diferentes estratos de produtores, com uma participação significativa dos pequenos fruticultores dos projetos públicos de irrigação, que plantam as cultivares do “tipo exportação”, com grande capacidade de abastecimento do mercado doméstico e baixo potencial de inserção no mercado externo.
A participação da pequena produção na cadeia produtiva da manga está intimamente relacionada ao abastecimento doméstico e à construção e ampliação de um circuito regional de produção-distribuição-consumo de frutas, ligado ao pequeno varejo tradicional das feiras e quitandas das cidades do Nordeste e Norte do País. Trata-se de um circuito regido por acordos e contratos informais, que se desenvolve paralelamente aos formados por estruturas integradas, organizados em redes de caráter nacional, patrocinados pelas grandes empresas produtoras de frutas, cooperativas, atacadistas, quase sempre pautados em relações contratuais bem definidas, entre esses distintos agentes das cadeias produtivas.
No Submédio do Vale do São Francisco, de acordo com os dados do IBGE (2009), 75% dos estabelecimentos que declararam cultivar manga possuem áreas com até cinco 5 hectares e respondem por apenas 19,7% da produção. Aqueles que declararam produzir manga com área acima 20 hectares, representam apenas 6,7% dos estabelecimentos e são responsáveis por mais de 60% da produção. Portanto, são as médias e grandes empresas, com melhor inserção nos mercados nacional e internacional, que se lançam nos novos empreendimentos e dominam a produção de manga nesse território.

Organização e coordenação setorial

A organização dos interesses privados nos complexos de frutas tropicais do Nordeste exerceu um papel importante na construção de mecanismos de governança para solucionar alguns problemas do setor e para melhorar as condições de barganha de seus representados frente aos principais agentes que coordenam e regulam a cadeia de frutas frescas, principalmente, no mercado internacional.
Por sua capacidade de se articular com o Estado, participar e manter uma rede de relações com instituições dos setores públicos e privados, associações como Valexport, Profrutas, Sindifrutas, Associação dos Concessionários do Distrito de Irrigação Platô de Neópolis, constituídas nos principais polos frutícolas da região, passaram a ocupar espaços estratégicos nos campos políticos e de negócios, exercendo um papel importante de coordenação e organização dos interesses locais do setor.
A estratégia de organização dos interesses e de governança setorial sempre foi predominantemente voltada para a exportação, envolvendo um número reduzido de grandes produtores e empresários. Entretanto, recentemente, foi observado o surgimento de um grande número de pequenos e médios fruticultores profissionalizados que, além de cumprirem um papel significativo no abastecimento do mercado interno passaram a lutar por espaço no mercado externo. Com esses fruticultores, surgem novas formas de organizações em torno dos galpões de embalagem (packing house), que despontam como novas forças sociais no complexo frutícola do Nordeste.
Embora esses grupos nem sempre consigam desenvolver uma estrutura formal e sólida de representação de interesses, eles prestam relevantes serviços aos produtores associados, facilitando o acesso às inovações tecnológicas, às informações de mercado e às estruturas de comercialização. Trata-se de iniciativas que começam a tomar corpo na região, cumprindo de forma eficaz as funções comerciais e, também, se estruturando como verdadeiras redes de cooperação sociotécnica. Pressionados pela necessidade de obter escala de produção em épocas bem definidas, para cumprir os contratos com os compradores, a concorrência entre os produtores associados dão lugar ao espírito de cooperação e integração, pelo intercâmbio permanente de informações técnica e comercial.
Entre as estratégias comerciais para atender as novas exigências de mercado e agregação de valor ao produto, um procedimento importante é a consolidação das marcas nos mercados externo e interno. Nesse contexto, a aprovação do pedido de Indicação de Procedência (IP) para o Submédio do Vale do São Francisco para empresas e agricultores filiados à União das Associações e Cooperativas dos Produtores de Manga e Uvas Finas de Mesa, pelo Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI), representou uma importante conquista para os produtores do Polo Petrolina-Juazeiro. A IP valoriza o vínculo da qualidade das frutas com o cultivo nas condições ambientais do Submédio do Vale do São Francisco e garante aos produtores um instrumento comercial importante para competir nos mercados do Brasil e do exterior.
Tabela 1. Evolução da área colhida de manga no Brasil, por região, em hectares, no período de 2004 a 2013.
Região Geográfica
Ano

2004
2005
2006
2007
2008
2009
2010
2011
2012
2013
Norte
1013
965
963
886
815
805
605
672
317
474
Nordeste
42.634
43.792
51.339
52.093
50.840
53.079
51.747
51.712
50.169
51.726
Sudeste
24.529
22.524
21.129
21.826
21.216
20.147
21.744
23.021
21.826
22.920
Sul
790
758
839
778
796
824
747
714
687
690
Centro-Oeste
651
572
512
328
336
323
336
262
311
398
Brasil
69.617
68.191
74.782
75.911
74.003
75.178
75.175
76.381
73.310
76.208
Fonte: IBGE    *Valores Estimados
Tabela 2. Evolução do desempenho produtivo da manga na região do Vale do Submédio São Francisco no período de 2004 a 2013

Ano
Área plantada (ha)
Área em produção (ha)
Volume (t)
2004
18.900
15.700
345.400
2005
19.800
16.500
396.000
2006
21.000
17.000
412.000
2007
23.300
19.400
462.000
2008
25630
21.340
508.200
2009
26.911
22.407
533.610
2010
26.911
22.407
540.000
2011
26.804
23.100
554.400
2012
27.100
23.306
582.650
2013
27.179
23.373
584.325
Fonte: CODEVASF (2014)

Tabela 3. Exportação de manga no Vale do Submédio São Francisco e Brasil (2004-2013).
ANO
Toneladas
US$1.000,00
Submédio do Vale do São Francisco
Brasil
Participação
Submédio do Vale do São Francisco
Brasil
Participação
2004
102.286
111.181
92%
59.189
64.303
92%
2005
104.657
113.758
92%
66.724
72.526
92%
2006
105.410
114.576
92%
78.992
85.861
92%
2007
107.812
116.047
93%
83.281
89.643
93%
2008
117.517
133.724
87%
101.123
118.703
85%
2009
92.628
110.202
84%
77.429
97.388
79%
2010
99.002
124.694
79%
108.238
119.929
90%
2011
105.856
126.430
83%
114.985
140.910
81%
2012
121.334
127.002
96%
123.592
137.589
96%
2013
115.044
122.009
94%
130.665
147.481
89%
Fonte: Secex/Datafruta-IBRAF, apud Valexport (2014).